Homem que amava os cachorros - bom, sem Réquiem.

O livro descreve, em detalhes, três perspectivas interessantes sobre a barbárie stalinista e a adesão dos "comunistas" ingênuos que defenderam o czar vermelho até o fim. A perspectiva de Trotsky, da resistência e da luta pelo ideal socialista-marxista não contaminado pela ambição do ditador do Kremlin; a perspectiva de Ramon Mercader, alienado pela ambição de se tornar um grande herói do regime soviético, contrariando sua própria natureza comunista que o enraivecia com o abandono da URSS para com sua famigerada Espanha; e, por fim, a de Ivan, narrador cubano, que faz uma leitura crítica dos desmandos de Stálin e da aproximação, no modus operandis, do ditador soviético com o nazismo alemão. Um livro que vale muito a pena pelo olhar histórico, pela narrativa muito bem construída; mas, principalmente, pelo senso crítico que o romance instiga em seus leitores a cada capítulo. Uma história onde a verdade é clara: A
revolução da classe operária chega ao fim com a morte de Lênin, na URSS.
No geral a obra atende ao propósito de revisitar a história, de forma romanciada, sob diversos olhares; no entanto, o último capítulo, intitulado Réquiem, pareceu-me bastante desnecessário, já que ele desconstrói a importância histórica dos fatos decorridos e supõe que a não existência da prática socialista poderia ter evitado os transtornos oriundos dos desvios. Nesse sentido, Daniel (o personagem) não reconhece a vitalidade da revisitação histórica de aprendizado, e valoriza uma fictícia crença de que o mundo, talvez, seria melhor sem o que ele chama de tragédia dialética. Como se fosse simples, confortável e mais humano a barbárie capitalista, não abordada no livro, por questões óbvias, mas esquecida na penumbra de um olhar parcial que discursa na missa de sepultamento do socialismo. Sem ele, essa conclusão ficaria a cargo do leitor que, a meu ver, teria mais liberdade para escolher. Assim, o capítulo Réquiem é extremamente panfletário e, por sua natureza, desnecessário a uma obra tão interessante quanto provocadora. 

Seja Marginal, seja herói. ( uma homenagem ao Chacal)

Seja Marginal, seja herói
bem cantou Chacal
pra mim e pra nóis
o mito da letra imoral,

sobre a força do pavor
que assombra o sistema
o meu canto é encanto
que ameniza o problema

sofro calmo nos versos
calmo canto nas trevas
de jaqueta no vale das letras
de manso, chega, grita e leva.

meu poema não é só discurso
que bate e ecoa no coração
é  recado de humildade em curso
pra toca na alma de cada irmão.

Sou daqui da sul,
sou de qualquer lugar
onde houver oprimido
instalarei meu lar,

porque sou o arauto da miséria
não por opção,
mas por ver tantas idas e vindas
sem resolução.

escrevo com o impulso do pensamento
descrevendo as mazelas do meu sentimento
nesses tempo em que cada um diz o que pensa
minhas palavras vão soar como ofensa

mas não se intimide diante da realidade
minha verborragia emana verdade.
o projeto aqui é pra conscientizar, não é pra rir

mas se sentir vontade, pode aplaudir.

Ari Mascarenhas ( 08/2014)

UM TUCANO

Numa alvorada incerta,
um tucano de asas claras
riscou meu amanhecer.

Levantei-me apressado e furioso
com a ave que agredia meus sonhos;
solavancos sonoros dispersos.

Quando cheguei ao quintal,
deparei-me com um gemido
solene e sombrio.

Uma alma empenada,
de bico baixo e curvado,
pousara em meu varal.

Depois do breve susto,
e de recompor  a firmeza
de minhas pernas vacilantes,
achei que o ouvi soltar
cantigas de povos distantes;
de almas antigas.

Com o abrir do grande bico
entoava um lirismo familiar.
Uma súplica de meu íntimo,
vozes humanas de uma Itapecerica,
que eu, filho da terra, desconhecia.

Vozes de avós.

Reparei em seu olhar de escanteio,
refletindo um brilho glorioso,
pelo sucesso em me acordar.

“Maldita galinha preta e bicuda!”
Esbravejei acompanhado de algo qualquer
que lancei em sua direção.

Esquivou-se de minha cólera,
Com certa tristeza expressa,
fitou-me brevemente,
abriu uma grande capa
e lançou-se ao vento,
para longe de meu olhar atônito.

Anos depois compreendi
aquela visita matinal.
Eram tempos em que uma mata viva
enviava mensageiros nas
molduras de minhas manhãs.

Ele veio se despedir
e junto foi embora também
o mata borrão verde
que via de minha janela.

Para onde foram?
Não sei, mas creio que à praia.
Já que em seu lugar,
nasceu uma enorme anaconda
de concreto e asfalto.

Ari Mascarenhas

Um apólogo - Um brevíssimo olhar

Um apólogo - Machado de Assis ( clique nesse título para ouvir o conto)


O autor, ao narrar uma contenda entre uma linha e uma agulha ( clique no título para ouvir o conto), reforça as relações entre classes cosidas no pano da realidade. O esforço da agulha, que a seu ver não é reconhecido como esperara, é responsável pelo sucesso da linha. A matriz de forças que se estabelece na discussão apresentada no texto, desvela objetivos individuais responsável pelo afastamento de uma luta unida e focada no interesse comum. Pode-se perceber esse distanciamento no nas opiniões das personagens que, por sua vez, encontram ecos nos discursos superficiais e inférteis que justificam o prazer como sinônimo de sucesso. E para aquele que não encontra seu lugar nos “espaços” nobres, como convinha desejar a nova classe dominante, está fadado ao fracasso. Ainda que o conceito de fracasso seja meramente uma exclusão por forças de modismos e valorização de superficialidades, como por exemplo, um baile de luxo.

A agulha, soberba no início, sucumbe em sua condição natural e, ainda como forma de punição, ouve o discurso moralizante do alfinete.
A moral da história, retratada no fim do conto, dá-se pela constatação de que a união das classes, ou a ausência delas (as classes), revelaria uma força cooperativa tão, ou mais, eficiente que o modelo exploratório existente; e que a harmonia entre as diferenças é a única forma de encontrarmos no equilíbrio do trabalho a libertação dos seres, “bailando num belo rodado de um vestido de baile”. Ou seja, apenas essa harmonização, ainda que utópica, pode nos oferecer motivos verdadeiros para que possamos nos orgulhar.
Um mundo onde o meu sucesso seja fruto do sucesso alheio. Onde a sociedade possa brilhar tão forte que ninguém se preocupará em iluminar obscuridades existenciais com seu pequeno e inócuo feixe de luz. 

Soneto do credo amoroso

Era para se crer no amor real,
se real fosse não carecia de crer.
Um amor que não se viva por igual,
do pôr-do-sol ao rubro amanhecer.

No amor que se esvai na juventude,
ou que não se fortifica na convivência.
Naquele “na doença e na saúde”,
ou na pura paixão e na indecência.


Crer no amor que se vive,
ou recordar do “bom” que se viveu,
é a lufada de ar fresco que tive.

Pois ao sonhador que não se perdeu,
ou quem nada em seu peito reprime,
o Amor é o encanto que o medo venceu.

Violeta Pandolfi

Soneto de Aproximação

Em um sítio de constante lavor,
onde forma a opressão operária,
desce, incandescente, o lívido amor!
Feixe leve, que sob a brisa se espalha.

Iluminado, envolvido, agora fico,
e pouco vejo, além de seu olhar.
Nas dependências físicas onde existo,
sinto meu corpo, levemente, levitar.

E, com calma, posto-me de aproximado.
Ante o espanto que me deixara alerta,
dirijo-me à musa com desejo e cuidado.

Precavi-me, não convencido de decisão certa
Mais por medo de por ti ser machucado
Por seu envolto perfume e encanto de Roberta.


Ari Mascarenhas

NÓS MATÁMOS O CÃO TINHOSO

Conto de  LUÍS BERNARDO HONWANA

O Cão-Tinhoso tinha uns olhos azuis... 

O Cão-Tinhoso tinha uns olhos azuis que não tinham brilho nenhum, mas eram enormes e estavam sempre cheios de lágrimas, que lhe escorriam pelo focinho. Metiam medo aqueles olhos, assim tão grandes, a olhar como uma pessoa a pedir qualquer coisa sem querer dizer. 

Eu via todos os dias o Cão-Tinhoso a andar pela sombra do muro em volta do pátio da Escola, a ir para o canto das camas de poeira das galinhas do Senhor Professor. As galinhas nem fugiam, porque ele não se metia com elas, sempre a andar devagar, à procura de uma cama de poeira que não estivesse ocupada. 

