Curso de Leitura e Análise literária
O programa Escola da Família da escola Leda Felice Ferreira ( Jd Paraíso- Itapecerica da Serra) e os grandes nomes da literatura convidam a todos para o curso de Leitura e Análise literária que começará no dia 12/09/2010- Domingo – 10h30

As inscrições serão realizadas pessoalmente, com o professor Afonso até o dia 11/09 ou até 30 min. antes do inicio da aula. Ou através do e-mail:
frutovermelho@gmail.com
Visite Nosso Blog: http://letrasleda.blogspot.com/
As cartas de Rita e Macabéa.
Instigando a investigação da crença.
A cartomante não sorriu; disse-lhe só que esperasse. Rápido pegou outra vez as cartas e baralhou-as, com os longos dedos finos, de unhas descuradas; baralhou-as bem, transpôs os maços, uma, duas, três vezes; depois começou a estendê-las. Camilo tinha os olhos nela, curioso e ansioso.
— As cartas dizem-me...
( Trecho de A cartomante- Machado de Assis)
“Madama Carlota havia acertado tudo. (...) Até para atravessar a rua ela era outra pessoa. Uma pessoa grávida de futuro. Sentia em si uma esperança tão violenta como jamais sentira tamanho desespero. Se ela não era mais ela mesma, isso significava uma perda que valia por um ganho. Assim como havia sentença de morte, a cartomante lhe decretara sentença de vida. Tudo de repente era muito e muito e tão amplo que ela sentiu vontade de chorar. Mas não chorou: seus olhos faiscavam como o sol que morria. Então ao dar o passo de descida da calçada para atravessar a rua, o Destino (explosão) sussurrou veloz e guloso: é agora, é já, chegou minha vez! E enorme como um transatlântico o Mercedes amarelo pegou-a (...)”
(Trecho de A Hora da Estrela- Clarice Lispector).
Pensar os estreitos caminhos entre personagens, ambientes, tramas e desfechos de dois cânones da nossa língua; A Hora da Estrela, de Clarice Lispector e o conto A Cartomante do grande Machado de Assis, é o mesmo que mergulhar no vasto universo da interpelação dos valores e crenças vividas por ambos.
Mais do que uma coincidência, as obras promovem um embate ideológico no que se refere à questão do elo que une todas as classes e crenças, o destino. Uma observação mais dirigida, para compreender esta dialética, é observar de forma mais precisa um personagem incomum, nas duas obras, a conduta da advinha.
Seria um equivoco de interpretações? A imagem de anti-heróis tão bem construída por ambos os autores é a discrepância de uma alma suburbana e irresponsável?
A tragédia presente nos desfechos de ambas as histórias nos reflete uma intencionalidade discutível no que se refere às apreciações do tema. Podemos estabelecer diretrizes comparativas que denotem, de forma objetiva, os discursos ideológicos dos autores mencionados, a fim de promover um olhar mais crítico das cenas- ápices de cada um.
A introspecção de Clarice e a crítica aos costumes de Machado encontram-se em um ação, insana ou não, de aglutinar os sonhos de seus personagens em pitorescas atitudes marginais. Pois tanto no romance de Clarice como no conto de Machado, a prática da cartomancia é ilegal, censurável e vinculada a outras atitudes ilícitas como prostituição adultério; reforçadas epifanicamente com linhas de expressões figuradas.
Lembremos de Erich Auerbach quando este afirmou: Só em virtude da relação mais geral, isto é, só porque somos seres humanos, ou seja, sujeitos ao destino e à paixão, sentimentos, temor e compaixão (Auerbach 1946). A nata desta mensagem, se conduzida aos atos de Rita, Camilo e Macabea, pode ser interpretada como, um destino inevitável, que na verdade aparece na obra como uma “escolha”. A escolha pela felicidade no amor, de Camilo e Rita, ou simplesmente na aceitação, após a descoberta da verdade sobre si mesma, da pobre e sonhadora Macabea.
Contudo, nenhum dos desfechos justifica o ato da Cartomante que fez de seu trabalho o estopim de um medo enjaulado em sua penumbra de forma que esta aparição fosse de acordo com as metáforas utilizadas, realizada com a mais perfumada e bela das imagens: A mentira.
Mentia ou ignorava? Qual era o verdadeiro ato destas mulheres que viviam da simplicidade alheia?
Pensemos no conto “A Cartomante” e no romance a “Hora da Estrela”, ambos, cânones acadêmicos de nossa literatura, escritos em épocas distintas, por autores cujas características são extremamentes singulares, exceto, da escolha do portal para o desfecho das suas trágicas histórias: a crença na arte divinatória.
A Cartomante, conto do final do século XIX utiliza-se dessa crença para decidir o destino de um casal burguês apaixonado, bem- sucedidos financeiramente, viventes em sua própria região e com apenas uma dúvida: poderiam ou não serem felizes após o adultério, obedecendo a corações que sobrepujavam os valores de fidelidade e caráter socialmente apreciados na época.
Já em a “Hora da Estrela”, romance de 1977, a pobre Macabéa, imigrante, sem instrução e apaixonada, procura conselhos da cartomancia em busca de uma esperança que lhe dê forças para enfrentar os dias difíceis, comuns em sua fatídica existência.
A relação entre o papel fundamental da cartomante no desfecho dessas duas histórias é o corpus base de análise desta perspectiva sugerida. Sob a ótica da construção verossímil e o discurso de controle que ambos, os autores trabalham em suas obras.
O que intriga e instiga esta pesquisa é a semelhança narrativa que ambas,as histórias, no dipolo clássico “felicidade e tragédia” possuem como características sinestésicas de seus protagonistas. Deve-se buscar com esta análise uma maior compreensão dos textos e concomitantes afirmações que enriqueçam ainda mais, a tão bem constituída, percepção crítica sobre estas obras.
Transportar a crendice popular para o universo da literatura é como afirma Eric Auerbach em seu antológico trabalho “Mimesis”: “A maneira de dar vida a literatura” (Auerbach 1946). A história da humanidade está envolta a todo tipo de crença que reza a sorte e o destino de civilizações inteiras ou apenas de pessoas comuns.
Macabéa e Rita, cada qual com sua necessidade, encontram na dúvida das possíveis interpretações que atendam seus interesses, dada a tragédia que se aproxima de cada uma. Desfecho trágico, perceptível ou não, são alimentados pelos autores como alucinações produzidas pelo medo e pela ansiedade. Sentimentos que cegam as protagonistas e as conduzem ao além. São inseridos nestes contextos o que Walter Benjamin chamou em seu ensaio A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica (BENJAMIM 1955) de valor de culto de obra e valor de exposição, na reconstituição da história na arte: A produção artística começa com imagem ao serviço da magia. O que importa, nessas imagens, é que elas existem, não que sejam vistas.
Pensar a tragédia como produto da crença, mística ou não, é produzir um efeito desafiador para o leitor destas obras. Esse caminho levará o leitor destas obras ao idear de um produto que transcenda o pensamento machadiano ou o de Lispector, superando a búsitis natural deste tipo de reflexão e avançado com solidez sobre o prisma do conhecimento.
A cartomante não sorriu; disse-lhe só que esperasse. Rápido pegou outra vez as cartas e baralhou-as, com os longos dedos finos, de unhas descuradas; baralhou-as bem, transpôs os maços, uma, duas, três vezes; depois começou a estendê-las. Camilo tinha os olhos nela, curioso e ansioso.
— As cartas dizem-me...
( Trecho de A cartomante- Machado de Assis)
“Madama Carlota havia acertado tudo. (...) Até para atravessar a rua ela era outra pessoa. Uma pessoa grávida de futuro. Sentia em si uma esperança tão violenta como jamais sentira tamanho desespero. Se ela não era mais ela mesma, isso significava uma perda que valia por um ganho. Assim como havia sentença de morte, a cartomante lhe decretara sentença de vida. Tudo de repente era muito e muito e tão amplo que ela sentiu vontade de chorar. Mas não chorou: seus olhos faiscavam como o sol que morria. Então ao dar o passo de descida da calçada para atravessar a rua, o Destino (explosão) sussurrou veloz e guloso: é agora, é já, chegou minha vez! E enorme como um transatlântico o Mercedes amarelo pegou-a (...)”
(Trecho de A Hora da Estrela- Clarice Lispector).
Pensar os estreitos caminhos entre personagens, ambientes, tramas e desfechos de dois cânones da nossa língua; A Hora da Estrela, de Clarice Lispector e o conto A Cartomante do grande Machado de Assis, é o mesmo que mergulhar no vasto universo da interpelação dos valores e crenças vividas por ambos.
Mais do que uma coincidência, as obras promovem um embate ideológico no que se refere à questão do elo que une todas as classes e crenças, o destino. Uma observação mais dirigida, para compreender esta dialética, é observar de forma mais precisa um personagem incomum, nas duas obras, a conduta da advinha.
Seria um equivoco de interpretações? A imagem de anti-heróis tão bem construída por ambos os autores é a discrepância de uma alma suburbana e irresponsável?
A tragédia presente nos desfechos de ambas as histórias nos reflete uma intencionalidade discutível no que se refere às apreciações do tema. Podemos estabelecer diretrizes comparativas que denotem, de forma objetiva, os discursos ideológicos dos autores mencionados, a fim de promover um olhar mais crítico das cenas- ápices de cada um.
A introspecção de Clarice e a crítica aos costumes de Machado encontram-se em um ação, insana ou não, de aglutinar os sonhos de seus personagens em pitorescas atitudes marginais. Pois tanto no romance de Clarice como no conto de Machado, a prática da cartomancia é ilegal, censurável e vinculada a outras atitudes ilícitas como prostituição adultério; reforçadas epifanicamente com linhas de expressões figuradas.
Lembremos de Erich Auerbach quando este afirmou: Só em virtude da relação mais geral, isto é, só porque somos seres humanos, ou seja, sujeitos ao destino e à paixão, sentimentos, temor e compaixão (Auerbach 1946). A nata desta mensagem, se conduzida aos atos de Rita, Camilo e Macabea, pode ser interpretada como, um destino inevitável, que na verdade aparece na obra como uma “escolha”. A escolha pela felicidade no amor, de Camilo e Rita, ou simplesmente na aceitação, após a descoberta da verdade sobre si mesma, da pobre e sonhadora Macabea.
Contudo, nenhum dos desfechos justifica o ato da Cartomante que fez de seu trabalho o estopim de um medo enjaulado em sua penumbra de forma que esta aparição fosse de acordo com as metáforas utilizadas, realizada com a mais perfumada e bela das imagens: A mentira.
Mentia ou ignorava? Qual era o verdadeiro ato destas mulheres que viviam da simplicidade alheia?
Pensemos no conto “A Cartomante” e no romance a “Hora da Estrela”, ambos, cânones acadêmicos de nossa literatura, escritos em épocas distintas, por autores cujas características são extremamentes singulares, exceto, da escolha do portal para o desfecho das suas trágicas histórias: a crença na arte divinatória.
A Cartomante, conto do final do século XIX utiliza-se dessa crença para decidir o destino de um casal burguês apaixonado, bem- sucedidos financeiramente, viventes em sua própria região e com apenas uma dúvida: poderiam ou não serem felizes após o adultério, obedecendo a corações que sobrepujavam os valores de fidelidade e caráter socialmente apreciados na época.
Já em a “Hora da Estrela”, romance de 1977, a pobre Macabéa, imigrante, sem instrução e apaixonada, procura conselhos da cartomancia em busca de uma esperança que lhe dê forças para enfrentar os dias difíceis, comuns em sua fatídica existência.
A relação entre o papel fundamental da cartomante no desfecho dessas duas histórias é o corpus base de análise desta perspectiva sugerida. Sob a ótica da construção verossímil e o discurso de controle que ambos, os autores trabalham em suas obras.
O que intriga e instiga esta pesquisa é a semelhança narrativa que ambas,as histórias, no dipolo clássico “felicidade e tragédia” possuem como características sinestésicas de seus protagonistas. Deve-se buscar com esta análise uma maior compreensão dos textos e concomitantes afirmações que enriqueçam ainda mais, a tão bem constituída, percepção crítica sobre estas obras.
Transportar a crendice popular para o universo da literatura é como afirma Eric Auerbach em seu antológico trabalho “Mimesis”: “A maneira de dar vida a literatura” (Auerbach 1946). A história da humanidade está envolta a todo tipo de crença que reza a sorte e o destino de civilizações inteiras ou apenas de pessoas comuns.
Macabéa e Rita, cada qual com sua necessidade, encontram na dúvida das possíveis interpretações que atendam seus interesses, dada a tragédia que se aproxima de cada uma. Desfecho trágico, perceptível ou não, são alimentados pelos autores como alucinações produzidas pelo medo e pela ansiedade. Sentimentos que cegam as protagonistas e as conduzem ao além. São inseridos nestes contextos o que Walter Benjamin chamou em seu ensaio A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica (BENJAMIM 1955) de valor de culto de obra e valor de exposição, na reconstituição da história na arte: A produção artística começa com imagem ao serviço da magia. O que importa, nessas imagens, é que elas existem, não que sejam vistas.
Pensar a tragédia como produto da crença, mística ou não, é produzir um efeito desafiador para o leitor destas obras. Esse caminho levará o leitor destas obras ao idear de um produto que transcenda o pensamento machadiano ou o de Lispector, superando a búsitis natural deste tipo de reflexão e avançado com solidez sobre o prisma do conhecimento.
TV Digital : Premissa e Realidade
Diante da realidade econômica do Brasil que auxilia na manutenção da crescente desigualdade social; pensar em um sistema de tecnologia digital que revolucione os meios de comunicação, nesse caso a televisão, é como idealizar a TV digital fazendo parte da cesta básica do brasileiro. Visto que as grandes preocupações sociais como: desemprego, violência, fome, distribuição de renda e educação; não permitem espaços para a introdução de mais custos, principalmente se estes recursos , aos olhos do povo, forem destinados ao entretenimento; ou seja o supérfluo.Em relação a essa visão que apresentaremos nossa pesquisa nesse novo universo chamado TV digital,em busca de uma resposta que contradiga ou afirme esse prévio pensamento.Buscaremos apresentar as nuances positivas que incentive os investimentos e o consumo sem deixar de lado os questionamentos e as soluções práticas para o cotidiano que são tão aguardadas pela sociedade.
