O Corvo e a Filosofia da Composição - Poe


O Corvo

Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de algúem que batia levemente a meus umbrais.
"Uma visita", eu me disse, "está batendo a meus umbrais.


É só isto, e nada mais." Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro,
E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
Como eu qu'ria a madrugada, toda a noite aos livros dada
P'ra esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais -
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,
Mas sem nome aqui jamais! Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
Mas, a mim mesmo infundido força, eu ia repetindo,
"É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.
É só isto, e nada mais". E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
"Senhor", eu disse, "ou senhora, decerto me desculpais;
Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo,
Tão levemente batendo, batendo por meus umbrais,
Que mal ouvi..." E abri largos, franqueando-os, meus umbrais.
Noite, noite e nada mais. A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
E a única palavra dita foi um nome cheio de ais -
Eu o disse, o nome dela, e o eco disse aos meus ais.
Isso só e nada mais. Para dentro então volvendo, toda a alma em mim ardendo,
Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
"Por certo", disse eu, "aquela bulha é na minha janela.
Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais."
Meu coração se distraía pesquisando estes sinais.
"É o vento, e nada mais." Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais.
Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,
Mas com ar solene e lento pousou sobre os meus umbrais,
Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais,
Foi, pousou, e nada mais. E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
Com o solene decoro de seus ares rituais.
"Tens o aspecto tosquiado", disse eu, "mas de nobre e ousado,
Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!
Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais."
Disse o corvo, "Nunca mais". Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,
Inda que pouco sentido tivessem palavras tais.
Mas deve ser concedido que ninguém terá havido
Que uma ave tenha tido pousada nos meus umbrais,
Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais,
Com o nome "Nunca mais". Mas o corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,
Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.
Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento
Perdido, murmurei lento, "Amigo, sonhos - mortais
Todos - todos já se foram. Amanhã também te vais".
Disse o corvo, "Nunca mais". A alma súbito movida por frase tão bem cabida,
"Por certo", disse eu, "são estas vozes usuais,
Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono
Seguiram até que o entono da alma se quebrou em ais,
E o bordão de desesp'rança de seu canto cheio de ais
Era este "Nunca mais". Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,
Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;
E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira
Que qu'ria esta ave agoureia dos maus tempos ancestrais,
Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais,
Com aquele "Nunca mais". Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo
À ave que na minha alma cravava os olhos fatais,
Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando
No veludo onde a luz punha vagas sobras desiguais,
Naquele veludo onde ela, entre as sobras desiguais,
Reclinar-se-á nunca mais! Fez-se então o ar mais denso, como cheio dum incenso
Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais.
"Maldito!", a mim disse, "deu-te Deus, por anjos concedeu-te
O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais,
O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!"
Disse o corvo, "Nunca mais". "Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!
Fosse diabo ou tempestade quem te trouxe a meus umbrais,
A este luto e este degredo, a esta noite e este segredo,
A esta casa de ância e medo, dize a esta alma a quem atrais
Se há um bálsamo longínquo para esta alma a quem atrais!
Disse o corvo, "Nunca mais". "Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!
Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais.
Dize a esta alma entristecida se no Éden de outra vida
Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!"
Disse o corvo, "Nunca mais". "Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!", eu disse. "Parte!
Torna á noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!
Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!
Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!
Tira o vulto de meu peito e a sombra de meus umbrais!"
Disse o corvo, "Nunca mais". E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda
No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.
Seu olhar tem a medonha cor de um demônio que sonha,
E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão há mais e mais,
Libertar-se-á... nunca mais!


Tradução : Fernando Pessoa


 

 