O Cão-Tinhoso passava o tempo todo a dormir, mas às vezes andava, e então eu gostava de o ver, com os ossos todos à mostra no corpo magro. Eu nunca via o Cão-Tinhoso a correr e nem sei mesmo se ele era capaz disso, porque andava todo a tremer, mesmo sem haver frio, fazendo balanço com a cabeça, como os bois e dando uns passos tão malucos que parecia uma carroça velha. Houve um dia que ele ficou o tempo todo no portão da Escola a ver os outros cães a brincar no capim do outro lado da estrada, a correr, a correr, e a cheirar debaixo do rabo uns aos outros. Nesse dia o Cão-Tinhoso tremia mais do que nunca, mas foi a única vez que o vi com a cabeça levantada, o rabo direito e longe das pernas e as orelhas espetadas de curiosidade. Os outros cães às vezes deixavam de brincar e ficavam a olhar para o Cão-Tinhoso. Depois zangavam-se e punham- se a ladrar, mas como ele não dissesse nada e só ficasse para ali a olhar, viravam-lhe as costas e voltavam a cheirar debaixo do rabo uns aos outros e a correr. Duma dessas vezes, o Cão-Tinhoso começou a chiar com a boca fechada e avançou para os outros quase que a correr, mas com a cabeça muito direita e as orelhas mais espetadas do que nunca. Quando os outros se viraram para ver o que ele queria, teve medo e parou no meio da estrada. Os outros cães ficaram um bocado a pensar no que haviam de fazer por ele estar a olhar para eles daquela  maneira. E que o Cão-Tinhoso queria ir meter-se com eles. Depois o cão do Senhor Sousa, o Bobí, disse qualquer coisa aos outros e avançou devagar até onde estava o Cão- Tinhoso. O Cão-Tinhoso fingiu não ver e nem se mexeu mando o Bobí lhe foi cheirar o rabo: olhava sempre em frente. O Bobí, depois de ficar uma data de tempo a andar em volta do Cão-Tinhoso, foi a correr e disse qualquer coisa aos outros — o Leão, o Lobo, o Mike, o Simbi, a Mimosa e o Luiu — e puseram-se todos a ladrar muito zangados para o Cão-Tinhoso. O Cão-Tinhoso não respondia, sempre muito direito, mas eles zangaram-se e avançaram para ele a ladrar cada vez mais de alto. Foi então que ele recuou com medo, e voltando-lhes as costas, veio para a Escola, com o rabo todo enfiado. Quando passou por mim ouvi-o a chiar com a boca fechada e vi-lhe os olhos azuis, cheios de lágrimas e tão grandes a olhar como uma pessoa a pedir qualquer coisa sem querer dizer. Mas ele nem olhou para mim e foi pela sombra do pátio da Escola, sempre com a cabeça a fazer balanço como os bois e a andar como uma carroça velha, para o canto das camas de poeira das galinhas do Senhor Professor. Os outros cães ainda ficaram um bocado a ladrar para o portão da Escola, todos zangados, mas voltaram para o capim do outro lado da estrada para continuar a correr, a rebolar, a fingir que se mordiam uns aos outros, a correr, a correr e a cheirar debaixo do rabo uns dos outros. 

De vez em quando o Bobí olhava para o portão da Escola e, lembrando-se do Cão-Tinhoso, punha-se a ladrar outra vez. Os outros, ao ouvi-lo, deixavam de brincar e punham-se também a ladrar, muito zangados, para o portão da Escola. O Cão-Tinhoso tinha a pele velha, cheia de pêlos brancos cicatrizes e muitas feridas. Ninguém gostava dele porque era um cão feio. Tinha sempre muitas moscas a comer-lhe as crostas das feridas e quando andava, as moscas iam com ele a voar em volta e a pousar nas crostas das feridas. Ninguém gostava de lhe passar a mão pelas costas como aos outros cães. Bem, a Isaura era a única que fazia isso. O Quim disse-me um dia que o Cão-Tinhoso era muito velho, mas que quando ainda era novo devia ter sido um cão com o pelo a brilhar como o do Mike. O Quim disse-me também que as feridas do Cão-Tinhoso eram por causa da guerra e da bomba atómica, mas isso é capaz de ser pêta.  O Quim diz muitas coisas que a gente nem pensa que podem não ser verdadeiras, porque quando ele as conta a gente fica tudo de boca aberta. A malta gosta de ouvir o Quim a contar coisas de outras terras e os filmes que vai ver lá em Lourenço Marques, no Scala, e as coisas do El Índio Apache a jogar luta-livre e a fazer tourada, e aquilo que El Índio Apache fez ao Zé Luís no Continental. O Quim diz que El Índio Apache só não vai ao focinho ao Zé Luís porque não quer. O Quim disse-me isso de o Cão-Tinhoso ser muito velho quando um dia o vimos a bocejar sem dentes na boca. Foi nesse dia que me contou a história da bomba atómica com os japoneses pequeninos a morrer todos que era uma beleza e o Cão-Tinhoso a fugir depois de ela rebentar e a correr uma distância monstra para não morrer. O Quim não me contou a história toda logo de uma vez e disse que só a acabava se eu me portasse bem lá dentro, na prova. Eu passei-lhe quase toda a prova mas a Senhora Professora topou e deu-lhe 8 reguadas no rabo. Quando saímos eu não lhe pedi para acabar a história da bomba atómica porque ele era capaz de se lembrar do que a Senhora Professora lhe tinha feito lá dentro e zangar-se comigo. Ele só a acabou à tarde no Sá, antes de começarmos a jogar o sete-e-meio a cigarros. Todos ficaram de boca aberta a ouvir. Até o Sá deixou de atender os fregueses para ouvir o Quim a contar. Ele contou tudo desde o princípio sem ninguém pedir, mas era diferente daquilo que tinha começado a contar na Escola, porque já não metia Cão-Tinhoso. Eu não disse nada porque ele era capaz de se zangar comigo. O Cão-Tinhoso tinha a pele velha, cheia de pêlos brancos, cicatrizes e muitas feridas, e em muitos sítios não tinha pêlos nenhuns, nem brancos nem pretos e a pele era preta e cheia de rugas como a pele de um gala-gala. Ninguém gostava de lhe passar a mão pelas costas como aos outros cães. A Isaura era a única que gostava do Cão-Tinhoso e passava o tempo todo com ele, a dar-lhe o lanche dela para ele comer e a fazer-lhe festinhas, mas a Isaura era maluquinha, todos sabiam disso. A Senhora Professora já tinha dito que ela não regulava lá muito bem e que o pai a havia de tirar da Escola pelo Natal. A Isaura não brincava com as outras meninas e era a mais velha da segunda classe. A Senhora Professora zangava-se por ela não saber nada e dar erros na cópia, e dizia-lhe que só não lhe dava reguadas porque sabia que ela não tinha tudo lá dentro da cabeça. Quando ia para o estrado ler a lição não se ouvia nada e a gente dizia — «Não se ouve nada, não se ouve nada» —, e a Senhora Professora dizia que os meninos da quarta classe não tinham nada que ouvir. Então os meninos da segunda classe começavam a dizer: «Não se ouve nada, não se ouve nada». A Senhora Professora zangava-se e fazia uma bronca dos diabos. Por isso, no intervalo, as outras meninas faziam uma roda com a Isaura no meio e punham-se a dançar e a cantar: «Isaura-Cão-Tinhoso, Cão-Tinhoso, Cão-Tinhoso, Tinhoso, Isaura-Cão-Tinhoso, Cão-Tinhoso, Tinhoso». A Isaura parecia que não ouvia e ficava com aquela cara de parva, a olhar para todos os lados à procura de não sei quê, como dizia a Senhora Professora. 

Houve um dia em que falei com a Isaura. Foi assim: 

