PRESENTE


Presente é o vento que afaga,
                          O calor de um abraço,
                                           Uma mão que se estende.


Presente é o pacto do momento,
                     A cor de uma emoção,
                                   Um alguém não ausente.


Presente é um brilho no olhar,
                 Um beijo na face,
                 Um impulso contente.


Presente é o agora vivido,
              É o ser e o estar,
                                      Um carinho, simplesmente.



Ari Mascarenhas

Almas Pungentes Suaves

Produto final da oficina literária Arapoty – Proposta: Criar um texto que fale da experiência com a Oficina Literária nos encontros desse ano.





Almas Pungentes Suaves

Nos domingos missionários
Onde diálogo se fez tesouro, Vi...

... as estepes moçambicanas nas crias de Mia
... as trincheiras angolanas no manifesto Pepetela
...a ginga e a esquiva da picardia antoniana em ruas paulistanas
...a infantaria  guineense nas tradições de Helder Proença
...as lívidas poeiras na morna Évora e no canto claridoso

                           Nadei...
... nas lágrimas lusitanas da saudade no Porto – Naú de Ícaro

                  Sorri...
Com a tragicomédia shakespeariana remontada na ariana compadecida


Tudo escrito em tintas mentais
Numa baluma de aço proposta
Por Menard nas ficções de Borges

E vividas na arte regional
Dos itapoetas, de Cássio e de uma Trindade Laica.

“Mais que domingos literários lidos
Sinto hoje uma riqueza  e uma miséria.
Sou rico na experiência desse convívio
E pobre nos domingos do porvir.
Como um órfão em despedida, até o término do ano.

Mas levo no coração as lições destas manhãs...
Frias, ensolaradas, chuvosas e domingas.
Manhãs com amigos nesta irmandade poética que se fez maquete
De nossa mestre  e sonhada utopia.

A literatura é laço
Une e urge versos livres e rimas
Neste invólucro final de nossa oficina.

Manhãs sem rotina
Num compromisso épico de heróis serranos
Da pedra lisa histórica
Almas pungentes nessa poesia.

Ari Mascarenhas - 

Encerramento da Oficina Literária

Caros Amigos

Gostaria de agradecer a todos que participaram e contribuiram com a oficina literária do Instituto Arapoty 2011.
No ultimo domingo, estivemos reunidos na sede do Arapoty para a entrega dos certificados e a cerimônia de encerramento que contou com a apresentação do Arapoturma, dos poetas do Itapoesia e com uma presença marcante da família Arapoty.
Em 2012 vamos preparar uma oficina mais atuante e talvez aos sábados para que todos possam participar.

Agradeço imensamente ao Kaká Werá e a Elaine pelo apoio e por nos conceder o espaço. Mas como não poderia ser diferente, gostaria de fazer um agradecimento especial aos alunos da oficina, com os quais pude contar nas manhãs de domingo desse segundo semestre, independente das condições climáticas ou dos atrativos que um domingo de manhã possa oferecer. Os heróis dos domingos literários:
Antonio Abrantes Gonçalves 
Benedito Deíta 
Cinthia Lopes Duarte 
Francisco Feitosa
Francisco Urcine de Almeida
Josias Patriolino 
Kôguen Gouveia 
Luiz Eduardo Osse 
Robson da Silva Lopes Lopes 
Rone Santiago 
Rita de Cássia Paola de Souza 
Paulo Henrique Inocente


Muito Obrigado e Feliz 2012, meus amigos.

Ari Mascarenhas e Marcio Callegaro no Bate Papo Beneficente Cinezen - que abordará o mercado editorial dia 26/11

Encontro de 26/11, em prol da Casa Vó Benedita, reunirá às 20h, na Ao Café, Ari Mascarenhas, editor do selo de ficção Mirfak, da Algol Editora, e o escritor Márcio Callegaro