O sistema de transmissão digital promete uma revolução nos meios de comunicação e a extinção do sistema analógico de envio e captação de sinais telivizíveis. Essa revolução consiste nos serviços oferecidos, distanciando-os da funcionalidade de uma televisão convencional que apenas transmite imagens e transforma o telespectador em um ser prontamente passivo.Esses serviços ,acompanhados de uma excelente definição de imagem e som digital substituirão atividades cotidianas que hoje ficam a cargo de um computador.Ou seja, a televisão digital , oferecerá interatividade,envio e recebimento de mensagens eletrônicas,compras on-line, banda –larga e uma gama de serviços que hoje estão ao alcance dos usuários da Internet.
Praticidade, conforto, agilidade e interatividade são os argumentos utilizados pelos defensores desse sistema para atrair consumidores, anunciantes e investidores. Assim como Assis Chateaubriant fez com a TV analógica na década de 50, outros visionários imaginam e criam projetos com a intenção de convencer a sociedade da importância e , por que não dizer, necessidade da TV Digital no Brasil.Esses projetos analisam detalhadamente o assunto desde os custos prováveis até o prazo para implantação total do sistema.Dentro dessas perspectivas, foram identificadas algumas necessidade de adaptações para que possa alcançar as mais abastadas comunidades e consequentemente interligá-las.Entre essas necessidades, a adaptação do custo a realidade brasileira é a principal , para isso considerasse como solução a fabricação de um decodificador de sinais digitais ,cujo custo aproximado é de R$200 a R$400,00, integrado ao aparelho de televisor convencional e substituindo a necessidade da aquisição de um aparelho digital próprio para o sistema, que custa aproximadamente R$15.000,00.O desconforto estético de um decodificador sobre o televisor será recompensado pelos benefícios que o serviço trará e a adaptação desse pequeno móvel será bem aceita nos lares brasileiros.
Para alguns a idéia de uma implantação do sistema de TV digital em todo Brasil é uma Utopia. Além de ser inviável é contrastante com a nossa realidade sócio-econômica. Os críticos ao projeto defendem o encaminhamento do investimento projetado nessa implantação para a suplência de necessidades mais imediatas da sociedade como as melhorias nos serviços de saúde pública e no setor de educação. O custo de R$200,00 para a aquisição de um decodificador se torna surreal para um país onde sua classe operária sobrevive com um salário de R$350, 00, além do mais as indústrias que fabricarão tal instrumento não projetarão nenhuma melhora nos índices de desemprego, já que esses equipamentos sofrerão subsídios para incentivar a importação de seus paises originais. Os impostos, juros abusivos e a assimétrica distribuição de renda são agravantes reais que transformarão esse projeto em um enorme elefante cor-de-rosa. Um problema, causado pela irresponsabilidade governamental que causará, como sempre, danos á economia nacional que por conseqüência afetam diretamente ao contribuinte.
A televisão digital, distante do seu papel de socialização, será apenas mais um símbolo de status e poder de compra que ficará a disposição de uma minoria detentora das riquezas nacionais.
Paralelamente as criticas, o governo trabalha em busca de soluções que acelerem os projetos e atendam aos interesses dos investidores e da população que aguarda por essa novidade tecnológica.
No início do mês de março os jornais publicaram a decisão do governo na escolha dos padrões japoneses para a implantação do sistema no Brasil, deixando de lado os padrões americano e europeu, a alegação de que as condições contratuais eram mais atraentes. Mas, no final de março, a mesma imprensa divulgou a indecisão do governo na escolha da parceria privada internacional. A decisão foi adiada por tempo indeterminado e não houve uma explicação clara sobre o motivo do adiamento.
O assunto é para refletir e o momento é agora, as responsabilidades de um sucesso ou de uma tragédia depende da atitude dos brasileiros, apresentando criticas, melhorias, participações e principalmente interesse em renovar.
ASMC
O sistema de transmissão digital promete uma revolução nos meios de comunicação e a extinção do sistema analógico de envio e captação de sinais telivizíveis. Essa revolução consiste nos serviços oferecidos, distanciando-os da funcionalidade de uma televisão convencional que apenas transmite imagens e transforma o telespectador em um ser prontamente passivo.Esses serviços ,acompanhados de uma excelente definição de imagem e som digital substituirão atividades cotidianas que hoje ficam a cargo de um computador.Ou seja, a televisão digital , oferecerá interatividade,envio e recebimento de mensagens eletrônicas,compras on-line, banda –larga e uma gama de serviços que hoje estão ao alcance dos usuários da Internet.
Praticidade, conforto, agilidade e interatividade são os argumentos utilizados pelos defensores desse sistema para atrair consumidores, anunciantes e investidores. Assim como Assis Chateaubriant fez com a TV analógica na década de 50, outros visionários imaginam e criam projetos com a intenção de convencer a sociedade da importância e , por que não dizer, necessidade da TV Digital no Brasil.Esses projetos analisam detalhadamente o assunto desde os custos prováveis até o prazo para implantação total do sistema.Dentro dessas perspectivas, foram identificadas algumas necessidade de adaptações para que possa alcançar as mais abastadas comunidades e consequentemente interligá-las.Entre essas necessidades, a adaptação do custo a realidade brasileira é a principal , para isso considerasse como solução a fabricação de um decodificador de sinais digitais ,cujo custo aproximado é de R$200 a R$400,00, integrado ao aparelho de televisor convencional e substituindo a necessidade da aquisição de um aparelho digital próprio para o sistema, que custa aproximadamente R$15.000,00.O desconforto estético de um decodificador sobre o televisor será recompensado pelos benefícios que o serviço trará e a adaptação desse pequeno móvel será bem aceita nos lares brasileiros.
Para alguns a idéia de uma implantação do sistema de TV digital em todo Brasil é uma Utopia. Além de ser inviável é contrastante com a nossa realidade sócio-econômica. Os críticos ao projeto defendem o encaminhamento do investimento projetado nessa implantação para a suplência de necessidades mais imediatas da sociedade como as melhorias nos serviços de saúde pública e no setor de educação. O custo de R$200,00 para a aquisição de um decodificador se torna surreal para um país onde sua classe operária sobrevive com um salário de R$350, 00, além do mais as indústrias que fabricarão tal instrumento não projetarão nenhuma melhora nos índices de desemprego, já que esses equipamentos sofrerão subsídios para incentivar a importação de seus paises originais. Os impostos, juros abusivos e a assimétrica distribuição de renda são agravantes reais que transformarão esse projeto em um enorme elefante cor-de-rosa. Um problema, causado pela irresponsabilidade governamental que causará, como sempre, danos á economia nacional que por conseqüência afetam diretamente ao contribuinte.
A televisão digital, distante do seu papel de socialização, será apenas mais um símbolo de status e poder de compra que ficará a disposição de uma minoria detentora das riquezas nacionais.
Paralelamente as criticas, o governo trabalha em busca de soluções que acelerem os projetos e atendam aos interesses dos investidores e da população que aguarda por essa novidade tecnológica.
No início do mês de março os jornais publicaram a decisão do governo na escolha dos padrões japoneses para a implantação do sistema no Brasil, deixando de lado os padrões americano e europeu, a alegação de que as condições contratuais eram mais atraentes. Mas, no final de março, a mesma imprensa divulgou a indecisão do governo na escolha da parceria privada internacional. A decisão foi adiada por tempo indeterminado e não houve uma explicação clara sobre o motivo do adiamento.
Enquanto a TV digital não se torna uma realidade à sociedade e suas representações fazem o seu papel; o governo buscando parcerias, a iniciativa privada de olho nessa importante fatia do mercado, a imprensa informando sobre a lenta caminhada, os benefícios e os malefícios dessa inovação; e por ultimo o povo que, como na maioria das vezes em que se tomam decisões importantes nesse país, se encontram em sua eterna passividade servil, ignorando que os resultados, positivos ou negativos, dessa investida terão um grande impacto na nossa realidade social.
O assunto é para refletir e o momento é agora, as responsabilidades de um sucesso ou de uma tragédia depende da atitude dos brasileiros, apresentando criticas, melhorias, participações e principalmente interesse em renovar.
ASMC
Leitura em Julho no Parque da Água Branca
Caros Amigos,
Confiram esta notícia enviada pelo Publisnews no dia de hoje. Trata-se da programação de férias no parque da Água Branca. Vale a pena comparecer.
Férias no Parque da Água Branca, com leitura e brincadeira
Haverá oficinas, apresentações musicais, contação de histórias, saraus e muito mais
Enquanto o Espaço de Leitura PraLer está sendo preparado, a Poiesis, em parceria com o Fundo de Solidariedade e Desenvolvimento Social e Cultural do Estado de São Paulo, desenvolveu uma programação especial para as férias de julho. São oficinas, apresentações musicais, contação de histórias, saraus e muito mais. As atividades acontecem no Parque da Água Branca (Av. Francisco Matarazzo, 455 – Água Branca – São Paulo/SP).
Programação
8 de julho, quinta-feira 14 às 16 horas
INFANTIL
Brincadeiras populares com a educadora Nathalia Leite
9 de julho, sexta-feira 11 às 13 horas
MELHOR IDADE
Oficina de haicai com o poeta pernambucano Valmir Jordão, com o projeto Mapa da Poesia
14 às 16 horas
INFANTIL
Oficina de brinquedos com materiais recicláveis para crianças de todas as idades.
10 de julho, sábado 11 horas
PRA LER NO PARQUE
Apresentação da dupla de clowns Adão e Gastão, integrantes do Grupo Jogando no Quintal
14 às 16 horas
INFANTIL
Brincadeiras de roda e cantigas com a educadora Nathalia Leite
14 de julho, quarta-feira 14 às 16 horas
INFANTIL
Rodas de leitura com a educadora Nathalia Leite
15 de julho, quinta-feira 14 às 16 horas
INFANTIL
Brincadeiras populares com a educadora Nathalia Leite
16 de julho, sexta-feira 11 às 13 horas
MELHOR IDADE
Oficina de haicai com o poeta pernambucano Valmir Jordão, com o projeto Mapa da Poesia
14 às 16 horas
INFANTIL
Oficina de brinquedos com materiais recicláveis para crianças de todas as idades
17 de julho, sábado 14 às 16 horas
INFANTIL
Brincadeiras de roda e cantigas com a educadora Nathalia Leite
18 de julho, domingo 11 horas
PRALER NO PARQUE
Presença especial do arte-educador Chico dos Bonecos: "Tudo que embola desembola, tudo que enrola desenrola". Cantando esses versos, Chico dos Bonecos dá vida aos mais diversos materiais, como o diabolô, o pião e o bilboquê
15 horas
SARAU DA CASA
O sarau da Casa das Rosas, com a participação dos poetas Ivan Antunes e Luiz Roberto Guedes, é aberto ao público. Venha declamar o seu poema! No final do sarau, apresentação musical com o conjunto Jogando Tango
21 de julho, quarta-feira 14 às 16 horas
INFANTIL
Rodas de leitura com a educadora Nathalia Leite
22 de julho, quinta-feira 14 às 16 horas
INFANTIL
Brincadeiras populares com a educadora Nathalia Leite
23 de julho, sexta-feira 11 às 13 horas
MELHOR IDADE
Oficina de haicai com o poeta pernambucano Valmir Jordão, com o projeto Mapa da Poesia.
14 às 16 horas
INFANTIL
Oficina de brinquedos com materiais recicláveis para crianças de todas as idades.
24 de julho, sábado 11 horas
INFANTIL
Caça ao Tesouro no Parque da Água Branca, com a equipe educativa da Casa das Rosas.
Para crianças acompanhadas por um responsável.
15 horas
INFANTIL
Brincadeiras de roda e cantigas com a educadora Nathalia Leite.
25 de julho, domingo 11 horas
PRALER NO PARQUE
Espetáculo da Cia. GiraSonhos. “Pequenino Grão de Areia” e “A surpresa da princesa Adronalda Ribeiro da Silva” são narrativas compostas e apresentadas pelo grupo, além de um dos contos brasileiros mais registrados e narrados, em diferentes versões, nos vários cantos do país: “O macaco e a velha”. Tudo isso com brincadeiras e músicas interativas. Participe!
15 horas
MELHOR IDADE
Sarau Mapa da Poesia. Venha recitar seus poemas, na companhia do poeta mais contagiante da cidade de São Paulo: Marcos Pezão.
26 de julho, segunda-feira 14 horas
Abertura do Espaço de Leitura PraLer
Aguarde a programação completa do evento.
28 de julho, quarta-feira 14 às 16 horas
INFANTIL
Rodas de leitura com a educadora Nathalia Leite
29 de julho, quinta-feira 14 às 16 horas
INFANTIL
Brincadeiras populares com a educadora Nathalia Leite.
30 de julho, sexta-feira 11 às 13 horas
MELHOR IDADE
Oficina de haicai com o poeta pernambucano Valmir Jordão, com o projeto Mapa da Poesia.
14 às 16 horas
INFANTIL
Oficina de brinquedos com materiais recicláveis para crianças de todas as idades.
31 de julho, sábado 11 horas
INFANTIL
Caça ao Tesouro no Parque da Água Branca, com a equipe educativa da Casa das Rosas.
Para crianças acompanhadas por um responsável.
15 horas
INFANTIL
Brincadeiras de roda e cantigas com a educadora Nathalia Leite.
1 de agosto, domingo 11 horas
PRALER NO PARQUE
Apresentação com o conjunto de choro Língua Brasileira
15 horas
SARAU POETAS DA CASA DAS ROSAS
Os alunos de poesia da Casa das Rosas prepararam um sarau especial para você.