Estava sentado nas escadas da Escola, mesmo em frente ao portão, a comer o lanche. Era o intervalo do lanche. A Senhora Professora estava a ler um livro e passeava pela varanda, indo até uma ponta, virando-se e vindo para a outra. Como ela passava por mim (ouvia os sapatos, cóc, cóc, cóc, no chão) eu estava para saber se me havia de levantar ou não quando ela passava, porque era chato levantar-me todas as vezes que ela passava por mim. De resto, era mesmo capaz de estar a pensar que eu não dava por ela, por estar de costas para o sítio por onde passeava, e não me perguntar depois, na aula, se os meus pais não me davam educação. 
Eu estava a pensar nisso e a comer o lanche, quando vi que a Isaura andava à procura do Cão-Tinhoso. Depois foi lá para fora e espreitou a rua toda. Como não visse o Cão- Tinhoso, ficou no portão a olhar para todos os lados até que me viu. Ficou uma quantidade de tempo a olhar para mim e, depois, veio até às escadas, a andar devagarinho e de lado, subiu-as, e quando chegou perto de mim voltou-se para uma coluna e pôs-se lá a riscar qualquer coisa, muito distraída. Perguntou-me como se estivesse a falar com outra pessoa que eu não via: 
— Viste o meu cão? Heim? Viste? 
Como eu não desse nenhuma resposta, porque era a primeira vez que ela falava comigo, insistiu: 
— Não passou lá para fora?... 
Nisto, o Cão-Tinhoso apareceu no portão. Parou um bocado, e depois, em vez de ir para as camas de poeira das galinhas do Senhor Professor, veio para as escadas. Eu disse: 
— Está ali. 
A Isaura voltou-se logo: 
— Aonde? Ah! Meu cãozinho... Tinhas ido passear? 
A Senhora Professora parou mesmo atrás de mim (ouvi o cóc, cóc, cóc dela a vir e um cóc mais forte mesmo atrás de mim. De resto, senti o perfume dela em cima de mim). 
A Isaura tinha corrido logo, escadas abaixo, a agarrar-se ao Cão-Tinhoso, quando a Senhora Professora disse: 
— Ó menina, que pouca vergonha é essa? Vai já lavar as mãos!
Eu estava ainda a pensar para saber se me havia de levantar ou não, porque ouvia-a mesmo por sobre as minhas costas, embora não a estivesse a ver. 
A Isaura afastou-se do Cão-Tinhoso e virou-se para a Senhora Professora. O Cão-Tinhoso ficou também a o para ela. Foi aí que a Senhora Professora disse para o Cão-Tinhoso: 
— Suca! 
O Cão-Tinhoso ainda ficou um bocado a olhar para a Senhora Professora, com os olhos grandes a olhar como  uma pessoa a pedir qualquer coisa sem querer dizer. Eu vi-lhe lágrimas a brilhar em riscos no focinho. A Senhora Professora deu um grito para o Cão-Tinhoso ouvir bem: 
— Suca daqui! 
O Cão-Tinhoso voltou-lhes as costas e desapareceu portão fora, sem dizer nada, com o seu andar de carroça velha e com a cabeça a fazer balanço como os bois. 
A Senhora Professora continuou a andar (cóc, cóc, cóc, de uma ponta da varanda para a outra) e a Isaura ficou um bocado a olhar com aquela cara de parva para o sítio atrás  de mim onde a cara da Senhora Professora devia ter estado, e depois veio devagarinho e a andar de lado e encostou-se outra vez à coluna, muito distraída a riscar na cal. Daí a um bocado disse-me: 
— Viste?... 
E eu disse: 
— Vi. 
E ela: 
— Correu com ele... 
E eu: 
— Sim. 
Ficámos um bocado sem falar e depois ela veio numa corridinha pôr-se-me em frente para me olhar com força. Os cantos dos olhos dela começaram a encher-se de lágrimas e quando os olhos estavam cheios elas rebentaram e caíram-lhe pela cara abaixo, a fazer dois riscos grossos. Perguntou-me: 
— Viste?... Viste o que ela fez?... 
Eu respondi: 
— Vi. 
E ela: 
— Ela é má... É má... 
Eu não disse nada e ela continuou: 
— Todos são maus para o Cão-Tinhoso... 
Os olhos dela não eram azuis, mas eram grandes e olhavam como os olhos do Cão-Tinhoso como uma pessoa a pedir qualquer coisa sem querer dizer. 
Depois ela foi-se embora, lá para trás, onde os outros estavam a comer os lanches e a brincar. 
O Senhor Administrador cuspiu para nós os dois e disse aquilo do Cão-Tinhoso, mas era só porque ele e o parceiro tinham levado uma limpa-quatro-bolas: 
O Cão-Tinhoso costumava aparecer no Clube aos sábados à tarde para ver a malta a treinar futebol. Eu não sei porque é que o Cão-Tinhoso gostava disso, mas a verdade é que ele estava lá todos os sábados à tarde. 
Houve um dia que a malta quis fazer um desafio a sério e não me deixou jogar. O Gulamo nem me deixou jogar à baliza. Ele disse-me: «Aguenta um bocado na varanda do Clube. Ficas como suplente. Daqui a pouco entras, mas há-de ser quando estivermos à rasca ou a perder, porque aí entras tu e a gente resolve o jogo». Eu vi logo que eles não me haviam de deixar jogar porque o jogo era a dinheiro e quando é assim eles não me deixam jogar. Isso de eu ficar como suplente era o que eles diziam quando não queriam que eu jogasse, mas eu não disse nada e fui para a varanda do clube. O Cão-Tinhoso estava lá. 
O Senhor Administrador e os outros estavam na varanda do Clube, a jogar à sueca como também era hábito todos os sábados à tarde. Eu estava a olhar para o Senhor Administrador quando ele e o parceiro levaram um capote e ele disse ao Doutor da Veterinária, que se estava a rir todo satisfeito, por lhe ter dado o capote: «Não acho graça nenhuma... Isso foi leiteira»... Depois olhou para mim e viu que eu também me estava a rir. Olhou para o Cão-Tinhoso e viu-o também a rir-se. Por isso zangou-se e perguntou aos outros: «Eh! Quem é que disse que isto não era a Arca de Noé?». 
Depois continuaram a jogar à sueca e o Senhor Administrador e o parceiro levaram uma limpa-quatro-bolas. Eu estava a olhar para ele quando ele disse ao Doutor da Veterinária que se estava a rir por lhe ter dado a limpa-quatro-bolas: «Mas qual é a piada, porra? Com os trunfos todos na mão quem é que não fazia o que vocês fizeram? Olha filho, toma! Toma! Chupa!... Eu chamo-lhe leiteira...». Depois olhou para mim e zangou-se. Ele sabia que eu sabia que ele estava a perder. Olhou para mim e para o Cão-Tinhoso sem saber com qual de nós os dois havia de correr primeiro. Enquanto pensava para resolver isso cuspiu para nós os dois, isto é, para um sítio entre nós os dois. Está-se mesmo a ver que o cuspo tanto era para mim como para o Cão-Tinhoso. 
O Doutor da Veterinária ainda se estava a rir por lhe ter dado a limpa-quatro-bolas e ele acabou com aquilo de uma vez: 
— Ouve lá, o que é que este cão está a fazer ainda vivo? Está tão podre que é um nojo, caramba! Bolas para isto! Ai que eu tenho de me meter em todos os lados para pôr muita coisa em ordem... 
O Senhor Chefe dos Correios, que era o parceiro do Senhor Administrador, já estava a dar as cartas nessa altura, e por isso ficaram todos a ver quantos trunfos é que lhes haviam de sair. Eu fiquei um momento a olhar para aquilo tudo até compreender o que o Senhor Administrador queria dizer: — O Cão-Tinhoso vai morrer! Olhei para ele: estava a dormir com a cabeça entre as patas, muito descansado da vida. 
Fui a correr para o campo de futebol para avisar a malta: «O Cão-Tinhoso vai morrer». — O Gulamo disse-me: «Fora daqui!». — Agarrei-me a ele e voltei a dizer-lhe que o Cão-Tinhoso ia morrer: «Larga-me». Ele só dizia isso. — «Larga-me». Mas estava quieto. 
Ficamos os dois a ver uma avançada do grupo do Quim. O Faruk, que era o ponta direita deles, foi com a bola até ao canto, depois de ter batido o Narotamo em corrida, e de lá centrou. O Quim passou por nós a correr para a baliza, mas o Gulamo só dizia: «Larga-me». O Quim meteu o golo com uma cabeçada. O Gulamo foi logo a correr: «Este golo não valeu porque este tipo estava a agarrar-me». O Quim e os outros não quiseram saber: «Isso é que vale, estás a ouvir?». 
Depois o Gulamo veio ter comigo: 
— Ó filho da mãe, suca daqui para fora e não voltes a chatear, estás a ouvir? Suca daqui antes que eu te rebente o focinho! 
Bem, como o Gulamo dizia aquilo muito zangado eu fui-me embora para fora do campo, mas fiquei chateado porque os outros não queriam saber do Cão-Tinhoso. 
Quando ia já a sair do campo, o Telmo correu para mim e pôs-se a bater-me na cabeça e a gritar: 
— Só, só, só mais um! Só, só, só mais um!... 
Agarrei-lhe os braços e disse-lhe o que ia acontecer ao Cão-Tinhoso, mas ele continuava: — Só, só, só mais um, só, só, só mais um... 
Tive vontade de bater no Telmo, mas o Gulamo estava ali perto a olhar para mim com os braços cruzados no peito e tive mesmo de me ir embora. 
Quando passei pela varanda do Clube, o Senhor Administrador e os outros estavam muito entretidos a jogar à sueca, e o Cão-Tinhoso estava muito quieto, a dormir com a cabeça entre as patas sem ter percebido o que lhe havia de acontecer. 