Por André Azenha 

Não são poucos os casos. A pessoa quer publicar sua obra, procura uma gráfica, faz mil exemplares, lança o livro, vende alguns e fica com um grande estoque em casa, encalhado. Por outro lado, há as editoras. Muitos escritores não conseguem ver suas obras literárias publicadas e distribuídas profissionalmente por essas empresas. Com o intuito de elucidar questões referentes ao mercado editorial, como proceder junto e o que interessa à editora, que o CineZen realizará, em 26 de novembro, um sábado, às 20h, na Ao Café, o “CineZen Mercado Editorial: necessidades das editoras e autores”. O bate-papo contará com a presença de dois profissionais do segmento: Ari Mascarenhas, editor do selo de ficção Mirfak, da Algol Editora, de São Paulo, e Márcio Callegaro, escritor que lançará em breve seu primeiro romance, “Bala com Bala”, distribuído nacionalmente. Ambos responderão perguntas do público.
O encontro é beneficente: pede-se a gentileza da doação de uma lata de Mucilon ou um quilo de alimento não perecível em prol da Casa Vó Benedita, ou um brinquedo em bom estado para a ação Na Trilha do Noel, da Associação Projeto TAMTAM.
Ao Café (www.aocafe.com.br) fica na Avenida Siqueira Campos, 462, no Boqueirão, esquina do Canal 4 com a Rua Doutor Lobo Viana. Durante o evento, serão sorteados livros e vales-locação da Vídeo Paradiso.
Sobre os debatedores:
Ari e Márcio no lançamento da antologia "Contempoemidade", em São Paulo (Foto: L.AUGUSTO)
Ari Mascarenhas: Graduado em Letras (2007), pós-graduado em Estudos Literários (2010) e com Extensão Universitária pela faculdade de Filosofia, Letras e ciências humanas ( FFLCH-USP) em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa (2010). Autor dos livros “Fruto Vermelho” (2008) e “Contempoemidade: Olhares sobre o espaço que nos cerca” (2011), onde atuou também como organizador da coletânea. Professor de Literatura, atualmente ministra o curso de Literaturas de Língua Portuguesa no Instituto Arapoty, faz parte do grupo de poetas de Itapecerica da Serra (Itapoesia). Atua como membro titular do Grupo de estudos de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa  - FFLCH- USP. É editor do selo de ficção, Mirfak, da Algol Editora desde 2008.
Marcio Callegaro nasceu em São Paulo, re eside em Santos desde 1997.  É estudioso de Teoria da Literatura, transita com facilidade entre diferentes gêneros textuais.  Dramaturgo e romancista, possui premiações em música, teatro, roteiro de HQ, fan fiction, contos fantásticos e literatura infanto-juvenil. Participa da antologia “Contempoemidade — olhares sobre o espaço que nos cerca”, pela Algol Editora, com programação de lançamento de seu romance para novembro deste ano. Contato: mrcallegaro@yahoo.com.br.

André Azenha
: Jornalista, crítico de cinema, editor do www.cinezen.net e do CulturalMente Santista (santoscultural.net). É formado em Roteiro pela Escola de Cinema de São Paulo. Foi repórter e colunista de sites, revistas e jornais de São Paulo, Rio de Janeiro, Recife e Alagoas. Desde 2007 é repórter da Veja Litoral Paulista. Em 2008, publicou seu primeiro livro, “Poesia a Quatro Mãos”, escrito em parceria com sua mãe e poetisa Regina Azenha. Trabalhou com o crítico de cinema Rubens Ewald Filho entre 2008 e 2009. Em 2011, fez críticas de filmes para a revista Época São Paulo. No mesmo ano, passou a assinar colunas semanais no portal do Curta Santos e no Jornal da Orla. Mediou o ciclo Documentários Comentados, no Sesc Santos. Participa de e organiza ciclos de cinema e eventos culturais. Colabora com a revista literária Mirante e o Clube de Poetas do Litoral. Também é assessor de imprensa: atuou em agências de comunicação de São Paulo de 2008 a 2011. Em 2009, assessorou a Feira Música Brasil, maior evento do gênero na América Latina, ocorrido no Recife. Criou o CineZen em março de 2009 e no ano seguinte passou a organizar do “CineZen Convida”, com o objetivo de estimular a discussão e a produção cultural. Em 2011, lançou o site CulturalMente Santista, que visa criar um registro jornalístico, na internet, da memória cultural de Santos e região. Escreve também no blog pessoal www.andreazenha.com. Contato: editor.cinezencultural@gmail.com e 13 9744-3726.
Sobre a Algol: Editora brasileira que mantém como foco editorial o universo da música erudita (exclusiva no país unicamente neste segmento). Foi fundada em 2006 pelo empresário Heraldo Luiz Marin. A pedra inaugural foi a publicação do  livro/CD “Minhas Pobres Canções”, da soprano Niza de Castro Tank, trazendo a integral das canções de Carlos Gomes. Em 2009, ganhou notoriedade dentro do universo erudito nacional ao adquirir os direitos e promover o Prêmio Carlos Gomes, já na sua 15ª edição. Trata-se de um importante evento que reconhece os maiores nomes da cena clássica contemporânea. Em 2011, com o intuito de avançar no mercado de livros de ficção e poesia criou o selo Mirfak.

