Neste mês de junho tive duas experiências das quais gostaria de comentar neste espaço. A primeira veio com um passeio que fiz a tradicional festa do tapete de corpus Christi em Itapecerica da serra. Nada de muito diferente que os anos anteriores, ruas enfeitadas, balões, helicópteros com vôos rasantes, idosos e crianças comendo algodão doce, e um padre sabichão dono de uma verdade absoluta na cidade. Inquestionável.
Bem, isso não é novidade, mas o que me chamou a atenção foi o fato de São Pedro ter contribuído neste ano, fazendo com que o céu ficasse livre o dia todo. Na festa de Corpus Cristhi 2010 não choveu legal isso né. Mas o que tem de tão importante nisso? A preservação das belíssimas imagens construídas ao longo da madrugada fria que antecede o evento. Quero aqui parabenizar aos artistas, alunos e voluntários que fazem desse espetáculo um evento de muito orgulho de nossa cidade. No entanto, os elogios param por aqui.
Enquanto passeava entre os quase 2 km de tapete, pude observar diversas expressões de um mesmo cristo. O cristo que se alternava entre o olhar das crianças, dos jovens, dos bêbados, dos velhos, dos incrédulos, dos ateus, do padre... Um Cristo mitificado por anos e anos de festas religiosas.
A igreja promoveu muito bem sua imagem, e ainda a promove. O papel da igreja tem sido muito bem cumprido. Quase não se questiona a veracidade desses marqueteiros romanos. A tríade do marketing cristão está nos símbolos Cristo, Cruz e Remição. Mais que a trindade essa simbologia nos mostra como funciona a engenharia do marketing cristão, que promove guerras, misérias e o controle cruel das riquezas terrenas. Claro, sempre oferecendo riquezas celestiais para compensar. Mas isso são apenas observações, não vou me aprofundar mais nesse assunto, até porque este não é o espaço ideal.
Essa reflexão sobre as imagens, a igreja e aquele povo pobre que vi naquelas ruas me fez lembrar outro CCR, mas este muito mais moderno, bonito e com claro intuito de trazer Roma para mais perto de nós. O CCR da Companhia de Concessões Rodoviárias.
Já não bastasse este conglomerado capitalista reinar absoluto por nossas rodovias, eis que em junho, ele mostrou seu novo empreendimento inaugurando 1/10 do que será a linha 4 do metro.
- Que beleza! O trem não tem maquinista e nos leva em 2 minutos de pinheiros à Paulista.
Confesso que também fiquei impressionado com a tecnologia emprenhada na obra, mas porque eu deveria ficar impressionado se esta é a empresa que mais lucra, nos ultimos 5 anos, no Brasil? Se esta é a junção das maiores construtoras do país com uma líder no ramo em Portugal e que não investiu um décimo do que sua concessão está prevendo de lucro em 4 anos?
Pois é, nesse caso acho que de CCR estamos bem servidos. Enquanto a igreja explora os pobres com seu CCR ideológico, extorquindo o pouco que resta dessa miserável massa de “ lunáticos corrompíveis” a outra CCR enche os bolsos com suas estradas, revisões veiculares e transporte público.
O mês de Junho, com a COPA do MUNDO, tem muito que se orgulhar desse Brasil Pentacampeão de Futebol. Porquê só isso nos orgulha. O resto nos envegonha.
A luminosidade e o colorido do tapete de corpus Cristhi na festa de Cristo, Cruz e Redenção, abraça-se e nos leva para a escuridão do túnel cavado sob a Av Rebouças na consseção da outra CCR.
A última entrevista de José Mindlin
Caros leitores amigos
Desde o início de 2009 penso em publicar algo sobre José Mindlin. Esta figura elevada que tive o prazer de conhecer em dezembro de 2007. Na ocasião, uma mesa redonda com Antonio Candido e Boris Schnaiderman, pouco se ouvia daquele senhor sorridente e instrospecto que demonstrava a arte de ouvir com uma elegância palpável no momento em que o mesmo exibia o que acabará de aprender. Aprendi com José Mindlin, naquela tarde, o quanto se pode aprender quando todos esperam tudo de você e você não os dá o que querem. Você recolhe o momento, processa as inquietações alheias e as devolve com a levesa de um mestre. Isso, José Mindlin era um verdadeiro mestre. Talvez os anos em sua biblioteca, os ultimos sem Dona Guita, e aimortalidade da academia o ensinaram o quanto é importante vivermos a mortalidade do tempo. Assim, para mostrar o quanto imortal foi o mestre que se revelou no silêncio, gostaria de reproduzir aqui sua ultima entrevista, que fora publicada na revista Cultura ( edição de Janeiro ) concedida um mês antes de sua despedida. A entrevista de um empresário e bibliófilo que se tornou um mito no universo literário brasileiro.
José Mindlin - A última entrevista
Nascido em São Paulo em 1914, filho de imigrantes russos, José Mindlin ainda menino apaixonou-se pelos livros. Muito jovem, frequentava os sebos do centro de São Paulo e acabou por achar um jeito de comprar os livros sem pedir dinheiro aos pais. “Verifiquei que os livreiros dos sebos não estavam atentos ao que os outros faziam. Alguns vendiam por 5 ou 10 mil réis o que outros vendiam por 20, 30 e até 50 mil réis! Por sua vez, esses vendiam por 5 o que os primeiros vendiam por 30, 40.” Rapidamente, viu ali a chance de incrementar sua biblioteca. “Comprava o livro dos sebos mais baratos e levava para o outro, o dos livros caros, e dizia: ‘Vou deixar em consignação e não quero ver dinheiro. Tire sua comissão e me credite o produto.’” Depois de poucos meses, o garoto tinha crédito em todos os sebos. “Eu comprava sem desembolsar nada”, fala divertindo-se. Assim começa a história do mais respeitado bibliófilo do país. Sua biblioteca tem cerca de 40 mil títulos e a Brasiliana, coleção de livros sobre o Brasil e de literatura brasileira, chega a 25 mil títulos e foi doada à Universidade de São Paulo (USP ) em 2005. Livros, leitura, literatura brasileira e estrangeira, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Machado de Assis, Marcel Proust, Eça de Queirós e Guita, sua mulher e companheira por quase 70 anos – paixões que florescem em cada frase, em cada gesto, em cada canto da casa e da biblioteca. Na garimpagem, o desafio e a alegria de encontrar o objeto do desejo. Na leitura, o encontro sincero e real com o prazer. Esse é José Mindlin.
Sua história de vida confunde-se com os livros – desde a infância, sempre com eles, com histórias contadas dentro de casa. Como foi o início dessa paixão?
Eu quase poderia dizer que nasci com o livro na mão, porque cresci em um ambiente cultural: meus pais liam, meus irmãos mais velhos também e o ambiente era de amor à leitura. Isso, naturalmente, me contagiou desde cedo. E, quando isso acontece, a pessoa tem de se conformar, porque vai continuar pelo resto da vida. Aliás, é o modo de dizer, porque acho que isso é uma bênção, ter esse gosto pela leitura. Quando falo sobre esse assunto, sempre digo que se trata de paixão incurável. Em geral, as boas paixões são incuráveis. E a leitura nem se discute, é um benefício para a vida.
Na sua casa, com seus irmãos e seus pais, vocês liam entre vocês?
Líamos, sim. Eu lia para mamãe. Devia ter uns 12 anos e estava lendo Júlio Verne e gostando muito. A mamãe teve uma paciência evangélica de ouvir toda a leitura, mas os trechos mais cacetes eu pulava. De modo que, no fundo, foi uma coisa ótima.
O senhor começou muito cedo, com 12 ou 13 anos. Qual foi o primeiro livro raro que comprou?
Aos 13 anos, comprei o primeiro livro raro em sebo. Era uma tradução portuguesa de Discurso sobre a história universal, de Jacques Bossuet, publicada em Coimbra em 1740. Como menino, fiquei fascinado pela antiguidade, depois aprendi que a data de edição é um fator secundário de avaliação. Há muito livro moderno que é mais raro e mais importante do que muito livro do século 16.
Como surgiu a ideia de formar uma biblioteca?
Ela não foi planejada, fui comprando livros de acordo com as leituras que me interessavam. Com certa precocidade, perto dos 12 anos, comecei a ir ao centro, que a gente chamava de “cidade”, e as livrarias se concentravam ali. Eu não tinha uma verba para a compra de livros e, às vezes, aparecia um que me interessava muito e pedia aos meus pais. Eles me facilitavam a compra. Eu tinha certa retaguarda, porque eles viam o meu interesse pela leitura com muito bom gosto. Mas por vezes eu precisava fazer uma ginástica, precisava me entender com os livreiros, estabelecer uma relação com eles que, aliás, me olhavam com simpatia. Eu era um menino de calças curtas! E, assim, começou a se formar a biblioteca. E ela tem uma vantagem, pois não tem fim e eu, com a idade em que estou, 95 anos, posso verificar que isso é uma verdade.
O senhor nasceu em São Paulo, em que bairro?
Nasci no Paraíso e minha mulher também. Infelizmente, eu a perdi em junho de 2007. Não éramos vizinhos, a casa dela era na 13 de maio, mas com saída para a Cincinato Braga, que foi a rua onde nasci. Mas só a conheci muitos anos mais tarde.
Como conheceu sua esposa, Dona Guita?
Eu estava começando o quinto ano da faculdade de direito e, um dia, vi no pátio uma caloura cercada de rapazes cabalando para que entrasse em um dos partidos acadêmicos: o Libertador, o Renovador, partidos de estudantes. Eu olhei pra moça e disse: ‘Olha, tudo isso é bobagem, se você quer um bom partido, está aqui’. E ela me pegou pela palavra e tivemos quase 70 anos de convivência. Eu sou de 1914 e ela era de 1916. Dali estabeleceu-se uma relação que teve, a meu ver, as melhores consequências. Casamos em 1938 e isso durou até a morte dela, 68 anos depois.
Dona Guita foi sua companheira de tantos anos...
Companheira em todos os sentidos, em todas as áreas, desde o namoro até depois do casamento, e a leitura foi um interesse central de nossa vida.
Qual a participação dela na formação da biblioteca?
Ela lia, assim como eu, constantemente e, além das coisas mais simples, quando se tratava de obras raras, por exemplo, que poderiam comprometer o orçamento doméstico, ela sempre foi uma apologista da aquisição. Me encorajava a fazer extravagâncias que eu hesitava em cometer. Ela estudou encadernação, conservação e restauro de papel e de obras, apesar de que não tínhamos muitos casos de aplicação dessas medidas, porque sempre procurei adquirir obras em bom estado, mas foi realmente uma parceira.
Em sua casa, o senhor lia com sua esposa e seus filhos?
Sim, eu e Guita líamos um para o outro, isso fazia parte da nossa vida. O gostoso é que os filhos também têm essa paixão, cada um a seu modo. O que se lê varia, mas todos gostam muito. Eu sempre acreditei que a leitura fosse uma fonte de prazer e a escolha tem de ser livre. A gente pode, quando muito, orientar, dar certo palpite, mas são eles que têm de desenvolver o próprio gosto. E nós conseguimos.
Todos os filhos gostam também?
Gostam muito. Nós temos quatro filhos, mas, na época em que eram três ainda, as meninas eram as mais velhas e sempre ouviam os elogios pelo interesse que tinham pela leitura. O caçula, que era o menino, enjoou de ouvir tanto elogio para as irmãs e um dia teve uma explosão, dizendo: ‘Eu também gosto de ler, só que eu não sei!’ Foi muito divertido.
Qual é a sensação de encontrar um livro raro, muito desejado?
O coração bate mais forte. O prazer da garimpagem é muito grande, descrever essa sensação não é fácil, mas dizer isso já dá uma ideia do que representava para mim. A gente procura coisas e, às vezes, vê um livro que a gente não conhecia, mas que desperta interesse. São os dois prazeres que a garimpagem proporciona: encontrar o que a gente procura e despertar interesse por coisas que não eram conhecidas.
Como selecionar esse ou aquele livro?
Diria que tenho um sexto sentido. Eu pego um livro e ele desperta o meu interesse ou não desperta. Em geral, o bom livro sempre desperta o meu interesse. Eu não gosto de ler, até hoje, livros muito difíceis; quando isso acontece, acabo deixando pra mais tarde. Mas há exceções, aqueles que temos de ler, mesmo achando difíceis. O hábito da leitura é tão forte que automaticamente folheio um pouco o livro e já sei se ele vai me interessar. É como o namoro.
Existe uma paixão?
Existe e, às vezes, a gente nem sabe explicar. Uma vez, em Londres, eu queria comprar uma edição de Rabelais [François] do século 16 e o livreiro me mostrou um exemplar de 1558. Eu peguei no livro, olhei, folheei e disse a ele: ‘Posso fazer uma observação?’, ele disse que sim e eu falei: ‘A meu ver, esse livro não é o do século 16 e sim do século 17, antedatado’. E ele perguntou: ‘Mas por que o senhor diz isso?’ Eu disse: ‘Não sei, é uma sensação, o toque, o papel, o tipo’. Fomos ver a biografia de Rabelais e, de fato, era uma edição do século 17 com a data de 1558. Ele não se convenceu de que eu não era especialista em Rabelais. Foi exatamente um caso de sexto sentido. Era muito parecido, não tenho explicação, mas eu sabia. É como ver uma imagem religiosa do século 18 e uma imitação bem feita, moderna. É questão de conhecer, mas sempre tem o sexto sentido.
Quais são os seus livros de cabeceira?
Tem uma pilha e eu gosto de ler do começo ao fim, mas hoje, com meu problema de visão, tenho dificuldade, alguém precisa ler pra mim, mas quando eu tinha facilidade, fazia isso com muita rapidez, em geral lia uns dois livros por semana, oito ou dez por mês.
O senhor gosta de reler livros?
Quais os livros que mais releu?
Os livros são muito ciumentos e eu não posso falar em preferências, porque vou ter problemas com eles.
Dos escritores brasileiros, qual o senhor prefere?
Machado de Assis é o topo da literatura brasileira, mas temos a sorte de ter muitos bons escritores. O Erico [Verissimo] é outro, mas são muitos...
Como incentivar o hábito da leitura?
Quem não lê, não sabe o prazer que perde. Hoje em dia, está se fazendo um esforço para disseminar o gosto pela leitura. O ideal é começar em casa, o exemplo dos pais é a melhor orientação. É claro que existem muitos casos em que os pais não leem, então esse papel de estimular a leitura passa a ser da escola. Mas a escola costumava, e ainda costuma em alguns casos, apontar a leitura como uma obrigação. Acho isso um erro. A leitura deve ser apontada, não só como fonte de conhecimento, mas principalmente como fonte de prazer. Eu sempre fui a favor de criar o gosto, e não transmitir a sensação de obrigação, ninguém gosta de fazer nada obrigado.
São atos simples que estimulam o gosto pela leitura?
São, sim. Dentro de casa, os pais lendo para os filhos – minha mãe lia pra mim, depois eu lia pra ela, que tinha uma paciência extraordinária. A coisa é simples. Eu lia muito para os meus filhos e todos têm o gosto pela leitura, começou a fazer parte da natureza deles, como fazia parte da nossa: da minha mulher e da minha.
O que o senhor considera mais inusitado em sua biblioteca, algo que desperta um carinho especial?
Gosto muito de manuscritos, porque você pode acompanhar o processo de criação literária. Muitos são datilografados, mas você tem as correções que o autor fez manualmente. Os originais são difíceis de se ter, de se conseguir, mas, curiosamente, os livros se encaminham para aqueles que têm o real interesse pela leitura. Mas tem muita coisa e aqui também entra a questão do ciúme. Mas dos livros sobre o Brasil, temos as primeiras edições do século 16, dos primeiros viajantes que aqui estiveram. Do período holandês, temos os livros que foram publicados na época. De literatura brasileira, temos várias primeiras edições dos séculos 17 e 19, muitos exemplares autografados e também temos originais de livros da era pré-computador, em que os escritores escreviam a mão ou a máquina e faziam correções a mão e a gente fica conhecendo o processo de criação literária. Temos originais do Guimarães Rosa, do Graciliano Ramos, do José Lins do Rego e do Erico Verissimo.
As Brasilianas foram doadas à Universidade de São Paulo. O que o senhor espera dessa biblioteca?