Na segunda-feira de manhã fui ver o Cão-Tinhoso logo que cheguei à Escola. A Isaura estava ao pé dele e dava-lhe o lanche dela, partindo o pão aos bocadinhos e espalhando-os perto da boca do Cão-Tinhoso, que ia comendo devagar, porque levava muito tempo a mastigar. Quando tocou para entrar, a Isaura despediu-se dele e veio a correr para a chamada. 
Lá dentro, enquanto fazia as contas e o desenho, e mesmo durante o ditado, fui pensando no Cão-Tinhoso a ser morto pelo Doutor da Veterinária, depois de ter escapado da bomba atómica e tudo, depois de ter corrido uma distância monstra para não morrer por causa da bomba atómica. O Doutor da Veterinária se calhar não tinha vontade nenhuma de matar o Cão-Tinhoso, mas como é que ele havia de fazer, coitado, se foi o Senhor Administrador que mandou? 
Perguntei ao Quim como é que o Doutor da Veterinária havia de matar o Cão-Tinhoso, e ele disse-me: «Um cão mata-se com antibióticos». Eu perguntei-lhe o que era isso de antibióticos e ele zangou-se e disse: «Ó seu burro!». E depois de se calar um bocado e continuar a fazer o desenho, voltou a falar, mas já sem estar zangado: «Meu Deus, quem é que te manda ser tão besta? E quem é que me manda ter tanta paciência para te aturar. E que ainda por cima não sei em que língua é que te hei-de falar porque não percebes nada de português, chiça?! Um cão mata-se com uma bala de Ponto 22. Sim, para ti tem de ser assim. E uma bala de Ponto 22 e pronto, arre!». Calou-se mas continuou: «Ou com antibióticos...». E pouco depois: «A não ser que o Doutor da Veterinária seja tão burro como tu que só o possa matar com uma bala de Ponto 22». 
— Ó meninos, isto não é um bazar, heim... 
Era a Senhora Professora. 
- O que é que o Quim te estava a dizer? Sim, tu, Ginho, responde! 
Eu ia a responder mas o Quim deu-me um beliscão. 
— Não queres dizer? Será preciso usar a régua no teu rabinho? 
- Não era nada, Senhora Professora, era por causa do Cão-Tinhoso. O Doutor da Veterinária vai matá-lo. 
— Vocês não têm tempo para tratar desses sigilosos negócios de estado durante a hora do intervalo? 
- Temos, sim, Senhora Professora. 
— Então toca a fazer o desenho e bico calado. 
Ficamos de bico calado a fazer o desenho. 
Quando chegou a hora do intervalo a Isaura veio ter comigo, muito aflita: 
— O que é que tu e o Quim estavam para ali a dizer? 
Eu já tinha falado com ela uma vez, mas era como se fosse a primeira vez, porque fiquei sem saber o que lhe havia de responder. 
— O que é que tu e o Quim estavam para ali a falar do Cão-Tinhoso? 
— Nada... 
— Vão matá-lo? O Doutor da Veterinária vai matá-lo? 
— Não, isso é mentira do Quim... 
— Então, porque é que estavam a falar nisso? 
— Para passar o tempo. É que o desenho era chato... 
— Vocês não sabem que não devem dizer mentiras? (Ela estava a armar em Senhora Professora ou qualquer outra pessoa já crescida). 
— O Quim é que disse mentiras, foi o Quim... 
A Isaura respirou fundo (ainda a armar em pessoa crescida) e foi a correr para o canto das camas de poeira das galinhas do Senhor Professor. Antes de chegar lá parou e voltou-se para mim com as mãos a tapar a boca, mas como visse que eu ainda estava a olhar para ela voltou-me as costas. 
O Cão-Tinhoso viu-a chegar e pôs-se logo a abanar o rabo e a balancear a cabeça, embora não estivesse a andar. A Isaura ajoelhou-se diante dele, agarrou-lhe a cabeça e pôs-se a dizer-lhe uma data de coisas que não ouvi. 
Depois sentou-se sobre os calcanhares, cruzou os dedos no regaço e pôs-se a olhar para as mãos. Eu estava mesmo atrás dela quando ela disse: 
— Não ligues a isso tudo porque é pêta do Quim, o Doutor da Veterinária não te quer matar nem nada, isso é pêta. Nós ainda vamos falar das nossas coisas, e eu hei-de dar-te de comer todos os dias. Também posso vir à tarde depois da hora do lanche e trazer-te de comer, a minha mãe não diz nada, Cão-Tinhoso! Não sejas malcriado! O que é que estás a querer ver debaixo das minhas saias? — E puxa a saia para tapar os joelhos. — Oh! Desculpa-me, Cão-Tinhoso! Estás a ver a barra da minha saia nova! Desculpa-me, eu devia saber que não és como esses meninos malcriados que andam por aí. Não tinhas visto ainda a minha saia nova? Tem muita roda, queres ver? — Levantou-se e esticou a saia pelos lados. Estava a fazer uma voltinha quando me viu mesmo atrás dela. Ficou de boca aberta a olhar-me depois virou-se para mim com a boca muito fechada e de mãos nas ancas: — O que é que você quer daqui? 
Fingi que estava a apanhar qualquer coisa com que tivesse estado a brincar e tivesse ido parar ali sem ser de propósito, e depois fui-me embora a fingir que metia a coisa ao bolso. 
Um dia, o Senhor Duarte da Veterinária veio ter connosco quando estávamos no Sá a contar filmes e anedotas e disse-nos: 
— O rapazes, tenho uma coisa para vocês. 
Claro que fomos todos atrás dele até ao muro da Veterinária. 
— Oiçam, ó rapazes, tenho uma coisa para vocês — repetiu — depois de se sentar ao alto do muro, com a malta em volta. 
— É mesmo uma coisa para a malta. 
Calou-se por um bocado e olhou para as nossas caras. «É uma coisa de malta, mesmo de malta (agora só olhava para as unhas com os olhos quase fechados por causa do fumo do cigarro). É coisa que eu com a vossa idade não deixaria de fazer, se me pedissem para fazer. Bem, vocês sabem, o Doutor mandou-me dar cabo de um cão, aquele, vocês conhecem-no, aquele que anda aí todo podre que é um nojo, vocês não o conhecem?... Ora bem, o Doutor mandou-me dar cabo dele. Bem, eu já o devia ter liquidado há mais tempo, mas o Doutor só me disse esta manhã. Bem, acontece que eu tenho visitas em casa e é bera estar agora a pegar em armas e zuca-zuca atrás de um cão, vocês compreendem, não é rapazes?... Mas eu nem me afligi porque pensei cá para comigo — que diabo, os rapazes estão sem fazer pêva e é para as ocasiões que a gente conta com os amigos — e pensei logo em vocês, porque já se vê, vocês até devem gostar de mandar uns tiritos, hem? Bem, calem-se não digam mais, eu já sabia que vocês são malta fixe. Olhem rapazes, vocês pegam aí numa corda qualquer, procuram lá o cão e levam-no para o mato sem grandes alaridos e aí ferram-lhe uns tiritos nos cornos, que tal?... Está bem, está bem, calma, deixem-me acabar de falar... 
O Quim bateu-me na boca: 
— Deixa ouvir o Senhor Duarte, caramba! 
— Olhem, vocês, eu sei que vocês andam por aí aos tiros às rolas e aos coelhos, olhem que eu sei... Mas deixem lá que eu não levo a mal, malta é malta, isto é assim mesmo, eu só não quero é que façam as coisas à minha frente porque tenho responsabilidades, vocês sabem. Ora vocês já têm armas e por isso não tenho de vos emprestar as Ponto 22 daqui da Repartição, aliás uma chega, mas se vocês quiserem fazer tiro ao alvo, eu não tenho nada com isso... Mas, pst, sem fazer um cagaçal que se oiça aqui na vila!... Pronto, rapazes, ide, ido divertir-vos um pedaço, mas cuidado lá com as armas, hem? Nada de desatar a ferrar tiros nos cornos uns dos outros... 
A malta pôs-se logo a correr, e o Senhor Duarte teve de se pôr de pé ao alto do muro da Veterinária para nos chamar de novo. Depois esperou que chegássemos bem ao pé dele para nos olhar bem na cara antes de falar com os olhos outra vez quase fechados por causa do fumo do cigarro: 
— Oiçam, rapazes, eu estou a falar entre homens, porra! Isto escusa de ser propalado por aí aos quatro ventos, estão a ouvir? Eu só quis dar um prazer à malta porque sei que vocês gostam de dar uns tiritos de vez em quando e eu não levo a mal. ...Sim, sei que vocês gostam de dar por aí uns tiritos às rolas e aos coelhos, mesmo sem terem licença de uso o porte de arma, para não falar na licença de caça, e vocês sabem que se são apanhados por mim ou por um fiscal de caça, chupam uns meses de prisão que se lixam. Mas deixa lá que eu não levo a mal nem digo a ninguém que vocês usam as armas dos vossos pais ilegalmente. Eu só quero que não me façam essas coisas mesmo debaixo do nariz, porque tenho responsabilidades, vocês sabem. Eu não levo isso a mal, porque conheço bem a malta, mas isto não é para ser espalhado por aí, vocês não acham? 
De resto isto nem tinha de ser dito, porque estou a falar entre homens... 
— Fique descansado. Senhor Duarte... 
Foi o Quim. 
— Pronto, rapazes, ide divertir-vos, mas pouco alarido... 