Serviço:
1CineZen Mercado Editorial: necessidades das editoras e autores
Quando: Sábado, 26 de novembro, 20h
Onde: Ao Café, Avenida Siqueira Campos, 462, Boqueirão, Santos (telefone: 13 3224-5744
Entrada no evento é franca*
*Pede-se um quilo de alimento ou uma lata de Mucilon para a Casa Vó Benedita
.
Organização:
CineZen: Site independente sobre cinema, DVD e Blu-ray, TV e eventualmente literatura, quadrinhos, teatro, música e artes plásticas, lançado em 29 de março de 2009. Tem o objetivo de informar, analisar obras e cobrir eventos dessas áreas (com atenção para a Baixada Santista) e prestar serviços. Semanalmente publica críticas das estreias de cinema e lançamentos em home vídeo, desde filmes contemporâneos até clássicos e cults, colunas, contos, crônicas, reportagens e vídeos, entre outras novidades. Conta com colaboradores de Santos, São Paulo, Santa Catarina, Recife e em 2010 firmou parceria com a Cinemaki, rede social para a discussão de cinema, com membros do Brasil, Argentina, Chile, México, Colômbia, Peru, Venezuela, Espanha, Índia, Estados Unidos e Reino Unido. Atualmente conta com 56 mil acessos únicos mensais. Pode ser acessado pelos endereços www.cinezen.net ou www.cinezencultural.com.br. Contatos: editor.cinezencultural@gmail.com e 13 9744-3726.
Apoio cultural:
Ao Café: Instalada em uma aconchegante casa, rodeada de muito verde, a Cafeteria Ao Café, inaugurada em maio de 2006, se ressalta não só pelo atendimento personalizado, mas principalmente como um local onde se respira cultura. O cardápio possui 20 tipos de café, entre gelados e quentes. Quem preferir um chazinho, a casa possui 33 opções: nacionais e importados, quentes ou gelados. Foi a primeira cafeteria a trazer para a cidade de Santos as famosas sodas italianas. São oito sabores: destacam-se: amora, cereja e maçã-verde. A cafeteria também oferece cervejas long neck Bohemia Pilsen, Bohemia Escura, e a belga Stella Artois, e sorvetes da marca La Basque. Para acompanhar as bebidas a tentação fica por conta dos bolos e salgados. A programação cultural da casa é eclética e pode ser conferida no site www.aocafe.com.br.
Vídeo Paradiso: Locadora que completou 20 anos de atuação em agosto de 2011, possui um acervo com mais de 17 mil títulos, entre DVDs, Blu-rays e fitas VHS. Tem sido parceira e apoiado projetos culturais da região, como da Cinemateca de Santos, Cineclube Lanterna Mágica, Oficinas Querô, cujos curtas são disponibilizados para locação gratuita, Sesc, Curta Santos e o CineZen. Mais em www.videoparadiso.com.br.

27 de Setembro - Sobre o Conceito de História - Walter Benjamim



Hoje, 27 de Setembro 2011 , de acordo com os registros históricos que se adicionam, somente, coforme descreve o autor abaixo, marca o 71º aniversário do suicídio de Walter Benjamim, que entre os Pirineus, na fronteira entre a França e a Espanha, decidiu por dar cabo a sua existência a se entregar nas mãos dos nazistas que, segundo consta, avançavam. 