Ela tem de ser viva! Nós doamos a Brasiliana completa, em torno de 25 mil volumes, mesmo coisas raras e de muita estima, que é mais ou menos metade da biblioteca. Afinal, a gente passa, mas os livros ficam. Fizemos a doação com determinadas condições. A USP está construindo um prédio para receber a biblioteca, que não vai se misturar às outras bibliotecas da universidade, e a ideia é que seja uma biblioteca viva, que cresça, que promova seminários, edições, debates.
O senhor escreveu alguns livros, como Cartas da Biblioteca Guita e José Mindlin (2008), Uma vida entre livros (2008) e No mundo dos livros (2009), entre outros. Como foi passar de leitor a escritor?
Escritor seria uma forma meio pretensiosa de dizer, mas escrever é muito gostoso. Comecei a ler muito cedo e com 16 estava na redação de O Estado de S. Paulo. Eu era o mais moço, entrei em maio e fiz 16 em setembro. O pessoal da redação via isso com simpatia, todos eram mais velhos e compartilhavam do meu interesse. Hoje, como não consigo ler, passei a escrever, porque isso eu consigo. Foi uma boa solução.
O Vírus do Amor ao livro!!!
FV
(entrevista concedida à Cássia Fragata)
Video Fapesp
Desde o início de 2009 penso em publicar algo sobre José Mindlin. Esta figura elevada que tive o prazer de conhecer em dezembro de 2007. Na ocasião, uma mesa redonda com Antonio Candido e Boris Schnaiderman, pouco se ouvia daquele senhor sorridente e instrospecto que demonstrava a arte de ouvir com uma elegância palpável no momento em que o mesmo exibia o que acabará de aprender. Aprendi com José Mindlin, naquela tarde, o quanto se pode aprender quando todos esperam tudo de você e você não os dá o que querem. Você recolhe o momento, processa as inquietações alheias e as devolve com a levesa de um mestre. Isso, José Mindlin era um verdadeiro mestre. Talvez os anos em sua biblioteca, os ultimos sem Dona Guita, e aimortalidade da academia o ensinaram o quanto é importante vivermos a mortalidade do tempo. Assim, para mostrar o quanto imortal foi o mestre que se revelou no silêncio, gostaria de reproduzir aqui sua ultima entrevista, que fora publicada na revista Cultura ( edição de Janeiro ) concedida um mês antes de sua despedida. A entrevista de um empresário e bibliófilo que se tornou um mito no universo literário brasileiro.
José Mindlin - A última entrevista
Nascido em São Paulo em 1914, filho de imigrantes russos, José Mindlin ainda menino apaixonou-se pelos livros. Muito jovem, frequentava os sebos do centro de São Paulo e acabou por achar um jeito de comprar os livros sem pedir dinheiro aos pais. “Verifiquei que os livreiros dos sebos não estavam atentos ao que os outros faziam. Alguns vendiam por 5 ou 10 mil réis o que outros vendiam por 20, 30 e até 50 mil réis! Por sua vez, esses vendiam por 5 o que os primeiros vendiam por 30, 40.” Rapidamente, viu ali a chance de incrementar sua biblioteca. “Comprava o livro dos sebos mais baratos e levava para o outro, o dos livros caros, e dizia: ‘Vou deixar em consignação e não quero ver dinheiro. Tire sua comissão e me credite o produto.’” Depois de poucos meses, o garoto tinha crédito em todos os sebos. “Eu comprava sem desembolsar nada”, fala divertindo-se. Assim começa a história do mais respeitado bibliófilo do país. Sua biblioteca tem cerca de 40 mil títulos e a Brasiliana, coleção de livros sobre o Brasil e de literatura brasileira, chega a 25 mil títulos e foi doada à Universidade de São Paulo (USP ) em 2005. Livros, leitura, literatura brasileira e estrangeira, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Machado de Assis, Marcel Proust, Eça de Queirós e Guita, sua mulher e companheira por quase 70 anos – paixões que florescem em cada frase, em cada gesto, em cada canto da casa e da biblioteca. Na garimpagem, o desafio e a alegria de encontrar o objeto do desejo. Na leitura, o encontro sincero e real com o prazer. Esse é José Mindlin.
Sua história de vida confunde-se com os livros – desde a infância, sempre com eles, com histórias contadas dentro de casa. Como foi o início dessa paixão?
Eu quase poderia dizer que nasci com o livro na mão, porque cresci em um ambiente cultural: meus pais liam, meus irmãos mais velhos também e o ambiente era de amor à leitura. Isso, naturalmente, me contagiou desde cedo. E, quando isso acontece, a pessoa tem de se conformar, porque vai continuar pelo resto da vida. Aliás, é o modo de dizer, porque acho que isso é uma bênção, ter esse gosto pela leitura. Quando falo sobre esse assunto, sempre digo que se trata de paixão incurável. Em geral, as boas paixões são incuráveis. E a leitura nem se discute, é um benefício para a vida.
Na sua casa, com seus irmãos e seus pais, vocês liam entre vocês?
Líamos, sim. Eu lia para mamãe. Devia ter uns 12 anos e estava lendo Júlio Verne e gostando muito. A mamãe teve uma paciência evangélica de ouvir toda a leitura, mas os trechos mais cacetes eu pulava. De modo que, no fundo, foi uma coisa ótima.
O senhor começou muito cedo, com 12 ou 13 anos. Qual foi o primeiro livro raro que comprou?
Aos 13 anos, comprei o primeiro livro raro em sebo. Era uma tradução portuguesa de Discurso sobre a história universal, de Jacques Bossuet, publicada em Coimbra em 1740. Como menino, fiquei fascinado pela antiguidade, depois aprendi que a data de edição é um fator secundário de avaliação. Há muito livro moderno que é mais raro e mais importante do que muito livro do século 16.
Como surgiu a ideia de formar uma biblioteca?
Ela não foi planejada, fui comprando livros de acordo com as leituras que me interessavam. Com certa precocidade, perto dos 12 anos, comecei a ir ao centro, que a gente chamava de “cidade”, e as livrarias se concentravam ali. Eu não tinha uma verba para a compra de livros e, às vezes, aparecia um que me interessava muito e pedia aos meus pais. Eles me facilitavam a compra. Eu tinha certa retaguarda, porque eles viam o meu interesse pela leitura com muito bom gosto. Mas por vezes eu precisava fazer uma ginástica, precisava me entender com os livreiros, estabelecer uma relação com eles que, aliás, me olhavam com simpatia. Eu era um menino de calças curtas! E, assim, começou a se formar a biblioteca. E ela tem uma vantagem, pois não tem fim e eu, com a idade em que estou, 95 anos, posso verificar que isso é uma verdade.
O senhor nasceu em São Paulo, em que bairro?
Nasci no Paraíso e minha mulher também. Infelizmente, eu a perdi em junho de 2007. Não éramos vizinhos, a casa dela era na 13 de maio, mas com saída para a Cincinato Braga, que foi a rua onde nasci. Mas só a conheci muitos anos mais tarde.
Como conheceu sua esposa, Dona Guita?
Eu estava começando o quinto ano da faculdade de direito e, um dia, vi no pátio uma caloura cercada de rapazes cabalando para que entrasse em um dos partidos acadêmicos: o Libertador, o Renovador, partidos de estudantes. Eu olhei pra moça e disse: ‘Olha, tudo isso é bobagem, se você quer um bom partido, está aqui’. E ela me pegou pela palavra e tivemos quase 70 anos de convivência. Eu sou de 1914 e ela era de 1916. Dali estabeleceu-se uma relação que teve, a meu ver, as melhores consequências. Casamos em 1938 e isso durou até a morte dela, 68 anos depois.
Dona Guita foi sua companheira de tantos anos...
Companheira em todos os sentidos, em todas as áreas, desde o namoro até depois do casamento, e a leitura foi um interesse central de nossa vida.
Qual a participação dela na formação da biblioteca?
Ela lia, assim como eu, constantemente e, além das coisas mais simples, quando se tratava de obras raras, por exemplo, que poderiam comprometer o orçamento doméstico, ela sempre foi uma apologista da aquisição. Me encorajava a fazer extravagâncias que eu hesitava em cometer. Ela estudou encadernação, conservação e restauro de papel e de obras, apesar de que não tínhamos muitos casos de aplicação dessas medidas, porque sempre procurei adquirir obras em bom estado, mas foi realmente uma parceira.
Em sua casa, o senhor lia com sua esposa e seus filhos?
Sim, eu e Guita líamos um para o outro, isso fazia parte da nossa vida. O gostoso é que os filhos também têm essa paixão, cada um a seu modo. O que se lê varia, mas todos gostam muito. Eu sempre acreditei que a leitura fosse uma fonte de prazer e a escolha tem de ser livre. A gente pode, quando muito, orientar, dar certo palpite, mas são eles que têm de desenvolver o próprio gosto. E nós conseguimos.
Todos os filhos gostam também?
Gostam muito. Nós temos quatro filhos, mas, na época em que eram três ainda, as meninas eram as mais velhas e sempre ouviam os elogios pelo interesse que tinham pela leitura. O caçula, que era o menino, enjoou de ouvir tanto elogio para as irmãs e um dia teve uma explosão, dizendo: ‘Eu também gosto de ler, só que eu não sei!’ Foi muito divertido.
Qual é a sensação de encontrar um livro raro, muito desejado?
O coração bate mais forte. O prazer da garimpagem é muito grande, descrever essa sensação não é fácil, mas dizer isso já dá uma ideia do que representava para mim. A gente procura coisas e, às vezes, vê um livro que a gente não conhecia, mas que desperta interesse. São os dois prazeres que a garimpagem proporciona: encontrar o que a gente procura e despertar interesse por coisas que não eram conhecidas.
Como selecionar esse ou aquele livro?
Diria que tenho um sexto sentido. Eu pego um livro e ele desperta o meu interesse ou não desperta. Em geral, o bom livro sempre desperta o meu interesse. Eu não gosto de ler, até hoje, livros muito difíceis; quando isso acontece, acabo deixando pra mais tarde. Mas há exceções, aqueles que temos de ler, mesmo achando difíceis. O hábito da leitura é tão forte que automaticamente folheio um pouco o livro e já sei se ele vai me interessar. É como o namoro.
Existe uma paixão?
Existe e, às vezes, a gente nem sabe explicar. Uma vez, em Londres, eu queria comprar uma edição de Rabelais [François] do século 16 e o livreiro me mostrou um exemplar de 1558. Eu peguei no livro, olhei, folheei e disse a ele: ‘Posso fazer uma observação?’, ele disse que sim e eu falei: ‘A meu ver, esse livro não é o do século 16 e sim do século 17, antedatado’. E ele perguntou: ‘Mas por que o senhor diz isso?’ Eu disse: ‘Não sei, é uma sensação, o toque, o papel, o tipo’. Fomos ver a biografia de Rabelais e, de fato, era uma edição do século 17 com a data de 1558. Ele não se convenceu de que eu não era especialista em Rabelais. Foi exatamente um caso de sexto sentido. Era muito parecido, não tenho explicação, mas eu sabia. É como ver uma imagem religiosa do século 18 e uma imitação bem feita, moderna. É questão de conhecer, mas sempre tem o sexto sentido.
Quais são os seus livros de cabeceira?
Tem uma pilha e eu gosto de ler do começo ao fim, mas hoje, com meu problema de visão, tenho dificuldade, alguém precisa ler pra mim, mas quando eu tinha facilidade, fazia isso com muita rapidez, em geral lia uns dois livros por semana, oito ou dez por mês.
O senhor gosta de reler livros?
Acho a releitura uma fonte de prazer real, porque você vê coisas que escaparam na primeira leitura e o livro começa a fazer parte da sua vida.
Quais os livros que mais releu?
Em matéria de livros brasileiros, as obras de Machado de Assis e Guimarães Rosa, e a obra de Proust [Marcel], da literatura estrangeira.
Qual o livro preferido? Os livros são muito ciumentos e eu não posso falar em preferências, porque vou ter problemas com eles.
Dos escritores brasileiros, qual o senhor prefere?
Machado de Assis é o topo da literatura brasileira, mas temos a sorte de ter muitos bons escritores. O Erico [Verissimo] é outro, mas são muitos...
Como incentivar o hábito da leitura?
Quem não lê, não sabe o prazer que perde. Hoje em dia, está se fazendo um esforço para disseminar o gosto pela leitura. O ideal é começar em casa, o exemplo dos pais é a melhor orientação. É claro que existem muitos casos em que os pais não leem, então esse papel de estimular a leitura passa a ser da escola. Mas a escola costumava, e ainda costuma em alguns casos, apontar a leitura como uma obrigação. Acho isso um erro. A leitura deve ser apontada, não só como fonte de conhecimento, mas principalmente como fonte de prazer. Eu sempre fui a favor de criar o gosto, e não transmitir a sensação de obrigação, ninguém gosta de fazer nada obrigado.
São atos simples que estimulam o gosto pela leitura?
São, sim. Dentro de casa, os pais lendo para os filhos – minha mãe lia pra mim, depois eu lia pra ela, que tinha uma paciência extraordinária. A coisa é simples. Eu lia muito para os meus filhos e todos têm o gosto pela leitura, começou a fazer parte da natureza deles, como fazia parte da nossa: da minha mulher e da minha.
O que o senhor considera mais inusitado em sua biblioteca, algo que desperta um carinho especial?
Gosto muito de manuscritos, porque você pode acompanhar o processo de criação literária. Muitos são datilografados, mas você tem as correções que o autor fez manualmente. Os originais são difíceis de se ter, de se conseguir, mas, curiosamente, os livros se encaminham para aqueles que têm o real interesse pela leitura. Mas tem muita coisa e aqui também entra a questão do ciúme. Mas dos livros sobre o Brasil, temos as primeiras edições do século 16, dos primeiros viajantes que aqui estiveram. Do período holandês, temos os livros que foram publicados na época. De literatura brasileira, temos várias primeiras edições dos séculos 17 e 19, muitos exemplares autografados e também temos originais de livros da era pré-computador, em que os escritores escreviam a mão ou a máquina e faziam correções a mão e a gente fica conhecendo o processo de criação literária. Temos originais do Guimarães Rosa, do Graciliano Ramos, do José Lins do Rego e do Erico Verissimo.
As Brasilianas foram doadas à Universidade de São Paulo. O que o senhor espera dessa biblioteca?
Ela tem de ser viva! Nós doamos a Brasiliana completa, em torno de 25 mil volumes, mesmo coisas raras e de muita estima, que é mais ou menos metade da biblioteca. Afinal, a gente passa, mas os livros ficam. Fizemos a doação com determinadas condições. A USP está construindo um prédio para receber a biblioteca, que não vai se misturar às outras bibliotecas da universidade, e a ideia é que seja uma biblioteca viva, que cresça, que promova seminários, edições, debates.
O senhor escreveu alguns livros, como Cartas da Biblioteca Guita e José Mindlin (2008), Uma vida entre livros (2008) e No mundo dos livros (2009), entre outros. Como foi passar de leitor a escritor?
Escritor seria uma forma meio pretensiosa de dizer, mas escrever é muito gostoso. Comecei a ler muito cedo e com 16 estava na redação de O Estado de S. Paulo. Eu era o mais moço, entrei em maio e fiz 16 em setembro. O pessoal da redação via isso com simpatia, todos eram mais velhos e compartilhavam do meu interesse. Hoje, como não consigo ler, passei a escrever, porque isso eu consigo. Foi uma boa solução.
O Vírus do Amor ao livro!!!
FV
(entrevista concedida à Cássia Fragata)
Video Fapesp
São Vicente é um brasilin, Chei di ligria chei di cor ...
A morna caboverdiana é mais do que um estilo musical, trata-se de um convite à Liberdade. Não apenas no contexto nacional, daquele país, cuja a independência é recente, mas da essência libertária da alma. Os sons da Morna, da onda, do beijo da onda na praia, é um som humano. Nasce, quebra e renasce em todos os póros do nosso íntimo nos guiando em sua frenética sequência num passo, num outro." chei di ligria chei di cor...".
Cesaria Evora, a diva dos pés descalços, é uma das maiores interpretes da morna no mundo. Por ela que conhecemos grandes nomes da poesia caboverdiana, no universo da composição musical, os quais , talvez, jamais ouviriamos falar.Dentre eles, destacam-se Rufino Almeida, Manuel de Novas, Teofilo Chantré e Pedro Rodrigues. Este ultimo compôs o belo "Carnaval de São Vicente" que veremos mais abaixo. De Mindelo para o mundo, Cesaria Evora nos presenteou em seus quase 60 anos de carreira com clássicos como " Cabo Verde Manda Mantenha", " Flor di nha esperanca" e "Amor di Mundo", entre outros.