A FILOSOFIA DA COMPOSIÇÃO

 
Em uma nota que neste momento tenho à vista, Charles Dickens diz o seguinte, referindo-se a uma análise que fiz do mecanismo de Barnaby Rudge: “Sabe que Godwin escreveu seu Caleb Williams de trás para frente? Começou emaranhando a matéria do segundo livro e logo, para compor o primeiro, pensou nos meios de justificar o que havia feito”.
Parece-me difícil de acreditar que esse fora precisamente o método de composição de Godwin e, de fato, o que o mesmo confessa não está de acordo, de modo algum, com a idéia do Sr. Dickens. Mas o autor de Caleb Williams era um artista demasiado entendido para deixar de compreender as vantagens que pode obter com algum procedimento semelhante. Eis algo evidente: um plano qualquer que seja digno desse nome só pode ser traçado visando o desenlace antes que a pena ataque o papel. Só quando se tem continuamente presente a idéia do desenlace é que podemos conferir a um plano a sua indispensável aparência lógica e de causalidade, procurando fazer com que todas as incidências e, especialmente, o tom geral tendam a desenvolver a intenção estabelecida.
Creio que existe um erro radical no método empregado para se construir um conto. Algumas vezes, a história nos proporciona uma tese; outras vezes, o escritor é inspirado por um acontecimento contemporâneo; ou, no melhor dos casos, senta-se para combinar os feitos surpreendentes que hão de formar a base de sua narrativa, procurando introduzir as descrições, o diálogo ou o seu comentário pessoal onde quer que um resquício no tecido da ação lhe force a fazê-lo. Eu prefiro começar com a consideração de um efeito. Tendo sempre em vista a originalidade (porque é falso consigo mesmo quem se atreve a desprezar um meio de interesse tão evidente e fácil), digo-me, antes de tudo: “Dentre os inumeráveis efeitos ou impressões que é capaz de receber o coração, a inteligência ou, falando em termos mais gerais, a alma, qual será o único que eu deva eleger no presente caso?” Tendo já elegido um tema novelesco e, depois, um vigoroso efeito, indago se vale mais evidenciar os incidentes ou o tom – ou os incidentes vulgares e um tom particular ou a singularidade tanto dos incidentes, quanto do tom -; logo procuro, em torno de mim, ou melhor, em mim mesmo, as combinações de acontecimentos ou de tons que podem ser mais adequados para criar o efeito em questão.
Tenho pensado quão interessante seria um artigo escrito por um autor que quisesse e que pudesse descrever, passo a passo, a marcha progressiva seguida em qualquer uma de suas obras até chegar ao término definitivo de sua realização. Seria, para mim, impossível explicar por que ainda não foi oferecido ao público um trabalho semelhante; mas talvez a vaidade dos autores seja a causa mais poderosa para justificarmos essa lacuna literária. Muitos escritores, especialmente os poetas, preferem deixar que acreditemos que escrevem graças a uma espécie de sutil frenesi ou de intuição extática; teriam verdadeiros calafrios se tivessem que permitir ao público dar uma olhadela por trás da cortina, para contemplar os trabalhosos e vacilantes embriões de pensamentos, a verdadeira decisão adotada no último momento, os relances de idéias que durante muito tempo resistem a mostrar-se, o pensamento plenamente maduro mas rejeitado por ser inaproveitável, a eleição prudente e os arrependimentos, as dolorosas emendas e interpolações; em suma, os rolamentos e as rodas, os artifícios para a troca de decoração, as escadas e os alçapões, as penas de galo, as cores, os disfarces e todos os enfeites que em noventa e nove por cento dos casos são o peculiar do histrião literário.
No entanto, sei que não é freqüente um autor estar disposto a reconstruir o caminho por onde chegou a seu desenlace. Geralmente, as idéias surgem mescladas; logo são seguidas e finalmente esquecidas da mesma maneira.
Quanto a mim, não compartilho com a repugnância do que acabo de falar, nem encontro a menor dificuldade em recordar a marcha progressiva de todas as minhas composições. Posto que o interesse dessa análise ou reconstrução, que tenho considerado como um desideratum, é inteiramente independente de qualquer interesse real ou imaginário na coisa analisada, não poderei ser censurado se revelo aqui o modus operandi utilizado para construir uma de minha obras. Escolhi “O Corvo” por ser esta a mais conhecida de todas. Meu propósito consiste em demonstrar que nenhum ponto da composição pode ser atribuído à intuição ou à sorte; e que aquela avançou até seu término, passo a passo, com a mesma exatidão e lógica rigorosa de um problema matemático.
Posto que não responde diretamente à questão poética, esqueçamos a circunstância ou a necessidade de que nasceu a intenção de compor um poema que satisfizesse ao mesmo tempo o gosto popular e o gosto crítico.
Minha análise começa, pois, a partir dessa intenção.