Decidi por reproduzir esse texto para que possamos refletir um pouco sobre a questão da experiência e do verdadeiro sentido histórico. Das relações com os fatos e a maneira como o historicismo produz a linha de percepção histórica de maneira estritamente discursiva.
Espero que apreciem esse texto o tanto quanto eu.





Sobre o Conceito de História ( 1940) Walter Benjamim







1
Conhecemos a história de um autômato construído de tal modo que podia responder a cada lance de um jogador de xadrez com um contralance, que lhe assegurava a vitória. Um fantoche vestido à turca, com um narguilé na boca, sentava-se diante do tabuleiro, colocado numa grande mesa. Um sistema de espelhos criava a ilusão de que a mesa era totalmente visível, em todos os seus pormenores. Na realidade, um anão corcunda se escondia nela, um mestre no xadrez, que dirigia com cordéis a mão do fantoche. Podemos imaginar uma contrapartida filosófica desse mecanismo. O fantoche chamado “materialismo histórico” ganhará sempre. Ele pode enfrentar qualquer desafio, desde que tome a seu serviço a teologia. Hoje, ela é reconhecidamente pequena e feia e não ousa mostrar-se.
2
“Entre os atributos mais surpreendentes da alma hu-mana”, diz Lotze, “está, ao lado de tanto egoísmo individual, uma ausência geral de inveja de cada presente com relação a seu futuro”. Essa reflexão conduz-nos a pensar que nossa imagem da felicidade é totalmente marcada pela época que nos foi atribuída pelo curso da nossa existência. A felicidade capaz de suscitar nossa inveja está toda, inteira, no ar que já respiramos, nos homens com os quais poderíamos ter conversado, nas mulheres que poderíamos ter possuído. Em outras palavras, a imagem da felicidade está indissoluvelmente ligada à da salvação. O mesmo ocorre com a imagem do passado, que a história transforma em coisa sua. O passado traz consigo um índice misterioso, que o impele à redenção. Pois não somos tocados por um sopro do ar que foi respirado antes? Não existem, nas vozes que escutamos, ecos de vozes que emudeceram? Não têm as mulheres que cortejamos irmãs que elas não chegaram a conhecer? Se assim é, existe um encontro secreto, marcado entre as gerações precedentes e a nossa. Alguém na terra está à nossa espera. Nesse caso, como a cada geração, foi-nos concedida uma frágil força messiânica para a qual o passado dirige um apelo. Esse apelo não pode ser rejeitado impunemente. O materialista histórico sabe disso.
3
O cronista que narra os acontecimentos, sem distinguir entre os grandes e os pequenos, leva em conta a verdade de que nada do que um dia aconteceu pode ser considerado perdido para a história. Sem dúvida, somente a humanidade redimida poderá apropriar-se totalmente do seu passado. Isso quer dizer: somente para a humanidade redimida o passado é citável, em cada um dos seus momentos. Cada momento vivido transforma-se numa citation à l’ordre du jour — e esse dia é justamente o do juízo final.
4
“Lutai primeiro pela alimentação e pelo vestuário,  
e em seguida o reino de Deus virá por si mesmo".  
Hegel, 1807
A luta de classes, que um historiador educado por Marx jamais perde de vista, é uma luta pelas coisas brutas e ma-teriais, sem as quais não existem as refinadas e espirituais. Mas na luta de classes essas coisas espirituais não podem ser representadas como despojos atribuídos ao vencedor. Elas se manifestam nessa luta sob a forma da confiança, da coragem, do humor, da astúcia, da firmeza, e agem de longe, do fundo dos tempos. Elas questionarão sempre cada vitória dos domi-nadores. Assim como as flores dirigem sua corola para o sol, o passado, graças a um misterioso heliotropismo, tenta dirigir-se para o sol que se levanta no céu da história. O materialismo histórico deve ficar atento a essa transformação, a mais imper-ceptível de todas.
5
A verdadeira imagem do passado perpassa, veloz. O pas-sado só se deixa fixar, como imagem que relampeja irrever-sivelmente, no momento em que é reconhecido. “A verdade nunca nos escapará” — essa frase de Gottfried Keller carac-teriza o ponto exato em que o historicismo se separa do mate-rialismo histórico. Pois irrecuperável é cada imagem do presente que se dirige ao presente, sem que esse presente se sinta visado por ela.
6
Articular historicamente o passado não significa conhecê-lo “como ele de fato foi”. Significa apropriar-se de uma remi-niscência, tal como ela relampeja no momento de um perigo. Cabe ao materialismo histórico fixar uma imagem do passado, como ela se apresenta, no momento do perigo, ao sujeito his-tórico, sem que ele tenha consciência disso. O perigo ameaça tanto a existência da tradição como os que a recebem. Para ambos, o perigo é o mesmo: entregar-se às classes dominantes, como seu instrumento. Em cada época, é preciso arrancar a tradição ao conformismo, que quer apoderar-se dela. Pois o Messias não vem apenas como salvador; ele vem também como o vencedor do Anticristo. O dom de despertar no pas-sado as centelhas da esperança é privilégio exclusivo do histo-riador convencido de que também os mortos não estarão em segurança se o inimigo vencer. E esse inimigo não tem cessado de vencer.