Bem, deixo aqui uma breve degustação deste fenômeno musical que continua fazendo sucesso e mostrando à todos nós o quanto um pequeno arquipélago no Atlântico, por anos esquecido e ignorado, pode educar este Mundo tão artificial e frio em que vivemos.
A canção "Carnaval de São Vicente" nos faz sentir orgulho de sermos brasileiros. Do outro lado do oceano existe um povo que ama nossa cultura mas não esquece a deles. Acho que isso nos serve de lição também.. pensem nisso!
Salve a diva: Cesaria Evora!!!
Carnaval de São Vicente( Pedro Rodrigues)
J'a'm conchia São Vicente
Na sê ligria na sê sabura
Ma 'm ca pud fazê ideia
S'na carnaval era mas sab
São Vicente é um brasilin
Chei di ligria chei di cor
Ness três dia di loucura
Ca ten guerra ê carnaval
Ness morabeza sen igual
Nô ten un fistinha mas sossegod
Ca bô exitá bô podê entrá
Coque e bafa ca ta faltá
Hôje é dia di carnaval
São Vicente é um brasilin
Chei di ligria chei di cor
Ness três dia di loucura
Ca ten guerra ê carnaval
Ness morabeza sen igual
Carnaval De Sao Vicente (jazzy carnaval mix).
Abraços
FV
Cesaria Evora, a diva dos pés descalços, é uma das maiores interpretes da morna no mundo. Por ela que conhecemos grandes nomes da poesia caboverdiana, no universo da composição musical, os quais , talvez, jamais ouviriamos falar.Dentre eles, destacam-se Rufino Almeida, Manuel de Novas, Teofilo Chantré e Pedro Rodrigues. Este ultimo compôs o belo "Carnaval de São Vicente" que veremos mais abaixo. De Mindelo para o mundo, Cesaria Evora nos presenteou em seus quase 60 anos de carreira com clássicos como " Cabo Verde Manda Mantenha", " Flor di nha esperanca" e "Amor di Mundo", entre outros.
Bem, deixo aqui uma breve degustação deste fenômeno musical que continua fazendo sucesso e mostrando à todos nós o quanto um pequeno arquipélago no Atlântico, por anos esquecido e ignorado, pode educar este Mundo tão artificial e frio em que vivemos.
A canção "Carnaval de São Vicente" nos faz sentir orgulho de sermos brasileiros. Do outro lado do oceano existe um povo que ama nossa cultura mas não esquece a deles. Acho que isso nos serve de lição também.. pensem nisso!
Salve a diva: Cesaria Evora!!!
Carnaval de São Vicente( Pedro Rodrigues)
J'a'm conchia São Vicente
Na sê ligria na sê sabura
Ma 'm ca pud fazê ideia
S'na carnaval era mas sab
São Vicente é um brasilin
Chei di ligria chei di cor
Ness três dia di loucura
Ca ten guerra ê carnaval
Ness morabeza sen igual
Nô ten un fistinha mas sossegod
Ca bô exitá bô podê entrá
Coque e bafa ca ta faltá
Hôje é dia di carnaval
São Vicente é um brasilin
Chei di ligria chei di cor
Ness três dia di loucura
Ca ten guerra ê carnaval
Ness morabeza sen igual
Carnaval De Sao Vicente (jazzy carnaval mix).
Abraços
FV
LANÇAMENTO DO LIVRO : ALAMBRADO
A ALGOL Editora lançará no dia 26/05 às 18hs na loja da Livraria Cultura – Conjunto Nacional - Av. Paulista 2073 Térreo, o livro Alambrado, que reúne crônicas da nação corinthiana sobre seus 100 anos de glória, autoria de Antonio Roque Citadini.
Os 100 anos de vida do Corinthians foram marcados: por grandes espetáculos nos gramados, um aumento espantoso no número de torcedores, a consolidação de uma marca mundialmente reconhecida, a revelação de grandes craques, a passagem de mestres da bola oriundos de times do Brasil e do exterior e o surgimento de figuras históricas.
A força da torcida corinthiana faz com que os principais personagens dessa centenária trajetória sejam mais que personagens, tornando-os verdadeiras lendas. É o caso dos jogadores Sócrates, Marcelinho, Casagrande, Vampeta e outros tantos cujas peculiaridades eram marcadas por lances geniais nos campos e polêmicas que ultrapassam as quatro linhas.
Mas não é só entre os jogadores que as lendas se situam na história do Corinthians. Há também na direção do clube alguns inesquecíveis personagens. O primeiro é sem dúvida o incomparável Vicente Matheus; figura antológica que habita um em cada três contos do futebol brasileiro. O segundo dirigente presente nessa lista é, indiscutivelmente, Antonio Roque Citadini, por suas declarações sempre passionais e bombásticas que revelam seu amor incondicional pelo clube e sua maneira, explicita, de defendê-lo.
Em Alambrado vamos conhecer um pouco mais da opinião, sempre impactante, desse “cartola” que não ofusca, em momento algum, seu coração corinthiano. O livro apresenta uma série de crônicas, escritas entre 2002 e 2009, sobre os mais diversos assuntos dentro do universo futebolístico. Citadini comenta desde a fundação do Corinthians, passando por seus principais ídolos, por torcedores ilustres, por sua apimentada opinião em relação às parcerias financeiras do clube nos últimos anos e sobre a Copa de 2014.
Não é apenas a torcida alvinegra que conhece bem a lenda Antonio Roque Citadini. Sua fama não se finda aos inimagináveis limites territoriais dos corinthianos; principalmente porque sua crítica mais ferrenha se dirige aos outros clubes; mas o Corinthians e sua administração, incluindo a que ele participou, não escapam ao seu olhar crítico e as observações de um fanático corinthiano sofredor.
Neste livro, Citadini rompe a barreira entre a arquibancada e o gramado ao revelar bastidores do universo corinthiano e do cenário futebolístico brasileiro. O leitor se verá presente nos principais lances e dribles que nem sempre trouxeram alegrias e títulos, mas que sempre fizeram parte dos altos e baixos da história do clube que melhor representa a luta diária dos brasileiros, sua gana e suas glórias.
Lançamento: Alambrado – Antonio Roque Citadini
26/05 ás 18h30 Livraria Cultura – Conjunto Nacional.
Os 100 anos de vida do Corinthians foram marcados: por grandes espetáculos nos gramados, um aumento espantoso no número de torcedores, a consolidação de uma marca mundialmente reconhecida, a revelação de grandes craques, a passagem de mestres da bola oriundos de times do Brasil e do exterior e o surgimento de figuras históricas.
A força da torcida corinthiana faz com que os principais personagens dessa centenária trajetória sejam mais que personagens, tornando-os verdadeiras lendas. É o caso dos jogadores Sócrates, Marcelinho, Casagrande, Vampeta e outros tantos cujas peculiaridades eram marcadas por lances geniais nos campos e polêmicas que ultrapassam as quatro linhas.
Mas não é só entre os jogadores que as lendas se situam na história do Corinthians. Há também na direção do clube alguns inesquecíveis personagens. O primeiro é sem dúvida o incomparável Vicente Matheus; figura antológica que habita um em cada três contos do futebol brasileiro. O segundo dirigente presente nessa lista é, indiscutivelmente, Antonio Roque Citadini, por suas declarações sempre passionais e bombásticas que revelam seu amor incondicional pelo clube e sua maneira, explicita, de defendê-lo.
Em Alambrado vamos conhecer um pouco mais da opinião, sempre impactante, desse “cartola” que não ofusca, em momento algum, seu coração corinthiano. O livro apresenta uma série de crônicas, escritas entre 2002 e 2009, sobre os mais diversos assuntos dentro do universo futebolístico. Citadini comenta desde a fundação do Corinthians, passando por seus principais ídolos, por torcedores ilustres, por sua apimentada opinião em relação às parcerias financeiras do clube nos últimos anos e sobre a Copa de 2014.
Não é apenas a torcida alvinegra que conhece bem a lenda Antonio Roque Citadini. Sua fama não se finda aos inimagináveis limites territoriais dos corinthianos; principalmente porque sua crítica mais ferrenha se dirige aos outros clubes; mas o Corinthians e sua administração, incluindo a que ele participou, não escapam ao seu olhar crítico e as observações de um fanático corinthiano sofredor.
Neste livro, Citadini rompe a barreira entre a arquibancada e o gramado ao revelar bastidores do universo corinthiano e do cenário futebolístico brasileiro. O leitor se verá presente nos principais lances e dribles que nem sempre trouxeram alegrias e títulos, mas que sempre fizeram parte dos altos e baixos da história do clube que melhor representa a luta diária dos brasileiros, sua gana e suas glórias.
Lançamento: Alambrado – Antonio Roque Citadini
26/05 ás 18h30 Livraria Cultura – Conjunto Nacional.
AIDS, ANGOLA E DOR. CONHEÇO A MORTE E NÃO A TEMO.
O terceiro texto do livro Fruto Vermelho foi escrito em uma tarde de domingo. Sabe aqueles dias em que você fica com o calhamaço de jornais nas mãos e vai lendo, lentamente, cada matéria do antigo conhecido “Cama de Mendigo”¹ que você comprou de manhã.Privilégio de poucos na periferia, e eu , me sentia honrado de poder gastar alguns reais com isso.
Naquela tarde, uma matéria me chamou atenção. Tratava-se de uma chamada à epidemia de AIDS em Angola. O jornal, por fontes do ministério da saúde local e outras instituições ligadas a ONU, atribuía a epidemia a resistência da população em utilizar camisinha. Segundo o jornal o ato, classificado como insano, era uma ignorância que matava milhares de pessoas naquele país.
Nesse momento comecei a pensar o quanto é fácil julgarmos os atos alheios e sem a menor preocupação de uma observação de outras perspectivas. Acredito que uma instituição como a ONU deveria se preocupar mais com isso, principalmente quando se refere a uma nação. Isso é a África. Continente que por anos fora julgado e condenado a sofrer com males não genuínos. A África da morte. Continente de maioria formada por homens e mulheres considerados pelos “pseudo-civilizados” como “semi-nativos”. Essa é uma discussão que nos levaria a questionar muitos conceitos como: O que é civilização? Quem disse que o Ocidente é quem deve julgar o certo e o errado? Quem são os verdadeiros vilões de nosso planeta?
Conheço a morte e não a temo
Meu nome é Imuitá, sou descendente de Mangoyo o antigo e inesquecível Rei de Ngoyo².
FONTE: FRUTO VERMELHO.
Naquela tarde, uma matéria me chamou atenção. Tratava-se de uma chamada à epidemia de AIDS em Angola. O jornal, por fontes do ministério da saúde local e outras instituições ligadas a ONU, atribuía a epidemia a resistência da população em utilizar camisinha. Segundo o jornal o ato, classificado como insano, era uma ignorância que matava milhares de pessoas naquele país.
Nesse momento comecei a pensar o quanto é fácil julgarmos os atos alheios e sem a menor preocupação de uma observação de outras perspectivas. Acredito que uma instituição como a ONU deveria se preocupar mais com isso, principalmente quando se refere a uma nação. Isso é a África. Continente que por anos fora julgado e condenado a sofrer com males não genuínos. A África da morte. Continente de maioria formada por homens e mulheres considerados pelos “pseudo-civilizados” como “semi-nativos”. Essa é uma discussão que nos levaria a questionar muitos conceitos como: O que é civilização? Quem disse que o Ocidente é quem deve julgar o certo e o errado? Quem são os verdadeiros vilões de nosso planeta?Envolto na fúria de minha revolta solitária peguei uma caneta e um papel e escrevi o texto abaixo. Texto esse que significou tanto na minha formação como cidadão do mundo que não poderia ficar de fora da publicação de meu livro.
Conheço a morte e não a temo
Tenho 29 anos, a pele escura e as suadas marcas de anos lutando. O meu país sofreu com as guerras dos brancos, com as guerras dos negros e agora com a guerra do vírus. O branco já tirou nossa liberdade uma vez, nossa honra várias vezes, nos trouxe a doença e agora quer tirar o nosso prazer. O negro ama a negra. O toque do negro é importante na negra! E o vírus é branco.
O homem branco é infiel e acha que o negro também é infiel. Não confio em quem joga nos outros os seus defeitos. O homem branco diz que a borracha não tira o prazer e o negro sabe verdadeiramente o que é o prazer.
Um branco americano tentou me convencer que poderia deitar com qualquer negra. Portador da borracha! Eu acho.
Minha negra não! Chorei pelas negras da minha nação. Descartadas como as borrachas do americano alemão que se lavou e partiu de avião.
O negro sabe que os filhos de Angola precisam se proteger, mas não vamos abrir mão do prazer. Sou de Lobango. Terra da dança, da inocente criança africana. Cresci e aprendi que o amor é a raiz do homem.
O vírus mata e a morte é bem-vinda não assusta. O que dói é o sofrimento da terra sangrenta e dos corpos secos.
Sou branco, me chamo Ari e sou negro filho de Mangoyo; tenho o rosto de um fascista, sou filho de um racista, mas tenho um coração HUMANISTA!
1- Por seu grande número de páginas, este era o popular nome dado ao jornal O estado de São Paulo. Gír-déc.80
2-Ngoyo- Primeiro nome da República da Angola.
Florbela Espanca
Realidade
E a minha rubra boca apaixonada
Teve a frescura pálida do linho...
Embriagou-me o teu beijo como um vinho
Fulvo de Espanha, em taça cinzelada...
E a minha cabeleireira desatada
Pôs a teus pés a sombra dum caminho...
Minhas pálpebras são cor de verbena,
Eu tenho os olhos garços, sou morena,
E para te encontrar foi que eu nasci...
Tens sido vida fora o meu desejo
E agora, que te falo, que te vejo,
Não sei se te encontrei... se te perdi...
Florbela Espanca
Este poema me foi ofertado em uma ocasião muito especial. A ninfa que me ofereceu tal presente, na ocasião ( 12/2007), disse-me que no momento de sua escolha pelo poema era em mim que ela pensava. Agora eu retribuo o presente devolvo à você suggarzinha.
Beijos.
FV
imagem: http://auladeliteraturaportuguesa.blogspot.com/
E a minha voz fez-se gorgeio de ninho...
E a minha rubra boca apaixonada
Teve a frescura pálida do linho...
Embriagou-me o teu beijo como um vinho
Fulvo de Espanha, em taça cinzelada...
E a minha cabeleireira desatada
Pôs a teus pés a sombra dum caminho...
Minhas pálpebras são cor de verbena,
Eu tenho os olhos garços, sou morena,
E para te encontrar foi que eu nasci...
Tens sido vida fora o meu desejo
E agora, que te falo, que te vejo,
Não sei se te encontrei... se te perdi...
Florbela Espanca
Este poema me foi ofertado em uma ocasião muito especial. A ninfa que me ofereceu tal presente, na ocasião ( 12/2007), disse-me que no momento de sua escolha pelo poema era em mim que ela pensava. Agora eu retribuo o presente devolvo à você suggarzinha.
Beijos.
FV
imagem: http://auladeliteraturaportuguesa.blogspot.com/
A crônica da nota 10

Fiquei surpreso ao ouvir a famosa voz de Robson de Oliveira na terça feira, dia 16 de fevereiro, feriado de carnaval, ás 16hs com toda sua ronquidão e taciturnidade proferir as notas dos jurados do desfile das escolas de samba de São Paulo. Minha surpresa foi pelo fato de tal acontecimento, tão comum nas manhãs do feriado de carnaval, ter-se transferido para o período vespertino. E eu que já comemorava o fato de não ter ouvido este ano ao vozeirão que me provoca pensamentos tão antagônicos, fora surpreendido quando, ainda que no meu quarto, percebo que minha mãe ligou o aparelho de televisão na sala e me vem, sem a menor cerimônia um: - NOTA DEZZZZZ!
Quase caí da cadeira em que passei todo o feriado sentado produzindo meu artigo sobre as classificações que distinguem literatura de qualidade de livros comerciais. A voz do presidente da liga, à medida que me irritava, me fazia lembrar que o feriado estava chegando ao fim, para minha tristeza, e que o carnaval havia acabado... para minha alegria. Viu como são sentimentos antagônicos!
