Poesia
Ah! Antes de ser escrita,
é sentida,
pensada,
e ....... Tinta.
Numa folha branca,
extinta…...é
elaborada,
sincera,
transparente e vera, Ah!
Poesia
Túlio Demian - 2022

Então, Morpheu
faz uma breve apresentação parcial do que é a Matrix, destacando que
toda a realidade que permeia a vida que Neo conhece é na verdade um espectro
falso, criado para escravizar e aprisionar aqueles que nela vivem. Na sequência
da cena, eis a oferta de libertação. Morpheu oferece, numa clara alusão ao
“livre arbítrio” cristão, a opção de Neo continuar vivendo a ilusão projetada
na Matrix, tomando a pílula azul, ou se libertar e vivenciar a realidade em uma
ótica mais profunda e, portanto, mais real. Para isso, ele precisa tomar a
pílula vermelha. Neo escolhe a segunda opção, mas não sem antes ser alertado
por Morpheu de que essa escolha não tem volta. A cena se encerra com Morpheu
saindo do recinto e, tal como o coelho de Alice, chamando Neo para que o
acompanhasse no universo que estava na iminência de se revelar.

O mundo Moderno, que se instaurou com a queda das nobrezas europeias e a ascensão burguesa no final do século XVIII, foi concebido por intermédio de uma série de pensamentos questionadores que culminaram na compreensão de que a Liberdade e a igualdade eram direitos de todos os seres humanos. Essa série de pensamentos que permeou tanto campos filosóficos, religiosos e até artísticos foi denominada de Iluminismo.

O pensamento iluminista sempre valorizou a
expressão artística como forma de compreender a realidade e discuti-la.
Contudo, os poderes concentrados nas novas elites fizeram com que o projeto de
“mundo moderno” se tornasse, ainda no século XIX obsoleto e cruel com a maior
parte da população europeia. Enfim, vieram os avanços científicos e com eles
novas perspectivas do pensamento humano se desenvolveram. A arte, cuja natureza
principal é o questionamento, também rompeu com as amarras românticas, idealizadas,
e propôs, para além do culto à forma, um espaço de reflexão, de questionamento,
ou ainda de libertação.
Esses movimentos artísticos foram denominados
de “Vanguardas” e sua consolidação no início no século XX, sobretudo ao usurpar
as formas literárias já tradicionais ( o romance e a lírica) formatou a escola
moderna. Contudo, para compreender uma obra moderna, com seus questionamentos,
com suas inquietações, com suas propostas revolucionárias, com suas estéticas,
com suas releituras históricas e principalmente com sua libertação das amarras
de modelos já consolidados e opressores, é necessário tomar a pílula vermelha.
A pílula vermelha é aquela que te liberta da
alienação, que te permite reconhecer o rompimento das expressões e reforçam os
elementos das impressões( Expressionismo). É aquela que te permite filtrar as
propostas do futuro de forma a afastar toda e qualquer possibilidade de retorno
aos modelos totalitários e opressores (futurismo). É aquela que propõe um olhar
artístico até onde não se tem arte ( no amor, ou no elevador) reconhecendo que
o artístico está na inutilidade primitiva do objeto (dadaísmo).Ou ainda, na
melhor parte dela, é o rompimento total da censura da forma permitindo que sua
mente e seu corpo naveguem livremente por todos as dimensões da realidade
(surrealismo).
Enfim, a pílula vermelha não tem volta, porque
uma vez libertado da alienação social, política, consumista, individualista e
formal, não há mais volta. O indivíduo jamais se deixará aprisionar sem
cogitar, em algum momento, a possibilidade de se rebelar.
O modernismo é o movimento cultural que envolve
todas essas premissas e, consequentemente, reestrutura o pensamento literário
fazendo com a arte sirva a um propósito cada vez mais claro e libertador:
QUESTIONE! Pois assim, seguindo sempre o coelho da curiosidade e da
inquietação, você poderá alcançar sempre o novo, e ser o seu próprio NEO!
Conferência na Biblioteca-Geral da Universidade de Coimbra, associada à temporada no Teatro da Cerca de São Bernardo do espectáculo "Embarcação do Inferno", de Gil Vicente (co-produção A Escola da Noite / Cendrev) - Intervenção de José Augusto Cardoso Bernardes, professor da Universidade de Coimbra. 17/11/2016, 18h00
Você tem orgulho de ser BRASILEIRO? Se sim, sugiro que leia esse texto e talvez descubra que está fazendo algo errado contra si mesmo.