A consideração inicial foi esta: a dimensão. Se uma obra literária é muito extensa para ser lida de uma só assentada, devemos resignar-nos a eliminar o efeito, soberanamente decisivo, da unidade de impressão; porque quando são necessárias duas assentadas, interpõem-se entre elas os assuntos do mundo, e o que chamamos de conjunto ou totalidade cai por terra. Mas, tendo em vista que, coeteris paribus, nenhum poeta pode renunciar a tudo o que contribui para que alcance seu propósito, é importante examinar se há na extensão alguma vantagem, qualquer que seja, que compense a perda da unidade. Respondo logo negativamente. O que chamamos de poema extenso nada mais é do que uma sucessão de poemas curtos, de efeitos poéticos breves. De nada nos serve demonstrar que um poema só o é quando eleva a alma e lhe traz uma excitação intensa: por uma necessidade psíquica, todas as excitações intensas são de curta duração. Por isso, pelo menos a metade do Paraíso Perdido não é mais que pura prosa: há nele uma série de excitações poéticas salpicadas inevitavelmente de depressões. A obra, por causa de sua extensão excessiva, carece daquele elemento artístico tão decisivamente importante: a totalidade ou a unidade de efeito.
No que se refere às dimensões, há, evidentemente, um limite positivo para todas as obras literárias: o limite de uma só sessão. É certo que em alguns gêneros da prosa, como em Robinson Crusoe, não se exige a unidade, porque aquele limite pode ser traspassado. Sem embargo, nunca será conveniente traspassá-lo em um poema. No mesmo limite, a extensão de um poema deve ser muito bem pensada, para manter uma relação matemática com o mérito do mesmo, isto é, com a elevação ou a excitação que comporta; em outras palavras, com a quantidade de autêntico efeito poético com que possa impressionar as almas. Esta regra só tem uma condição restrita, a saber: que uma relativa duração é absolutamente indispensável para causar um efeito, qualquer que seja.
Tendo em vista essas considerações, assim como aquele grau de excitação que eu não situava acima do gosto popular nem abaixo do gosto crítico, concebi antes de tudo uma idéia sobre a extensão idônea para o poema projetado: uns cem versos aproximadamente. Na realidade, cento e oito.
Meu pensamento se fixou seguidamente na elevação de uma impressão ou de um efeito que pudesse causar. Aqui creio que convém observar que, através desse trabalho de construção, tive sempre presente a vontade de criar uma obra universalmente apreciável. Iria longe demais se eu demonstrasse, no presente tratado, o que tenho insistido muitas vezes: que o belo é o único âmbito legítimo da poesia. Contudo, direi umas palavras para apresentar meu verdadeiro pensamento, que alguns de meus amigos se apressaram a dissimular. O prazer mais intenso, mais elevado e mais puro não se encontra – segundo creio – mais que na contemplação do belo. Quando os homens falam de beleza, não entendem precisamente uma qualidade, como se supõe, mas uma impressão: em suma, têm presente a violenta e pura elevação da alma – não do intelecto ou do coração -, como já falei, e que resulta da contemplação do belo. Ora, considero a beleza como o âmbito da poesia porque é uma regra evidente da arte que os efeitos deveriam brotar necessariamente de causas diretas, que os objetivos deveriam ser alcançados com os meios mais apropriados para tal – já que nenhum homem chegou a ser tão estúpido para negar que a elevação singular de que estou tratando se encontra mais facilmente ao alcance da poesia. No entanto, o objetivo verdade, ou satisfação do intelecto, e o objetivo paixão, ou excitação do coração, são muito mais fáceis de se alcançar por meio da prosa – embora, em certa medida, estejam também ao alcance da poesia. Em resumo, a verdade requer uma precisão, e a paixão, uma familiaridade (os homens verdadeiramente apaixonados me compreenderão), radicalmente contrárias àquela beleza, que não é senão a excitação – reafirmo – ou o embriagador arrebatamento da alma. De tudo o que foi dito até agora, não se pode deduzir, de modo algum, que nem a paixão nem a verdade possam ser introduzidas em um poema, senão com benefícios para este, já que podem servir para aclarar ou para potencializar o efeito global, como as dissonâncias na música, pelo contraste. Mas o autêntico artista há de se esforçar sempre, antes de tudo, em reduzi-las a um papel propício ao objetivo pretendido, e depois torneá-las, tanto quanto possível, com o aroma da beleza, que é a atmosfera e a essência do poema.
Por conseqüência, considerando o belo como o meu terreno próprio, perguntei-me: “Qual é o tom para a sua manifestação mais alta?”. Este seria o tema de minha seguinte meditação, e toda a experiência humana nos leva a crer que esse tom é o da tristeza. Qualquer que seja seu parentesco, a beleza, em seu desenvolvimento supremo, induz às lágrimas, inevitavelmente, as almas sensíveis. Assim, a melancolia é o mais idôneo dos tons poéticos.
Uma vez determinados a dimensão, o terreno e o tom do meu trabalho, dediquei-me a buscar alguma curiosidade artística de alto grau que pudesse atuar como chave na construção do poema, de algum eixo sobre o qual toda a máquina pudesse girar. Refletindo sobre todos os efeitos conhecidos pela arte ou, mais propriamente, sobre todos os meios de efeito – no sentido cênico -, não poderia deixar de compreender que nenhum havia sido empregado com tanta freqüência quanto o do estribilho. A universalidade deste bastava para me convencer acerca de seu intrínseco valor, evitando a necessidade de submetê-lo a uma análise. De qualquer modo, eu não o considerava, senão enquanto suscetível de aperfeiçoamento, e tão logo pude perceber que ainda se encontrava em um estado primitivo. Tal como habitualmente é empregado, o estribilho não só é limitado às composições líricas, como a força da impressão que deve causar depende do vigor da monotonia no som e na idéia. Só se pode extrair o prazer mediante a sensação de identidade ou de repetição. Resolvi, desse modo, variar o efeito, com a finalidade de acrescentá-lo, permanecendo fiel à monotonia do som, mas alterando continuamente o da idéia: em outras palavras, procurei causar uma série contínua de efeitos novos com uma série de variadas aplicações do estribilho, deixando que este fosse quase sempre parecido.