Eu precisava continuar minha concentração no artigo, pois este, já havia tomado meu Natal, meu Réveillon, minhas férias de Janeiro e agora o carnaval; se bem que o carnaval eu fiquei feliz de estar tão ocupado, assim não precisei passar perto do aparelho de TV e foi muito fácil negar a todos os convites de praia com micareta, de bloco com serpentinas no centro, de marchinhas nos salões da minha pobre Itapecerica e das festas que alguns foliões insistem em promover na rua de minha casa. Muita bebida e promiscuidade numa festa que os moradores fazem com o cínico discurso de que “a festa é pras crianças”. Nunca vi criança pular carnaval às 2hs da manhã! Pois bem, essa é a hora que a festa costuma se arrastar...
...meus pensamentos são interrompidos por mais uma: NOTA DEZZZZZ! - Meu Deus que vontade de enforcar esse homem. Ah tanto descontentamento dentro de mim que seria capaz de arrancar a cabeça dele. Pode acreditar, caro leitor, seria mais fácil arrancar a cabeça do presidente da liga do que convencer Dona M. , minha mãe, a desligar a TV. Como ambos os atos citados são desejos impossíveis, então tento me concentrar no artigo. Lembrei-me também que eu havia relatado aos meus amigos que o som da voz decretória que finda o carnaval seria também o som do ápice da minha vitória, pois neste momento eu teria acabado o artigo e estaria pronto pra comemorar com muitas Rosas e muito Ouro, mas até aquele instante eu não havia terminado, e quanto mais notas “dez” ele lia, mais eu me irritava e meu artigo não andava.
Precisava fazer algo urgente, algo que revertesse àquela situação. Já que o Sr. Robson estava disposto a me irritar por muito tempo, decidi que eu o usaria para terminar meu trabalho, então peguei meu material, caderno e lápis, e fui para a sala. Olhei para minha mãe com uma cara de poucos amigos, ela não entendeu muito meu emburramento, mas continuou olhando pro televisor em silêncio. Quando derrepente, considerando minha paixão pelo Corinthians ela disse: - Olha lá...a Gaviões está em primeiro! E eu na minha profunda rabugice respondi: - Tomara que eles percam.
Claro que eu não desejaria isso para a escola que homenageia o meu querido timão no ano de seu centenário, mas o fato é que não pude conter minha indignação por ter que assistir aquela chatice recorrente anualmente. Bem, voltei ao meu objetivo, tirar proveito daquela adversidade. Lembrei-me de um bocado de frases, daquelas que lemos nas folhinhas de budismo, de auto-ajuda e até de pacote de bolachas... Esses dias vi uma frase de auto-ajuda num pacote de tabacos do Mato-grosso.
NOTA DEZZZZZZ!
Minha nossa esse cara parece uma vitrola arranhada!
A ultima nota fora para o quesito “Comissão de Frente”, eu acabará de chegar e não poderia ter sido recepcionado de uma maneira pior. A televisão havia dito que “Bateria”, “alegoria e adereços” já haviam sido pontuados. Meu artigo precisava de mais energia, muita bateria, pra organizar os adereços e as alegorias. Muito bem, o próximo quesito veio a calhar- “Conjunto”- comecei a organizar minhas ideias de forma a ordená-las de acordo com o objetivo proposto na minha introdução. Até parecia óbvio esta atitude, mas confesso que até aquele momento não me parecia tão clara e evidente. O Sr. Robson havia me dado a primeira ajuda. Próxima NOTA DEZZZ para o quesito “Enredo”. Maravilha, agora com tudo organizado começava a formatar minha dissertação dentro de um enredo expositivo que reunia as ideias e as teorias dando corpo ao emaranhado de palavras que até então estavam desconexas. O passo seguinte era inevitável: - “Evolução”. Meu trabalho fluiu como não havia fluído nos outros feriados, e nem nos dias que antecederam aquela data mágica. Nem me lembro qual foi a escola que ganhou DEZ em evolução, mas o meu trabalho estava expandindo....evoluindo.
O próximo quesito era “Fantasia”. Era estranho como a regência de minhas ideias e minhas mãos era tão fluente com aquela voz que ditava as notas e cujo rosto do dito cujo eu ainda não havia visto. Estava concentrado no texto, no papel, no Chico Buarque, no Eulálio, na Gaviões da Fiel, tudo ao mesmo tempo, sobre a maestria de mais uma Nota Dez do Sr. Robson. O momento era uma perfeita “Harmonia”, que, aliás, fora o quesito seguinte, não recordava do meu pavilhão cheio de adereços que tinha de carregar, a esta altura, tudo era leveza e fluidez na mágica criação do balé. Não sei bem porque me lembrei de Ravel, e seu bolero fez mais presente que os batuques das caixas e dos surdos que soavam das arquibancadas do Anhembi.
O trabalho estava pronto antes mesmo que o quesito “Samba- enredo” fosse mencionado. Talvez tenha sido a palavra “Samba” que me despertará daquele transe e me fez voltar a real. Senti-me entojado quando apareceram as quadras das escolas comemorando as ultimas notas que saiam a seu favor. Sempre odiei o carnaval por vários motivos, mas o principal é a super-valorização que a mídia dá a esta festa popular. Por isso evito, sempre que posso, o contato com esse atraso nacional e prefiro começar a ver a vida a partir da quarta feira de cinzas.
Mas esta terça feira de carnaval havia sido diferente, e após dez quesitos, uma escola campeã, e muitas vezes ter ouvido a sórdida voz dizendo NOTA DEZZZZ, eu finalmente havia terminado meu tão desejado artigo de conclusão de curso. Bem, se ele será um artigo nota Dez, eu só saberei quando for corrigido. Mas o mais importante é que eu havia terminado e queria agora olhar para o rosto daquele, que sem a menor ideia do que fizera, acabara de me ajudar a concluir esta tarefa. Então fiquei mais um pouco em frente à televisão e alguns minutos depois... Mais uma surpresa. O homem cuja voz assaltara-me minutos atrás e me fizera sair do conforto do meu quarto para um confronto frente ao tube familiar de minha mãe, não era o Sr. Robson de Oliveira, mas sim outro desconhecido do qual nem perdi o tempo para procurar saber quem é, pois para mim a eterna voz maldita de todas as terças feiras de carnaval, que fora por mais de 10 anos, continuará sendo a de Robson de Oliveira, cuja minha antipatia é maior que a renovação. O ódio perpétuo não me permite substituí-lo visualmente, ainda mais que as vozes desses “caras” são muito parecidas. Neste carnaval dei trégua nessa guerra e aproveitei, na trincheira da minha imaginação, para usar as armas do inimigo em minha glória. Mas prometo que no carnaval que vem, agora que já sei o horário da apuração atualizado, estarei preparado para estar bem longe de qualquer meio de comunicação na hora em que sua voz demoníaca proferir a primeira:
NOTA DEZZZZZZ!!!!
ASMC
Leite Derramado - Sobre narrador e personagem.
Caros Amigos
Acho que nunca é demais dizer que o livro Leite Derramado, apesar de todo o seu apelo comercial, não pode ser visto como uma obra menor. Estou desenvolvendo um artigo sobre o assunto, o qual devo publicar neste espaço até o mês de Abril.
Antes disso, gostaria de reproduzir o belíssimo trabalho do professor André Glaser sobre a narrativa em Leite Derramado. Tenho certeza de que após este post o quarto livro de Chico Buarque será visto com outros olhos.
Então, desfrutem desta maravilhosa aula do professor André Glaser publicado na livraria da folha no dia 08/01/2010.
Leite Derramado - Sobre Narrador e Personagem
Inicialmente, já desde o primeiro capítulo, o que me chamou atenção no último livro de Chico Buarque, "Leite Derramado", foi uma estranheza -uma narrativa contada em primeira pessoa, por um homem já bastante idoso, em um leito de hospital de segunda classe, formalmente organizada com uma clareza surpreendente. Poder-se-ia questionar a qualidade do romance, se um efeito estético não prendesse o leitor desde as primeiras sentenças. Um narrador em primeira pessoa pressupõe, em geral, uma proximidade entre o que é narrado e o estilo da narrativa - um envolvimento emotivo ou distanciamento instaurados pelo jogo lúdico da própria ficção. Assim, um narrador louco tende a usar palavras que não se organizam racionalmente, um narrador tenso fará uso de estruturas linguísticas tensas e um narrador distante será frio no tom de seu discurso. Não deveria um narrador em idade avançadíssima, doente e com uma memória já bastante falha, apresentar uma forma discursiva que, ao menos em certos momentos, fosse falha? Não falo aqui da organização do discurso, que se mostra embaralhado em vários momentos da narrativa; o foco é no domínio da sintaxe que percorre todo o romance, em um estilo próprio, que gera uma certa autonomia...
Uma análise pode destacar, entre tantos outros aspectos do livro em questão, três linhas de força que percorrem o romance. Uma, a estória de Eulálio contada por ele mesmo, que, logo nos primeiros capítulos, já se mostra de veracidade bastante duvidosa. O que temos de mais "real" são as impressões do espaço que rodeia o doente - o texto projeta um mundo fictício estável que nos faz "acreditar" na existência do quarto de hospital, da televisão alta, da enfermeira, da irmã etc. Quando, contudo, o que temos são os relatos de seu passado, a confusão de uma memória fraca instaura a dúvida. Só um leitor ingênuo levaria a sério o que está sendo relatado. Não só o passado, mas também o presente são constantemente distorcidos. A enfermeira escreve a narrativa? Ou, mais provavelmente, tem sua caneta sobre um prontuário de hospital? Matilde existiu? Ou é uma criação de uma imaginação alienada da realidade?
A sucessão dos acontecimentos responde pela lógica da associação. Já no primeiro capítulo este esquema organiza a narrativa. Eulálio quer casar-se com a enfermeira, que poderá dispor das coisas da mãe, na fazenda. Daí, fala de sua ex-mulher, que lá morou com ele, e uma propriedade leva-o a comentar a outra, o casarão de Botafogo, comprado pelos dinamarqueses dadas as trapalhadas de seu genro. Volta ao presente, comenta só haverem homens no hospital, de modo a poder falar das putinhas do Hitz, em Paris. Seguem por associação os assuntos de família, então tratados em francês etc. Num primeiro momento, esta estrutura nos faz pensar em uma narrativa construída pelo fio do desejo, tecendo as associações de forma a chegarmos, em algum momento, numa consciência das forças inconscientes que direcionam este fluxo do pensamento do protagonista. Mas logo percebemos a fraqueza desta linha argumentativa, dado o caráter cada vez mais impalpável do que é dito. Embora um forte erotismo percorra todo o texto, a possível traição de Matilde, por exemplo, é tratada com tal distância e sob tantas perspectivas que só nos resta, se não a tratar apenas como mais um episódio do romance, não confiar a leitura a esta linha argumentativa como principal.
Mas então o romance traz uma forte vertente histórica - por baixo dessas associações gratuitas corre um processo seletivo muito bem construído, que vai mapeando momentos da história de um país corrupto, racista, aristocrático em sua organização classista. Do caos das memórias do protagonista surge uma outra dimensão, muito mais palpável por sustentar-se sobre personagens que, além de sua individualidade, comportam generalizações. O Vidal, por exemplo, é quase um ícone de certa vertente da classe dominante brasileira capaz da frieza máxima para manter as aparências da boa conduta e, porque não, da pureza racial. Matilde, de filha bastarda, passa a ser aquela negrinha que pegamos para criar. Já a decadência dos Assumpção não se limita, por sua vez, a um caso de família. A sua incapacidade dupla -fazerem a aposta financeira certa e manterem-se "puros" (longe do estigma negro em seu sangue)-, marca a história de tantos sobrenomes brasileiros. Uma falha trágica os impede de funcionar dentro das regras do jogo de classes à brasileira, uma democracia com profundas raízes aristocráticas.
Concomitante a estas duas linhas de força, temos a que mais interessa do ponto de vista literário -esta estranheza acima comentada da clareza do discurso. Se Eulálio narra sua estória, não pode ser o mesmo Eulálio que o faz com uma prosa tão clara. Aqui, o narrador se torna ambíguo: entre o conteúdo narrado e a forma narrativa uma brecha se abre, um espaço que instaura uma contradição viva. E ao avançarmos na leitura, mais e mais este deleite de uma prosa "musical" toma posse do leitor. Momentos supostamente de grande tensão emocional mantêm o mesmo estilo calmo, seguro, com pontuação quase poética, que se desdobra por todo o romance. Se tomarmos, por exemplo, um dos episódios mais dramáticos da narrativa, no final do capítulo oito, quando Eulálio narra seus encontros eróticos com Matilde na cozinha, detectamos o mesmo ritmo claro, um andante que não se dobra ao ímpeto emocional da cena. Um impulso métrico parece emergir, com a predominância de iâmbicos e dátilos que dão à prosa um tom quase poético. E neste ponto nos perguntamos, por quê?
Um leitor curioso talvez dê atenção apenas à estória, aos acontecimentos relatados de pouca credibilidade. O leitor que se deleita no mergulho em uma prosa formalmente bem escrita talvez termine o livro com a impressão de ter lido algo belo. Mas no cruzamento entre ambas estas possibilidades, salta uma terceira -a crueza da distância, que pode marcar tanto o conformismo com uma história que não muda quanto a ironia fina e triste da recusa da poesia a envolver-se com a sujeira do recorte do mundo narrado.
Ou ainda uma terceira opção. Não estaria a prosa, aqui, trazendo para si um recurso tão utilizado na poesia, inclusive na presente nas canções compostas pelo próprio autor -a distância radical entre o ritmo e musicalidade das palavras e o conteúdo do texto? Tantas vezes o ritmo alegre do samba fala da tristeza, da perda, do sofrimento. Há algo próximo em "Leite Derramado", mas trazido criticamente (e artisticamente) às tensões e possibilidades características do romance. O narrador em primeira pessoa tem uma história considerável nos desdobramentos da literatura ocidental, e no Brasil suas potencialidades já foram bastante exploradas -basta citarmos Machado de Assis. Aqui, nosso narrador é mais uma vez distendido, desdobrado, explorado ao máximo. E no vão criado entre forma e conteúdo, a crítica social ganha muito. Se uma das conquistas formais do narrador em primeira pessoa foi permitir que as mais diversas e opostas visões de mundo ganhassem corpo a partir de um de seus membros e/ou defensores, agora esta voz é marcada pela distância que embaralha a construção do narrador-personagem, criado dois mundos paralelos, mas unidos estruturalmente. O alcance da crítica ganha nova amplitude que lhe possibilita apalpar, de um outro ângulo, o poder e sua autonomia que, por mais absurdo que pareça, dada a "desumanidade" (tão humana, por sinal) dos seus traços, continua ditando as normas.
Não tenho dúvidas quanto à qualidade literária do livro. Este narrador em primeira pessoa narra da boca do personagem e se afasta dele. E este prisma da forma, para citar Anatol Rosenfeld, lhe dá "certa transparência ou 'iridiscência' em direção a significados mais profundos, em que se revela o 'sentido', a 'ideia' da obra" 1. A projeção do mundo ficcional criado pelo "conteúdo" ganha uma tridimensionalidade, indo além dos limites do ponto de vista do narrador e construindo um espaço ficcional mais abrangente, que cria neste outras possibilidades de leitura da sociedade brasileira. E não deixa de merecer atenção o fato de este impulso crítico vir pelo bom e velho livro, ainda vivíssimo, como momento de um grande crítico que por tantos anos se debruçou sobre a música e o drama.
O momento presente, tão perto historicamente e tão longe ideologicamente do impulso democrático que movimentou a arte e cultura críticas dos anos setenta, não perdeu o impulso crítico. "Leite Derramado" atesta o interesse do autor em manter viva a arte politizada, que faz parte de sua história pessoal e de um viés importante da história de nosso país. Um golpe de mestre, de grande maturidade literária. E de mensagem poderosíssima, se não recusarmos ao olhar multifacetado que o romance parece sugerir.
1Anatol ROSENFELD. "Literatura e personagem". In: A personagem de ficção. SP: Ed. Perspectiva, 2007.
Obrigado professor André
Acho que nunca é demais dizer que o livro Leite Derramado, apesar de todo o seu apelo comercial, não pode ser visto como uma obra menor. Estou desenvolvendo um artigo sobre o assunto, o qual devo publicar neste espaço até o mês de Abril.
Antes disso, gostaria de reproduzir o belíssimo trabalho do professor André Glaser sobre a narrativa em Leite Derramado. Tenho certeza de que após este post o quarto livro de Chico Buarque será visto com outros olhos.
Então, desfrutem desta maravilhosa aula do professor André Glaser publicado na livraria da folha no dia 08/01/2010.