Todos os eventos são gratuitos. Programe-se e aproveite o melhor possível desta grande festa da literatura.
FV
fonte (http://www.publishnews.com.br/telas/noticias/detalhes.aspx?id=58742)
Confiram esta notícia enviada pelo Publisnews no dia de hoje. Trata-se da programação de férias no parque da Água Branca. Vale a pena comparecer.
Férias no Parque da Água Branca, com leitura e brincadeira
Haverá oficinas, apresentações musicais, contação de histórias, saraus e muito mais
Enquanto o Espaço de Leitura PraLer está sendo preparado, a Poiesis, em parceria com o Fundo de Solidariedade e Desenvolvimento Social e Cultural do Estado de São Paulo, desenvolveu uma programação especial para as férias de julho. São oficinas, apresentações musicais, contação de histórias, saraus e muito mais. As atividades acontecem no Parque da Água Branca (Av. Francisco Matarazzo, 455 – Água Branca – São Paulo/SP).
Programação
8 de julho, quinta-feira 14 às 16 horas
INFANTIL
Brincadeiras populares com a educadora Nathalia Leite
9 de julho, sexta-feira 11 às 13 horas
MELHOR IDADE
Oficina de haicai com o poeta pernambucano Valmir Jordão, com o projeto Mapa da Poesia
14 às 16 horas
INFANTIL
Oficina de brinquedos com materiais recicláveis para crianças de todas as idades.
10 de julho, sábado 11 horas
PRA LER NO PARQUE
Apresentação da dupla de clowns Adão e Gastão, integrantes do Grupo Jogando no Quintal
14 às 16 horas
INFANTIL
Brincadeiras de roda e cantigas com a educadora Nathalia Leite
14 de julho, quarta-feira 14 às 16 horas
INFANTIL
Rodas de leitura com a educadora Nathalia Leite
15 de julho, quinta-feira 14 às 16 horas
INFANTIL
Brincadeiras populares com a educadora Nathalia Leite
16 de julho, sexta-feira 11 às 13 horas
MELHOR IDADE
Oficina de haicai com o poeta pernambucano Valmir Jordão, com o projeto Mapa da Poesia
14 às 16 horas
INFANTIL
Oficina de brinquedos com materiais recicláveis para crianças de todas as idades
17 de julho, sábado 14 às 16 horas
INFANTIL
Brincadeiras de roda e cantigas com a educadora Nathalia Leite
18 de julho, domingo 11 horas
PRALER NO PARQUE
Presença especial do arte-educador Chico dos Bonecos: "Tudo que embola desembola, tudo que enrola desenrola". Cantando esses versos, Chico dos Bonecos dá vida aos mais diversos materiais, como o diabolô, o pião e o bilboquê
15 horas
SARAU DA CASA
O sarau da Casa das Rosas, com a participação dos poetas Ivan Antunes e Luiz Roberto Guedes, é aberto ao público. Venha declamar o seu poema! No final do sarau, apresentação musical com o conjunto Jogando Tango
21 de julho, quarta-feira 14 às 16 horas
INFANTIL
Rodas de leitura com a educadora Nathalia Leite
22 de julho, quinta-feira 14 às 16 horas
INFANTIL
Brincadeiras populares com a educadora Nathalia Leite
23 de julho, sexta-feira 11 às 13 horas
MELHOR IDADE
Oficina de haicai com o poeta pernambucano Valmir Jordão, com o projeto Mapa da Poesia.
14 às 16 horas
INFANTIL
Oficina de brinquedos com materiais recicláveis para crianças de todas as idades.
24 de julho, sábado 11 horas
INFANTIL
Caça ao Tesouro no Parque da Água Branca, com a equipe educativa da Casa das Rosas.
Para crianças acompanhadas por um responsável.
15 horas
INFANTIL
Brincadeiras de roda e cantigas com a educadora Nathalia Leite.
25 de julho, domingo 11 horas
PRALER NO PARQUE
Espetáculo da Cia. GiraSonhos. “Pequenino Grão de Areia” e “A surpresa da princesa Adronalda Ribeiro da Silva” são narrativas compostas e apresentadas pelo grupo, além de um dos contos brasileiros mais registrados e narrados, em diferentes versões, nos vários cantos do país: “O macaco e a velha”. Tudo isso com brincadeiras e músicas interativas. Participe!
15 horas
MELHOR IDADE
Sarau Mapa da Poesia. Venha recitar seus poemas, na companhia do poeta mais contagiante da cidade de São Paulo: Marcos Pezão.
26 de julho, segunda-feira 14 horas
Abertura do Espaço de Leitura PraLer
Aguarde a programação completa do evento.
28 de julho, quarta-feira 14 às 16 horas
INFANTIL
Rodas de leitura com a educadora Nathalia Leite
29 de julho, quinta-feira 14 às 16 horas
INFANTIL
Brincadeiras populares com a educadora Nathalia Leite.
30 de julho, sexta-feira 11 às 13 horas
MELHOR IDADE
Oficina de haicai com o poeta pernambucano Valmir Jordão, com o projeto Mapa da Poesia.
14 às 16 horas
INFANTIL
Oficina de brinquedos com materiais recicláveis para crianças de todas as idades.
31 de julho, sábado 11 horas
INFANTIL
Caça ao Tesouro no Parque da Água Branca, com a equipe educativa da Casa das Rosas.
Para crianças acompanhadas por um responsável.
15 horas
INFANTIL
Brincadeiras de roda e cantigas com a educadora Nathalia Leite.
1 de agosto, domingo 11 horas
PRALER NO PARQUE
Apresentação com o conjunto de choro Língua Brasileira
15 horas
SARAU POETAS DA CASA DAS ROSAS
Os alunos de poesia da Casa das Rosas prepararam um sarau especial para você.
Todos os eventos são gratuitos. Programe-se e aproveite o melhor possível desta grande festa da literatura.
FV
fonte (http://www.publishnews.com.br/telas/noticias/detalhes.aspx?id=58742)
CCR linha 4 do Metro – Cristo, Cruz e Redenção
Neste mês de junho tive duas experiências das quais gostaria de comentar neste espaço. A primeira veio com um passeio que fiz a tradicional festa do tapete de corpus Christi em Itapecerica da serra. Nada de muito diferente que os anos anteriores, ruas enfeitadas, balões, helicópteros com vôos rasantes, idosos e crianças comendo algodão doce, e um padre sabichão dono de uma verdade absoluta na cidade. Inquestionável.
Bem, isso não é novidade, mas o que me chamou a atenção foi o fato de São Pedro ter contribuído neste ano, fazendo com que o céu ficasse livre o dia todo. Na festa de Corpus Cristhi 2010 não choveu legal isso né. Mas o que tem de tão importante nisso? A preservação das belíssimas imagens construídas ao longo da madrugada fria que antecede o evento. Quero aqui parabenizar aos artistas, alunos e voluntários que fazem desse espetáculo um evento de muito orgulho de nossa cidade. No entanto, os elogios param por aqui.
Enquanto passeava entre os quase 2 km de tapete, pude observar diversas expressões de um mesmo cristo. O cristo que se alternava entre o olhar das crianças, dos jovens, dos bêbados, dos velhos, dos incrédulos, dos ateus, do padre... Um Cristo mitificado por anos e anos de festas religiosas.
A igreja promoveu muito bem sua imagem, e ainda a promove. O papel da igreja tem sido muito bem cumprido. Quase não se questiona a veracidade desses marqueteiros romanos. A tríade do marketing cristão está nos símbolos Cristo, Cruz e Remição. Mais que a trindade essa simbologia nos mostra como funciona a engenharia do marketing cristão, que promove guerras, misérias e o controle cruel das riquezas terrenas. Claro, sempre oferecendo riquezas celestiais para compensar. Mas isso são apenas observações, não vou me aprofundar mais nesse assunto, até porque este não é o espaço ideal.
Essa reflexão sobre as imagens, a igreja e aquele povo pobre que vi naquelas ruas me fez lembrar outro CCR, mas este muito mais moderno, bonito e com claro intuito de trazer Roma para mais perto de nós. O CCR da Companhia de Concessões Rodoviárias.
Já não bastasse este conglomerado capitalista reinar absoluto por nossas rodovias, eis que em junho, ele mostrou seu novo empreendimento inaugurando 1/10 do que será a linha 4 do metro.
- Que beleza! O trem não tem maquinista e nos leva em 2 minutos de pinheiros à Paulista.
Confesso que também fiquei impressionado com a tecnologia emprenhada na obra, mas porque eu deveria ficar impressionado se esta é a empresa que mais lucra, nos ultimos 5 anos, no Brasil? Se esta é a junção das maiores construtoras do país com uma líder no ramo em Portugal e que não investiu um décimo do que sua concessão está prevendo de lucro em 4 anos?
Pois é, nesse caso acho que de CCR estamos bem servidos. Enquanto a igreja explora os pobres com seu CCR ideológico, extorquindo o pouco que resta dessa miserável massa de “ lunáticos corrompíveis” a outra CCR enche os bolsos com suas estradas, revisões veiculares e transporte público.
O mês de Junho, com a COPA do MUNDO, tem muito que se orgulhar desse Brasil Pentacampeão de Futebol. Porquê só isso nos orgulha. O resto nos envegonha.
A luminosidade e o colorido do tapete de corpus Cristhi na festa de Cristo, Cruz e Redenção, abraça-se e nos leva para a escuridão do túnel cavado sob a Av Rebouças na consseção da outra CCR.
Bem, isso não é novidade, mas o que me chamou a atenção foi o fato de São Pedro ter contribuído neste ano, fazendo com que o céu ficasse livre o dia todo. Na festa de Corpus Cristhi 2010 não choveu legal isso né. Mas o que tem de tão importante nisso? A preservação das belíssimas imagens construídas ao longo da madrugada fria que antecede o evento. Quero aqui parabenizar aos artistas, alunos e voluntários que fazem desse espetáculo um evento de muito orgulho de nossa cidade. No entanto, os elogios param por aqui.
Enquanto passeava entre os quase 2 km de tapete, pude observar diversas expressões de um mesmo cristo. O cristo que se alternava entre o olhar das crianças, dos jovens, dos bêbados, dos velhos, dos incrédulos, dos ateus, do padre... Um Cristo mitificado por anos e anos de festas religiosas.
A igreja promoveu muito bem sua imagem, e ainda a promove. O papel da igreja tem sido muito bem cumprido. Quase não se questiona a veracidade desses marqueteiros romanos. A tríade do marketing cristão está nos símbolos Cristo, Cruz e Remição. Mais que a trindade essa simbologia nos mostra como funciona a engenharia do marketing cristão, que promove guerras, misérias e o controle cruel das riquezas terrenas. Claro, sempre oferecendo riquezas celestiais para compensar. Mas isso são apenas observações, não vou me aprofundar mais nesse assunto, até porque este não é o espaço ideal.
Essa reflexão sobre as imagens, a igreja e aquele povo pobre que vi naquelas ruas me fez lembrar outro CCR, mas este muito mais moderno, bonito e com claro intuito de trazer Roma para mais perto de nós. O CCR da Companhia de Concessões Rodoviárias.
Já não bastasse este conglomerado capitalista reinar absoluto por nossas rodovias, eis que em junho, ele mostrou seu novo empreendimento inaugurando 1/10 do que será a linha 4 do metro.
- Que beleza! O trem não tem maquinista e nos leva em 2 minutos de pinheiros à Paulista.
Confesso que também fiquei impressionado com a tecnologia emprenhada na obra, mas porque eu deveria ficar impressionado se esta é a empresa que mais lucra, nos ultimos 5 anos, no Brasil? Se esta é a junção das maiores construtoras do país com uma líder no ramo em Portugal e que não investiu um décimo do que sua concessão está prevendo de lucro em 4 anos?
Pois é, nesse caso acho que de CCR estamos bem servidos. Enquanto a igreja explora os pobres com seu CCR ideológico, extorquindo o pouco que resta dessa miserável massa de “ lunáticos corrompíveis” a outra CCR enche os bolsos com suas estradas, revisões veiculares e transporte público.
O mês de Junho, com a COPA do MUNDO, tem muito que se orgulhar desse Brasil Pentacampeão de Futebol. Porquê só isso nos orgulha. O resto nos envegonha.
A luminosidade e o colorido do tapete de corpus Cristhi na festa de Cristo, Cruz e Redenção, abraça-se e nos leva para a escuridão do túnel cavado sob a Av Rebouças na consseção da outra CCR.
A última entrevista de José Mindlin
Caros leitores amigos
Desde o início de 2009 penso em publicar algo sobre José Mindlin. Esta figura elevada que tive o prazer de conhecer em dezembro de 2007. Na ocasião, uma mesa redonda com Antonio Candido e Boris Schnaiderman, pouco se ouvia daquele senhor sorridente e instrospecto que demonstrava a arte de ouvir com uma elegância palpável no momento em que o mesmo exibia o que acabará de aprender. Aprendi com José Mindlin, naquela tarde, o quanto se pode aprender quando todos esperam tudo de você e você não os dá o que querem. Você recolhe o momento, processa as inquietações alheias e as devolve com a levesa de um mestre. Isso, José Mindlin era um verdadeiro mestre. Talvez os anos em sua biblioteca, os ultimos sem Dona Guita, e aimortalidade da academia o ensinaram o quanto é importante vivermos a mortalidade do tempo. Assim, para mostrar o quanto imortal foi o mestre que se revelou no silêncio, gostaria de reproduzir aqui sua ultima entrevista, que fora publicada na revista Cultura ( edição de Janeiro ) concedida um mês antes de sua despedida. A entrevista de um empresário e bibliófilo que se tornou um mito no universo literário brasileiro.