7
“Pensa na escuridão e no grande frio   Que reinam nesse vale, onde soam lamentos.” 
Brecht, Ópera dos três vinténs
Fustel de Coulanges recomenda ao historiador interessado em ressuscitar uma época que esqueça tudo o que sabe sobre fases posteriores da história. Impossível caracterizar melhor o método com o qual rompeu o materialismo histórico. Esse método é o da empatia. Sua origem é a inércia do coração, a acedia, que desespera de apropriar-se da verdadeira imagem histórica, em seu relampejar fugaz. Para os teólogos medievais, a acedia era o primeiro fundamento da tris-teza. Flaubert, que a conhecia, escreveu: “Peu de gens devi-neront combien il a fallu être triste pour ressusciter Carthage”. A natureza dessa tristeza se tomará mais clara se nos perguntarmos com quem o investigador historicista estabelece uma relação de empatia. A resposta é inequívoca: com o ven-cedor. Ora, os que num momento dado dominam são os herdeiros de todos os que venceram antes. A empatia com o vencedor beneficia sempre, portanto, esses dominadores. Isso diz tudo para o materialista histórico. Todos os que até hoje venceram participam do cortejo triunfal, em que os dominadores de hoje espezinham os corpos dos que estão prostrados no chão. Os despojos são carregados no cortejo, como de praxe. Esses despojos são o que chamamos bens culturais. O materialista histórico os contempla com distanciamento. Pois todos os bens culturais que ele vê têm uma origem sobre a qual ele não pode refletir sem horror. Devem sua existência não somente ao esforço dos grandes gênios que os criaram, como à corvéia anônima dos seus contemporâneos. Nunca houve um monumento da cultura que não fosse também um monumento da barbárie. E, assim como a cultura não é isenta de barbárie, não o é, tampouco, o processo de transmissão da cultura. Por isso, na medida do possível, o materialista histórico se desvia dela. Considera sua tarefa escovar a história a contrapelo.

8
A tradição dos oprimidos nos ensina que o “estado de exceção” em que vivemos é na verdade a regra geral. Preci-samos construir um conceito de história que corresponda a essa verdade. Nesse momento, perceberemos que nossa tarefa é originar um verdadeiro estado de exceção; com isso, nossa posição ficará mais forte na luta contra o fascismo. Este se beneficia da circunstância de que seus adversários o enfren-tam em nome do progresso, considerado como uma norma histórica. O assombro com o fato de que os episódios que vivemos no séculos XX “ainda” sejam possíveis, não é um assombro filosófico. Ele não gera nenhum conhecimento, a não ser o conhecimento de que a concepção de história da qual emana semelhante assombro é insustentável.

9
“Minhas asas estão prontas para o vôo, Se pudesse, eu retrocederia Pois eu seria menos feliz Se permanecesse imerso no tempo vivo." 
Gerhard Scholem, Saudação do anjo
Há um quadro de Klee que se chama Angelus Novus. Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas. O anjo da história deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivel-mente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos progresso.