O Sá, da varanda da loja, fazia-nos sinais para lhe irmos contar o que o Senhor Duarte nos tinha dito, mas nós nem olhámos para lá. Fomos logo para a escola, e no canto das camas de poeira das galinhas do Senhor Professor lá estava o Cão-Tinhoso a dormir. Quando nos viu, levantou-se e veio por ali fora a cobrejar, todo cansado, com as patas a tremer. Olhou para todos nós com os olhos azuis, sem saber que nós queríamos matá-lo e veio encostar-se às minhas pernas. Depois de estar um bocado assim encostado, deixou escorregar o traseiro e sentou-se. Eu senti-o a tremer como não sei o quê, enquanto os outros combinavam, e via os meus sapatos a brilhar onde ele os lambia. 
—    Ouve lá, tu deixas esse cão todo podre que é um nojo encostar-se a ti? — O Faruk estava 
sempre a meter-se comigo, mas o Quim queria combinar as coisas e não queria ouvir o que ele dizia: 
— Deixa lá, é preto e basta, deixa lá... Bem, malta, o cão não sai daqui e a gente vai cada um para a sua casa buscar as armas e depois levamo-lo para a mata atrás do matadouro e damos cabo dele, óquêi? 
— Como é que o levamos? Eu é que não o levo às costas... 
— Ó minha besta! — O Quim não gostava daquelas piadinhas. — E isso seria demais? — Como é que vocês, os quadrúpedes, costumam levar as coisas? — Depois virou-se para mim: 
— Toucinho, tu trazes aquela corda que tens na tua casa debaixo do canhueiro. 
— E quem é que leva o Cão? — (Eu não queria levar o Cão-Tinhoso). 
— A gente depois atira uma moeda ao ar e vê quem é que o leva. 
— Não me digam que este gajo também atira... 
— Ó malta, vamos fazer o que o Senhor Duarte mandou ou não? 
Fomos todos a correr para ir buscar as armas. 
Quando cheguei a casa, a minha mãe estava sentada numa esteira mesmo à porta. Escondi-me atrás de uma árvore para pensar como é que havia de levar a minha Ponto 22 de um tiro sem ela se zangar, mas ela viu-me logo e chamou-me: «Ginho! O que é que estás aí a fazer todo escondido?» — Corri para ela e entrei em casa saltando-lhe por cima das pernas. «Eh! Que brincadeira é essa?» — Mas eu já não a ouvia. Fui buscar a arma e voltei muito devagar, sem fazer barulho nenhum, até ao corredor. Depois corri com força. — O que é isso? Para onde é que levas a espingarda? Anda cá! Olha que eu faço queixa ao teu pai! 
Só parei um bocado para levar o rolo de corda debaixo do canhueiro. Depois não ouvi mais os berros dela. Enquanto corria para a escola fui pensando que afinal até era bom matar o Cão-Tinhoso porque andava todo cheio de feridas que era um nojo. E até era bem feito para a Isaura que andava cheia de manias por causa dele. Quando cheguei à escola, apalpei o bolso da camisa para sentir as balas a esfregarem-se umas nas outras. Bem, esqueci-me de dizer que, quando fui buscar a espingarda, também levei algumas balas. Se as não levasse, como é que havia de matar o Cão-Tinhoso? 
Nós éramos 12 quando fomos para a estrada do Matadouro com o Cão-Tinhoso 
O Quim, o Gulamo, o Zé, o Xangai, o Carlinhos, o Issufo e o Chico, iam pelo meio da estrada com as espingardas apontadas para a frente. Atrás deles ia o Faruk, que não tinha espingarda, a arrastar o Cão-Tinhoso pela corda. O Cão-Tinhoso não queria andar e chiava que se danava, com a boca fechada. Nós, eu e o Telmo de um lado, o Chichorro e o Norotamo do outro lado, íamos também armados, meio metidos no capim, como o Quim tinha mandado, a bater o mato. Eu não entrava muito pelo capim, porque, quando me aparecia uma micaia pela frente, eu contornava-a pelo lado da estrada do Matadouro, por onde o resto da malta ia, e volta e meia o Quim tinha de me perguntar se eu ia a bater o mato ou quê, porque eu só queria era olhar para o Cão-Tinhoso, a chiar, que se danava e mais aquele barulho de ossos lá dentro dele que às vezes ouvia quando o Faruk o puxava com força, e mesmo lá na escola, no canto das camas de poeira das galinhas do Senhor Professor, quando ele andava. 
Quando chegámos ao matadouro os muleques do Costa vieram ver a malta a passar: 
— Onde vai jimininu? Leva xipingar, vai no caça? Mas aquele cão num prrêsta! 
— Fora daqui, negralhada! — Era o Quim. 
Os muleques julgaram que o Quim falava na brincadeira e não se mexeram, mas o Quim apontou-lhes a arma e repetiu: 
— Fora daqui, negralhada, fora daqui cabroada escura! 
Desapareceram todos num instante, a correr, que batiam com os calcanhares no cú, como dizia o Quim. 
Avançámos para o mato, mas eu tinha a certeza de que eles nos estavam a seguir. 
— Ó pá, vocês ajudem-me, — era o Faruk — venha outro tipo puxar o sacana do cão... 
— Ó pá, mas a gente mandou uma moeda ao ar e ficaste tu... 
— Então mandem outra vez... 
— Bolas, assim não! Nós tínhamos combinado... Bem, óquêi... — O Quim olhou para mim:     
— Toucinho, anda tu! 
— O pá, mas eu vou a bater o mato como tu disseste... 
- O Faruk fica a bater o mato! 
 — O pá, não há o direito... 
 — Não há uma ova! Vai tu e não refiles! Dá a tua arma ao Faruk! 
Os outros pararam um pouco atrás. Eu sabia disso, mas não fui capaz de parar. O Cão-Tinhoso agora ia à frente de mim e eu é que andava devagar. Eu via-o de cabeça esticada para a frente e de rabo espetado. Andava todo inclinado para a frente, com as pernas a fazer músculos com o esforço de fugir da corda que lhe apertava o pescoço. Tínhamos entrado muito pelo mato adentro mas estávamos num sítio onde não havia árvores e só havia capim. As árvores estavam à nossa frente e o Cão-Tinhoso queria ir para lá. As vezes ele nem se via no capim alto, mas de vez em quando andava tão depressa, que a corda se esticava e então eu tinha de andar um pouco mais depressa para não sentir na mão, na cabeça, aqui dentro, no corpo todo, a força dos ossos dele a chiar, a chiar e a chiar. 
— Ei, para onde é que levas isso? 
Parei e o peso veio todo na corda para dentro de mim. 
Virei-me devagar e vi o Quim a meter um cartucho na Calibre 12 de Dois Canos. 
— Ó Chico, o que é que dizes, SG ou 3A? — Agora falava com o Chico, com o cartucho meio metido num dos canos e com o dedo a empurrá-lo devagarinho lá para dentro da câmara. 
— Ó Quim, pá, põe-lhe o número 4, não sejas bera que com isso escangalhas o cão todo, pá... 
— Ouve lá, para onde é que levas isso? — Eu estava parado, a sentir tudo aquilo do Cão-Tinhoso que vinha pela corda esticada. O Cão-Tinhoso virou-se para mim e atirou-se para trás de recuo a chiar por todos os lados. Eu sabia que ele me estava a olhar com os olhos azuis, mas não pude deixar de olhar para a malta, que estava a fazer meia roda, andando devagar e sem fazer barulho, sempre a armar e a desarmar as espingardas. O Quim, em cima de uma pedra, olhava para mim com o cartucho meio metido num dos canos da Calibre 12. 0 Faruk agarrava com força a minha Ponto 22 de Um Tiro, e já lhe tinha metido uma bala expansiva na câmara. Ele era o único que não estava sempre a mexer na culatra para armar e desarmar a espingarda. 
— Ó Quim, não atires com SG nem com 3A que isso é chato... 
— Não atires, Quim, isso é bera... 
— Assim, o gajo quina logo... 
— O Quim, mete-lhe o número 4 ou outro número qualquer, o Senhor Duarte disse que nós também podíamos atirar... 
— Poça, Quim, isso não! 
O Cão-Tinhoso já não fazia força e de repente senti a corda lassa. Daí a pouco o Cão-Tínhoso encostava-se às minhas pernas, todo a tremer e a chiar baixinho. 
O Quim acabou de meter o cartucho num dos canos da espingarda e endireitou-a devagar até fechar a câmara. A arma ficou voltada para mim. Eu não pude olhar mais para lá, mas era por causa dos olhos do Quim, que me olhavam quase fechados, a brilhar sem ele estar a chorar. 
Eu é que tinha uma danada vontade de chorar mas não podia fazer isso com aqueles todos a olhar para mim. 
— Quim, a gente pode não matar o cão, eu fico com ele, trato-o das feridas e escondo-o para não andar mais pela vila com estas feridas que é um nojo... 
O Quim olhou para mim como se nunca me tivesse visto em nenhum lado, mas respondeu aos outros: 
— Vocês que se lixem, eu atiro com o cartucho que quero e pronto! 
— Atiras um raio é que atiras! Não julgues que temos medo de ti! 
O Quim olhou para o Gulamo e perguntou devagar e em voz baixa: 
- Ó meu filho da mãe, queres que eu te rebente o focinho? 
— Rebentas uma ova, tu aqui não armes em mandão que eu não tenho medo de ti! 
O Gulamo tinha-se virado para o Quim, com arma e tudo. 
— Ouve lá, queres ter alguma coisa comigo, monhé de um raio? 
O Quim não teve medo da arma de Gulamo. 
— Isso era o teu avô, meu labreguinho ordinário! Nunca te contaram isso lá na tua aldeia? Seu maguerre!... 
— Monhé! Filho de um corno! 