José Mindlin - A última entrevista
Nascido em São Paulo em 1914, filho de imigrantes russos, José Mindlin ainda menino apaixonou-se pelos livros. Muito jovem, frequentava os sebos do centro de São Paulo e acabou por achar um jeito de comprar os livros sem pedir dinheiro aos pais. “Verifiquei que os livreiros dos sebos não estavam atentos ao que os outros faziam. Alguns vendiam por 5 ou 10 mil réis o que outros vendiam por 20, 30 e até 50 mil réis! Por sua vez, esses vendiam por 5 o que os primeiros vendiam por 30, 40.” Rapidamente, viu ali a chance de incrementar sua biblioteca. “Comprava o livro dos sebos mais baratos e levava para o outro, o dos livros caros, e dizia: ‘Vou deixar em consignação e não quero ver dinheiro. Tire sua comissão e me credite o produto.’” Depois de poucos meses, o garoto tinha crédito em todos os sebos. “Eu comprava sem desembolsar nada”, fala divertindo-se. Assim começa a história do mais respeitado bibliófilo do país. Sua biblioteca tem cerca de 40 mil títulos e a Brasiliana, coleção de livros sobre o Brasil e de literatura brasileira, chega a 25 mil títulos e foi doada à Universidade de São Paulo (USP ) em 2005. Livros, leitura, literatura brasileira e estrangeira, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Machado de Assis, Marcel Proust, Eça de Queirós e Guita, sua mulher e companheira por quase 70 anos – paixões que florescem em cada frase, em cada gesto, em cada canto da casa e da biblioteca. Na garimpagem, o desafio e a alegria de encontrar o objeto do desejo. Na leitura, o encontro sincero e real com o prazer. Esse é José Mindlin.
Sua história de vida confunde-se com os livros – desde a infância, sempre com eles, com histórias contadas dentro de casa. Como foi o início dessa paixão?
Eu quase poderia dizer que nasci com o livro na mão, porque cresci em um ambiente cultural: meus pais liam, meus irmãos mais velhos também e o ambiente era de amor à leitura. Isso, naturalmente, me contagiou desde cedo. E, quando isso acontece, a pessoa tem de se conformar, porque vai continuar pelo resto da vida. Aliás, é o modo de dizer, porque acho que isso é uma bênção, ter esse gosto pela leitura. Quando falo sobre esse assunto, sempre digo que se trata de paixão incurável. Em geral, as boas paixões são incuráveis. E a leitura nem se discute, é um benefício para a vida.
Na sua casa, com seus irmãos e seus pais, vocês liam entre vocês?
Líamos, sim. Eu lia para mamãe. Devia ter uns 12 anos e estava lendo Júlio Verne e gostando muito. A mamãe teve uma paciência evangélica de ouvir toda a leitura, mas os trechos mais cacetes eu pulava. De modo que, no fundo, foi uma coisa ótima.
O senhor começou muito cedo, com 12 ou 13 anos. Qual foi o primeiro livro raro que comprou?
Aos 13 anos, comprei o primeiro livro raro em sebo. Era uma tradução portuguesa de Discurso sobre a história universal, de Jacques Bossuet, publicada em Coimbra em 1740. Como menino, fiquei fascinado pela antiguidade, depois aprendi que a data de edição é um fator secundário de avaliação. Há muito livro moderno que é mais raro e mais importante do que muito livro do século 16.
Como surgiu a ideia de formar uma biblioteca?
Ela não foi planejada, fui comprando livros de acordo com as leituras que me interessavam. Com certa precocidade, perto dos 12 anos, comecei a ir ao centro, que a gente chamava de “cidade”, e as livrarias se concentravam ali. Eu não tinha uma verba para a compra de livros e, às vezes, aparecia um que me interessava muito e pedia aos meus pais. Eles me facilitavam a compra. Eu tinha certa retaguarda, porque eles viam o meu interesse pela leitura com muito bom gosto. Mas por vezes eu precisava fazer uma ginástica, precisava me entender com os livreiros, estabelecer uma relação com eles que, aliás, me olhavam com simpatia. Eu era um menino de calças curtas! E, assim, começou a se formar a biblioteca. E ela tem uma vantagem, pois não tem fim e eu, com a idade em que estou, 95 anos, posso verificar que isso é uma verdade.
O senhor nasceu em São Paulo, em que bairro?
Nasci no Paraíso e minha mulher também. Infelizmente, eu a perdi em junho de 2007. Não éramos vizinhos, a casa dela era na 13 de maio, mas com saída para a Cincinato Braga, que foi a rua onde nasci. Mas só a conheci muitos anos mais tarde.
Como conheceu sua esposa, Dona Guita?
Eu estava começando o quinto ano da faculdade de direito e, um dia, vi no pátio uma caloura cercada de rapazes cabalando para que entrasse em um dos partidos acadêmicos: o Libertador, o Renovador, partidos de estudantes. Eu olhei pra moça e disse: ‘Olha, tudo isso é bobagem, se você quer um bom partido, está aqui’. E ela me pegou pela palavra e tivemos quase 70 anos de convivência. Eu sou de 1914 e ela era de 1916. Dali estabeleceu-se uma relação que teve, a meu ver, as melhores consequências. Casamos em 1938 e isso durou até a morte dela, 68 anos depois.
Dona Guita foi sua companheira de tantos anos...
Companheira em todos os sentidos, em todas as áreas, desde o namoro até depois do casamento, e a leitura foi um interesse central de nossa vida.
Qual a participação dela na formação da biblioteca?
Ela lia, assim como eu, constantemente e, além das coisas mais simples, quando se tratava de obras raras, por exemplo, que poderiam comprometer o orçamento doméstico, ela sempre foi uma apologista da aquisição. Me encorajava a fazer extravagâncias que eu hesitava em cometer. Ela estudou encadernação, conservação e restauro de papel e de obras, apesar de que não tínhamos muitos casos de aplicação dessas medidas, porque sempre procurei adquirir obras em bom estado, mas foi realmente uma parceira.
Em sua casa, o senhor lia com sua esposa e seus filhos?
Sim, eu e Guita líamos um para o outro, isso fazia parte da nossa vida. O gostoso é que os filhos também têm essa paixão, cada um a seu modo. O que se lê varia, mas todos gostam muito. Eu sempre acreditei que a leitura fosse uma fonte de prazer e a escolha tem de ser livre. A gente pode, quando muito, orientar, dar certo palpite, mas são eles que têm de desenvolver o próprio gosto. E nós conseguimos.
Todos os filhos gostam também?
Gostam muito. Nós temos quatro filhos, mas, na época em que eram três ainda, as meninas eram as mais velhas e sempre ouviam os elogios pelo interesse que tinham pela leitura. O caçula, que era o menino, enjoou de ouvir tanto elogio para as irmãs e um dia teve uma explosão, dizendo: ‘Eu também gosto de ler, só que eu não sei!’ Foi muito divertido.
Qual é a sensação de encontrar um livro raro, muito desejado?
O coração bate mais forte. O prazer da garimpagem é muito grande, descrever essa sensação não é fácil, mas dizer isso já dá uma ideia do que representava para mim. A gente procura coisas e, às vezes, vê um livro que a gente não conhecia, mas que desperta interesse. São os dois prazeres que a garimpagem proporciona: encontrar o que a gente procura e despertar interesse por coisas que não eram conhecidas.
Como selecionar esse ou aquele livro?
Diria que tenho um sexto sentido. Eu pego um livro e ele desperta o meu interesse ou não desperta. Em geral, o bom livro sempre desperta o meu interesse. Eu não gosto de ler, até hoje, livros muito difíceis; quando isso acontece, acabo deixando pra mais tarde. Mas há exceções, aqueles que temos de ler, mesmo achando difíceis. O hábito da leitura é tão forte que automaticamente folheio um pouco o livro e já sei se ele vai me interessar. É como o namoro.
Existe uma paixão?
Existe e, às vezes, a gente nem sabe explicar. Uma vez, em Londres, eu queria comprar uma edição de Rabelais [François] do século 16 e o livreiro me mostrou um exemplar de 1558. Eu peguei no livro, olhei, folheei e disse a ele: ‘Posso fazer uma observação?’, ele disse que sim e eu falei: ‘A meu ver, esse livro não é o do século 16 e sim do século 17, antedatado’. E ele perguntou: ‘Mas por que o senhor diz isso?’ Eu disse: ‘Não sei, é uma sensação, o toque, o papel, o tipo’. Fomos ver a biografia de Rabelais e, de fato, era uma edição do século 17 com a data de 1558. Ele não se convenceu de que eu não era especialista em Rabelais. Foi exatamente um caso de sexto sentido. Era muito parecido, não tenho explicação, mas eu sabia. É como ver uma imagem religiosa do século 18 e uma imitação bem feita, moderna. É questão de conhecer, mas sempre tem o sexto sentido.
Quais são os seus livros de cabeceira?
Tem uma pilha e eu gosto de ler do começo ao fim, mas hoje, com meu problema de visão, tenho dificuldade, alguém precisa ler pra mim, mas quando eu tinha facilidade, fazia isso com muita rapidez, em geral lia uns dois livros por semana, oito ou dez por mês.
O senhor gosta de reler livros?
Quais os livros que mais releu?
Os livros são muito ciumentos e eu não posso falar em preferências, porque vou ter problemas com eles.
Dos escritores brasileiros, qual o senhor prefere?
Machado de Assis é o topo da literatura brasileira, mas temos a sorte de ter muitos bons escritores. O Erico [Verissimo] é outro, mas são muitos...
Como incentivar o hábito da leitura?
Quem não lê, não sabe o prazer que perde. Hoje em dia, está se fazendo um esforço para disseminar o gosto pela leitura. O ideal é começar em casa, o exemplo dos pais é a melhor orientação. É claro que existem muitos casos em que os pais não leem, então esse papel de estimular a leitura passa a ser da escola. Mas a escola costumava, e ainda costuma em alguns casos, apontar a leitura como uma obrigação. Acho isso um erro. A leitura deve ser apontada, não só como fonte de conhecimento, mas principalmente como fonte de prazer. Eu sempre fui a favor de criar o gosto, e não transmitir a sensação de obrigação, ninguém gosta de fazer nada obrigado.
São atos simples que estimulam o gosto pela leitura?
São, sim. Dentro de casa, os pais lendo para os filhos – minha mãe lia pra mim, depois eu lia pra ela, que tinha uma paciência extraordinária. A coisa é simples. Eu lia muito para os meus filhos e todos têm o gosto pela leitura, começou a fazer parte da natureza deles, como fazia parte da nossa: da minha mulher e da minha.
O que o senhor considera mais inusitado em sua biblioteca, algo que desperta um carinho especial?
Gosto muito de manuscritos, porque você pode acompanhar o processo de criação literária. Muitos são datilografados, mas você tem as correções que o autor fez manualmente. Os originais são difíceis de se ter, de se conseguir, mas, curiosamente, os livros se encaminham para aqueles que têm o real interesse pela leitura. Mas tem muita coisa e aqui também entra a questão do ciúme. Mas dos livros sobre o Brasil, temos as primeiras edições do século 16, dos primeiros viajantes que aqui estiveram. Do período holandês, temos os livros que foram publicados na época. De literatura brasileira, temos várias primeiras edições dos séculos 17 e 19, muitos exemplares autografados e também temos originais de livros da era pré-computador, em que os escritores escreviam a mão ou a máquina e faziam correções a mão e a gente fica conhecendo o processo de criação literária. Temos originais do Guimarães Rosa, do Graciliano Ramos, do José Lins do Rego e do Erico Verissimo.
As Brasilianas foram doadas à Universidade de São Paulo. O que o senhor espera dessa biblioteca?
Ela tem de ser viva! Nós doamos a Brasiliana completa, em torno de 25 mil volumes, mesmo coisas raras e de muita estima, que é mais ou menos metade da biblioteca. Afinal, a gente passa, mas os livros ficam. Fizemos a doação com determinadas condições. A USP está construindo um prédio para receber a biblioteca, que não vai se misturar às outras bibliotecas da universidade, e a ideia é que seja uma biblioteca viva, que cresça, que promova seminários, edições, debates.
O senhor escreveu alguns livros, como Cartas da Biblioteca Guita e José Mindlin (2008), Uma vida entre livros (2008) e No mundo dos livros (2009), entre outros. Como foi passar de leitor a escritor?
Escritor seria uma forma meio pretensiosa de dizer, mas escrever é muito gostoso. Comecei a ler muito cedo e com 16 estava na redação de O Estado de S. Paulo. Eu era o mais moço, entrei em maio e fiz 16 em setembro. O pessoal da redação via isso com simpatia, todos eram mais velhos e compartilhavam do meu interesse. Hoje, como não consigo ler, passei a escrever, porque isso eu consigo. Foi uma boa solução.
O Vírus do Amor ao livro!!!
FV
(entrevista concedida à Cássia Fragata)
Video Fapesp
Desde o início de 2009 penso em publicar algo sobre José Mindlin. Esta figura elevada que tive o prazer de conhecer em dezembro de 2007. Na ocasião, uma mesa redonda com Antonio Candido e Boris Schnaiderman, pouco se ouvia daquele senhor sorridente e instrospecto que demonstrava a arte de ouvir com uma elegância palpável no momento em que o mesmo exibia o que acabará de aprender. Aprendi com José Mindlin, naquela tarde, o quanto se pode aprender quando todos esperam tudo de você e você não os dá o que querem. Você recolhe o momento, processa as inquietações alheias e as devolve com a levesa de um mestre. Isso, José Mindlin era um verdadeiro mestre. Talvez os anos em sua biblioteca, os ultimos sem Dona Guita, e aimortalidade da academia o ensinaram o quanto é importante vivermos a mortalidade do tempo. Assim, para mostrar o quanto imortal foi o mestre que se revelou no silêncio, gostaria de reproduzir aqui sua ultima entrevista, que fora publicada na revista Cultura ( edição de Janeiro ) concedida um mês antes de sua despedida. A entrevista de um empresário e bibliófilo que se tornou um mito no universo literário brasileiro.