10
Os temas que as regras do claustro impunham à medi-tação dos monges tinham como função desviá-los do mundo e das suas pompas. Nossas reflexões partem de uma preocu-pação semelhante. Neste momento, em que os políticos nos quais os adversários do fascismo tinham depositado as suas esperanças jazem por terra e agravam sua derrota com a trai-ção à sua própria causa, temos que arrancar a política das malhas do mundo profano, em que ela havia sido enredado por aqueles traidores. Nosso ponto de partida é a idéia de que a obtusa fé no progresso desses políticos, sua confiança no “apoio das massas” e, finalmente, sua subordinação servil a um aparelho incontrolável são três aspectos da mesma reali-dade. Estas reflexões tentam mostrar como é alto o preço que nossos hábitos mentais têm que pagar quando nos associamos a uma concepção da história que recusa toda cumplicidade com aquela à qual continuam aderindo esses políticos.

11
O conformismo, que sempre esteve em seu elemento na social-democracia, não condiciona apenas suas táticas polí-ticas, mas também suas idéias econômicas. E uma das causas do seu colapso posterior. Nada foi mais corruptor para a clas-se operária alemã que a opinião de que ela nadava com a corrente. O desenvolvimento técnico era visto como o declive da corrente, na qual ela supunha estar nadando. Daí só havia um passo para crer que o trabalho industrial, que aparecia sob os traços do progresso técnico, representava uma grande conquista política. A antiga moral protestante do trabalho, secularizada, festejava uma ressurreição na classe trabalha-dora alemã. O Programa de Gotha já continha elementos dessa confusão. Nele, o trabalho é definido como “a fonte de toda riqueza e de toda civilização”. Pressentindo o pior, Marx replicou que o homem que não possui outra propriedade que a sua força de trabalho está condenado a ser “o escravo de outros homens, que se tornaram... proprietários”. Apesar disso, a confusão continuou a propagar-se, e pouco depois Josef Dietzgen anunciava: “O trabalho é o Redentor dos tempos modernos... No aperfeiçoamento... do trabalho reside a riqueza, que agora pode realizar o que não foi realizado por nenhum salvador”. Esse conceito de trabalho, típico do mar-xismo vulgar, não examina a questão de como seus produtos podem beneficiar trabalhadores que deles não dispõem. Seu interesse se dirige apenas aos progressos na dominação da natureza, e não aos retrocessos na organização da sociedade. Já estão visíveis, nessa concepção, os traços tecnocráticos que mais tarde vão aflorar no fascismo. Entre eles, figura uma concepção da natureza que contrasta sinistramente com as utopias socialistas anteriores a março de 1848. O trabalho, como agora compreendido, visa uma exploração da natureza, comparada, com ingênua complacência, à exploração do pro-letariado. Ao lado dessa concepção positivista, as fantasias de um Fourier, tão ridicularizadas, revelam-se surpreendentemente razoáveis. Segundo Fourier, o trabalho social bem organizado teria entre seus efeitos que quatro luas ilumina-riam a noite, que o gelo se retiraria dos pólos, que a água marinha deixaria de ser salgada e que os animais predatórios entrariam a serviço do homem. Essas fantasias ilustram um tipo de trabalho que, longe de explorar a natureza, libera as criações que dormem, como virtualidades, em seu ventre. Ao conceito corrompido de trabalho corresponde o conceito com-plementar de uma natureza, que segundo Dietzgen, “está ali, grátis”.

12
“Precisamos da história, mas não como precisam dela  os ociosos que passeiam no jardim da ciência.” 
Nietzsche, Vantagens e desvantagens da história para a vida
O sujeito do conhecimento histórico é a própria classe combatente e oprimida. Em Marx, ela aparece como a última classe escravizada, como a classe vingadora que consuma a tarefa de libertação em nome das gerações de derrotados. Essa consciência, reativada durante algum tempo no movimento espartaquista, foi sempre inaceitável para a social-democracia. Em três decênios, ela quase conseguiu extinguir o nome de Blanqui, cujo eco abalara o século passado. Preferiu atribuir à classe operária o papel de salvar gerações futuras. Com isso, ela a privou das suas melhores forças. A classe operária desa-prendeu nessa escola tanto o ódio como o espírito de sacrifício. Porque um e outro se alimentam da imagem dos ante-passados escravizados, e não dos descendentes liberados.