— Ó Quim, não atires com SG nem 3A que isso é ser chato... 
— Não atires, Quim, isso é bera... 
O Quim tinha descido da pedra e avançava para o Gulamo. 
— Ó Quim, mete-lhe o número 4 ou outro número qualquer, o Senhor Duarte disse que nós também podíamos atirar... 
— Poça, Quim, isso não! 
O Cão-Tinhoso chiava baixinho e roçava-se pelas minhas pernas a tremer. O Faruk agarrava a minha espingarda com força e apontava-a para mim com as pernas afastadas, mas olhava para o Cão-Tinhoso, com os olhos grandes de medo. Os outros todos ficavam também com os olhos cheios de medo quando olhavam para os olhos azuis do Cão-Tinhoso. 
— Eh, malta, vamos acabar com isto que é tarde e está quase escuro. Vocês não desatem aqui aos tiros para os cornos um do outro... O Quim parou e virou-se para o Xangai: 
— Cornos tem o teu pai, estás a ouvir? Eu não deixo que um monhé abuse sem levar na cara! De mim ninguém se fica a rir... E se ladras mais também comes no focinho... Tu ou qualquer outro! Vocês todos estão a ouvir? 
O Quim gritava como um doido, mas o Gulamo não tinha medo dele porque começou a arregaçar as mangas da camisa. 
Já estava quase escuro e o Cão-Tinhoso tremia contra as minhas pernas como não sei quê. 
— Eh pá, vamos deixar isto para o outro dia — o Faruk olhava para o brilho do cano da Ponto 22 de Um Tiro — vamos deixar isto para amanhã ou outro dia... 
Ele talvez ficasse por aqui, mas como o Quim deixasse de berrar para ouvir o que ele dizia, continuou: 
— E que já está quase escuro e podíamos ferir alguém sem querer, no escuro, com tantas espingardas... 
O Quim gritou logo: 
— Ó meus filhos da mãe, vocês estão com medo? 
Só eu é que respondi: 
— Eu estou com medo — custou-me dizer aquilo porque mais ninguém estava com medo, mas foi melhor assim — Eu estou com medo, Quim... 
Apesar de já estar quase escuro eu via os meus sapatos a brilhar nos sítios onde o Cão-Tinhoso os lambia. Mesmo com o capim e tudo. O Quim e a outra malta riam-se com força e o Gulamo rebolava no capim de tanto se rir por eu ter medo. 
— Esta é forte, malta — dizia o Quim, com a boca toda aberta com os olhos a chorar de tanto rir. 
— Esta é que foi — dizia o Gulamo que nem se via por estar a rebolar no capim. Os outros riam-se muito, também. 
Parece que eu tive muita vergonha por ter dito aquilo. 
Voltei a sentir um peso monstro dentro de mim e no pescoço. 
Eu não me mexia para os outros não se rirem mais de mim, mas as pernas tremiam-me por causa do Cão-Tinhoso, a tremer encostado a elas. 
— Esta é forte! — O Quim berrava outra vez. 
— Esta é forte! O Gulamo dizia isto enquanto rebolava no capim de tanto se rir de mim. — Esta é forte... 
Os outros, às vezes calavam-se, e só o Quim é que se ria sempre, sempre e cada vez com mais força. Os outros ouviam-no quando se calavam e voltavam a rir-se com força como ele. E riam-se, riam-se, riam-se enquanto o peso no meu pescoço e cá dentro aumentava cada vez mais. Parece que nunca mais acabavam de se rir, e eu com aquilo só tinha vontade de chorar ou de fugir com o Cão-Tinhoso, mas também tinha medo de voltar a sentir a corda a tremer de tão esticada, com o chiar dos ossos a querer fugir da minha mão, e com os latidos que saíam a chiar, afogados na boca fechada como ainda há bocado. Sim, eu nunca mais queria voltar a sentir isso. 
O Quim estava de novo em cima da pedra mas ainda se ria de vez em quando e dizia esta é forte, esta é forte. 
O Gulamo estava ajoelhado, sentado sobre os calcanhares e com a camisa limpava a cara das lágrimas que saltaram dos olhos de tanto se rir de mim por eu ter medo e também dizia esta é forte, esta é forte. 
Os outros já não se riam mas de vez em quando concordavam com o Quim e com o Gulamo nisso de esta é forte, esta é forte. 
Já estava quase escuro e o Quim, do alto da pedra, disse para a malta: 
— Eh, malta, agora é que vai ser: Eh! Toucinho, desata a corda! 
Mas eu não era capaz de me mexer, todo envergonhado e com o pescoço a doer como não sei o quê. 
— Eh, malta, vocês nunca me viram a matar um preto? 
— O Quim aproximou-se de mim: «Eh, Toucinho, desata a corda!» 
O Gulamo aproximou-se também. «Eh, Toucinho, desata a corda». 
O nó estava feito de tal maneira que custava a desatar, e eu não tinha força nenhuma nos dedos. Tinha vontade de chorar ou fugir com o cão e tudo. 
— Anda lá, senão rebentamos contigo, preto de um raio! 
— Anda lá com isso, caramba, — agora era o Faruk — anda lá com isso, preto de um raio!... 
No pescoço, as feridas do Cão-Tinhoso já não tinham crosta por causa da corda, mas só saía delas uma aguadilha vermelha que me molhava as mãos. 
— Anda lá, não tentes ser besta,Toucinho! 
Quando acabei de desapertar o nó, agarrei a corda com força para ela não cair e continuei a mexer no pescoço do cão, mesmo com os olhos fechados. 
— Eu tenho medo, desculpa-me Cão-Tinhoso — eu disse aquilo tão baixinho que só o Cão-Tinhoso me podia ouvir— eu tenho medo, Cão-Tinhoso. — Eu vou pedir isso ao Quim e à malta, e eles deixam com certeza, e eu levo-te e trato-te e depois vais outra vez dormir para as camas de poeira das galinhas do Senhor Professor. Eu vou pedir ao Quim e à malta e eles deixam. Mas, não me olhes como se eu tivesse culpa, Cão-Tinhoso! Desculpa, mas eu tenho medo dos teus olhos... 
Abri os olhos e o Cão-Tinhoso estava com os olhos em cima de mim, como se não tivesse percebido o que eu tinha pedido. Tive de desviar a cara depressa e por isso a corda caiu-me das mãos... 
— Ei, o que é que estás para aí a dizer? O quê, já acabaste? 
— Quim, a gente pode não matar o cão, eu fico com ele, trato-lhe as feridas e escondo-o para não andar mais pela vila com estas feridas que é um nojo!... 
O Quim não queria saber do que eu estava a dizer e, por isso, agarrou-me pela gola da camisa e perguntou-me o que é que eu estava para ali a dizer. 
O Cão-Tinhoso tremia, cada vez mais enfiado nas minhas pernas com o rabo a dar e a dar e eu empurrei o Quim para voltar a agarrar a corda no pescoço do cão para os outros não verem. 
— O que é que estás a dizer? — Era o Gulamo. 
O Cão-Tinhoso olhava-me com força. Os seus olhos azuis não tinham brilho nenhum, mas eram enormes e estavam cheios de lágrimas que lhe escorriam pelo focinho. Metiam medo aqueles olhos, assim tão grandes, a olhar como uma pessoa a pedir qualquer coisa sem querer dizer. Quando eu olhava agora para dentro deles, sentia um peso muito maior do que quando tinha a corda a tremer de tão esticada, com os ossos a querer fugir da minha mão e com os latidos que saíam a chiar, afogados na boca fechada. 
Eu tinha uma danada vontade de chorar mas não podia fazer isso com a malta toda a olhar para mim. 
O meu braço estava todo molhado pelo sangue das feridas do pescoço do Cão-Tinhoso, mas tinha de me abaixar um pouco mais, só mais um bocadinho, para apanhar a corda. 
O Faruk falava muito baixinho e depressa. Devia estar outra vez a olhar para o brilho do cano da espingarda: 
— Vamos  deixar isto para outro dia, pá... Damos cabo do cão amanhã ou outro dia... 
Calou-se mas continuou logo: 
— E que já está quase escuro e podíamos ferir alguém sem querer, no escuro com tantas espingardas... 
— Quim, eu não quero dar o primeiro tiro... (Eles queriam que eu desse o primeiro tiro). 
— Anda lá, anda lá, não tenhas medo... 
— Sabes, Quim, é que eu não quero matar o Cão-Tinhoso... O meu pai é capaz de me bater quando souber... eu não quero, não... 
- Vamos, pá. Eu disse-te que só davas o primeiro tiro, e é só isso o que vais fazer. 
— E que, sabes, pá... O meu pai lá em casa... Eu vou-me embora, ele está à minha espera... Se chego tarde, ele bate-me... Bate-me, Quim, da outra vez bateu-me... 
— Vamos, vamos, deixa-te dessas coisas, não sejas medroso... Já viram isto, malta, um de nós a borrar-se todo por causa do cão... E que eu não sei porque é que este tipo anda connosco se não é macho de verdade... Já viram? 
— Eu não me estou a borrar todo, Quim, eu só não quero dar o primeiro tiro... E que eu sou um bocado amigo do cão e é chato ser eu a dar o primeiro tiro... 
— Isso são desculpas, isso são desculpas... Tu não és macho, como a gente... Maricas! Não tens vergonha? Dá lá o tiro, anda...  
— Merda para ti, caramba! — Era o Gulamo — Preto de merda! 
— Dispara, pá, não sejas medroso... Até parece que é a primeira vez que agarra numa arma... 
— Quim, eu não quero dar o primeiro tiro... 
— Se continuas assim a gente depois conta lá na escola que tu tiveste medo de matar o cão, que começaste com cagufas... A gente vai dizer que te borraste todo... A gente vai contar isso, palavra que vai contar... 