José Mindlin - A última entrevista
Nascido em São Paulo em 1914, filho de imigrantes russos, José Mindlin ainda menino apaixonou-se pelos livros. Muito jovem, frequentava os sebos do centro de São Paulo e acabou por achar um jeito de comprar os livros sem pedir dinheiro aos pais. “Verifiquei que os livreiros dos sebos não estavam atentos ao que os outros faziam. Alguns vendiam por 5 ou 10 mil réis o que outros vendiam por 20, 30 e até 50 mil réis! Por sua vez, esses vendiam por 5 o que os primeiros vendiam por 30, 40.” Rapidamente, viu ali a chance de incrementar sua biblioteca. “Comprava o livro dos sebos mais baratos e levava para o outro, o dos livros caros, e dizia: ‘Vou deixar em consignação e não quero ver dinheiro. Tire sua comissão e me credite o produto.’” Depois de poucos meses, o garoto tinha crédito em todos os sebos. “Eu comprava sem desembolsar nada”, fala divertindo-se. Assim começa a história do mais respeitado bibliófilo do país. Sua biblioteca tem cerca de 40 mil títulos e a Brasiliana, coleção de livros sobre o Brasil e de literatura brasileira, chega a 25 mil títulos e foi doada à Universidade de São Paulo (USP ) em 2005. Livros, leitura, literatura brasileira e estrangeira, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Machado de Assis, Marcel Proust, Eça de Queirós e Guita, sua mulher e companheira por quase 70 anos – paixões que florescem em cada frase, em cada gesto, em cada canto da casa e da biblioteca. Na garimpagem, o desafio e a alegria de encontrar o objeto do desejo. Na leitura, o encontro sincero e real com o prazer. Esse é José Mindlin.
Sua história de vida confunde-se com os livros – desde a infância, sempre com eles, com histórias contadas dentro de casa. Como foi o início dessa paixão?
Eu quase poderia dizer que nasci com o livro na mão, porque cresci em um ambiente cultural: meus pais liam, meus irmãos mais velhos também e o ambiente era de amor à leitura. Isso, naturalmente, me contagiou desde cedo. E, quando isso acontece, a pessoa tem de se conformar, porque vai continuar pelo resto da vida. Aliás, é o modo de dizer, porque acho que isso é uma bênção, ter esse gosto pela leitura. Quando falo sobre esse assunto, sempre digo que se trata de paixão incurável. Em geral, as boas paixões são incuráveis. E a leitura nem se discute, é um benefício para a vida.
Na sua casa, com seus irmãos e seus pais, vocês liam entre vocês?
Líamos, sim. Eu lia para mamãe. Devia ter uns 12 anos e estava lendo Júlio Verne e gostando muito. A mamãe teve uma paciência evangélica de ouvir toda a leitura, mas os trechos mais cacetes eu pulava. De modo que, no fundo, foi uma coisa ótima.
O senhor começou muito cedo, com 12 ou 13 anos. Qual foi o primeiro livro raro que comprou?
Aos 13 anos, comprei o primeiro livro raro em sebo. Era uma tradução portuguesa de Discurso sobre a história universal, de Jacques Bossuet, publicada em Coimbra em 1740. Como menino, fiquei fascinado pela antiguidade, depois aprendi que a data de edição é um fator secundário de avaliação. Há muito livro moderno que é mais raro e mais importante do que muito livro do século 16.
Como surgiu a ideia de formar uma biblioteca?
Ela não foi planejada, fui comprando livros de acordo com as leituras que me interessavam. Com certa precocidade, perto dos 12 anos, comecei a ir ao centro, que a gente chamava de “cidade”, e as livrarias se concentravam ali. Eu não tinha uma verba para a compra de livros e, às vezes, aparecia um que me interessava muito e pedia aos meus pais. Eles me facilitavam a compra. Eu tinha certa retaguarda, porque eles viam o meu interesse pela leitura com muito bom gosto. Mas por vezes eu precisava fazer uma ginástica, precisava me entender com os livreiros, estabelecer uma relação com eles que, aliás, me olhavam com simpatia. Eu era um menino de calças curtas! E, assim, começou a se formar a biblioteca. E ela tem uma vantagem, pois não tem fim e eu, com a idade em que estou, 95 anos, posso verificar que isso é uma verdade.
O senhor nasceu em São Paulo, em que bairro?
Nasci no Paraíso e minha mulher também. Infelizmente, eu a perdi em junho de 2007. Não éramos vizinhos, a casa dela era na 13 de maio, mas com saída para a Cincinato Braga, que foi a rua onde nasci. Mas só a conheci muitos anos mais tarde.
Como conheceu sua esposa, Dona Guita?
Eu estava começando o quinto ano da faculdade de direito e, um dia, vi no pátio uma caloura cercada de rapazes cabalando para que entrasse em um dos partidos acadêmicos: o Libertador, o Renovador, partidos de estudantes. Eu olhei pra moça e disse: ‘Olha, tudo isso é bobagem, se você quer um bom partido, está aqui’. E ela me pegou pela palavra e tivemos quase 70 anos de convivência. Eu sou de 1914 e ela era de 1916. Dali estabeleceu-se uma relação que teve, a meu ver, as melhores consequências. Casamos em 1938 e isso durou até a morte dela, 68 anos depois.
Dona Guita foi sua companheira de tantos anos...
Companheira em todos os sentidos, em todas as áreas, desde o namoro até depois do casamento, e a leitura foi um interesse central de nossa vida.
Qual a participação dela na formação da biblioteca?
Ela lia, assim como eu, constantemente e, além das coisas mais simples, quando se tratava de obras raras, por exemplo, que poderiam comprometer o orçamento doméstico, ela sempre foi uma apologista da aquisição. Me encorajava a fazer extravagâncias que eu hesitava em cometer. Ela estudou encadernação, conservação e restauro de papel e de obras, apesar de que não tínhamos muitos casos de aplicação dessas medidas, porque sempre procurei adquirir obras em bom estado, mas foi realmente uma parceira.
Em sua casa, o senhor lia com sua esposa e seus filhos?
Sim, eu e Guita líamos um para o outro, isso fazia parte da nossa vida. O gostoso é que os filhos também têm essa paixão, cada um a seu modo. O que se lê varia, mas todos gostam muito. Eu sempre acreditei que a leitura fosse uma fonte de prazer e a escolha tem de ser livre. A gente pode, quando muito, orientar, dar certo palpite, mas são eles que têm de desenvolver o próprio gosto. E nós conseguimos.
Todos os filhos gostam também?
Gostam muito. Nós temos quatro filhos, mas, na época em que eram três ainda, as meninas eram as mais velhas e sempre ouviam os elogios pelo interesse que tinham pela leitura. O caçula, que era o menino, enjoou de ouvir tanto elogio para as irmãs e um dia teve uma explosão, dizendo: ‘Eu também gosto de ler, só que eu não sei!’ Foi muito divertido.
Qual é a sensação de encontrar um livro raro, muito desejado?
O coração bate mais forte. O prazer da garimpagem é muito grande, descrever essa sensação não é fácil, mas dizer isso já dá uma ideia do que representava para mim. A gente procura coisas e, às vezes, vê um livro que a gente não conhecia, mas que desperta interesse. São os dois prazeres que a garimpagem proporciona: encontrar o que a gente procura e despertar interesse por coisas que não eram conhecidas.
Como selecionar esse ou aquele livro?
Diria que tenho um sexto sentido. Eu pego um livro e ele desperta o meu interesse ou não desperta. Em geral, o bom livro sempre desperta o meu interesse. Eu não gosto de ler, até hoje, livros muito difíceis; quando isso acontece, acabo deixando pra mais tarde. Mas há exceções, aqueles que temos de ler, mesmo achando difíceis. O hábito da leitura é tão forte que automaticamente folheio um pouco o livro e já sei se ele vai me interessar. É como o namoro.
Existe uma paixão?
Existe e, às vezes, a gente nem sabe explicar. Uma vez, em Londres, eu queria comprar uma edição de Rabelais [François] do século 16 e o livreiro me mostrou um exemplar de 1558. Eu peguei no livro, olhei, folheei e disse a ele: ‘Posso fazer uma observação?’, ele disse que sim e eu falei: ‘A meu ver, esse livro não é o do século 16 e sim do século 17, antedatado’. E ele perguntou: ‘Mas por que o senhor diz isso?’ Eu disse: ‘Não sei, é uma sensação, o toque, o papel, o tipo’. Fomos ver a biografia de Rabelais e, de fato, era uma edição do século 17 com a data de 1558. Ele não se convenceu de que eu não era especialista em Rabelais. Foi exatamente um caso de sexto sentido. Era muito parecido, não tenho explicação, mas eu sabia. É como ver uma imagem religiosa do século 18 e uma imitação bem feita, moderna. É questão de conhecer, mas sempre tem o sexto sentido.
Quais são os seus livros de cabeceira?
Tem uma pilha e eu gosto de ler do começo ao fim, mas hoje, com meu problema de visão, tenho dificuldade, alguém precisa ler pra mim, mas quando eu tinha facilidade, fazia isso com muita rapidez, em geral lia uns dois livros por semana, oito ou dez por mês.
O senhor gosta de reler livros?
Acho a releitura uma fonte de prazer real, porque você vê coisas que escaparam na primeira leitura e o livro começa a fazer parte da sua vida.
Quais os livros que mais releu?
Em matéria de livros brasileiros, as obras de Machado de Assis e Guimarães Rosa, e a obra de Proust [Marcel], da literatura estrangeira.
Qual o livro preferido? Os livros são muito ciumentos e eu não posso falar em preferências, porque vou ter problemas com eles.
Dos escritores brasileiros, qual o senhor prefere?
Machado de Assis é o topo da literatura brasileira, mas temos a sorte de ter muitos bons escritores. O Erico [Verissimo] é outro, mas são muitos...
Como incentivar o hábito da leitura?
Quem não lê, não sabe o prazer que perde. Hoje em dia, está se fazendo um esforço para disseminar o gosto pela leitura. O ideal é começar em casa, o exemplo dos pais é a melhor orientação. É claro que existem muitos casos em que os pais não leem, então esse papel de estimular a leitura passa a ser da escola. Mas a escola costumava, e ainda costuma em alguns casos, apontar a leitura como uma obrigação. Acho isso um erro. A leitura deve ser apontada, não só como fonte de conhecimento, mas principalmente como fonte de prazer. Eu sempre fui a favor de criar o gosto, e não transmitir a sensação de obrigação, ninguém gosta de fazer nada obrigado.
São atos simples que estimulam o gosto pela leitura?
São, sim. Dentro de casa, os pais lendo para os filhos – minha mãe lia pra mim, depois eu lia pra ela, que tinha uma paciência extraordinária. A coisa é simples. Eu lia muito para os meus filhos e todos têm o gosto pela leitura, começou a fazer parte da natureza deles, como fazia parte da nossa: da minha mulher e da minha.
O que o senhor considera mais inusitado em sua biblioteca, algo que desperta um carinho especial?
Gosto muito de manuscritos, porque você pode acompanhar o processo de criação literária. Muitos são datilografados, mas você tem as correções que o autor fez manualmente. Os originais são difíceis de se ter, de se conseguir, mas, curiosamente, os livros se encaminham para aqueles que têm o real interesse pela leitura. Mas tem muita coisa e aqui também entra a questão do ciúme. Mas dos livros sobre o Brasil, temos as primeiras edições do século 16, dos primeiros viajantes que aqui estiveram. Do período holandês, temos os livros que foram publicados na época. De literatura brasileira, temos várias primeiras edições dos séculos 17 e 19, muitos exemplares autografados e também temos originais de livros da era pré-computador, em que os escritores escreviam a mão ou a máquina e faziam correções a mão e a gente fica conhecendo o processo de criação literária. Temos originais do Guimarães Rosa, do Graciliano Ramos, do José Lins do Rego e do Erico Verissimo.
As Brasilianas foram doadas à Universidade de São Paulo. O que o senhor espera dessa biblioteca?
Ela tem de ser viva! Nós doamos a Brasiliana completa, em torno de 25 mil volumes, mesmo coisas raras e de muita estima, que é mais ou menos metade da biblioteca. Afinal, a gente passa, mas os livros ficam. Fizemos a doação com determinadas condições. A USP está construindo um prédio para receber a biblioteca, que não vai se misturar às outras bibliotecas da universidade, e a ideia é que seja uma biblioteca viva, que cresça, que promova seminários, edições, debates.
O senhor escreveu alguns livros, como Cartas da Biblioteca Guita e José Mindlin (2008), Uma vida entre livros (2008) e No mundo dos livros (2009), entre outros. Como foi passar de leitor a escritor?
Escritor seria uma forma meio pretensiosa de dizer, mas escrever é muito gostoso. Comecei a ler muito cedo e com 16 estava na redação de O Estado de S. Paulo. Eu era o mais moço, entrei em maio e fiz 16 em setembro. O pessoal da redação via isso com simpatia, todos eram mais velhos e compartilhavam do meu interesse. Hoje, como não consigo ler, passei a escrever, porque isso eu consigo. Foi uma boa solução.
O Vírus do Amor ao livro!!!
FV
(entrevista concedida à Cássia Fragata)
Video Fapesp
São Vicente é um brasilin, Chei di ligria chei di cor ...
A morna caboverdiana é mais do que um estilo musical, trata-se de um convite à Liberdade. Não apenas no contexto nacional, daquele país, cuja a independência é recente, mas da essência libertária da alma. Os sons da Morna, da onda, do beijo da onda na praia, é um som humano. Nasce, quebra e renasce em todos os póros do nosso íntimo nos guiando em sua frenética sequência num passo, num outro." chei di ligria chei di cor...".
Cesaria Evora, a diva dos pés descalços, é uma das maiores interpretes da morna no mundo. Por ela que conhecemos grandes nomes da poesia caboverdiana, no universo da composição musical, os quais , talvez, jamais ouviriamos falar.Dentre eles, destacam-se Rufino Almeida, Manuel de Novas, Teofilo Chantré e Pedro Rodrigues. Este ultimo compôs o belo "Carnaval de São Vicente" que veremos mais abaixo. De Mindelo para o mundo, Cesaria Evora nos presenteou em seus quase 60 anos de carreira com clássicos como " Cabo Verde Manda Mantenha", " Flor di nha esperanca" e "Amor di Mundo", entre outros.