13
“Nossa causa está cada dia mais clara e o povo cada dia mais esclarecido.” 
Josef Dietzgen, Filosofia social-democrata
A teoria e, mais ainda, a prática da social-democracia foram determinadas por um conceito dogmático de progresso sem qualquer vínculo com a realidade. Segundo os social-democratas, o progresso era, em primeiro lugar, um progresso da humanidade em si, e não das suas capacidades e conheci-mentos. Em segundo lugar, era um processo sem limites, idéia correspondente à da perfectibilidade infinita do gênero hu-mano. Em terceiro lugar, era um processo essencialmente automático, percorrendo, irresistível, uma trajetória em fle-cha ou em espiral. Cada um desses atributos é controvertido e poderia ser criticado. Mas, para ser rigorosa, a crítica precisa ir além deles e concentrar-se no que lhes é comum. A idéia de um progresso da humanidade na história é inseparável da idéia de sua marcha no interior de um tempo vazio e homo-gêneo. A crítica da idéia do progresso tem como pressuposto a crítica da idéia dessa marcha.

14
“A Origem é o Alvo.” 
Karl Kraus, Palavras em verso
A história é objeto de uma construção cujo lugar não é o tempo homogêneo e vazio, mas um tempo saturado de “ago-ras”. Assim, a Roma antiga era para Robespierre um passado carregado de “agoras”, que ele fez explodir do continuum da história. A Revolução Francesa se via como uma Roma res-surreta. Ela citava a Roma antiga como a moda cita um ves-tuário antigo. A moda tem um faro para o atual, onde quer que ele esteja na folhagem do antigamente. Ela é um salto de tigre em direção ao passado. Somente, ele se dá numa arena comandada pela classe dominante. O mesmo salto, sob o livre céu da história, é o salto dialético da Revolução, como o con-cebeu Marx.

15
A consciência de fazer explodir o continuum da história é própria às classes revolucionárias no momento da ação. A Grande Revolução introduziu um novo calendário. O dia com o qual começa um novo calendário funciona como um acele-rador histórico. No fundo, é o mesmo dia que retorna sempre sob a forma dos dias feriados, que são os dias da reminiscên-cia. Assim, os calendários não marcam o tempo do mesmo modo que os relógios. Eles são monumentos de uma cons-ciência histórica da qual não parece mais haver na Europa, há cem anos, o mínimo vestígio. A Revolução de julho registrou ainda um incidente em que essa consciência se manifestou. Terminado o primeiro dia de combate, verificou-se que em vários bairros de Paris, independentes uns dos outros e na mesma hora, foram disparados tiros contra os relógios locali-zados nas torres. Uma testemunha ocular, que talvez deva à rima a sua intuição profética, escreveu:
“Qui le croirait! on dit qu’irrités contre l’heure De nouveaux Josués, au pied de chaque tour, 
Tiraient sur les cadrans pour arrêter le jour.”

16
O materialista histórico não pode renunciar ao conceito de um presente que não é transição, mas pára no tempo e se imobiliza. Porque esse conceito define exatamente aquele presente em que ele mesmo escreve a história. O historicista apresenta a imagem “eterna” do passado, o materialista histórico faz desse passado uma experiência única. Ele deixa a outros a tarefa de se esgotar no bordel do historicismo, com a meretriz “era uma vez”. Ele fica senhor das suas forças, suficientemente viril para fazer saltar pelos ares o continuum da história.

17
O historicismo culmina legitimamente na história uni-versal. Em seu método, a historiografia materialista se dis-tancia dela talvez mais radicalmente que de qualquer outra. A história universal não tem qualquer armação teórica. Seu pro-cedimento é aditivo. Ela utiliza a massa dos fatos, para com eles preencher o tempo homogêneo e vazio. Ao contrário, a historiografia marxista tem em sua base um princípio cons-trutivo. Pensar não inclui apenas o movimento das idéias, mas também sua imobilização. Quando o pensamento pára, bruscamente, numa configuração saturada de tensões, ele lhes comunica um choque, através do qual essa configuração se cristaliza enquanto mônada. O materialista histórico só se aproxima de um objeto histórico quando o confronta en-quanto mônada. Nessa estrutura, ele reconhece o sinal de uma imobilização messiânica dos acontecimentos, ou, dito de outro modo, de uma oportunidade revolucionária de lutar por um passado oprimido. Ele aproveita essa oportunidade para extrair uma época determinada do curso homogêneo da his-tória; do mesmo modo, ele extrai da época uma vida deter-minada e, da obra composta durante essa vida, uma obra determinada. Seu método resulta em que na obra o conjunto da obra, no conjunto da obra a época e na época a totalidade do processo histórico são preservados e transcendidos. O fruto nutritivo do que é compreendido historicamente contém em seu interior o tempo, como sementes preciosas, mas insípidas.