- Quim, eu não tenho cagufa nem nada, não tenho medo de matar o cão... É só porque o meu pai está à espera lá em casa... 
— Se em vez de estares aí a falar tivesses dado o tiro, já estaríamos despachados. Anda lá, não sejas medroso! 
— Medroso, me-dro-so! me-dro-so! 
— Eu não sou medroso! Já disse, não sou medroso! 
— És, és, és... Atira se não és! Atira! 
— Atiro, sim, e depois? Eu mando já um tiro no sacana do cão... 
— Isso é que é falar!... O Quim abraçou-me. 
Eu tinha a arma apontada mas o Cão-Tinhoso fartava-se de dançar no ponto de mira. O Quim não saía do meu lado: 
— Não atires a matar, estás a ouvir? Mas se quiseres, podes atirar... Sabes, é só porque tu estavas todo cheio de cagufa e era preciso mostrar à malta que não és maricas. E  por isso que tu és o gajo que vai dar o primeiro tiro... Eu se fosse a ti atirava a matar e despachava o gajo logo... Não há azar nenhum nisso, foi o Senhor Duarte que mandou... E assim poupavas o trabalho à malta. E que um tipo chega para matar o cão, e  escusávamos de encher o gajo de chumbo, que isso é ser maldoso e se o Padreca souber disso é capaz de andar para aí a dizer que nós somos ordinários. Sabes, Ginho... Eu acho que o Doutor da Veterinária devia ter liquidado o sacana do cão com uma droga qualquer... Eu li numa revista que na América os cães matam-se com drogas... Sim, lá na América, quando um Doutor da Veterinária quer matar um cão que anda lá nas ruas cheio de feridas que é um nojo, dá-lhe uma droga qualquer... Só para mostrar ao Doutor que ele não percebe nada disto a malta devia não matar o cão... Não era por medo nem por nada, mas era para o gajo ver... Ginho, não achas que devia ser assim? Não, não achas? Hem? 
— O Quim, pá, não podes conversar mais tarde com esse tipo? — Era o Gulamo. 
— Sabes, pá... Eu estava a dizer aqui ao Ginho uma coisa bestial!.,. Não era, Ginho? E uma coisa que a malta devia fazer, não era Ginho? 
— Está bem, está bem, contas isso depois, agora vai para o teu lugar e deixa o tipo dar o primeiro tiro para a malta atirar também... Ou será que o gajo voltou a ficar com medo de atirar? 
— Eu não estou com medo, já disse! — Eu virei-me para o Gulamo — Eu atiro já... 
— Está bem, está bem, eu só queria saber... Vamos, Quim, vai para o teu lugar... Ou também estás com medo? 
O Quim riu-se como se aquilo fosse uma piada e foi com a arma dele para cima da pedra. Quando lá chegou, gritou para mim: 
— Então, atiras ou não? 
A minha Ponto 22 de Um Tiro (a que estava com o Faruk) estava com um peso danado, e por isso o Cão-Tinhoso fartava-se de dançar no ponto de mira. Só os olhos dele é que não se mexiam nada e olhavam sempre para mim. Comecei a puxar o gatilho muito devagar. 
DDesculpa-me, Cão-Tinhoso, mas não vou atirar a matar»... Eu disse aquilo muito baixinho, e só o Cão-Tinhoso é que ouvia. Eu só havia de dar o primeiro tiro porque a malta queria que fosse eu, mas não havia de matar o Cão-Tinhoso! «E que eu tenho medo, eu tenho medo, Cão-Tinhoso, mas eu vou atirar para a malta não dizer que eu tenho cagufa». 
Depois vi que afinal não estava a puxar o gatilho, porque tinha o dedo no guarda-mato. Comecei a puxar o gatilho  devagar para ter tempo de dizer tudo ao Cão-Tinhoso: «Eu não tenho outro remédio, Cão-Tinhoso, eu tenho de atirar... Eu estou cheio de medo, desculpa, Cão-Tinhoso... Deixa-me atirar e não me olhes dessa maneira... Eu estou é com medo, estás a ouvir?... Estou com medo!... Se pudesse, fugia e levava-te comigo. E depois tratava-te e nunca mais aparecias pela vila com essas feridas que é um nojo, mas o Quim...» 
A folga do gatilho acabou de repente e o peso da mola era tal, que o Cão-Tinhoso dançava ainda mais sob o ponto de mira da minha arma. Tive de fechar os olhos e era por causa dos olhos do Cão-Tinhoso, que estavam parados e olhavam para mim muito quietos, mesmo quando ele dançava no ponto de mira. 
— Vamos, pá, atira lá que nós estamos à espera de ti; mostra que és teso e que podes continuar com a malta!... 
A mola ia cedendo aos poucos e cada vez estava mais pesada. A tensão iria aumentar até o cão saltar e perfurar a bala. Então não haveria mais resistência e o gatilho viria até ao fim, com o estoire do cartucho na câmara e o ligeiro coice da coronha. Tinha de falar mais depressa para acabar de dizer tudo antes do estoire, e não podia abrir os olhos senão veria os olhos do Cão-Tinhoso e não seria capaz de atirar. 
«Não vais sofrer nada, porque o Quim meteu na Calibre 12 mais um cartucho SG, e os outros também vão atirar ao mesmo tempo. Não te vai doer, tu ainda estás a pensar em qualquer coisa e já estás morto e não sentes mais nada, nem as feridas a doer por causa da corda nem nada...» 
— Porra, atiras ou não, preto de merda? 
«Tu morres e vais para o Céu, direitinho ao Céu... Vais gozar lá no Céu... Mas antes disso eu hei-de enterrar o teu corpo e hei-de pôr uma cruz branca... E tu vais para o limbo... 
Sim, antes de ires para o Céu, vais para o limbo, como uma criança pequena... Estás a ouvir, Cão-Tinhoso?» 
A Senhora Professora perguntou se os nossos pais não nos davam educação lá em casa e nós nunca mais falámos sobre o Cão-Tinhoso, mesmo quando estávamos no Sá. 
Logo depois do esteiro ouvi um grito monstro e nada mais. O meu tiro devia ter mgoado muito o Cão-Tinhoso para ele gritar como uma pessoa. Fiquei sem saber o que havia de fazer porque logo depois, o Cão-Tinhoso começou a gemer como uma criança. 
Fui afastando as mãos da cara e depois abri os olhos. A Isaura estava agarrada ao Cão-Tinhoso e era ela quem estava a gemer, mas não sei se não teria sido mesmo o Cão-Tinhoso quem gritara ainda há bocado. A malta estava toda de boca aberta a olhar para aquilo e só se ouvia a Isaura a gemer muito alto e a olhar para todos os lados com os olhos todos saídos e muito agarrada ao Cão-Tinhoso. 
O Quim foi o primeiro a falar: 
— O que é que esta tipa veio para aqui fazer? 
O Gulamo também tinha a voz rouca: 
— Se calhar foram os pretos do Costa que lhe disseram... 
Os muleques do Costa estavam por detrás da malta, disfarçados no escuro dos troncos das árvores, e com as mãos cruzadas sobre o peito e os olhos todos saídos. Todos eles iam dizendo «Hi!» e «He!», a olhar para a malta. O capataz dos moleques do Costa escondeu-se ainda mais no tronco de uma micaia e falou com os braços a voar para todos os lados: 
—A nós não tem curpa! Ele que veio pruguntar, e gente veio com ele para ver jimininu cum 
cão! A nós não tem curpa, só veio ver matar cão! Não tem curpa!... 
— Ah, negros cabrões! — O Quim apontou-lhes a Calibre 12 de Dois Canos. 
— Num mata nós, num tira, patrão... Hi! — e desapareceram todos com um cagaçal medonho pelas micaias, a gritar «HÍ!» e «Hi!». 
O Quim virou-se para a Isaura, que estava meio escondida no capim e com os olhos todos de fora, a olhar para a malta e a gemer: 
—  Ó tipinha, não te disseram que nós não queremos fêmea a esta hora? O que é que 
vieste para aqui fazer? Não queremos gajas a atrapalhar o que nos mandaram fazer, ouviste?  
A Isaura não dizia nada e só gemia para a malta. 
Ficou tudo calado por um instante e a malta a olhar uns para os outros, sem saber o que fazer. 
— Eh, malta, temos de matar o cão... Foi o Senhor Duarte quem mandou... Ele disse que contava connosco... — O Quim já não estava rouco. — Estamos aqui a demorar isto não sei porquê... 
— Quem é que está com cagaço? Quem é que se borra nas calças?... 
— Eu não!... 
— Eu não!... 
— Eu não!... 
Toda a malta disse eu não e ficaram a olhar para mim a ver o que eu dizia. 
— Eu não estou com cagaço, Quim... Eu não me vou borrar nas calças, Quim... — Eu estava a tremer todo quando disse aquilo, mas garanto que não estava com medo nem nada. Então a gente não tinha vindo para matar o cão que andava todo podre que era um nojo? Foi o Senhor Duarte que disse, e porque é que não havíamos de dar uns tirites? Eu estava era com pena de o matar depois de ele correr uma distância monstra para não morrer por causa da bomba atómica e mais nada. 
— Ginho, tira a gaja de cima do cão! 
O Quim falava sem olhar para mim. 
O Faruk veio buscar a Ponto 22 de Um Tiro, que me tinha caído das mãos quando disparei, e voltou para o lugar dele. 
— Então, Ginho, estás com cagaço ou quê? 
—Não, Quim, não estou com cagaço, nem nada... Estou só a pensar... 
— Pensas depois. Agora vai tirar a gaja do cão. — O Quim falava sem olhar para mim, só a malta é que não tirava os olhos de cima de mim, para ver se eu tinha cagaço ou não. 