Bem, deixo aqui uma breve degustação deste fenômeno musical que continua fazendo sucesso e mostrando à todos nós o quanto um pequeno arquipélago no Atlântico, por anos esquecido e ignorado, pode educar este Mundo tão artificial e frio em que vivemos.
A canção "Carnaval de São Vicente" nos faz sentir orgulho de sermos brasileiros. Do outro lado do oceano existe um povo que ama nossa cultura mas não esquece a deles. Acho que isso nos serve de lição também.. pensem nisso!
Salve a diva: Cesaria Evora!!!
Carnaval de São Vicente( Pedro Rodrigues)
J'a'm conchia São Vicente
Na sê ligria na sê sabura
Ma 'm ca pud fazê ideia
S'na carnaval era mas sab
São Vicente é um brasilin
Chei di ligria chei di cor
Ness três dia di loucura
Ca ten guerra ê carnaval
Ness morabeza sen igual
Nô ten un fistinha mas sossegod
Ca bô exitá bô podê entrá
Coque e bafa ca ta faltá
Hôje é dia di carnaval
São Vicente é um brasilin
Chei di ligria chei di cor
Ness três dia di loucura
Ca ten guerra ê carnaval
Ness morabeza sen igual
Carnaval De Sao Vicente (jazzy carnaval mix).
Abraços
FV
Cesaria Evora, a diva dos pés descalços, é uma das maiores interpretes da morna no mundo. Por ela que conhecemos grandes nomes da poesia caboverdiana, no universo da composição musical, os quais , talvez, jamais ouviriamos falar.Dentre eles, destacam-se Rufino Almeida, Manuel de Novas, Teofilo Chantré e Pedro Rodrigues. Este ultimo compôs o belo "Carnaval de São Vicente" que veremos mais abaixo. De Mindelo para o mundo, Cesaria Evora nos presenteou em seus quase 60 anos de carreira com clássicos como " Cabo Verde Manda Mantenha", " Flor di nha esperanca" e "Amor di Mundo", entre outros.
Bem, deixo aqui uma breve degustação deste fenômeno musical que continua fazendo sucesso e mostrando à todos nós o quanto um pequeno arquipélago no Atlântico, por anos esquecido e ignorado, pode educar este Mundo tão artificial e frio em que vivemos.
A canção "Carnaval de São Vicente" nos faz sentir orgulho de sermos brasileiros. Do outro lado do oceano existe um povo que ama nossa cultura mas não esquece a deles. Acho que isso nos serve de lição também.. pensem nisso!
Salve a diva: Cesaria Evora!!!
Carnaval de São Vicente( Pedro Rodrigues)
J'a'm conchia São Vicente
Na sê ligria na sê sabura
Ma 'm ca pud fazê ideia
S'na carnaval era mas sab
São Vicente é um brasilin
Chei di ligria chei di cor
Ness três dia di loucura
Ca ten guerra ê carnaval
Ness morabeza sen igual
Nô ten un fistinha mas sossegod
Ca bô exitá bô podê entrá
Coque e bafa ca ta faltá
Hôje é dia di carnaval
São Vicente é um brasilin
Chei di ligria chei di cor
Ness três dia di loucura
Ca ten guerra ê carnaval
Ness morabeza sen igual
Carnaval De Sao Vicente (jazzy carnaval mix).
Abraços
FV
LANÇAMENTO DO LIVRO : ALAMBRADO
A ALGOL Editora lançará no dia 26/05 às 18hs na loja da Livraria Cultura – Conjunto Nacional - Av. Paulista 2073 Térreo, o livro Alambrado, que reúne crônicas da nação corinthiana sobre seus 100 anos de glória, autoria de Antonio Roque Citadini.
Os 100 anos de vida do Corinthians foram marcados: por grandes espetáculos nos gramados, um aumento espantoso no número de torcedores, a consolidação de uma marca mundialmente reconhecida, a revelação de grandes craques, a passagem de mestres da bola oriundos de times do Brasil e do exterior e o surgimento de figuras históricas.
A força da torcida corinthiana faz com que os principais personagens dessa centenária trajetória sejam mais que personagens, tornando-os verdadeiras lendas. É o caso dos jogadores Sócrates, Marcelinho, Casagrande, Vampeta e outros tantos cujas peculiaridades eram marcadas por lances geniais nos campos e polêmicas que ultrapassam as quatro linhas.
Mas não é só entre os jogadores que as lendas se situam na história do Corinthians. Há também na direção do clube alguns inesquecíveis personagens. O primeiro é sem dúvida o incomparável Vicente Matheus; figura antológica que habita um em cada três contos do futebol brasileiro. O segundo dirigente presente nessa lista é, indiscutivelmente, Antonio Roque Citadini, por suas declarações sempre passionais e bombásticas que revelam seu amor incondicional pelo clube e sua maneira, explicita, de defendê-lo.
Em Alambrado vamos conhecer um pouco mais da opinião, sempre impactante, desse “cartola” que não ofusca, em momento algum, seu coração corinthiano. O livro apresenta uma série de crônicas, escritas entre 2002 e 2009, sobre os mais diversos assuntos dentro do universo futebolístico. Citadini comenta desde a fundação do Corinthians, passando por seus principais ídolos, por torcedores ilustres, por sua apimentada opinião em relação às parcerias financeiras do clube nos últimos anos e sobre a Copa de 2014.
Não é apenas a torcida alvinegra que conhece bem a lenda Antonio Roque Citadini. Sua fama não se finda aos inimagináveis limites territoriais dos corinthianos; principalmente porque sua crítica mais ferrenha se dirige aos outros clubes; mas o Corinthians e sua administração, incluindo a que ele participou, não escapam ao seu olhar crítico e as observações de um fanático corinthiano sofredor.
Neste livro, Citadini rompe a barreira entre a arquibancada e o gramado ao revelar bastidores do universo corinthiano e do cenário futebolístico brasileiro. O leitor se verá presente nos principais lances e dribles que nem sempre trouxeram alegrias e títulos, mas que sempre fizeram parte dos altos e baixos da história do clube que melhor representa a luta diária dos brasileiros, sua gana e suas glórias.
Lançamento: Alambrado – Antonio Roque Citadini
26/05 ás 18h30 Livraria Cultura – Conjunto Nacional.
Os 100 anos de vida do Corinthians foram marcados: por grandes espetáculos nos gramados, um aumento espantoso no número de torcedores, a consolidação de uma marca mundialmente reconhecida, a revelação de grandes craques, a passagem de mestres da bola oriundos de times do Brasil e do exterior e o surgimento de figuras históricas.
A força da torcida corinthiana faz com que os principais personagens dessa centenária trajetória sejam mais que personagens, tornando-os verdadeiras lendas. É o caso dos jogadores Sócrates, Marcelinho, Casagrande, Vampeta e outros tantos cujas peculiaridades eram marcadas por lances geniais nos campos e polêmicas que ultrapassam as quatro linhas.
Mas não é só entre os jogadores que as lendas se situam na história do Corinthians. Há também na direção do clube alguns inesquecíveis personagens. O primeiro é sem dúvida o incomparável Vicente Matheus; figura antológica que habita um em cada três contos do futebol brasileiro. O segundo dirigente presente nessa lista é, indiscutivelmente, Antonio Roque Citadini, por suas declarações sempre passionais e bombásticas que revelam seu amor incondicional pelo clube e sua maneira, explicita, de defendê-lo.
Em Alambrado vamos conhecer um pouco mais da opinião, sempre impactante, desse “cartola” que não ofusca, em momento algum, seu coração corinthiano. O livro apresenta uma série de crônicas, escritas entre 2002 e 2009, sobre os mais diversos assuntos dentro do universo futebolístico. Citadini comenta desde a fundação do Corinthians, passando por seus principais ídolos, por torcedores ilustres, por sua apimentada opinião em relação às parcerias financeiras do clube nos últimos anos e sobre a Copa de 2014.
Não é apenas a torcida alvinegra que conhece bem a lenda Antonio Roque Citadini. Sua fama não se finda aos inimagináveis limites territoriais dos corinthianos; principalmente porque sua crítica mais ferrenha se dirige aos outros clubes; mas o Corinthians e sua administração, incluindo a que ele participou, não escapam ao seu olhar crítico e as observações de um fanático corinthiano sofredor.
Neste livro, Citadini rompe a barreira entre a arquibancada e o gramado ao revelar bastidores do universo corinthiano e do cenário futebolístico brasileiro. O leitor se verá presente nos principais lances e dribles que nem sempre trouxeram alegrias e títulos, mas que sempre fizeram parte dos altos e baixos da história do clube que melhor representa a luta diária dos brasileiros, sua gana e suas glórias.
Lançamento: Alambrado – Antonio Roque Citadini
26/05 ás 18h30 Livraria Cultura – Conjunto Nacional.
AIDS, ANGOLA E DOR. CONHEÇO A MORTE E NÃO A TEMO.
O terceiro texto do livro Fruto Vermelho foi escrito em uma tarde de domingo. Sabe aqueles dias em que você fica com o calhamaço de jornais nas mãos e vai lendo, lentamente, cada matéria do antigo conhecido “Cama de Mendigo”¹ que você comprou de manhã.Privilégio de poucos na periferia, e eu , me sentia honrado de poder gastar alguns reais com isso.
Naquela tarde, uma matéria me chamou atenção. Tratava-se de uma chamada à epidemia de AIDS em Angola. O jornal, por fontes do ministério da saúde local e outras instituições ligadas a ONU, atribuía a epidemia a resistência da população em utilizar camisinha. Segundo o jornal o ato, classificado como insano, era uma ignorância que matava milhares de pessoas naquele país.
Nesse momento comecei a pensar o quanto é fácil julgarmos os atos alheios e sem a menor preocupação de uma observação de outras perspectivas. Acredito que uma instituição como a ONU deveria se preocupar mais com isso, principalmente quando se refere a uma nação. Isso é a África. Continente que por anos fora julgado e condenado a sofrer com males não genuínos. A África da morte. Continente de maioria formada por homens e mulheres considerados pelos “pseudo-civilizados” como “semi-nativos”. Essa é uma discussão que nos levaria a questionar muitos conceitos como: O que é civilização? Quem disse que o Ocidente é quem deve julgar o certo e o errado? Quem são os verdadeiros vilões de nosso planeta?
Conheço a morte e não a temo
Meu nome é Imuitá, sou descendente de Mangoyo o antigo e inesquecível Rei de Ngoyo².
FONTE: FRUTO VERMELHO.
Naquela tarde, uma matéria me chamou atenção. Tratava-se de uma chamada à epidemia de AIDS em Angola. O jornal, por fontes do ministério da saúde local e outras instituições ligadas a ONU, atribuía a epidemia a resistência da população em utilizar camisinha. Segundo o jornal o ato, classificado como insano, era uma ignorância que matava milhares de pessoas naquele país.
Nesse momento comecei a pensar o quanto é fácil julgarmos os atos alheios e sem a menor preocupação de uma observação de outras perspectivas. Acredito que uma instituição como a ONU deveria se preocupar mais com isso, principalmente quando se refere a uma nação. Isso é a África. Continente que por anos fora julgado e condenado a sofrer com males não genuínos. A África da morte. Continente de maioria formada por homens e mulheres considerados pelos “pseudo-civilizados” como “semi-nativos”. Essa é uma discussão que nos levaria a questionar muitos conceitos como: O que é civilização? Quem disse que o Ocidente é quem deve julgar o certo e o errado? Quem são os verdadeiros vilões de nosso planeta?Envolto na fúria de minha revolta solitária peguei uma caneta e um papel e escrevi o texto abaixo. Texto esse que significou tanto na minha formação como cidadão do mundo que não poderia ficar de fora da publicação de meu livro.
Conheço a morte e não a temo
Tenho 29 anos, a pele escura e as suadas marcas de anos lutando. O meu país sofreu com as guerras dos brancos, com as guerras dos negros e agora com a guerra do vírus. O branco já tirou nossa liberdade uma vez, nossa honra várias vezes, nos trouxe a doença e agora quer tirar o nosso prazer. O negro ama a negra. O toque do negro é importante na negra! E o vírus é branco.
O homem branco é infiel e acha que o negro também é infiel. Não confio em quem joga nos outros os seus defeitos. O homem branco diz que a borracha não tira o prazer e o negro sabe verdadeiramente o que é o prazer.
Um branco americano tentou me convencer que poderia deitar com qualquer negra. Portador da borracha! Eu acho.
Minha negra não! Chorei pelas negras da minha nação. Descartadas como as borrachas do americano alemão que se lavou e partiu de avião.
O negro sabe que os filhos de Angola precisam se proteger, mas não vamos abrir mão do prazer. Sou de Lobango. Terra da dança, da inocente criança africana. Cresci e aprendi que o amor é a raiz do homem.
O vírus mata e a morte é bem-vinda não assusta. O que dói é o sofrimento da terra sangrenta e dos corpos secos.
Sou branco, me chamo Ari e sou negro filho de Mangoyo; tenho o rosto de um fascista, sou filho de um racista, mas tenho um coração HUMANISTA!
1- Por seu grande número de páginas, este era o popular nome dado ao jornal O estado de São Paulo. Gír-déc.80
2-Ngoyo- Primeiro nome da República da Angola.
Florbela Espanca
Realidade
E a minha rubra boca apaixonada
Teve a frescura pálida do linho...
Embriagou-me o teu beijo como um vinho
Fulvo de Espanha, em taça cinzelada...
E a minha cabeleireira desatada
Pôs a teus pés a sombra dum caminho...
Minhas pálpebras são cor de verbena,
Eu tenho os olhos garços, sou morena,
E para te encontrar foi que eu nasci...
Tens sido vida fora o meu desejo
E agora, que te falo, que te vejo,
Não sei se te encontrei... se te perdi...