18
“Comparados com a história da vida orgânica na Terra”, diz um biólogo contemporâneo, “os míseros 50 000 anos do Homo sapiens representam algo como dois segundos ao fim de um dia de 24 horas, Por essa escala, toda a história da huma-nidade civilizada preencheria um quinto do último segundo da última hora.” O “agora”, que como modelo do messiânico abrevia num resumo incomensurável a história de toda a humanidade, coincide rigorosamente com o lugar ocupado no universo pela história humana. 


Apêndice
1
O historicismo se contenta em estabelecer um nexo cau-sal entre vários momentos da história. Mas nenhum fato, meramente por ser causa, é só por isso um fato histórico. Ele se transforma em fato histórico postumamente, graças a acon-tecimentos que podem estar dele separados por milênios. O historiador consciente disso renuncia a desfiar entre os dedos os acontecimentos, como as contas de um rosário. Ele capta a configuração, em que sua própria época entrou em contato com uma época anterior, perfeitamente determinada. Com isso, ele funda um conceito do presente como um “agora” no qual se infiltraram estilhaços do messiânico.

2
Certamente, os adivinhos que interrogavam o tempo para saber o que ele ocultava em seu seio não o experimentavam nem como vazio nem como homogêneo. Quem tem em mente esse fato, poderá talvez ter uma idéia de como o tempo pas-sado é vivido na rememoração: nem como vazio, nem como homogêneo. Sabe-se que era proibido aos judeus investigar o futuro. Ao contrário, a Torá e a prece se ensinam na reme-moração. Para os discípulos, a rememoração desencantava o futuro, ao qual sucumbiam os que interrogavam os adivinhos. Mas nem por isso o futuro se converteu para os judeus num tempo homogêneo e vazio. Pois nele cada segundo era a porta estreita pela qual podia penetrar o Messias.




Tradução de Sérgio Paulo Rouanet

Ensaio obtido em Walter Benjamin -– Obras escolhidas. Vol. 1. Magia e técnica, arte e política. Ensaios sobre literatura e história da cultura. Prefácio de Jeanne Marie Gagnebin. São Paulo: Brasiliense, 1987, p. 222-232.

Eventos Contempoemios vão agitar leitores de São Roque e São Paulo

Os autores do livro Contempoemidade: olhares sobre o espaço que nos cerca  participaram de dois eventos nos próximos finais de semana, levando ao público um pouco mais de suas experiências poéticas e revelando aspectos da composição e mercado editorial. Confira abaixo os eventos e seus respectivos endereços.



Dia 10/09 - 1º Encontro Literário e Feira de Livros - Presença dos autores de Contempoemidade: Olhares sobre o espaço que nos cerca
Local: Estância Turística de São Roque, na Brasital, avenida Aracaí, dia 10/09
Evento cultural internacional voltada à literatura. A realização é da ACLARE, Academia de Letras de Araçariguama e Região com apoio da Divisão de Cultura e do Departamento de Turismo da Prefeitura de São Roque.
Confira os horários com as palestras dos autores: Ari Mascarenhas - 13h  Gabriela Saraiva Malheiros - 15h  Ewerton Fernandes - 17h Márcio Callegaro -18h


Dia 17/09  "Poesia: do ato criativo ao processo editorial". Encontro e palestras na Unibero com os autores Contempoemios às: 10h.


Local : Auditório Wolfgang Amadeus Mozart - Universidade Íbero-americana ( Uníbero) - Av. Brig. Luis Antônio, 864 Bela Vista - São Paulo - Capital

Ari Mascarenhas / Gabriela Malheiros / Marcio Callegaro e Ewerton Fernandes 
Mediação da professora: Fátima Abatti