Em tempos em que modelos tão ultrapassados de ufanismo retornam ao nosso cotidiano, com pessoas diariamente defendendo as cores patrióticas, os símbolos nacionais e até o velho hino — que agora é cantado (ou tentam cantar) com as duas partes nos eventos esportivos, onde a obrigatoriedade da execução do hino se contradiz com a letra que diz “em teu seio, ó liberdade, desafia o nosso peito à própria morte” (liberdade e lei que pune com multa de até 100 mil reais parece não ornar), alguns termos me chamam a atenção. Mas deixemos os símbolos de lado, até porque essa é uma seara que nos levaria longe para entendermos como a camisa do time da CBF (Uma das instituições mais corruptas da história do Brasil) pode ser usada como insígnia de patriotismo e de luta contra a corrupção? Quero abordar aqui algo que independe de sua escolha ideológica ou inclinação política, trata-se da adoção de um termo que reproduz uma imagem muito negativa, de nós mesmos, e quase nunca questionamos sobre o uso dele: O gentílico “brasileiro”.
Segundo Maurice Halbwachs (2010), as estruturas linguísticas configuram discursos que atuam diretamente na formatação de uma sociedade. Ou seja, as palavras e seus respectivos conceitos, com ou não variações, agregam em si enormes cargas discursivas que nos condicionam à reprodução de conceitos e valores em nossas relações. No entanto, a reprodução, de acordo Durkheim (2013), é quase sempre destituída de reflexão crítica, disseminando assim padrões, juízos, convicções e princípios que não foram criados pelos usuários do termo, mas pelos antigos dominantes. E o pior, na maioria das vezes a reprodução acrítica de determinadas sentenças impacta negativamente contra os próprios proclamadores. Se você não é da área de humanas, talvez esses conceitos possam lhe parecer muito abstratos, mas fique tranquilo, a seguir vou mostrar um caso prático (que é o tema deste texto) para compreendermos de maneira mais clara o que é a “morfologia social”.
Você sabia que o gentílico “brasileiro” foi, até o começo do século XX, um termo pejorativo atribuído aos portugueses que exploraram a antiga colônia e voltavam para Portugal ricos, mas destituídos de cultura? Ou seja, eram considerados chulos e, apesar de ricos, não mereciam respeito da elite portuguesa. São inúmeras as citações de personagens “brasileiras “na literatura portuguesa, desde Padre Antonio Vieira à Eça de Queirós. O brasileiro como figura literária era quase sempre um bufão e carregava em si duas contradições, a imagem do progresso financeiro e o retrocesso à selvageria, comum naqueles que não convivem com os hábitos modernos e civilizados da sociedade oitocentista europeia. Portanto, brasileiro é uma figura mitificada no imaginário popular cujas posses não obscurecem a sua conduta reprovável, seu caráter duvidoso e sua completa ausência de sofisticação.
Agora pensem em uma rima para a palavra brasileiro? O que apareceu: Pedreiro, padeiro, fuzileiro, barbeiro… entre outras, não foi? Observem que essas palavras têm algo em comum: São profissões. Ou seja, estão diretamente associadas à função exercida por alguém. Logo, brasileiro é, literalmente, aquele que vive da extração do pau-brasil. Ou aquele que enriquece do trabalho no Brasil, conforme readequou-se no léxico português do século XIX, segundo Machado (2003).
O sufixo “eiro” ou “eira” (cabeleireira, costureira etc.) são exclusivamente utilizados, em língua portuguesa, para indicar a profissão exercida pelo indivíduo.
Agora, diga a si mesmo se você conhece algum país no mundo em que o adjetivo gentílico, aquele que identifica o povo, suas respectivas culturas e tradições possuí o termo referencial dessa identificação diretamente atrelado a uma função laboral? Pode pensar à vontade. Você dificilmente irá encontrar.
Dessa forma, quando nos identificamos como “brasileiros” reforçamos o estereótipo do homem trabalhador, honesto e confiável? NÃO!!! Lembre-se que quem criou o termo foram os portugueses e brasileiro é só alguém que pratica algo manual, ganha mais do que eles (possivelmente) e não possuí nenhuma cultura que mereça a atenção. Aliás, não possui cultura nenhuma. Brasileiro é talvez um emergente, mas um certo ignorante.