Leite Derramado - Sobre Narrador e Personagem
Inicialmente, já desde o primeiro capítulo, o que me chamou atenção no último livro de Chico Buarque, "Leite Derramado", foi uma estranheza -uma narrativa contada em primeira pessoa, por um homem já bastante idoso, em um leito de hospital de segunda classe, formalmente organizada com uma clareza surpreendente. Poder-se-ia questionar a qualidade do romance, se um efeito estético não prendesse o leitor desde as primeiras sentenças. Um narrador em primeira pessoa pressupõe, em geral, uma proximidade entre o que é narrado e o estilo da narrativa - um envolvimento emotivo ou distanciamento instaurados pelo jogo lúdico da própria ficção. Assim, um narrador louco tende a usar palavras que não se organizam racionalmente, um narrador tenso fará uso de estruturas linguísticas tensas e um narrador distante será frio no tom de seu discurso. Não deveria um narrador em idade avançadíssima, doente e com uma memória já bastante falha, apresentar uma forma discursiva que, ao menos em certos momentos, fosse falha? Não falo aqui da organização do discurso, que se mostra embaralhado em vários momentos da narrativa; o foco é no domínio da sintaxe que percorre todo o romance, em um estilo próprio, que gera uma certa autonomia... Uma análise pode destacar, entre tantos outros aspectos do livro em questão, três linhas de força que percorrem o romance. Uma, a estória de Eulálio contada por ele mesmo, que, logo nos primeiros capítulos, já se mostra de veracidade bastante duvidosa. O que temos de mais "real" são as impressões do espaço que rodeia o doente - o texto projeta um mundo fictício estável que nos faz "acreditar" na existência do quarto de hospital, da televisão alta, da enfermeira, da irmã etc. Quando, contudo, o que temos são os relatos de seu passado, a confusão de uma memória fraca instaura a dúvida. Só um leitor ingênuo levaria a sério o que está sendo relatado. Não só o passado, mas também o presente são constantemente distorcidos. A enfermeira escreve a narrativa? Ou, mais provavelmente, tem sua caneta sobre um prontuário de hospital? Matilde existiu? Ou é uma criação de uma imaginação alienada da realidade?
A sucessão dos acontecimentos responde pela lógica da associação. Já no primeiro capítulo este esquema organiza a narrativa. Eulálio quer casar-se com a enfermeira, que poderá dispor das coisas da mãe, na fazenda. Daí, fala de sua ex-mulher, que lá morou com ele, e uma propriedade leva-o a comentar a outra, o casarão de Botafogo, comprado pelos dinamarqueses dadas as trapalhadas de seu genro. Volta ao presente, comenta só haverem homens no hospital, de modo a poder falar das putinhas do Hitz, em Paris. Seguem por associação os assuntos de família, então tratados em francês etc. Num primeiro momento, esta estrutura nos faz pensar em uma narrativa construída pelo fio do desejo, tecendo as associações de forma a chegarmos, em algum momento, numa consciência das forças inconscientes que direcionam este fluxo do pensamento do protagonista. Mas logo percebemos a fraqueza desta linha argumentativa, dado o caráter cada vez mais impalpável do que é dito. Embora um forte erotismo percorra todo o texto, a possível traição de Matilde, por exemplo, é tratada com tal distância e sob tantas perspectivas que só nos resta, se não a tratar apenas como mais um episódio do romance, não confiar a leitura a esta linha argumentativa como principal.
Mas então o romance traz uma forte vertente histórica - por baixo dessas associações gratuitas corre um processo seletivo muito bem construído, que vai mapeando momentos da história de um país corrupto, racista, aristocrático em sua organização classista. Do caos das memórias do protagonista surge uma outra dimensão, muito mais palpável por sustentar-se sobre personagens que, além de sua individualidade, comportam generalizações. O Vidal, por exemplo, é quase um ícone de certa vertente da classe dominante brasileira capaz da frieza máxima para manter as aparências da boa conduta e, porque não, da pureza racial. Matilde, de filha bastarda, passa a ser aquela negrinha que pegamos para criar. Já a decadência dos Assumpção não se limita, por sua vez, a um caso de família. A sua incapacidade dupla -fazerem a aposta financeira certa e manterem-se "puros" (longe do estigma negro em seu sangue)-, marca a história de tantos sobrenomes brasileiros. Uma falha trágica os impede de funcionar dentro das regras do jogo de classes à brasileira, uma democracia com profundas raízes aristocráticas.
Concomitante a estas duas linhas de força, temos a que mais interessa do ponto de vista literário -esta estranheza acima comentada da clareza do discurso. Se Eulálio narra sua estória, não pode ser o mesmo Eulálio que o faz com uma prosa tão clara. Aqui, o narrador se torna ambíguo: entre o conteúdo narrado e a forma narrativa uma brecha se abre, um espaço que instaura uma contradição viva. E ao avançarmos na leitura, mais e mais este deleite de uma prosa "musical" toma posse do leitor. Momentos supostamente de grande tensão emocional mantêm o mesmo estilo calmo, seguro, com pontuação quase poética, que se desdobra por todo o romance. Se tomarmos, por exemplo, um dos episódios mais dramáticos da narrativa, no final do capítulo oito, quando Eulálio narra seus encontros eróticos com Matilde na cozinha, detectamos o mesmo ritmo claro, um andante que não se dobra ao ímpeto emocional da cena. Um impulso métrico parece emergir, com a predominância de iâmbicos e dátilos que dão à prosa um tom quase poético. E neste ponto nos perguntamos, por quê?
Um leitor curioso talvez dê atenção apenas à estória, aos acontecimentos relatados de pouca credibilidade. O leitor que se deleita no mergulho em uma prosa formalmente bem escrita talvez termine o livro com a impressão de ter lido algo belo. Mas no cruzamento entre ambas estas possibilidades, salta uma terceira -a crueza da distância, que pode marcar tanto o conformismo com uma história que não muda quanto a ironia fina e triste da recusa da poesia a envolver-se com a sujeira do recorte do mundo narrado.
Ou ainda uma terceira opção. Não estaria a prosa, aqui, trazendo para si um recurso tão utilizado na poesia, inclusive na presente nas canções compostas pelo próprio autor -a distância radical entre o ritmo e musicalidade das palavras e o conteúdo do texto? Tantas vezes o ritmo alegre do samba fala da tristeza, da perda, do sofrimento. Há algo próximo em "Leite Derramado", mas trazido criticamente (e artisticamente) às tensões e possibilidades características do romance. O narrador em primeira pessoa tem uma história considerável nos desdobramentos da literatura ocidental, e no Brasil suas potencialidades já foram bastante exploradas -basta citarmos Machado de Assis. Aqui, nosso narrador é mais uma vez distendido, desdobrado, explorado ao máximo. E no vão criado entre forma e conteúdo, a crítica social ganha muito. Se uma das conquistas formais do narrador em primeira pessoa foi permitir que as mais diversas e opostas visões de mundo ganhassem corpo a partir de um de seus membros e/ou defensores, agora esta voz é marcada pela distância que embaralha a construção do narrador-personagem, criado dois mundos paralelos, mas unidos estruturalmente. O alcance da crítica ganha nova amplitude que lhe possibilita apalpar, de um outro ângulo, o poder e sua autonomia que, por mais absurdo que pareça, dada a "desumanidade" (tão humana, por sinal) dos seus traços, continua ditando as normas.
Não tenho dúvidas quanto à qualidade literária do livro. Este narrador em primeira pessoa narra da boca do personagem e se afasta dele. E este prisma da forma, para citar Anatol Rosenfeld, lhe dá "certa transparência ou 'iridiscência' em direção a significados mais profundos, em que se revela o 'sentido', a 'ideia' da obra" 1. A projeção do mundo ficcional criado pelo "conteúdo" ganha uma tridimensionalidade, indo além dos limites do ponto de vista do narrador e construindo um espaço ficcional mais abrangente, que cria neste outras possibilidades de leitura da sociedade brasileira. E não deixa de merecer atenção o fato de este impulso crítico vir pelo bom e velho livro, ainda vivíssimo, como momento de um grande crítico que por tantos anos se debruçou sobre a música e o drama.
O momento presente, tão perto historicamente e tão longe ideologicamente do impulso democrático que movimentou a arte e cultura críticas dos anos setenta, não perdeu o impulso crítico. "Leite Derramado" atesta o interesse do autor em manter viva a arte politizada, que faz parte de sua história pessoal e de um viés importante da história de nosso país. Um golpe de mestre, de grande maturidade literária. E de mensagem poderosíssima, se não recusarmos ao olhar multifacetado que o romance parece sugerir.
1Anatol ROSENFELD. "Literatura e personagem". In: A personagem de ficção. SP: Ed. Perspectiva, 2007.
Obrigado professor André
Emile Brontë, Catherine e a mulher moderna.
Caros Amigos
Domingo de tarde, muita chuva em São Paulo, após ler alguns textos necessários para o trabalho sobre Pierre Menard, peguei-me, olhando desapercebidamente para minha estante e eis que meus olhos se fixaram no romance O morro dos ventos Uivantes. Lembrei-me então de Cathy e comecei a escrever sobre ela e a mulher moderna. O resultado dessa brincadeira de fim de tarde eu os apresento agora. Apenas faço um pequeno adendo – não se trata de nenhuma pesquisa acadêmica, mas sim um exercício de exposição que fiz pra distrair-me um pouco dos trabalhos sérios.
Espero que gostem.
Personagens e enredo são praticamente indissolúveis. Quando pensamos no enredo, simultaneamente, olhamos para a vida que vive nos problemas em que se enreda na linha do seu destino, traçada conforme certa duração temporal, referida a determinada condições de ambiente. O enredo existe através das personagens, as personagens vivem no enredo. Enredo e personagem exprimem , ligados. Os intuitos do romance, a visão da vida que decorre dele, os significados e valores que o animam.
Antonio Candido (Janeiro de 1968)
Emile Brontë, Catherine e a mulher moderna.
A escolha de Catherine para desenvolver este post, tem como objetivo estabelecer uma breve relação entre a representação feminina, estampada na protagonista de O morro dos Ventos Uivantes ,e a mulher moderna, suas evoluções na trama e na vida real.
Porém, não podemos esquecer de que, trata-se de uma relação entre características fictícias com reais, e, portanto, vivenciadas em campos diferentes e, obviamente, com resultados distintos. Por mais que desejemos comparar Cathy com a Mulher, fruto de uma grande revolução ocorrida no século XX, não temos a pretensão de identificar todas essas semelhanças, visto a complexidade da personagem, do espírito criador da autora e da personalidade incomum na mulher atual. Basta pensar que afinidades e diferenças essenciais entre os seres vivos e as personagens de ficção são presentes em todos os momentos. As diferenças são sombreadas por conceitos, fruto de estilo autoral, através da verossimilhança. Segundo Antonio Candido:
É preciso uma investigação sumária sobre as condições de existência essencial da personagem, como um tipo de ser, mesmo fictício, começando por descrever do modo mais empírico possível a nossa percepção do semelhante.
Para ele, uma investigação completa das características físicas da personagem e seu ambiente não nos oferecem uma compreensão global do ser analisado. Deve-se considerar as concepções psicológicas da personagem.
No século XVIII, o romance entrega-se a analise das paixões e sentimentos humanos, à sátira social e política e também às narrativas de intenções filosóficas. Com o advento do romantismo, chega à vez do romance psicológico, da confissão e da análise das almas, do romance histórico, romance de critica e análise da realidade social. E é durante a segunda metade do século XIX que o gênero alcança seu apogeu, refinando-se enquanto escritura e articulando experiências humanas mais diversificadas.
Antonio Candido utiliza para exemplificar tal afirmação a autora Emile Brontë, a qual ele compara com Machado de Assis em alguns aspectos isolados. O principal deles é a reflexão do universo psicológico do autor em seus personagens.
Vale ressaltar que a pequena Emile Brontë conheceu o mundo que cercava sua residência em Haworth e nada além e que Machado de Assis jamais saíra do Rio de Janeiro (mais longe que viajou foi até a cidade de Petrópolis na região serrana); porém ambos conheciam o Universo humano como poucos e escreveram romances que eram verdadeiras obras primas que podem ser comparados com as obras de Dostoievski, Baudelaire, Nerval e que juntos preparam o caminho para Pirandello, Kafka, Glide, Proust e Joyce.
O Que Cathy pode ter em comum com Capitu? Pouquíssimas semelhanças físicas, mas o espírito de liberdade, a predisposição para lideranças, o envolvimento emocional que conduz a vida; podem ser um bom inicio para analisarmos tal relação. Todavia, a semelhança, de ambas, que mais se evidencia em suas histórias é sem dúvida aquela que simboliza os novos romances, a de uma “personagem esférica”.
Catherine era uma personagem que apenas se caracterizava com o seu tempo de acordo com a sua descrição, vestimenta e família; mas se destacava em sua astúcia e sua capacidade de arquitetar planos cujos objetivos eram claros e evidentes apenas para ela. Com ações das quais, para olhos alheios, os fins não justificavam os meios, Catherine ganhou espaço na história sobrepondo-se aos outros personagens ora com seu terrorismo ora com sua ternura e carinho.
No trecho a seguir, onde Catherine relata suas reflexões para sua serviçal, que é a narradora de grande parte do romance, podemos perceber a presença de seu planejamento e um tom macabro que surpreende até a própria Cathy, quanto ao casamento com Edgar e seu verdadeiro objetivo:
- Completamente abandonados! Separados nós! (fala de Heathcliff e sua própria pessoa) – exclamou ela, em um tom indignado - quem nos separaria pergunto-te eu? Enquanto eu viva for, Helena, nenhum mortal conseguirá isso. Poderão todos os Linton da Terra desaparecer, mas não consentirei apartar-me de Heathcliff. Oh! Não é isso que quero dizer... não é isso que pretendo! Não queria tornar-me Sra. Linton a semelhante preço! Ele será para mim o que sempre tem sido. Edgar deve desembaraçar-se da antipatia por ele e tolerá-lo. Pelo menos. Ele o fará quando souber de meus verdadeiros sentimentos por Heathcliff. Nelly, eu vejo agora, tu me julgas uma miserável egoísta, mas nunca te passou pela cabeça que, se Heathcliff e eu nos casarmos, seremos mendigos? Enquanto que, se me casar com Linton, posso ajudar Heathcliff a erguer-se, colocando-o fora do jugo de meu irmão.
No que se refere à personalidade, ela nada lembrava as mocinhas do inicio do século e suas dóceis submissões. Era uma criança arredia, agressiva, insubordinada, imprevisível e às vezes cruel, que encontrou o seu equilíbrio em um homem que desenvolveu tais características com o convívio em sua família: Heathcliff.
A mulher, na personagem de Catherine, possui valores que vão à contra-mão dos valores comuns da época. Num período em que a maioria sonhava em casar-se com um príncipe, o que acontece até hoje, ou pelo menos um homem correto, batalhador, educado, galante e romântico; eis, que a protagonista da trama, sente-se atraída e traída por seus sentimentos, ao tempo em que se apaixona pelo homem rude, grosso, violento e de pouca instrução que foi trazido dentro de um saco, encontrado por seu pai, enquanto vagava nas ruas de Liverpool. Ela aceita se casar com o um “príncipe” (Edgar), porém seu coração lhe mostra o seu verdadeiro amor. Inconcebível para os conceitos sociais, uma mulher de família, trocar um casamento bom, para manter um amor adolescente. Porém, Catherine não se desfaz do seu casamento, pior que isso, ela executa aquilo que é condenável em toda a História da humanidade com um pecado sem perdão pela maioria dos seres humanos: o adultério.
A relação de Catherine com Heathclif é dosada entre paradoxos que se tornaram comuns entre os romances literários. Amor e ódio, carinho e agressão, saudade e exaustão, entre outros; o tempero de uma relação desequilibrada e ao mesmo tempo conduzida sobre um eixo sustentável: O mistério.
Afinal de contas Catherine é uma heroína ou uma vilã?
Para pensarmos nessa questão vamos analisar o enxerto abaixo retirado do romance.Diálogo entre Edgar, Catherine e Heathcliff, após os dois últimos, terem sido surpreendidos pelo primeiro durante uma conversa reservada. Narrado por Nelly:
- O que é isso? – perguntou Linton dirigindo-se a ela- que senso das conveniências podes ter para ficar aqui depois de que te disse esse indecente?
- Estiveste escutando a porta, Edgar? - Perguntou a patroa, em um tom especialmente calculado para provocar seu marido e que implicava ao mesmo tempo displicência e desprezo pela irritação dele.