Florbela Espanca
Este poema me foi ofertado em uma ocasião muito especial. A ninfa que me ofereceu tal presente, na ocasião ( 12/2007), disse-me que no momento de sua escolha pelo poema era em mim que ela pensava. Agora eu retribuo o presente devolvo à você suggarzinha.
Beijos.
FV
imagem: http://auladeliteraturaportuguesa.blogspot.com/
E a minha voz fez-se gorgeio de ninho...
E a minha rubra boca apaixonada
Teve a frescura pálida do linho...
Embriagou-me o teu beijo como um vinho
Fulvo de Espanha, em taça cinzelada...
E a minha cabeleireira desatada
Pôs a teus pés a sombra dum caminho...
Minhas pálpebras são cor de verbena,
Eu tenho os olhos garços, sou morena,
E para te encontrar foi que eu nasci...
Tens sido vida fora o meu desejo
E agora, que te falo, que te vejo,
Não sei se te encontrei... se te perdi...
Florbela Espanca
Este poema me foi ofertado em uma ocasião muito especial. A ninfa que me ofereceu tal presente, na ocasião ( 12/2007), disse-me que no momento de sua escolha pelo poema era em mim que ela pensava. Agora eu retribuo o presente devolvo à você suggarzinha.
Beijos.
FV
imagem: http://auladeliteraturaportuguesa.blogspot.com/
A crônica da nota 10

Fiquei surpreso ao ouvir a famosa voz de Robson de Oliveira na terça feira, dia 16 de fevereiro, feriado de carnaval, ás 16hs com toda sua ronquidão e taciturnidade proferir as notas dos jurados do desfile das escolas de samba de São Paulo. Minha surpresa foi pelo fato de tal acontecimento, tão comum nas manhãs do feriado de carnaval, ter-se transferido para o período vespertino. E eu que já comemorava o fato de não ter ouvido este ano ao vozeirão que me provoca pensamentos tão antagônicos, fora surpreendido quando, ainda que no meu quarto, percebo que minha mãe ligou o aparelho de televisão na sala e me vem, sem a menor cerimônia um: - NOTA DEZZZZZ!
Quase caí da cadeira em que passei todo o feriado sentado produzindo meu artigo sobre as classificações que distinguem literatura de qualidade de livros comerciais. A voz do presidente da liga, à medida que me irritava, me fazia lembrar que o feriado estava chegando ao fim, para minha tristeza, e que o carnaval havia acabado... para minha alegria. Viu como são sentimentos antagônicos!
Eu precisava continuar minha concentração no artigo, pois este, já havia tomado meu Natal, meu Réveillon, minhas férias de Janeiro e agora o carnaval; se bem que o carnaval eu fiquei feliz de estar tão ocupado, assim não precisei passar perto do aparelho de TV e foi muito fácil negar a todos os convites de praia com micareta, de bloco com serpentinas no centro, de marchinhas nos salões da minha pobre Itapecerica e das festas que alguns foliões insistem em promover na rua de minha casa. Muita bebida e promiscuidade numa festa que os moradores fazem com o cínico discurso de que “a festa é pras crianças”. Nunca vi criança pular carnaval às 2hs da manhã! Pois bem, essa é a hora que a festa costuma se arrastar...
...meus pensamentos são interrompidos por mais uma: NOTA DEZZZZZ! - Meu Deus que vontade de enforcar esse homem. Ah tanto descontentamento dentro de mim que seria capaz de arrancar a cabeça dele. Pode acreditar, caro leitor, seria mais fácil arrancar a cabeça do presidente da liga do que convencer Dona M. , minha mãe, a desligar a TV. Como ambos os atos citados são desejos impossíveis, então tento me concentrar no artigo. Lembrei-me também que eu havia relatado aos meus amigos que o som da voz decretória que finda o carnaval seria também o som do ápice da minha vitória, pois neste momento eu teria acabado o artigo e estaria pronto pra comemorar com muitas Rosas e muito Ouro, mas até aquele instante eu não havia terminado, e quanto mais notas “dez” ele lia, mais eu me irritava e meu artigo não andava.
Precisava fazer algo urgente, algo que revertesse àquela situação. Já que o Sr. Robson estava disposto a me irritar por muito tempo, decidi que eu o usaria para terminar meu trabalho, então peguei meu material, caderno e lápis, e fui para a sala. Olhei para minha mãe com uma cara de poucos amigos, ela não entendeu muito meu emburramento, mas continuou olhando pro televisor em silêncio. Quando derrepente, considerando minha paixão pelo Corinthians ela disse: - Olha lá...a Gaviões está em primeiro! E eu na minha profunda rabugice respondi: - Tomara que eles percam.
Claro que eu não desejaria isso para a escola que homenageia o meu querido timão no ano de seu centenário, mas o fato é que não pude conter minha indignação por ter que assistir aquela chatice recorrente anualmente. Bem, voltei ao meu objetivo, tirar proveito daquela adversidade. Lembrei-me de um bocado de frases, daquelas que lemos nas folhinhas de budismo, de auto-ajuda e até de pacote de bolachas... Esses dias vi uma frase de auto-ajuda num pacote de tabacos do Mato-grosso.
NOTA DEZZZZZZ!
Minha nossa esse cara parece uma vitrola arranhada!
A ultima nota fora para o quesito “Comissão de Frente”, eu acabará de chegar e não poderia ter sido recepcionado de uma maneira pior. A televisão havia dito que “Bateria”, “alegoria e adereços” já haviam sido pontuados. Meu artigo precisava de mais energia, muita bateria, pra organizar os adereços e as alegorias. Muito bem, o próximo quesito veio a calhar- “Conjunto”- comecei a organizar minhas ideias de forma a ordená-las de acordo com o objetivo proposto na minha introdução. Até parecia óbvio esta atitude, mas confesso que até aquele momento não me parecia tão clara e evidente. O Sr. Robson havia me dado a primeira ajuda. Próxima NOTA DEZZZ para o quesito “Enredo”. Maravilha, agora com tudo organizado começava a formatar minha dissertação dentro de um enredo expositivo que reunia as ideias e as teorias dando corpo ao emaranhado de palavras que até então estavam desconexas. O passo seguinte era inevitável: - “Evolução”. Meu trabalho fluiu como não havia fluído nos outros feriados, e nem nos dias que antecederam aquela data mágica. Nem me lembro qual foi a escola que ganhou DEZ em evolução, mas o meu trabalho estava expandindo....evoluindo.
O próximo quesito era “Fantasia”. Era estranho como a regência de minhas ideias e minhas mãos era tão fluente com aquela voz que ditava as notas e cujo rosto do dito cujo eu ainda não havia visto. Estava concentrado no texto, no papel, no Chico Buarque, no Eulálio, na Gaviões da Fiel, tudo ao mesmo tempo, sobre a maestria de mais uma Nota Dez do Sr. Robson. O momento era uma perfeita “Harmonia”, que, aliás, fora o quesito seguinte, não recordava do meu pavilhão cheio de adereços que tinha de carregar, a esta altura, tudo era leveza e fluidez na mágica criação do balé. Não sei bem porque me lembrei de Ravel, e seu bolero fez mais presente que os batuques das caixas e dos surdos que soavam das arquibancadas do Anhembi.
O trabalho estava pronto antes mesmo que o quesito “Samba- enredo” fosse mencionado. Talvez tenha sido a palavra “Samba” que me despertará daquele transe e me fez voltar a real. Senti-me entojado quando apareceram as quadras das escolas comemorando as ultimas notas que saiam a seu favor. Sempre odiei o carnaval por vários motivos, mas o principal é a super-valorização que a mídia dá a esta festa popular. Por isso evito, sempre que posso, o contato com esse atraso nacional e prefiro começar a ver a vida a partir da quarta feira de cinzas.
Mas esta terça feira de carnaval havia sido diferente, e após dez quesitos, uma escola campeã, e muitas vezes ter ouvido a sórdida voz dizendo NOTA DEZZZZ, eu finalmente havia terminado meu tão desejado artigo de conclusão de curso. Bem, se ele será um artigo nota Dez, eu só saberei quando for corrigido. Mas o mais importante é que eu havia terminado e queria agora olhar para o rosto daquele, que sem a menor ideia do que fizera, acabara de me ajudar a concluir esta tarefa. Então fiquei mais um pouco em frente à televisão e alguns minutos depois... Mais uma surpresa. O homem cuja voz assaltara-me minutos atrás e me fizera sair do conforto do meu quarto para um confronto frente ao tube familiar de minha mãe, não era o Sr. Robson de Oliveira, mas sim outro desconhecido do qual nem perdi o tempo para procurar saber quem é, pois para mim a eterna voz maldita de todas as terças feiras de carnaval, que fora por mais de 10 anos, continuará sendo a de Robson de Oliveira, cuja minha antipatia é maior que a renovação. O ódio perpétuo não me permite substituí-lo visualmente, ainda mais que as vozes desses “caras” são muito parecidas. Neste carnaval dei trégua nessa guerra e aproveitei, na trincheira da minha imaginação, para usar as armas do inimigo em minha glória. Mas prometo que no carnaval que vem, agora que já sei o horário da apuração atualizado, estarei preparado para estar bem longe de qualquer meio de comunicação na hora em que sua voz demoníaca proferir a primeira:
NOTA DEZZZZZZ!!!!
ASMC
Leite Derramado - Sobre narrador e personagem.
Caros Amigos
Acho que nunca é demais dizer que o livro Leite Derramado, apesar de todo o seu apelo comercial, não pode ser visto como uma obra menor. Estou desenvolvendo um artigo sobre o assunto, o qual devo publicar neste espaço até o mês de Abril.
Antes disso, gostaria de reproduzir o belíssimo trabalho do professor André Glaser sobre a narrativa em Leite Derramado. Tenho certeza de que após este post o quarto livro de Chico Buarque será visto com outros olhos.
Então, desfrutem desta maravilhosa aula do professor André Glaser publicado na livraria da folha no dia 08/01/2010.
Leite Derramado - Sobre Narrador e Personagem
Inicialmente, já desde o primeiro capítulo, o que me chamou atenção no último livro de Chico Buarque, "Leite Derramado", foi uma estranheza -uma narrativa contada em primeira pessoa, por um homem já bastante idoso, em um leito de hospital de segunda classe, formalmente organizada com uma clareza surpreendente. Poder-se-ia questionar a qualidade do romance, se um efeito estético não prendesse o leitor desde as primeiras sentenças. Um narrador em primeira pessoa pressupõe, em geral, uma proximidade entre o que é narrado e o estilo da narrativa - um envolvimento emotivo ou distanciamento instaurados pelo jogo lúdico da própria ficção. Assim, um narrador louco tende a usar palavras que não se organizam racionalmente, um narrador tenso fará uso de estruturas linguísticas tensas e um narrador distante será frio no tom de seu discurso. Não deveria um narrador em idade avançadíssima, doente e com uma memória já bastante falha, apresentar uma forma discursiva que, ao menos em certos momentos, fosse falha? Não falo aqui da organização do discurso, que se mostra embaralhado em vários momentos da narrativa; o foco é no domínio da sintaxe que percorre todo o romance, em um estilo próprio, que gera uma certa autonomia...
Uma análise pode destacar, entre tantos outros aspectos do livro em questão, três linhas de força que percorrem o romance. Uma, a estória de Eulálio contada por ele mesmo, que, logo nos primeiros capítulos, já se mostra de veracidade bastante duvidosa. O que temos de mais "real" são as impressões do espaço que rodeia o doente - o texto projeta um mundo fictício estável que nos faz "acreditar" na existência do quarto de hospital, da televisão alta, da enfermeira, da irmã etc. Quando, contudo, o que temos são os relatos de seu passado, a confusão de uma memória fraca instaura a dúvida. Só um leitor ingênuo levaria a sério o que está sendo relatado. Não só o passado, mas também o presente são constantemente distorcidos. A enfermeira escreve a narrativa? Ou, mais provavelmente, tem sua caneta sobre um prontuário de hospital? Matilde existiu? Ou é uma criação de uma imaginação alienada da realidade?
A sucessão dos acontecimentos responde pela lógica da associação. Já no primeiro capítulo este esquema organiza a narrativa. Eulálio quer casar-se com a enfermeira, que poderá dispor das coisas da mãe, na fazenda. Daí, fala de sua ex-mulher, que lá morou com ele, e uma propriedade leva-o a comentar a outra, o casarão de Botafogo, comprado pelos dinamarqueses dadas as trapalhadas de seu genro. Volta ao presente, comenta só haverem homens no hospital, de modo a poder falar das putinhas do Hitz, em Paris. Seguem por associação os assuntos de família, então tratados em francês etc. Num primeiro momento, esta estrutura nos faz pensar em uma narrativa construída pelo fio do desejo, tecendo as associações de forma a chegarmos, em algum momento, numa consciência das forças inconscientes que direcionam este fluxo do pensamento do protagonista. Mas logo percebemos a fraqueza desta linha argumentativa, dado o caráter cada vez mais impalpável do que é dito. Embora um forte erotismo percorra todo o texto, a possível traição de Matilde, por exemplo, é tratada com tal distância e sob tantas perspectivas que só nos resta, se não a tratar apenas como mais um episódio do romance, não confiar a leitura a esta linha argumentativa como principal.
Mas então o romance traz uma forte vertente histórica - por baixo dessas associações gratuitas corre um processo seletivo muito bem construído, que vai mapeando momentos da história de um país corrupto, racista, aristocrático em sua organização classista. Do caos das memórias do protagonista surge uma outra dimensão, muito mais palpável por sustentar-se sobre personagens que, além de sua individualidade, comportam generalizações. O Vidal, por exemplo, é quase um ícone de certa vertente da classe dominante brasileira capaz da frieza máxima para manter as aparências da boa conduta e, porque não, da pureza racial. Matilde, de filha bastarda, passa a ser aquela negrinha que pegamos para criar. Já a decadência dos Assumpção não se limita, por sua vez, a um caso de família. A sua incapacidade dupla -fazerem a aposta financeira certa e manterem-se "puros" (longe do estigma negro em seu sangue)-, marca a história de tantos sobrenomes brasileiros. Uma falha trágica os impede de funcionar dentro das regras do jogo de classes à brasileira, uma democracia com profundas raízes aristocráticas.