Não estou dizendo que é assim que os portugueses e o mundo nos veem atualmente, mas é assim que nos apresentamos e entoamos o tal orgulho de “Ser brasileiro”. Junto com o antiquíssimo modelo idealizante de uma nação unificada, uniforme e cristã, alimentado pelo ufanismo (que por si só já nos carimba como ignorantes), a palavra brasileiro não identifica a pluralidade cultural, religiosa e linguística que nos configura, mas sim nos recoloca às posições servis à coroa portuguesa, do século XIX. Como não existe mais monarquia em Portugal e com a consolidação do domínio das corporações cujas matrizes estão sediadas nas potências desenvolvidas, então o termo serve para nos lembrar que os reis mudaram, mas os servos jamais mudarão.
O termo correto, em língua portuguesa, que atribui o sentido de natividade, de origem, ou de características é formatado pelo sufixo “ano” (moçambicano), “ão” (alemão), “ense” (paranaense), “ês” (japonês) e “eu” (europeu). Dessa forma, correto estão os italianos, que desde sempre nos identificaram como “brasilianos”. Portanto, faça o bem para a nossa língua portuguesa, de hoje em diante afirme-se, defenda, ensine o seu espírito patriota a ser “brasiliano”, pois “brasileiro” em nada ajuda a sua imagem e ainda contribui para reforçar esteriótipos preconceituosos que não raro surgem nas relações dos tupiniquins com os “desenvolvidos”.
Mas se ainda não está convencido em adotar o termo “brasiliano”, pois se sente apegado ao “brasileiro” como uma ferrugem se apega a uma barra de aço, tenho mais um argumento associado ao termo. Se você é patriota e defende a cultura e os valores do nosso país, não ajude a atrelar nossa identidade às funções laborais que ajudaram a extinguir o nosso maior símbolo nacional. Símbolo esse que não foi criado por nenhuma campanha política e tampouco por instituições de caráter duvidoso, foi confeccionado pela natureza que assim como ele é tão mal tratada por nós: O pau-brasil.
Agora se você é daquele que faz continência, exalta e carrega a bandeira americana em suas manifestações públicas, se você defende a inserção no calendário nacional de feriado para o dia 4 de julho, e usa o lema “Make Brazil Great Again” como clara demonstração do seu nacionalismo brasileiro, o que eu posso lhe dizer é que você está muito certo. Parabéns! De fato, essas são ações de quem se vê como “brasileiro” — rude, servil e ignorante. O seu desrespeito por você mesmo é tão grande que você é incapaz de perceber que até o norte-americano, a quem tanto você se inclina e se oferece, te chama de “brasiliano”, já que brazilian, observe o sufixo, nada tem a ver com profissão.
Essa discussão nada tem a ver com xenofobia, até porque no Brasil é comum a xenofobia contra imigrantes africanos, latinos e até orientais; mas, nosso espírito servil nunca nos deixou trair nosso compromisso com os antigos senhores dessas terras e seus herdeiros vitalícios.
Portanto, tenha mais amor por si mesmo. Respeite a diversidade da sua pátria e a natureza de seus filhos que aqui nasceram e que morreram brasilianos.
Ari Silva Mascarenhas de Campos*
Coimbra, 01 de setembro de 2020.
*Professor, escritor, poeta e ensaista brasileiro. Investigador ativo das literaturas contemporâneas. Doutorando da Universidade de Coimbra.
Referências bibliográficas
DURKHEIM, Émile. The Rules of Sociological Method:And Selected Texts On Sociology And Its Method. Londres: Macmillian education U.K., 2013.
HALBWACHS, Maurice. Morfologia Social. Lisboa: Edições 70, 2010.
MACHADO, José P. Dicionário etimológico da língua portuguesa. Volume 1. Porto: Livros Horizonte, 2003.
À mulher mais importante de minha vida.
Mãe, acho que a senhora já sabe o quanto eu escrevi nessa vida. Sabe que publiquei livros, artigos acadêmicos, posfácios, prefácios, artigos de jornal, manifestos, declarações, inventários e inúmeros documentos.
Sabe que escrevi poesias, de amor, de saudade, de felicidade. Poesias de protesto, poesias de resignação, de alegrias, de decepção, poesia religiosa, poesia pagã. Poesias para muitos amigos, para os meus irmãos, para desconhecidos, para muitas mulheres.
Sabe que escrevi cinco livros só com poesias. Algumas boas, outras nem tanto, algumas inspiradas, outras só para cumprir páginas, e outras ainda piores que me foram encomendadas.