— Anda lá depressa, que já está escuro... O Senhor Duarte disse para despacharmos o cão num instante... 
A Isaura gemia e olhava para a malta com os olhos todos de fora. Fui andando para onde a Isaura e o Cão-Tinhoso estavam, e ela, quando me via a ir para lá, gemia cada vez mais de alto. 
— Isaura, sai daí... 
— Tira a gaja, não vês que ela não quer sair?... 
— Isaura... A gente quer fazer o que nos mandaram  fazer... Sai daí... 
— Mas que burro que ele é!... Arranca a tipa, não ouves? 
Agarrei-a por debaixo dos braços e ela sacudiu-se toda para que eu a deixasse. Fiz mais força mas ela dobrava as pernas e não ficava de pé. Mas já não lutava como no princípio e só gritava como se eu lhe estivesse a bater. 
— Isaura, não vês que foi o Senhor Duarte que mandou? 
— O Xangai também queria explicar aquilo à Isaura. 
Puxei-a devagarinho e ela largou o pescoço do Cão--Tínhoso, que ficou a olhar para ela e a ganir com a boca fechada como ainda há pouco. 
— Isaura... 
O Quim estava em cima da pedra e toda a malta apontava as espingardas para o cão. 
— Isaura... — Eu queria dizer-lhe qualquer coisa mas não sabia o quê. 
— Ummmm... — O Quim começou a contar. 
Todos haviam de atirar ao mesmo tempo e por isso as balas não haviam de ser muito custosas para o Cão-Tinhoso. 
Ele estava ainda a pensar em qualquer coisa e já estava morto. 
— Isaura... O Cão-Tinhoso deve já ter visto que os outros cães não querem brincar com ele... Ninguém gosta dele... Eu nunca vi ninguém a passar-lhe a mão pelas costas como se faz com os outros cães... 
— Dooooooiiiis... (O Quim levou um tempo enorme a dizer dois). 
— Ele deve saber que é melhor morrer do que aturar aquilo tudo, os miúdos de primeira classe a atirar-lhe pedras e a fazer rodinhas para lhe chamar Cão-Tinhoso, a Senhora Professora a dizer-lhe suca e o Senhor Administrador a mandar o Doutor da Veterinária matá-lo por ele ter feridas por causa da bomba atómica... 
— liiiii... 
A Isaura gemia e estava toda mole, a não querer andar e com os olhos todos saídos a olhar o Cão-Tinhoso. Eu também tinha pena de ver o Cão-Tinhoso a morrer, mas não adiantava nada levá-lo para casa e tratar-lhe as feridas e fazer uma casinha para ele dormir, porque ele era capaz de não gostar disso. Eu sabia que ele já sabia de muitas coisas para só querer o que qualquer cão podia ter. O Cão-Tinhoso devia estar à espera de qualquer coisa diferente do que os outros cães costumam ter, sempre com os olhos azuis a olhar, mas tão grandes que parecia uma pessoa a pedir qualquer coisa sem querer dizer. E mesmo quando olhava para os outros cães, para as árvores, para os carros a passar, para as galinhas do Senhor Professor a debicar no chão por entre as patas dele, para os miúdos de primeira classe a jogar berlindes ou outra coisa qualquer, para o Senhor Administrador e para os outros a jogar à sueca na varanda do Clube 
aos sábados à tarde, para o Quim a contar coisas na loja do Sá, para a Isaura a dar-lhe o lanche e a falar com ele, sempre quando olhava, estava a pedir qualquer coisa que eu não entendia mas que não devia ser só para lhe tratarem as feridas, para lhe darem de comer ou para lhe fazerem uma casinha. 
— TRÊS! 
Ficou tudo parado e até a Isaura calou-se e ficou dura. 
— Atirem, porra! 
— Isaura... — Eu queria dizer-te qualquer coisa, queria dizer-te tudo o que estava a pensar. 
— Poça, ninguém atira? 
— Hum?... — A Isaura olhava para mim com aqueles olhos todos. 
— A gente não pode dar nada ao Cão-Tinhoso... A gente não sabe o que ele quer. Palavra que a gente não sabe... 
A Isaura ficou a olhar para mim sem ter compreendido, porque eu falei muito depressa. 
— Eu vou contar outra vez até três, mas ai do gajo que não atirar!... 
— Isaura!... 
—  Um... Dói... zi... Três!... 
Logo ao primeiro tiro a Isaura agarrou-se-me de tal maneira que caímos, e eu fiquei com tanto medo que lhe gritei: «Tapa-me os ouvidos!» Ela meteu-se toda no meu peito e procurou-me as orelhas com as mãos. Os tiros rebentavam por todos os lados e mesmo com os olhos fechados eu via fogo a saltar dos canos das espingardas. O corpo da Isaura estava duro e estremecia a cada esteiro. 
Os tiros rebentavam sem parar, mas quando a Calibre 12 de Dois Canos do Quim disparava, o chão tremia e as árvores faziam «Haa!..,» até ao longe. O cão já devia estar morto mas eles continuaram a atirar. Sentia o ar quente como o corpo da Isaura e tinha a boca cheia de pólvora, e isso dava--me uma danada vontade de tossir, mas não conseguia fazer isso porque estava cheio de medo do assobiar das balas que passavam por cima de nós; é que esse assobiar só acabava noutro esteiro, que também não tinha eco porque mesmo antes de a bala acabar de assobiar o mato rebentava com outro estoiro. 
Os tiros acabaram de repente e a Isaura ficou como morta, por cima de mim, mas muito rija. Quando ia a sacudi-la, vi por entre o capim o Quim a meter um cartucho na câmara e a fechá-la. O mato todo estava ainda cheio do barulho dos tiros a afastar-se de nós, quando do buraco escuro do cano da Calibre 12 brilhou um fogo rápido e quase branco e ao mesmo tempo se ouviu o esteiro. A Isaura deu um berro com toda a força e voltou a enfiar-se pelo meu corpo. 
Depois, ao mesmo tempo que o estoiro ia rebentando pelo mato fora, cada vez mais longe, ouviam-se outra voz os gemidos da Isaura. Eu sentia a barriga dela muito quente e suada, toda colada à minha. 
— Chega, malta, vamos embora — O Quim estava mais rouco do que ainda há bocado. A nossa volta o capim fazia «fff-fff» quando eles andavam. 
— Ó pá, quando mandei o SG, o tipo comeu em cheio no peito... Eu vi-o levantar-se todo do chão e a enterrar-se todo no capim... Ainda ressaltou como se fosse de borracha, vocês não viram? 
— Eu acertei-lhe no olho esquerdo quando o tipo ainda estava de pé. O focinho até lhe ficou todo para o lado com a força da bala... 
—  ...  E depois meti dois 3As e mandei-os quase ao mes-mo tempo para os cornos do gajo. O tipo deve ter ficado com a cabeça toda rebentada... 
—  Ó pá, tu com o SG mataste-o logo... A gente atirou para um alvo já morto... 
— E depois? O que é que tens com isso?... Eu atiro com o que bem me apetece... 
A Isaura gemia para mim e chorava baixinho, sem lhe saírem lágrimas dos olhos. O cabelo dela estava cheio de capim mas só cheirava à pólvora quando se me metia pelo nariz adentro. 
— Isaura... 
A barriga dela ficou dura, toda colada à minha. 
— Vamos embora... 
As unhas dela furavam-me o pescoço, mas eu gostava e não me mexia. 
— Isaura... 
A cara dela estava quente como a barriga. 
— Eu só gostava de saber o que é que aqueles dois estão para ali a fazer escondidos no capim há uma data de tempo... 
— Foi o Quim. 
A Isaura levantou-se logo e pôs-se a compor o vestido, toda envergonhada. Depois olhou para mim e fugiu para as árvores. Durante algum tempo ainda ouvimos o barulho do vestido dela a rasgar-se pelas micaias, mas depois ficou tudo em silêncio. 
—    Vamos embora!... 
O Quim veio ter comigo no intervalo do lanche. Eu vi que era ele mesmo sem deixar de olhar para os cães a brincar do outro lado da estrada. 
— Ginho... 
—Diz. 
— Isto é uma chatice... 
—É... 
Sentou-se nas escadas ao pé do mim e ficou também a olhar para os cães. 
— Eles não queriam brincar com o Cão-Tínhoso — apontava para eles — eles não queriam brincar com o Cão-Tinhoso !... 
Falava com muita força e espalhava os braços para todos os lados. — Foste tu que me contaste isso, não foste?... 
Os sapatos da Senhora Professora faziam «cóc, cóc, cóc», atrás de nós, mas como eu estava a conversar com o Quim e a olhar para outra coisa, não precisava de me levantar. 
— Sabes?... A Isaura foi dizer ao pai que nós... 
— O quê?                 
— Ela pediu ao pai para nos bater... 
— Bater?... Porquê? 
— Porque nós matamos, o Cão-Tinhoso !... 
E ria-se com força, todo torcido. — Não é tramada? E esta, heim?... Bater-nos porque nós matamos o Cão-Tinhoso !... 
Depois calou-se. Aí falou a Senhora Professora: 
— Meninos,   para a aula! 
— Ginho... Tu passas-me a prova?  — O Quim abraçou-me pelos ombros. — Deixas-me 
copiar?... 
— Está bem. 



— Ginho... Tu estás zangado comigo? A gente não devia ter liquidado o cão?... Foi o Senhor Duarte que mandou... Tu também estavas lá... 
— Eu não estou zangado nem nada... 
— Então passas-me os problemas?... Passas-me?.,. Eu faço-te o desenho... 
— Está bem. 
— Meninos! Para a aula! Para a aula, já disse! 
E fomos para a aula. 

FIM