Concomitante a estas duas linhas de força, temos a que mais interessa do ponto de vista literário -esta estranheza acima comentada da clareza do discurso. Se Eulálio narra sua estória, não pode ser o mesmo Eulálio que o faz com uma prosa tão clara. Aqui, o narrador se torna ambíguo: entre o conteúdo narrado e a forma narrativa uma brecha se abre, um espaço que instaura uma contradição viva. E ao avançarmos na leitura, mais e mais este deleite de uma prosa "musical" toma posse do leitor. Momentos supostamente de grande tensão emocional mantêm o mesmo estilo calmo, seguro, com pontuação quase poética, que se desdobra por todo o romance. Se tomarmos, por exemplo, um dos episódios mais dramáticos da narrativa, no final do capítulo oito, quando Eulálio narra seus encontros eróticos com Matilde na cozinha, detectamos o mesmo ritmo claro, um andante que não se dobra ao ímpeto emocional da cena. Um impulso métrico parece emergir, com a predominância de iâmbicos e dátilos que dão à prosa um tom quase poético. E neste ponto nos perguntamos, por quê?
Um leitor curioso talvez dê atenção apenas à estória, aos acontecimentos relatados de pouca credibilidade. O leitor que se deleita no mergulho em uma prosa formalmente bem escrita talvez termine o livro com a impressão de ter lido algo belo. Mas no cruzamento entre ambas estas possibilidades, salta uma terceira -a crueza da distância, que pode marcar tanto o conformismo com uma história que não muda quanto a ironia fina e triste da recusa da poesia a envolver-se com a sujeira do recorte do mundo narrado.
Ou ainda uma terceira opção. Não estaria a prosa, aqui, trazendo para si um recurso tão utilizado na poesia, inclusive na presente nas canções compostas pelo próprio autor -a distância radical entre o ritmo e musicalidade das palavras e o conteúdo do texto? Tantas vezes o ritmo alegre do samba fala da tristeza, da perda, do sofrimento. Há algo próximo em "Leite Derramado", mas trazido criticamente (e artisticamente) às tensões e possibilidades características do romance. O narrador em primeira pessoa tem uma história considerável nos desdobramentos da literatura ocidental, e no Brasil suas potencialidades já foram bastante exploradas -basta citarmos Machado de Assis. Aqui, nosso narrador é mais uma vez distendido, desdobrado, explorado ao máximo. E no vão criado entre forma e conteúdo, a crítica social ganha muito. Se uma das conquistas formais do narrador em primeira pessoa foi permitir que as mais diversas e opostas visões de mundo ganhassem corpo a partir de um de seus membros e/ou defensores, agora esta voz é marcada pela distância que embaralha a construção do narrador-personagem, criado dois mundos paralelos, mas unidos estruturalmente. O alcance da crítica ganha nova amplitude que lhe possibilita apalpar, de um outro ângulo, o poder e sua autonomia que, por mais absurdo que pareça, dada a "desumanidade" (tão humana, por sinal) dos seus traços, continua ditando as normas.
Não tenho dúvidas quanto à qualidade literária do livro. Este narrador em primeira pessoa narra da boca do personagem e se afasta dele. E este prisma da forma, para citar Anatol Rosenfeld, lhe dá "certa transparência ou 'iridiscência' em direção a significados mais profundos, em que se revela o 'sentido', a 'ideia' da obra" 1. A projeção do mundo ficcional criado pelo "conteúdo" ganha uma tridimensionalidade, indo além dos limites do ponto de vista do narrador e construindo um espaço ficcional mais abrangente, que cria neste outras possibilidades de leitura da sociedade brasileira. E não deixa de merecer atenção o fato de este impulso crítico vir pelo bom e velho livro, ainda vivíssimo, como momento de um grande crítico que por tantos anos se debruçou sobre a música e o drama.
O momento presente, tão perto historicamente e tão longe ideologicamente do impulso democrático que movimentou a arte e cultura críticas dos anos setenta, não perdeu o impulso crítico. "Leite Derramado" atesta o interesse do autor em manter viva a arte politizada, que faz parte de sua história pessoal e de um viés importante da história de nosso país. Um golpe de mestre, de grande maturidade literária. E de mensagem poderosíssima, se não recusarmos ao olhar multifacetado que o romance parece sugerir.
1Anatol ROSENFELD. "Literatura e personagem". In: A personagem de ficção. SP: Ed. Perspectiva, 2007.
Obrigado professor André
Acho que nunca é demais dizer que o livro Leite Derramado, apesar de todo o seu apelo comercial, não pode ser visto como uma obra menor. Estou desenvolvendo um artigo sobre o assunto, o qual devo publicar neste espaço até o mês de Abril.
Antes disso, gostaria de reproduzir o belíssimo trabalho do professor André Glaser sobre a narrativa em Leite Derramado. Tenho certeza de que após este post o quarto livro de Chico Buarque será visto com outros olhos.
Então, desfrutem desta maravilhosa aula do professor André Glaser publicado na livraria da folha no dia 08/01/2010.
Leite Derramado - Sobre Narrador e Personagem
Inicialmente, já desde o primeiro capítulo, o que me chamou atenção no último livro de Chico Buarque, "Leite Derramado", foi uma estranheza -uma narrativa contada em primeira pessoa, por um homem já bastante idoso, em um leito de hospital de segunda classe, formalmente organizada com uma clareza surpreendente. Poder-se-ia questionar a qualidade do romance, se um efeito estético não prendesse o leitor desde as primeiras sentenças. Um narrador em primeira pessoa pressupõe, em geral, uma proximidade entre o que é narrado e o estilo da narrativa - um envolvimento emotivo ou distanciamento instaurados pelo jogo lúdico da própria ficção. Assim, um narrador louco tende a usar palavras que não se organizam racionalmente, um narrador tenso fará uso de estruturas linguísticas tensas e um narrador distante será frio no tom de seu discurso. Não deveria um narrador em idade avançadíssima, doente e com uma memória já bastante falha, apresentar uma forma discursiva que, ao menos em certos momentos, fosse falha? Não falo aqui da organização do discurso, que se mostra embaralhado em vários momentos da narrativa; o foco é no domínio da sintaxe que percorre todo o romance, em um estilo próprio, que gera uma certa autonomia... Uma análise pode destacar, entre tantos outros aspectos do livro em questão, três linhas de força que percorrem o romance. Uma, a estória de Eulálio contada por ele mesmo, que, logo nos primeiros capítulos, já se mostra de veracidade bastante duvidosa. O que temos de mais "real" são as impressões do espaço que rodeia o doente - o texto projeta um mundo fictício estável que nos faz "acreditar" na existência do quarto de hospital, da televisão alta, da enfermeira, da irmã etc. Quando, contudo, o que temos são os relatos de seu passado, a confusão de uma memória fraca instaura a dúvida. Só um leitor ingênuo levaria a sério o que está sendo relatado. Não só o passado, mas também o presente são constantemente distorcidos. A enfermeira escreve a narrativa? Ou, mais provavelmente, tem sua caneta sobre um prontuário de hospital? Matilde existiu? Ou é uma criação de uma imaginação alienada da realidade?
A sucessão dos acontecimentos responde pela lógica da associação. Já no primeiro capítulo este esquema organiza a narrativa. Eulálio quer casar-se com a enfermeira, que poderá dispor das coisas da mãe, na fazenda. Daí, fala de sua ex-mulher, que lá morou com ele, e uma propriedade leva-o a comentar a outra, o casarão de Botafogo, comprado pelos dinamarqueses dadas as trapalhadas de seu genro. Volta ao presente, comenta só haverem homens no hospital, de modo a poder falar das putinhas do Hitz, em Paris. Seguem por associação os assuntos de família, então tratados em francês etc. Num primeiro momento, esta estrutura nos faz pensar em uma narrativa construída pelo fio do desejo, tecendo as associações de forma a chegarmos, em algum momento, numa consciência das forças inconscientes que direcionam este fluxo do pensamento do protagonista. Mas logo percebemos a fraqueza desta linha argumentativa, dado o caráter cada vez mais impalpável do que é dito. Embora um forte erotismo percorra todo o texto, a possível traição de Matilde, por exemplo, é tratada com tal distância e sob tantas perspectivas que só nos resta, se não a tratar apenas como mais um episódio do romance, não confiar a leitura a esta linha argumentativa como principal.
Mas então o romance traz uma forte vertente histórica - por baixo dessas associações gratuitas corre um processo seletivo muito bem construído, que vai mapeando momentos da história de um país corrupto, racista, aristocrático em sua organização classista. Do caos das memórias do protagonista surge uma outra dimensão, muito mais palpável por sustentar-se sobre personagens que, além de sua individualidade, comportam generalizações. O Vidal, por exemplo, é quase um ícone de certa vertente da classe dominante brasileira capaz da frieza máxima para manter as aparências da boa conduta e, porque não, da pureza racial. Matilde, de filha bastarda, passa a ser aquela negrinha que pegamos para criar. Já a decadência dos Assumpção não se limita, por sua vez, a um caso de família. A sua incapacidade dupla -fazerem a aposta financeira certa e manterem-se "puros" (longe do estigma negro em seu sangue)-, marca a história de tantos sobrenomes brasileiros. Uma falha trágica os impede de funcionar dentro das regras do jogo de classes à brasileira, uma democracia com profundas raízes aristocráticas.
Concomitante a estas duas linhas de força, temos a que mais interessa do ponto de vista literário -esta estranheza acima comentada da clareza do discurso. Se Eulálio narra sua estória, não pode ser o mesmo Eulálio que o faz com uma prosa tão clara. Aqui, o narrador se torna ambíguo: entre o conteúdo narrado e a forma narrativa uma brecha se abre, um espaço que instaura uma contradição viva. E ao avançarmos na leitura, mais e mais este deleite de uma prosa "musical" toma posse do leitor. Momentos supostamente de grande tensão emocional mantêm o mesmo estilo calmo, seguro, com pontuação quase poética, que se desdobra por todo o romance. Se tomarmos, por exemplo, um dos episódios mais dramáticos da narrativa, no final do capítulo oito, quando Eulálio narra seus encontros eróticos com Matilde na cozinha, detectamos o mesmo ritmo claro, um andante que não se dobra ao ímpeto emocional da cena. Um impulso métrico parece emergir, com a predominância de iâmbicos e dátilos que dão à prosa um tom quase poético. E neste ponto nos perguntamos, por quê?
Um leitor curioso talvez dê atenção apenas à estória, aos acontecimentos relatados de pouca credibilidade. O leitor que se deleita no mergulho em uma prosa formalmente bem escrita talvez termine o livro com a impressão de ter lido algo belo. Mas no cruzamento entre ambas estas possibilidades, salta uma terceira -a crueza da distância, que pode marcar tanto o conformismo com uma história que não muda quanto a ironia fina e triste da recusa da poesia a envolver-se com a sujeira do recorte do mundo narrado.
Ou ainda uma terceira opção. Não estaria a prosa, aqui, trazendo para si um recurso tão utilizado na poesia, inclusive na presente nas canções compostas pelo próprio autor -a distância radical entre o ritmo e musicalidade das palavras e o conteúdo do texto? Tantas vezes o ritmo alegre do samba fala da tristeza, da perda, do sofrimento. Há algo próximo em "Leite Derramado", mas trazido criticamente (e artisticamente) às tensões e possibilidades características do romance. O narrador em primeira pessoa tem uma história considerável nos desdobramentos da literatura ocidental, e no Brasil suas potencialidades já foram bastante exploradas -basta citarmos Machado de Assis. Aqui, nosso narrador é mais uma vez distendido, desdobrado, explorado ao máximo. E no vão criado entre forma e conteúdo, a crítica social ganha muito. Se uma das conquistas formais do narrador em primeira pessoa foi permitir que as mais diversas e opostas visões de mundo ganhassem corpo a partir de um de seus membros e/ou defensores, agora esta voz é marcada pela distância que embaralha a construção do narrador-personagem, criado dois mundos paralelos, mas unidos estruturalmente. O alcance da crítica ganha nova amplitude que lhe possibilita apalpar, de um outro ângulo, o poder e sua autonomia que, por mais absurdo que pareça, dada a "desumanidade" (tão humana, por sinal) dos seus traços, continua ditando as normas.
Não tenho dúvidas quanto à qualidade literária do livro. Este narrador em primeira pessoa narra da boca do personagem e se afasta dele. E este prisma da forma, para citar Anatol Rosenfeld, lhe dá "certa transparência ou 'iridiscência' em direção a significados mais profundos, em que se revela o 'sentido', a 'ideia' da obra" 1. A projeção do mundo ficcional criado pelo "conteúdo" ganha uma tridimensionalidade, indo além dos limites do ponto de vista do narrador e construindo um espaço ficcional mais abrangente, que cria neste outras possibilidades de leitura da sociedade brasileira. E não deixa de merecer atenção o fato de este impulso crítico vir pelo bom e velho livro, ainda vivíssimo, como momento de um grande crítico que por tantos anos se debruçou sobre a música e o drama.
O momento presente, tão perto historicamente e tão longe ideologicamente do impulso democrático que movimentou a arte e cultura críticas dos anos setenta, não perdeu o impulso crítico. "Leite Derramado" atesta o interesse do autor em manter viva a arte politizada, que faz parte de sua história pessoal e de um viés importante da história de nosso país. Um golpe de mestre, de grande maturidade literária. E de mensagem poderosíssima, se não recusarmos ao olhar multifacetado que o romance parece sugerir.
1Anatol ROSENFELD. "Literatura e personagem". In: A personagem de ficção. SP: Ed. Perspectiva, 2007.
Obrigado professor André
Assinar:
Postagens (Atom)



