Sabe que eu escrevi diários, desde quando tinha oito anos. Aliás, ainda os escrevo, claro que hoje com menos intensidade que os meus impulsos adolescentes pediam na minha juventude. Escrevi jornais, na escola. Escrevi inúmeras provas, trabalhos, resenhas, resumos, dissertações, explicações, felicitações... Escrevi muitas histórias. Contos, romances, escrevi desenlaces que na vida real jamais resolvi... Quantas canções.
Foram tantos os motivos que me fizeram e ainda me
fazem escrever que nem sei dizer o que é
realmente importante e o que não é, na hora de decidir se deixo ou não escrito.
Mas sempre escrevi para as pessoas que me importavam.
Então, a escola em que trabalho atualmente, decidiu que faria um trabalho para o dia das mães e a coordenadora, para quem eu já escrevi muitas mensagens, me pediu que eu orientasse os meus alunos nessa atividade. Bem, passei alguns dias pensando em algum texto motivador para apresentar a eles, como exemplo do que se pode escrever para uma mãe.
Foi aí que eu me dei conta do erro que cometi, sem nunca ter percebido.
Escrevi a vida inteira, para tanta gente com quem
me importei, para tantas namoradas que nunca mais me olharam, para tantos
amigos que já me abandonaram há tanto tempo, para tantos alunos que já se
formaram, para tantas línguas que não ouço mais, para tantos ouvidos que se
fecharam...Mas para a única pessoa que nunca me abandonou eu jamais escrevi uma
única linha. Exceto aquele “amor” que costurei no coração de algodão produzido
no trabalho da minha terceira série. Coração esse que eu sei que a senhora
ainda guarda, na sua velha caixinha de costura, e que toda vez que espeta uma
agulha lê a única palavra que deixei registrada para ti.
Por isso, minha amada e querida mãe, hoje escrevo
para dizer que essa será a primeira de muitas cartas que lhe enviarei, porque
ninguém nessa vida merece, para mim,
mais palavras de amor, de carinho e de eterna gratidão quanto a senhora.
Por isso encerro esse pequeno relato com alguns
curtos versos que teci exclusivamente para ti.
De ti, são doces as lembranças
De ti, vem a força que me apoio
De ti, vem a certa esperança
Se me movo, se me deito,
Se me ergo, se caminho,
Se existo, se logo penso,
É por ti, por teu carinho.
Mãe, termo que entristece o poeta,
por ser a única palavra que não rima,
Mas até nisso, fez-me na vida feliz
Já que a posso substituir por Malvina.
Perdoe-me, por tanto demorar
A oferecer homenagem nesses versos.
Agora, como primeiro ato registrado
Meu amor e meus sentimentos eternos.
À você rainha, minha ode se amplia
E faço da vida à ti honrarias altivas
Seguindo os ensinamentos que me dera
Em suas horas humanas e divinas.
Feliz dia das mães.
De seu filho que tanto te ama,
Ari Mascarenhas
Conhecer a origem das palavras, nos permite compreender como o seu desenvolvimento foi lhe ofertando novos significados e, assim, podemos mensurar o quanto o uso dela na atualidade e afastou do sentido original, tornando-se às vezes antagônica ao senso formador do termo. Assim, vejamos nesse breve texto como as palavras “Trabalho” e “Sacrifício” atendem hoje a sentidos um tanto quanto disparatados de suas raízes.
A palavra TRABALHO está localizada como derivação do verbo trabalhar, registrando-se no latim vulgar tripaliāre, interpretado como torturar, tendo raiz no latim tardio tripalium, em referência a um artefato de tortura usado pelos antigos romanos para castigar os réus ou condenados.
O tripalium era um instrumento feito de três paus (tri = três e palium = palito). Neste aparelho de tortura, o criminoso era amarrado e depois submetido a chicoteamento. Não é de estranhar que, com o passar do tempo, a denominação tripalium do latim vulgar passasse a se chamar fadiga, sofrimento ou penalidade (esta denominação estava associada normalmente às atividades realizadas no campo e no regime de escravidão).
Ao conhecer a etimologia de algumas palavras é produzido um efeito iluminador, já que a análise do termo permite compreender sua valorização ao longo da história. No caso da palavra trabalho, a mesma se refere à atividade transformadora que determina o rumo da humanidade.