Heathcliff, que erguera a vista ao ouvir as palavras de Edgar, soltou uma gargalhada de escárnio ao ouvir aquilo, no propósito, parecia, de chamar para si, a atenção do Sr. Linton. Consegui-o. Mas Edgar estava resolvido a não se deixar arrebatar a transportes de cólera contra ele.
- Tenho sido até hoje bastante indulgente para com o senhor – disse ele, tranquilamente – não porque ignorasse o seu caráter miserável e degenerado, mas porque sentia que só em parte era o senhor responsável por isso. Como Catherine desejasse manter relações com o senhor, cometi a loucura de consentir. Sua presença é um veneno moral capaz de contaminar as mais virtuosas criaturas. Por esta razão e para prevenir piores conseqüências, proíbo-lhe dora em diante a entrada nessa casa e advirto-o que se deve sair daqui imediatamente. Três minutos de demora podem tornar essa saída involuntária e aviltante.
Heathcliff mediu a altura e a largura do interlocutor com um olhar cheio de dedem.
- Cathy, esse teu cordeirinho faz ameaças como se fosse um touro- disse ele- ele corre o risco de ter a cabeça rebentada pelos meus punhos. Por Deus! Sr. Linton, causa-me desespero ver que o senhor não é digno nem de que eu o jogue no chão!
Meu patrão olhou para o corredor e me fez sinal para ir chamar os homens. Não era sua intenção aventurar-se a uma luta pessoal. Obedeci a sua ordem, mas a Sra. Linton, suspeitando alguma coisa seguiu-me , quando eu tentava chamar os empregados, empurrou-me, fechou violentamente a porta e deu volta à chave.
- Belos processos- disse ela. Em resposta ao colérico olhar de surpresa de seu marido – Se não tens coragem de atacá-lo, pede-lhe desculpas ou reconhece-te derrotado. Isto te corrigirá da vontade de fingir mais valor do que possuis. Não, engolirei a chave antes que a possa tomar! estou deliciosamente recompensada de minha bondade para com ambos! Depois de uma constante indulgência pela natureza fraca de um, e pela ruindade de outro, recebo como agradecimento duas provas de ingratidão cega, estúpida até o absurdo! Edgar, eu estava defendendo a ti e aos teus. Agora desejaria que Heathcliff te moesse de pancadas por teres ousado pensar mal de mim!
Não se pode afirmar que Cathy é uma heroína ou defende o “bem”, visto que Heathcliff não é o modelo tradicional de herói e que ambos nem sempre vivem em núpcias. Pra ser mais sincero, a relação conturbada deles é mais uma prova dos invariáveis pensamentos e sentimentos que fluíam entre eles.
Podemos pensar que o amor de Cathy era mais o impossível do que propriamente ao signo Heathcliff. A Sra. Linton, que também era Earnshaw e Heathcliff possuía personalidades tão mutáveis quanto seu sobrenome.
Sem dúvida, a personagem, Cathy, exerce um papel fundamental sob os demais personagens e sua carga subjetiva condena a todos a uma eterna luta. Ela no papel de heroína sofre como Heathcliff, com os mesmo questionamentos característicos do Romantismo, ou seja, a divisão entre a razão e a emoção que desnorteiam seu precursor bem como o jogo de classes e convenções sociais , responsáveis pela busca constante de ambos pela própria identidade, pela definição de um lugar na sociedade e pela morte.
De qualquer forma, o parágrafo citado mostra a energia e a firmeza com que agia para defender seus interesses. Esses momentos de fúria e escárnio são comuns durante a trama, no entanto o que nos impressiona é o paradoxo, para os costumes da época, que essa ferocidade produz quando emana de uma figura tão aparentemente inofensiva e dócil que é a Cathy descrita por Emily (tão diferente de Ofélia).
Seria Cathy o reflexo físico e o espírito atormentado, porém contido da autora?
Independente da reposta a essa questão, o que podemos afirmar convictos é a presença do espírito revolucionário da pequena Brontë. Esse espírito, certamente, serviu com base reflexiva de um movimento vivo e crescente que surgiria com manifestações isoladas no século XIX, mas que desencadearia ideais de liberdade e de equalização dos direitos entre homens e mulheres. Até mesmo hoje não é tão fácil entender Emily Brontë e o furacão que carregava dentro do seu corpo miúdo e frágil. Criada em uma austera e rígida família protestante, sem quase nunca ter saído de sua casa na miserável cidadela de Haworth. Emily era a mais retraída de uma trinca de irmãs que fez história e marcou época. Anne, Emily e Charlotte Brontë; cada uma a sua maneira e com estilo peculiar, escreveram e publicaram, com resultados variados.
Emily Brontë morreu em 1928, com apenas trinta anos, sem sequer imaginar que chegaria a ser considerada melhor escritora que suas irmãs, nem que "O Morro dos Ventos Uivantes" seria consagrado como um dos romances mais importantes da literatura inglesa e mundial.
Ás vezes penso que os ingleses da época se depararam com aquilo e ficaram se perguntando, perplexos, onde estava o maniqueísmo simplista e moralizador? Como distinguir os "bons" e os "malvados"? Como classificar uma história que não é realista e não se pretende ser um retrato de costumes e, ao mesmo tempo, não se insere dentro do formato esquematizado do romantismo piegas?
A semente de Brontë, unida a outras tantas semeadas através da arte em geral, germinaram idéias e reflexões sobre os direitos da mulher e como gozá-los.
A Mulher Moderna, não necessita mais de atitudes tão ímpares para se expressar e para fazer valer seus direitos. Mas ainda, em muitos países Africanos e do leste asiático, Ela ainda tem seus direitos confiscados pela sociedade masculina, no entanto essas sociedades não permitem, em alguns caos, o acesso a determinadas obras com fundos ideológicos que possam incitar raciocínios revolucionários como os que ocorreram no ocidente. Isso prova que a literatura foi, nos tempos que precedem a nossa realidade, muito mais que entretenimento, e ainda hoje, é a uma das principais bases ideológicas para criadores e consumidores de arte.
Concluímos que Cathy é evoluída demais para sua época no que se refere às questões intelectuais, racionais ou irracionais e principalmente no fato de ser ela uma mulher que decide os cursos de seu destino, livre e formadora de opinião. E, em relação à Emily, tudo o que se atribuí a Cathy pode ser atribuído a ela com uma diferença: O silêncio de uma vida segregada e real em contraponto ao discursos do espírito engaiolado nas páginas de um romance esmero.
Emily não viveu o que escreveu. Mas legou a Cathy a missão de divulgar o que seus sentimentos diziam, e registrou-os para as mulheres de sua época e de todos os tempos. Lições de igualdade, paixão e liberdade.
Na manhã seguinte - clara e alegre lá fora - a luz do dia se infiltrou pelos postigos do quarto silencioso,enfeitando a cama e aquela que a ocupava com um clarão suave e delicado. Edgar Linton tinha a cabeça apoiada no travesseiro e os olhos fechados. Os jovens e belos traços de seu rosto apresentavam o aspecto da morte quase tanto quanto os do vulto estendido junto de si, e ambos estavam quase igualmente rígidos. Mas aquela imobilidade era a da angústia esgotada, enquanto a de Catherine era a da paz perfeita e eterna. A fronte lisa, as pálpebras cerradas, os lábios sobre os quais parecia volitar um sorriso,nenhum anjo celeste poderia ser mais belo do que ela se mostrava. Eu sentia a influência da calma infinita em que ela repousava. Jamais estivera em uma disposição de espírito mais santa do que naquele instante , diante daquela pacífica imagem de paz divina.Instintivamente , repetia eu as palavras que ela havia pronunciado algumas horas antes .“ Incomparavelmente além e acima de nós todos!. Que ela esteja ainda sobre a terra ou já esteja no céu , sua alma habita agora em Deus !
Então é isso amigos, segue minha sugestão de leitura para o feriado, abraços e até mais.
Sugestão de leitura:
Morro Dos Ventos Uivantes, O - Wuthering Heights
Ediçao Bilingue - Portugues/ingles
Autor: BRONTE, EMILY
Editora: LANDMARK
Imagens: Bronte - tinta sobre tela
´Fotos: Dolores O´Riordan
Domingo de tarde, muita chuva em São Paulo, após ler alguns textos necessários para o trabalho sobre Pierre Menard, peguei-me, olhando desapercebidamente para minha estante e eis que meus olhos se fixaram no romance O morro dos ventos Uivantes. Lembrei-me então de Cathy e comecei a escrever sobre ela e a mulher moderna. O resultado dessa brincadeira de fim de tarde eu os apresento agora. Apenas faço um pequeno adendo – não se trata de nenhuma pesquisa acadêmica, mas sim um exercício de exposição que fiz pra distrair-me um pouco dos trabalhos sérios.
Espero que gostem.
Personagens e enredo são praticamente indissolúveis. Quando pensamos no enredo, simultaneamente, olhamos para a vida que vive nos problemas em que se enreda na linha do seu destino, traçada conforme certa duração temporal, referida a determinada condições de ambiente. O enredo existe através das personagens, as personagens vivem no enredo. Enredo e personagem exprimem , ligados. Os intuitos do romance, a visão da vida que decorre dele, os significados e valores que o animam.
Antonio Candido (Janeiro de 1968)
Emile Brontë, Catherine e a mulher moderna.
A escolha de Catherine para desenvolver este post, tem como objetivo estabelecer uma breve relação entre a representação feminina, estampada na protagonista de O morro dos Ventos Uivantes ,e a mulher moderna, suas evoluções na trama e na vida real.
Porém, não podemos esquecer de que, trata-se de uma relação entre características fictícias com reais, e, portanto, vivenciadas em campos diferentes e, obviamente, com resultados distintos. Por mais que desejemos comparar Cathy com a Mulher, fruto de uma grande revolução ocorrida no século XX, não temos a pretensão de identificar todas essas semelhanças, visto a complexidade da personagem, do espírito criador da autora e da personalidade incomum na mulher atual. Basta pensar que afinidades e diferenças essenciais entre os seres vivos e as personagens de ficção são presentes em todos os momentos. As diferenças são sombreadas por conceitos, fruto de estilo autoral, através da verossimilhança. Segundo Antonio Candido:
É preciso uma investigação sumária sobre as condições de existência essencial da personagem, como um tipo de ser, mesmo fictício, começando por descrever do modo mais empírico possível a nossa percepção do semelhante.
Para ele, uma investigação completa das características físicas da personagem e seu ambiente não nos oferecem uma compreensão global do ser analisado. Deve-se considerar as concepções psicológicas da personagem.
No século XVIII, o romance entrega-se a analise das paixões e sentimentos humanos, à sátira social e política e também às narrativas de intenções filosóficas. Com o advento do romantismo, chega à vez do romance psicológico, da confissão e da análise das almas, do romance histórico, romance de critica e análise da realidade social. E é durante a segunda metade do século XIX que o gênero alcança seu apogeu, refinando-se enquanto escritura e articulando experiências humanas mais diversificadas.
Antonio Candido utiliza para exemplificar tal afirmação a autora Emile Brontë, a qual ele compara com Machado de Assis em alguns aspectos isolados. O principal deles é a reflexão do universo psicológico do autor em seus personagens.
Vale ressaltar que a pequena Emile Brontë conheceu o mundo que cercava sua residência em Haworth e nada além e que Machado de Assis jamais saíra do Rio de Janeiro (mais longe que viajou foi até a cidade de Petrópolis na região serrana); porém ambos conheciam o Universo humano como poucos e escreveram romances que eram verdadeiras obras primas que podem ser comparados com as obras de Dostoievski, Baudelaire, Nerval e que juntos preparam o caminho para Pirandello, Kafka, Glide, Proust e Joyce.
O Que Cathy pode ter em comum com Capitu? Pouquíssimas semelhanças físicas, mas o espírito de liberdade, a predisposição para lideranças, o envolvimento emocional que conduz a vida; podem ser um bom inicio para analisarmos tal relação. Todavia, a semelhança, de ambas, que mais se evidencia em suas histórias é sem dúvida aquela que simboliza os novos romances, a de uma “personagem esférica”.
Catherine era uma personagem que apenas se caracterizava com o seu tempo de acordo com a sua descrição, vestimenta e família; mas se destacava em sua astúcia e sua capacidade de arquitetar planos cujos objetivos eram claros e evidentes apenas para ela. Com ações das quais, para olhos alheios, os fins não justificavam os meios, Catherine ganhou espaço na história sobrepondo-se aos outros personagens ora com seu terrorismo ora com sua ternura e carinho.
No trecho a seguir, onde Catherine relata suas reflexões para sua serviçal, que é a narradora de grande parte do romance, podemos perceber a presença de seu planejamento e um tom macabro que surpreende até a própria Cathy, quanto ao casamento com Edgar e seu verdadeiro objetivo:
- Completamente abandonados! Separados nós! (fala de Heathcliff e sua própria pessoa) – exclamou ela, em um tom indignado - quem nos separaria pergunto-te eu? Enquanto eu viva for, Helena, nenhum mortal conseguirá isso. Poderão todos os Linton da Terra desaparecer, mas não consentirei apartar-me de Heathcliff. Oh! Não é isso que quero dizer... não é isso que pretendo! Não queria tornar-me Sra. Linton a semelhante preço! Ele será para mim o que sempre tem sido. Edgar deve desembaraçar-se da antipatia por ele e tolerá-lo. Pelo menos. Ele o fará quando souber de meus verdadeiros sentimentos por Heathcliff. Nelly, eu vejo agora, tu me julgas uma miserável egoísta, mas nunca te passou pela cabeça que, se Heathcliff e eu nos casarmos, seremos mendigos? Enquanto que, se me casar com Linton, posso ajudar Heathcliff a erguer-se, colocando-o fora do jugo de meu irmão.
No que se refere à personalidade, ela nada lembrava as mocinhas do inicio do século e suas dóceis submissões. Era uma criança arredia, agressiva, insubordinada, imprevisível e às vezes cruel, que encontrou o seu equilíbrio em um homem que desenvolveu tais características com o convívio em sua família: Heathcliff.
A mulher, na personagem de Catherine, possui valores que vão à contra-mão dos valores comuns da época. Num período em que a maioria sonhava em casar-se com um príncipe, o que acontece até hoje, ou pelo menos um homem correto, batalhador, educado, galante e romântico; eis, que a protagonista da trama, sente-se atraída e traída por seus sentimentos, ao tempo em que se apaixona pelo homem rude, grosso, violento e de pouca instrução que foi trazido dentro de um saco, encontrado por seu pai, enquanto vagava nas ruas de Liverpool. Ela aceita se casar com o um “príncipe” (Edgar), porém seu coração lhe mostra o seu verdadeiro amor. Inconcebível para os conceitos sociais, uma mulher de família, trocar um casamento bom, para manter um amor adolescente. Porém, Catherine não se desfaz do seu casamento, pior que isso, ela executa aquilo que é condenável em toda a História da humanidade com um pecado sem perdão pela maioria dos seres humanos: o adultério.
A relação de Catherine com Heathclif é dosada entre paradoxos que se tornaram comuns entre os romances literários. Amor e ódio, carinho e agressão, saudade e exaustão, entre outros; o tempero de uma relação desequilibrada e ao mesmo tempo conduzida sobre um eixo sustentável: O mistério.
Afinal de contas Catherine é uma heroína ou uma vilã?
Para pensarmos nessa questão vamos analisar o enxerto abaixo retirado do romance.Diálogo entre Edgar, Catherine e Heathcliff, após os dois últimos, terem sido surpreendidos pelo primeiro durante uma conversa reservada. Narrado por Nelly:
- O que é isso? – perguntou Linton dirigindo-se a ela- que senso das conveniências podes ter para ficar aqui depois de que te disse esse indecente?
- Estiveste escutando a porta, Edgar? - Perguntou a patroa, em um tom especialmente calculado para provocar seu marido e que implicava ao mesmo tempo displicência e desprezo pela irritação dele.
Heathcliff, que erguera a vista ao ouvir as palavras de Edgar, soltou uma gargalhada de escárnio ao ouvir aquilo, no propósito, parecia, de chamar para si, a atenção do Sr. Linton. Consegui-o. Mas Edgar estava resolvido a não se deixar arrebatar a transportes de cólera contra ele.