Na cultura greco-latina, a atividade trabalhista teve pouco reconhecimento social, pois o trabalho manual era considerado algo indigno e associado à condição de escravo. Se tomarmos como referência a mentalidade grega, um indivíduo que recebia salário de outro não podia ser considerado uma pessoa livre e, consequentemente, sua forma de vida não era estimulante (na pólis de Atenas, o trabalho manual e de pequenos comerciantes eram especialmente depreciados, porém a atividade artística gozava de prestígio e reconhecimento).
Na civilização romana, mantinha-se o desprezo às atividades produtivas mais rudimentares, uma vez que a vida plena estava focada no lazer, na arte e na filosofia. Por outro lado, o termo negócio tinha um significado depreciativo que, na verdade, etimologicamente significa "negação do lazer" (negotium).
Na visão judaico-cristã encontramos em Gênesis 3: 19 a interpretação cristã da ideia de trabalho. Textualmente quer dizer o seguinte: "Ganharás o pão com o suor da sua testa". Este versículo do Antigo Testamento é a consequência lógica da desobediência de Adão e Eva no Paraíso. Assim, a mulher foi castigada para dar à luz com dor e o homem foi obrigado a ganhar a vida com sofrimento.
Para muitos o trabalho continuou sendo uma tortura
A atividade de trabalho ideal é aquela que cumpre duas condições básicas: ser bem remunerada e eminentemente vocacional.
Embora este ideal se concretize em alguns casos, para grande parte da população o trabalho é entendido como um suplício, ou seja, uma espécie de tortura que é tolerada por não haver outra alternativa.
Poucos entendem o trabalho como sacrifício, e isso não é positivo, do ponto de vista etimológico.
Até porque a palavra “sacrifício” é a justaposição de “sacro- ofício”, ou trabalho sagrado. A própria ideia de um trabalho sagrado pode gerar no indivíduo um senso de recompensa que suplantaria a ideia de remuneração. Quero dizer, fazer o sacrifício pode ser mais recompensador ao sacrificado do que o trabalho ao trabalhador.
Ainda que novos sentidos sejam atribuídos às palavras no transcorrer dos tempos, entender a razão de sua formação ajuda a resgatar a força semântica de sua criação e, consequentemente, nos permite refletir sobre o uso de tais termos. Se considerarmos apenas a etimologia das palavras, um “sacrifício” é bem mais motivador que um “trabalho”, e reconhecê-lo como tal não é desonra e tampouco motivo de lamentação, mas sim de orgulho por poder servir com sua força produtora à divindade, independente de qual seja ela.
Nesse programa vamos resenhar um antigo conto de Marcel Proust intitulado Violante ou a mundaneidade.
Evidente que alguns textos ficaram de fora, como em toda lista, mas creio que os títulos abaixo dão conta de um recorte temporal, temático e estético essencial para que se possa compreender a literatura universal. Outro ponto a destacar é que a maioria das obras são em Língua Portuguesa. Não poderia ser diferente, afinal conhecer a base da literatura de nossa língua, independente do país, é o primeiro passo para que alcemos outros horizontes.
Podcast Piloto #1 O homem que amava os cachorros
Os dejetos
humanos são insuflados nas figuras de suas divindades. A perfeição utópica do
espírito dos homens não ecoa na configuração daquilo que lhe é supremo,
absoluto, onipresente. Esta obra revela, de maneira chocante- por aquebrantar
as cápsulas humanas de autoproteção e egocentrismo- o que existe de pior em um deus comprometido
com os valores mundanos de sua própria configuração. Não se poderia esperar uma
confecção mais humana de um Messias sem
a aproximação daquele que lhe enviou. Cito, para facilitar a comparação, os
inúmeros semideuses mitológicos que serviam aos anseios, desejos e vícios de
seus criadores. Esses deuses eram puras alegorias de sentimentos humanos que flanavam
entre a nobreza do amor e a grotesca inveja. Deuses que brincavam com os
humanos e, vez ou outra, infiltravam entre estes suas marionetes veladas. Jesus
é uma marionete de um ser tirano e assustadoramente autoritário, capaz de
destruir toda a humanidade apenas para atender aos desejos mais mesquinhos e
doentios que uma mente humana poderia criar. Nesse grande jogo de insinuações,
blefes, traições e muitas humilhações existem dois polos insofríveis por se
pautarem em mecanismos bem distintos: de um lado a completa ignorância, sempre
salvadora e ingênua, e do outro, o mais completo autoritarismo, intransigente,
característico de um humor sofrível que se pauta na tragédia alheia.