- Tenho sido até hoje bastante indulgente para com o senhor – disse ele, tranquilamente – não porque ignorasse o seu caráter miserável e degenerado, mas porque sentia que só em parte era o senhor responsável por isso. Como Catherine desejasse manter relações com o senhor, cometi a loucura de consentir. Sua presença é um veneno moral capaz de contaminar as mais virtuosas criaturas. Por esta razão e para prevenir piores conseqüências, proíbo-lhe dora em diante a entrada nessa casa e advirto-o que se deve sair daqui imediatamente. Três minutos de demora podem tornar essa saída involuntária e aviltante.
Heathcliff mediu a altura e a largura do interlocutor com um olhar cheio de dedem.
- Cathy, esse teu cordeirinho faz ameaças como se fosse um touro- disse ele- ele corre o risco de ter a cabeça rebentada pelos meus punhos. Por Deus! Sr. Linton, causa-me desespero ver que o senhor não é digno nem de que eu o jogue no chão!
Meu patrão olhou para o corredor e me fez sinal para ir chamar os homens. Não era sua intenção aventurar-se a uma luta pessoal. Obedeci a sua ordem, mas a Sra. Linton, suspeitando alguma coisa seguiu-me , quando eu tentava chamar os empregados, empurrou-me, fechou violentamente a porta e deu volta à chave.
- Belos processos- disse ela. Em resposta ao colérico olhar de surpresa de seu marido – Se não tens coragem de atacá-lo, pede-lhe desculpas ou reconhece-te derrotado. Isto te corrigirá da vontade de fingir mais valor do que possuis. Não, engolirei a chave antes que a possa tomar! estou deliciosamente recompensada de minha bondade para com ambos! Depois de uma constante indulgência pela natureza fraca de um, e pela ruindade de outro, recebo como agradecimento duas provas de ingratidão cega, estúpida até o absurdo! Edgar, eu estava defendendo a ti e aos teus. Agora desejaria que Heathcliff te moesse de pancadas por teres ousado pensar mal de mim!
Não se pode afirmar que Cathy é uma heroína ou defende o “bem”, visto que Heathcliff não é o modelo tradicional de herói e que ambos nem sempre vivem em núpcias. Pra ser mais sincero, a relação conturbada deles é mais uma prova dos invariáveis pensamentos e sentimentos que fluíam entre eles.
Podemos pensar que o amor de Cathy era mais o impossível do que propriamente ao signo Heathcliff. A Sra. Linton, que também era Earnshaw e Heathcliff possuía personalidades tão mutáveis quanto seu sobrenome.
Sem dúvida, a personagem, Cathy, exerce um papel fundamental sob os demais personagens e sua carga subjetiva condena a todos a uma eterna luta. Ela no papel de heroína sofre como Heathcliff, com os mesmo questionamentos característicos do Romantismo, ou seja, a divisão entre a razão e a emoção que desnorteiam seu precursor bem como o jogo de classes e convenções sociais , responsáveis pela busca constante de ambos pela própria identidade, pela definição de um lugar na sociedade e pela morte.
De qualquer forma, o parágrafo citado mostra a energia e a firmeza com que agia para defender seus interesses. Esses momentos de fúria e escárnio são comuns durante a trama, no entanto o que nos impressiona é o paradoxo, para os costumes da época, que essa ferocidade produz quando emana de uma figura tão aparentemente inofensiva e dócil que é a Cathy descrita por Emily (tão diferente de Ofélia).
Seria Cathy o reflexo físico e o espírito atormentado, porém contido da autora?
Independente da reposta a essa questão, o que podemos afirmar convictos é a presença do espírito revolucionário da pequena Brontë. Esse espírito, certamente, serviu com base reflexiva de um movimento vivo e crescente que surgiria com manifestações isoladas no século XIX, mas que desencadearia ideais de liberdade e de equalização dos direitos entre homens e mulheres. Até mesmo hoje não é tão fácil entender Emily Brontë e o furacão que carregava dentro do seu corpo miúdo e frágil. Criada em uma austera e rígida família protestante, sem quase nunca ter saído de sua casa na miserável cidadela de Haworth. Emily era a mais retraída de uma trinca de irmãs que fez história e marcou época. Anne, Emily e Charlotte Brontë; cada uma a sua maneira e com estilo peculiar, escreveram e publicaram, com resultados variados.
Emily Brontë morreu em 1928, com apenas trinta anos, sem sequer imaginar que chegaria a ser considerada melhor escritora que suas irmãs, nem que "O Morro dos Ventos Uivantes" seria consagrado como um dos romances mais importantes da literatura inglesa e mundial.
Ás vezes penso que os ingleses da época se depararam com aquilo e ficaram se perguntando, perplexos, onde estava o maniqueísmo simplista e moralizador? Como distinguir os "bons" e os "malvados"? Como classificar uma história que não é realista e não se pretende ser um retrato de costumes e, ao mesmo tempo, não se insere dentro do formato esquematizado do romantismo piegas?
A semente de Brontë, unida a outras tantas semeadas através da arte em geral, germinaram idéias e reflexões sobre os direitos da mulher e como gozá-los.
A Mulher Moderna, não necessita mais de atitudes tão ímpares para se expressar e para fazer valer seus direitos. Mas ainda, em muitos países Africanos e do leste asiático, Ela ainda tem seus direitos confiscados pela sociedade masculina, no entanto essas sociedades não permitem, em alguns caos, o acesso a determinadas obras com fundos ideológicos que possam incitar raciocínios revolucionários como os que ocorreram no ocidente. Isso prova que a literatura foi, nos tempos que precedem a nossa realidade, muito mais que entretenimento, e ainda hoje, é a uma das principais bases ideológicas para criadores e consumidores de arte.
Concluímos que Cathy é evoluída demais para sua época no que se refere às questões intelectuais, racionais ou irracionais e principalmente no fato de ser ela uma mulher que decide os cursos de seu destino, livre e formadora de opinião. E, em relação à Emily, tudo o que se atribuí a Cathy pode ser atribuído a ela com uma diferença: O silêncio de uma vida segregada e real em contraponto ao discursos do espírito engaiolado nas páginas de um romance esmero.
Emily não viveu o que escreveu. Mas legou a Cathy a missão de divulgar o que seus sentimentos diziam, e registrou-os para as mulheres de sua época e de todos os tempos. Lições de igualdade, paixão e liberdade.
Na manhã seguinte - clara e alegre lá fora - a luz do dia se infiltrou pelos postigos do quarto silencioso,enfeitando a cama e aquela que a ocupava com um clarão suave e delicado. Edgar Linton tinha a cabeça apoiada no travesseiro e os olhos fechados. Os jovens e belos traços de seu rosto apresentavam o aspecto da morte quase tanto quanto os do vulto estendido junto de si, e ambos estavam quase igualmente rígidos. Mas aquela imobilidade era a da angústia esgotada, enquanto a de Catherine era a da paz perfeita e eterna. A fronte lisa, as pálpebras cerradas, os lábios sobre os quais parecia volitar um sorriso,nenhum anjo celeste poderia ser mais belo do que ela se mostrava. Eu sentia a influência da calma infinita em que ela repousava. Jamais estivera em uma disposição de espírito mais santa do que naquele instante , diante daquela pacífica imagem de paz divina.Instintivamente , repetia eu as palavras que ela havia pronunciado algumas horas antes .“ Incomparavelmente além e acima de nós todos!. Que ela esteja ainda sobre a terra ou já esteja no céu , sua alma habita agora em Deus !
Então é isso amigos, segue minha sugestão de leitura para o feriado, abraços e até mais.
Sugestão de leitura:
Morro Dos Ventos Uivantes, O - Wuthering Heights
Ediçao Bilingue - Portugues/ingles
Autor: BRONTE, EMILY
Editora: LANDMARK
Imagens: Bronte - tinta sobre tela
´Fotos: Dolores O´Riordan
Feliz 2002-2006-2010 (...)
É comum nessa época do ano, durante as festividades do reveillon, que as pessoas façam um balanço dos principais acontecimentos do ano que passou e uma perspectiva dos acontecimentos do ano que virá. Por isso, vou utilizar esse espaço para registrar, de uma forma geral, os fatos que virão em 2010, sobre uma percepção um tanto quanto niilista, se consideramos a supervalorização que a Mídia brasileira oferece aos eventos que acontecerão no ano que nasce.
A copa do mundo será, como todas as copas, uma pausa no desenvolvimento da nação para a apreciação de algumas partidas de futebol. A seleção brasileira de futebol, que concentra uma gama de admiradores no mundo inteiro, possui um status muito além do que qualquer herói nacional. Afinal, se perguntar à um garoto, um adolecente ou até mesmo um adulto, ingênuo quanto aos aspectos alienadores do governo, quem é o maior herói do Brasil? Não se espante caso figuras como Pelé, Ronaldo e até mesmo Felipão surgirem dentre os nomes citados. Pois num país que não tem memória nada espanta que não tenhamos história também.
Os jogadores de futebol são os heróis de uma nação alienada.
Depois teremos as eleições para presidente, deputados e senadores. Como esperar que um povo sem memória e uma mídia vendida concentre seus votos para acabar com a corrupção. Alguém tem dúvidas que o clã Sarney continuará?
Alguém espera que os deputados de Brasília sejam punidos?
E os presidenciáveis? Lula põe Dilma ou Fernando Henrique põe Serra?
Cheguei a conclusão que não existe esquerda ou direita no Brasil, mas os extremos ainda persistem. Ou você tem uma extrema mesmice? Com uma extrema falta de bom senso do povo brasileiro e da mídia. Ou você tem uma extrema revolução? E como isso é sonho para poucos alucinados que não temem o apocalipse, por entender que o apocalipse é agora, resta dizer, aos meus caros leitores, que 2010 será um novo ano igual aos outros, no que se refere ao geral do Brasil. Todo ano de eleição e copa do mundo é igual.
Assim, peço encarecidamente, que você leitor faça algo diferente na sua vida, mude, porque no que dependermos do Brasil para vislumbrarmos alguma mudança, acredite, nada será diferente.
Feliz ano igual.
A copa do mundo será, como todas as copas, uma pausa no desenvolvimento da nação para a apreciação de algumas partidas de futebol. A seleção brasileira de futebol, que concentra uma gama de admiradores no mundo inteiro, possui um status muito além do que qualquer herói nacional. Afinal, se perguntar à um garoto, um adolecente ou até mesmo um adulto, ingênuo quanto aos aspectos alienadores do governo, quem é o maior herói do Brasil? Não se espante caso figuras como Pelé, Ronaldo e até mesmo Felipão surgirem dentre os nomes citados. Pois num país que não tem memória nada espanta que não tenhamos história também.Os jogadores de futebol são os heróis de uma nação alienada.
Depois teremos as eleições para presidente, deputados e senadores. Como esperar que um povo sem memória e uma mídia vendida concentre seus votos para acabar com a corrupção. Alguém tem dúvidas que o clã Sarney continuará?
Alguém espera que os deputados de Brasília sejam punidos? E os presidenciáveis? Lula põe Dilma ou Fernando Henrique põe Serra?

Cheguei a conclusão que não existe esquerda ou direita no Brasil, mas os extremos ainda persistem. Ou você tem uma extrema mesmice? Com uma extrema falta de bom senso do povo brasileiro e da mídia. Ou você tem uma extrema revolução? E como isso é sonho para poucos alucinados que não temem o apocalipse, por entender que o apocalipse é agora, resta dizer, aos meus caros leitores, que 2010 será um novo ano igual aos outros, no que se refere ao geral do Brasil. Todo ano de eleição e copa do mundo é igual.
Assim, peço encarecidamente, que você leitor faça algo diferente na sua vida, mude, porque no que dependermos do Brasil para vislumbrarmos alguma mudança, acredite, nada será diferente.
Feliz ano igual.
Influências Clássicas na literatura Moderna
O livro Fruto Vermelho apresenta, em alguns poemas, uma explícita influência da escola clássica com tendências Modernas. Isso pode ser observado tanto na forma como no conteúdo não apenas, é claro, nas reflexões de um jovem brasileiro ( pretensões surreais e descartáveis)mas em alguns ícones da nossa literatura, como é o caso de Mario Quintana por exemplo.
A busca pelo ideal sugerida na estética classicista propõe, segundo a critica moderna, duas vertentes históricas. Alguns defendem que esta temática, por conta dos elementos classicistas que retomam princípios greco-romanos, baseia-se no idealismo platônico. Outros, no entanto, defendem que a raiz desta busca pelo ideal nas composições clássicas surge do monismo idealista, a existência de ser indescritível, na obra de Plotinio¹.
Essa divergência de opiniões adverte sobre a linha de pesquisa adotada por cada teoria. O tema presente na composição de Camões pode ser classificado como neo-platonismo. Variações naturais do pensamento de Platão que, unidas as sanções impostas pela era medieval, geraram essa nova linha cognitiva.
Após séculos de repressão o pensamento de Platão ressoa com um novo sopro de razão: liberdade. Essa explosão intelectual que se somou ao universalismo, racionalismo, antropocentrismo e ao paganismo foi tão avassaladora que seu “eco” pode ser ouvido séculos depois pelos idealizadores e escritores do modernismo no século XX. São tantas as manifestações da temática classicista presentes no modernismo que poderíamos afirmar, sem medo de cair em nenhum armadilha interpretativa de comparação, que o “grito de liberdade” entoado pelos classicistas, resultante do pensamento humanista que os antecedera e que representa o rompimento com a estética literária proposta pelos orphistas, antecessores ao modernismo.
Vejamos o soneto Sete anos de Pastor inspirado em outro soneto , de Petrarca² , per Rachel ho servido e non per dia . Idealismo presente no sonho de Jacob e personificado na imagem de Raquel. No soneto de Camões o racionalismo, apesar do encantamento que sofre o protagonista,se faz presente na oferta de trabalho e esforço medido, pela conquista de seu ideal.Resultante de um equilíbrio sóbrio entre razão e sentimento.
Os dias, na esperança de um só dia,
passava, contentando-se em vê-la.
Jacob aprendia em sua racionalidade, mesmo com o passar do tempo, seu ideal de felicidade: Raquel. Vale Ressaltar que a mesma Raquel, no texto original em Gênesis é uma personagem que interage com o espaço, propõe ações, expõe opiniões e esboça atitudes próprias, enquanto que a Raquel de Camões transforma-se em um ideal de conquista, uma busca vital, uma promessa de felicidade.
O Soneto de Camões caracteriza-se como classicista pela estética,
versos decassílabos, ordenados em quatro estrofes, sendo dois tercetos e dois quartetos; o que determina o equilibro peculiar deste movimento artístico. As rimas são consoantes em (a) (B) (B) (a), característica dos sonetos Camonianos.
Observando a temática, o poema apresenta uma retomada dos valores gregos, especificamente, sobre o ideal de Platão. A concepção de Mimesis também se faz presente no texto. Além do principio de harmonia que se estabelece nos antagônicos valores entre o “poder” e a submissão; segundo Nietzsche esta característica clássica é resultante de uma harmonia ampla em todos os setores da arte que, no seu entender, durante este período se faz muito mais apolínea do que dionisíaca. Se o equilíbrio esta na dosagem da moral com a paixão, ter caráter mais apolíneo é o que melhor contribui para tal pêndulo, haja vista que se existissem no mesmo patamar a paixão se sobressairia
Avancemos alguns séculos para observarmos a presença desta temática no movimento modernista. Usaremos como corpus de observação o poema de Manuel Bandeira Ultima Canção do Beco. Obra que apresenta características modernas na construção do pensamento introspectivo e retomada de valores do passado. Tais características somadas às temáticas singulares de Bandeira, como a solidão, o medo da morte, cotidiano em Santa Tereza, a família e a infância; temos aqui outra ilustração do idealismo Neo Platônico. O texto de Manuel Bandeira habita o eixo de sustentação da explanação anterior sobre as concepções modernistas do Segundo Período. Percebe-se uma preocupação mais amena com a quebra dos conceitos estéticos anteriores, pelo menos com certa exposição panfletária menor. Contudo os paradoxos e as antíteses, resultantes de sua bipolaridade, apresentam-se de maneira destacada, salvo nas articulações sobre a concepção do ideal , onde o poeta mostra-se convicto de sua afirmação.
A individualização de um universo paralelo,
utilizada no trecho que fala de seu quarto, reduto de produção cognitiva, é habitualmente retomada na poesia de Manuel Bandeira. Em seu Poema mais famoso Vou embora para Pasárgada eis que esta individualização surge como trilhos condutores de toda construção que se segue, traçando um espaço atemporal de fuga e alimentação de valores.
Ultima canção do beco possuí um eu-lírico residente na formatação hermenêutica do autor e um espaço introspectivo constituído de valores diacronicamente imergentes.
O beco é a memória de um determinado momento da vida do “eu - lírico”; imagem que lhe vem carregada de lembranças boas e ruins, mas que o mesmo deseja que fique apenas nas lembranças. Um passado que quando presente fora presente não era tão poético assim.
O espaço mais sagrado do eu-lírico é o quarto. Nota-se o amor pelo seu universo que teve um significado muito maior do que as imagens mundanas. Já que o quarto permanecerá de forma imperfeita aos olhos do mundo das aparências. O universo criado para suprir a necessidade de afeto que outros espaços ofereciam. Os grandes instrumentos de construção do seu Eu ficarão vivos e continuarão com sua importância intocada.
Instrumentalizado com suas elipses, Bandeira reflete a exposição de um universo individualizado e delimitado ao quarto que morou. Além disso, apresenta a relação deste universo com a sociedade também resumida ao beco de sua infância. Os equilíbrios entre o sagrado e o profano , o ideal e o real ;presentes no poema nos comprova a retomada da temática clássica ,que reaparecerá , de uma maneira quase metalingüística,no poema de Mario Quintana Da realidade.
O olhar lúdico de Quintana serve-nos com uma interpretação palpável da teoria de Platão. Se o plano que se deseja de uma existência é a verdadeira razão dela mesma, pode-se afirmar que a realidade não satisfará, em momento algum, a trajetória de vida do homem. Conforme observamos no processo evolutivo do pensamento de Platão, que se agregou aos valores de ideais libertários do pensamento poético classicista, percebe-se um movimento de transformação da temática também nos moldes modernos.
As características modernas aplicadas ao texto de Manuel Bandeira, em partes, podem ser aplicadas ao poema Da Realidade de Mario Quintana.
No entanto, inseri-se aqui , os preceitos de Práxis e suas conclusões objetivas que remetem a intenção filosófica à prática. De acordo com esta inclinação ao pós-modernismo podemos afirmar que a vertente do pensamento platônico avança sobre a contemporaneidade com força equivalente ao período clássico dada a capacidade construtiva e de adaptação dos modernistas
O moderno e o pós moderno que adaptou o ideal no contexto de teorização, a fim de entendê-lo mais profundamente, ao contrário do classicismo que se preocupou , aparentemente em maior escala, com sua exibição;dando vida aos sentimentos e transformando-os em arte.
Notas:
1- Plotino (d.c. 205 - 270), natural de Licopólis, Egito, foi discípulo de Amônio Sacas por 11 anos e mestre de Porfírio. Plotino nos legou ensinamentos em seis livros, de nove capítulos cada, chamados de As Enéadas.
2- Petrarca- (1304-1374) ,foi um importante intelectual, poeta e humanista italiano, famoso, principalmente, devido ao seu Romanceiro. É considerado o inventor do soneto.
A busca pelo ideal sugerida na estética classicista propõe, segundo a critica moderna, duas vertentes históricas. Alguns defendem que esta temática, por conta dos elementos classicistas que retomam princípios greco-romanos, baseia-se no idealismo platônico. Outros, no entanto, defendem que a raiz desta busca pelo ideal nas composições clássicas surge do monismo idealista, a existência de ser indescritível, na obra de Plotinio¹.
Essa divergência de opiniões adverte sobre a linha de pesquisa adotada por cada teoria. O tema presente na composição de Camões pode ser classificado como neo-platonismo. Variações naturais do pensamento de Platão que, unidas as sanções impostas pela era medieval, geraram essa nova linha cognitiva.
Após séculos de repressão o pensamento de Platão ressoa com um novo sopro de razão: liberdade. Essa explosão intelectual que se somou ao universalismo, racionalismo, antropocentrismo e ao paganismo foi tão avassaladora que seu “eco” pode ser ouvido séculos depois pelos idealizadores e escritores do modernismo no século XX. São tantas as manifestações da temática classicista presentes no modernismo que poderíamos afirmar, sem medo de cair em nenhum armadilha interpretativa de comparação, que o “grito de liberdade” entoado pelos classicistas, resultante do pensamento humanista que os antecedera e que representa o rompimento com a estética literária proposta pelos orphistas, antecessores ao modernismo.Vejamos o soneto Sete anos de Pastor inspirado em outro soneto , de Petrarca² , per Rachel ho servido e non per dia . Idealismo presente no sonho de Jacob e personificado na imagem de Raquel. No soneto de Camões o racionalismo, apesar do encantamento que sofre o protagonista,se faz presente na oferta de trabalho e esforço medido, pela conquista de seu ideal.Resultante de um equilíbrio sóbrio entre razão e sentimento.
Os dias, na esperança de um só dia,
passava, contentando-se em vê-la.
Jacob aprendia em sua racionalidade, mesmo com o passar do tempo, seu ideal de felicidade: Raquel. Vale Ressaltar que a mesma Raquel, no texto original em Gênesis é uma personagem que interage com o espaço, propõe ações, expõe opiniões e esboça atitudes próprias, enquanto que a Raquel de Camões transforma-se em um ideal de conquista, uma busca vital, uma promessa de felicidade.
O Soneto de Camões caracteriza-se como classicista pela estética,
versos decassílabos, ordenados em quatro estrofes, sendo dois tercetos e dois quartetos; o que determina o equilibro peculiar deste movimento artístico. As rimas são consoantes em (a) (B) (B) (a), característica dos sonetos Camonianos.Observando a temática, o poema apresenta uma retomada dos valores gregos, especificamente, sobre o ideal de Platão. A concepção de Mimesis também se faz presente no texto. Além do principio de harmonia que se estabelece nos antagônicos valores entre o “poder” e a submissão; segundo Nietzsche esta característica clássica é resultante de uma harmonia ampla em todos os setores da arte que, no seu entender, durante este período se faz muito mais apolínea do que dionisíaca. Se o equilíbrio esta na dosagem da moral com a paixão, ter caráter mais apolíneo é o que melhor contribui para tal pêndulo, haja vista que se existissem no mesmo patamar a paixão se sobressairia
Avancemos alguns séculos para observarmos a presença desta temática no movimento modernista. Usaremos como corpus de observação o poema de Manuel Bandeira Ultima Canção do Beco. Obra que apresenta características modernas na construção do pensamento introspectivo e retomada de valores do passado. Tais características somadas às temáticas singulares de Bandeira, como a solidão, o medo da morte, cotidiano em Santa Tereza, a família e a infância; temos aqui outra ilustração do idealismo Neo Platônico. O texto de Manuel Bandeira habita o eixo de sustentação da explanação anterior sobre as concepções modernistas do Segundo Período. Percebe-se uma preocupação mais amena com a quebra dos conceitos estéticos anteriores, pelo menos com certa exposição panfletária menor. Contudo os paradoxos e as antíteses, resultantes de sua bipolaridade, apresentam-se de maneira destacada, salvo nas articulações sobre a concepção do ideal , onde o poeta mostra-se convicto de sua afirmação.
A individualização de um universo paralelo,
utilizada no trecho que fala de seu quarto, reduto de produção cognitiva, é habitualmente retomada na poesia de Manuel Bandeira. Em seu Poema mais famoso Vou embora para Pasárgada eis que esta individualização surge como trilhos condutores de toda construção que se segue, traçando um espaço atemporal de fuga e alimentação de valores.Ultima canção do beco possuí um eu-lírico residente na formatação hermenêutica do autor e um espaço introspectivo constituído de valores diacronicamente imergentes.
O beco é a memória de um determinado momento da vida do “eu - lírico”; imagem que lhe vem carregada de lembranças boas e ruins, mas que o mesmo deseja que fique apenas nas lembranças. Um passado que quando presente fora presente não era tão poético assim.
O espaço mais sagrado do eu-lírico é o quarto. Nota-se o amor pelo seu universo que teve um significado muito maior do que as imagens mundanas. Já que o quarto permanecerá de forma imperfeita aos olhos do mundo das aparências. O universo criado para suprir a necessidade de afeto que outros espaços ofereciam. Os grandes instrumentos de construção do seu Eu ficarão vivos e continuarão com sua importância intocada.
Instrumentalizado com suas elipses, Bandeira reflete a exposição de um universo individualizado e delimitado ao quarto que morou. Além disso, apresenta a relação deste universo com a sociedade também resumida ao beco de sua infância. Os equilíbrios entre o sagrado e o profano , o ideal e o real ;presentes no poema nos comprova a retomada da temática clássica ,que reaparecerá , de uma maneira quase metalingüística,no poema de Mario Quintana Da realidade.
O olhar lúdico de Quintana serve-nos com uma interpretação palpável da teoria de Platão. Se o plano que se deseja de uma existência é a verdadeira razão dela mesma, pode-se afirmar que a realidade não satisfará, em momento algum, a trajetória de vida do homem. Conforme observamos no processo evolutivo do pensamento de Platão, que se agregou aos valores de ideais libertários do pensamento poético classicista, percebe-se um movimento de transformação da temática também nos moldes modernos.
As características modernas aplicadas ao texto de Manuel Bandeira, em partes, podem ser aplicadas ao poema Da Realidade de Mario Quintana.
No entanto, inseri-se aqui , os preceitos de Práxis e suas conclusões objetivas que remetem a intenção filosófica à prática. De acordo com esta inclinação ao pós-modernismo podemos afirmar que a vertente do pensamento platônico avança sobre a contemporaneidade com força equivalente ao período clássico dada a capacidade construtiva e de adaptação dos modernistasO moderno e o pós moderno que adaptou o ideal no contexto de teorização, a fim de entendê-lo mais profundamente, ao contrário do classicismo que se preocupou , aparentemente em maior escala, com sua exibição;dando vida aos sentimentos e transformando-os em arte.
Notas:
1- Plotino (d.c. 205 - 270), natural de Licopólis, Egito, foi discípulo de Amônio Sacas por 11 anos e mestre de Porfírio. Plotino nos legou ensinamentos em seis livros, de nove capítulos cada, chamados de As Enéadas.
2- Petrarca- (1304-1374) ,foi um importante intelectual, poeta e humanista italiano, famoso, principalmente, devido ao seu Romanceiro. É considerado o inventor do soneto.
A Língua das Mariposas
Em tempos que a discussão sobre a qualidade de ensino no Brasil parece ter alcançado os patamares populares, lembrei-me de um filme que assisti há 5 anos que retrata a necessidade da reforma educacional principalmente no que tange o seu método educacional..
No filme o contexto é a revolução espanhola que modifica radicalmente a vida de uma sociedade católica constituída, no Brasil o contexto é a miséria de perspectiva que perpetua a dor de milhares de brasileiros e cega outra parte que acredita viver num país de igualdade de oportunidades. O discurso do sistema continua convencendo a emergente classe média de que “nunca na história deste país estivemos tão bem”.
O fato é bem simples de esclarecer, basta que o cidadão precise de um hospital público, seu filho de uma escola descente, e que ambos necessitem de segurança para caminharem nas ruas; e todo o discurso ideológico de Brasília cairá por terra.
Não existe outra saída que não seja a educação e seu rompimento com a escolástica moderna da qual bebem os antigos e recém formados professores da rede pública, salvo raras exceções, que estão preocupados com seus salários somente e esquecem suas obrigações.Metade da responsabilidade de nossa decadência educacional deve-se ao descaso do governo, a outra metade é atribuída aos profissionais de péssima índole acadêmica que atuam na direção e na condução das aulas na maioria das instituições públicas de nosso país.
O Filme chama-se “ A Língua das Mariposas” (Lengua de las Mariposas). Trata-se de um drama espanhol dirigido por José Luis Cuerda que retrata a relação de aluno ( Moncho) e Professor em meio aos dias que antecedem a revolução espanhola.
Em diversas cenas do filme podemos identificar a prática pedagógica adotada pelo professor. Ela é voltada para o “deslumbrar do conhecimento” através da abertura de um novo universo captado pela sensibilidade do aluno. Em um determinado momento, vemos o professor oferecendo à seus alunos um aprendizado por meio do despertar de suas curiosidades pessoais.
O primeiro passo então é transformar a necessidade do conhecer no desejo do descobrir. Aguçando a curiosidade e alimentando-a com a educação. Assim, o aluno segue em busca do conhecimento um caminho traçado por uma guia com o conduzirá ao “novo”.A forma de OLHAR passa a ser diferente, mais detalhada, mais sensível, mais aberta aos novos horizontes do Saber.
Essa não é o único método pedagógico eficaz, mas é bem diferente dos falidos métodos mais aplicados nas salas de aulas brasileiras: “proíbe tudo” ou “libera tudo”.
Caro professor segue uma boa dica de filme para seus finais de semana, ao invés de ficarem vendo o Domingão do Bobão ou qualquer outra porcaria na TV.
A Língua das Mariposas
(Lengua de las Mariposas, La, 1999)
Ficha técnica
Direção: José Luis Cuerda
Roteiro: Rafael Azcona, José Luis Cuerda, Manuel Rivas
Gênero: Drama
Origem: Espanha
Duração: 96 minutos
Tipo: Longa-metragem
Sinopse: O mundo do pequeno Moncho estava se transformando: começando na escola, vivia em tempo de fazer amigos e descobrir novas coisas, até o início da Guerra Civil Espanhola, quando ele reconhecerá a dura realidade de seu país. Rebeldes fascistas abrem fogo contra o regime republicano e o povo se divide. O pai e o professor do menino são republicanos, mas os rebeldes ganham força, virando a vida do garoto de pernas para o ar.
No filme o contexto é a revolução espanhola que modifica radicalmente a vida de uma sociedade católica constituída, no Brasil o contexto é a miséria de perspectiva que perpetua a dor de milhares de brasileiros e cega outra parte que acredita viver num país de igualdade de oportunidades. O discurso do sistema continua convencendo a emergente classe média de que “nunca na história deste país estivemos tão bem”. O fato é bem simples de esclarecer, basta que o cidadão precise de um hospital público, seu filho de uma escola descente, e que ambos necessitem de segurança para caminharem nas ruas; e todo o discurso ideológico de Brasília cairá por terra.
Não existe outra saída que não seja a educação e seu rompimento com a escolástica moderna da qual bebem os antigos e recém formados professores da rede pública, salvo raras exceções, que estão preocupados com seus salários somente e esquecem suas obrigações.Metade da responsabilidade de nossa decadência educacional deve-se ao descaso do governo, a outra metade é atribuída aos profissionais de péssima índole acadêmica que atuam na direção e na condução das aulas na maioria das instituições públicas de nosso país.
O Filme chama-se “ A Língua das Mariposas” (Lengua de las Mariposas). Trata-se de um drama espanhol dirigido por José Luis Cuerda que retrata a relação de aluno ( Moncho) e Professor em meio aos dias que antecedem a revolução espanhola.
Em diversas cenas do filme podemos identificar a prática pedagógica adotada pelo professor. Ela é voltada para o “deslumbrar do conhecimento” através da abertura de um novo universo captado pela sensibilidade do aluno. Em um determinado momento, vemos o professor oferecendo à seus alunos um aprendizado por meio do despertar de suas curiosidades pessoais.

O primeiro passo então é transformar a necessidade do conhecer no desejo do descobrir. Aguçando a curiosidade e alimentando-a com a educação. Assim, o aluno segue em busca do conhecimento um caminho traçado por uma guia com o conduzirá ao “novo”.A forma de OLHAR passa a ser diferente, mais detalhada, mais sensível, mais aberta aos novos horizontes do Saber.
Essa não é o único método pedagógico eficaz, mas é bem diferente dos falidos métodos mais aplicados nas salas de aulas brasileiras: “proíbe tudo” ou “libera tudo”.
Caro professor segue uma boa dica de filme para seus finais de semana, ao invés de ficarem vendo o Domingão do Bobão ou qualquer outra porcaria na TV.
A Língua das Mariposas
(Lengua de las Mariposas, La, 1999)
Ficha técnica
Direção: José Luis Cuerda
Roteiro: Rafael Azcona, José Luis Cuerda, Manuel Rivas
Gênero: Drama
Origem: Espanha
Duração: 96 minutos
Tipo: Longa-metragem
Sinopse: O mundo do pequeno Moncho estava se transformando: começando na escola, vivia em tempo de fazer amigos e descobrir novas coisas, até o início da Guerra Civil Espanhola, quando ele reconhecerá a dura realidade de seu país. Rebeldes fascistas abrem fogo contra o regime republicano e o povo se divide. O pai e o professor do menino são republicanos, mas os rebeldes ganham força, virando a vida do garoto de pernas para o ar.
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