Havendo já fixado esses pontos, preocupei-me com a natureza do meu estribilho: posto que sua aplicação tinha de ser variada com freqüência, era evidente que o estribilho em questão teria que ser breve, pois encontraria dificuldades insuperáveis para variar freqüentemente as aplicações de uma frase um pouco extensa. Por outro lado, a facilidade de variação estaria em proporção à brevidade da frase. Isto me conduziu a adotar como estribilho ideal uma única palavra.
Refleti, em seguida, sobre o caráter daquela palavra. Tendo decidido que haveria um estribilho, a divisão do poema em estâncias surgia como um corolário necessário, pois o estribilho constitui a conclusão de cada estrofe. Não havia dúvida para mim que semelhante conclusão ou término, para possuir força, deveria ser necessariamente sonora e suscetível de uma ênfase prolongada. Aquelas considerações me conduziram inevitavelmente ao o prolongado, que é a vogal mais sonora, associada ao r, porque esta é a consoante mais vigorosa.
Já bem determinado o som do estribilho, era preciso, depois, eleger uma palavra que o contivesse e, ao mesmo tempo, estivesse harmoniosamente de acordo com a melancolia que eu havia adotado como tom geral do poema. Seria impossível não se deparar com a palavra nevermore (nunca mais). Na verdade, esta foi a primeira que me veio à mente.
O desideratum seguinte foi este: qual seria o pretexto útil para empregar continuamente a palavra nevermore? Ao ver a dificuldade que se me apresentava para encontrar uma razão válida dessa repetição contínua, não deixei de observar que essa dificuldade surgia tão só de que tal palavra, repetida tão obstinada e monotonamente, seria proferida por um ser humano. Em resumo: a dificuldade consistia em conciliar a monotonia aludida com o exercício da razão na criatura chamada para repetir a palavra. Surgiu então a possibilidade de uma criatura não racional e, sem embargo, dotada de palavra: como é lógico, pensei, de início, em um papagaio; no entanto, este foi imediatamente substituído por um corvo, que também é dotado de palavra e, ademais, está infinitamente mais de acordo com o tom desejado.
Assim, pois, havia chegado à concepção de um corvo. O corvo, ave de mau agouro, repetindo obstinadamente a palavra nevermore ao final de cada estância em um poema de tom melancólico e extensão de cerca de cem versos, aproximadamente. Então, sem perder de vista o superlativo ou a perfeição em todos os pontos, perguntei-me: “Dentre todos os temas melancólicos, qual é o maior, segundo o entende universalmente a humanidade?” Resposta inevitável: “A morte”. “E quando esse assunto, o mais triste de todos, é também o mais poético?”. Segundo o já explicado com bastante amplitude, a resposta me veio facilmente: “Quando ele se alia intimamente com a beleza”. Logo a morte de uma bela mulher é, sem dúvida alguma, o tema mais poético do mundo, e parece-me óbvio que a boca mais apta para desenvolver o tema é a do amante privado de seu tesouro.
Teria que combinar, em seguida, aquelas duas idéias: um amante que chora a sua amada morta e um corvo que repete continuamente a palavra nevermore. Não só teria que combiná-las, como teria que variar a aplicação da palavra repetida; mas o único meio possível para semelhante combinação consistia em imaginar um corvo que aplicasse a palavra para responder as perguntas do amante. Então pude tirar vantagem da facilidade que se me oferecia para o efeito do qual meu poema estava dependendo, isto é, o efeito da variação da aplicação. Compreendi que poderia formular a primeira pergunta feita pelo amante, a qual o corvo responderia nevermore; que desta primeira pergunta poderia fazer uma espécie de lugar-comum; da segunda, algo menos comum; da terceira, algo menos comum ainda, e assim sucessivamente, até que por último o amante, arrancado de sua indolência pela índole melancólica da palavra, pela sua freqüente repetição e pela fama sinistra do pássaro, fosse lançado a uma agitação supersticiosa e, loucamente, formulasse perguntas diversas, mas apaixonadamente interessantes ao seu coração; perguntas que dessem a medida exata da superstição e do singular desespero que encontra o prazer em sua própria tortura, não por crer o amante na índole profética ou diabólica da ave (que, segundo lhe demonstra a razão, não faz mais que repetir algo aprendido mecanicamente), mas por experimentar um prazer inusitado ao formulá-las daquele modo, recebendo do nevermore sempre esperado uma ferida deliciosa e insuportável. Vendo semelhante facilidade que se me oferecia ou, melhor dizendo, que se me impunha no transcurso do meu trabalho, decidi primeiro formular a pergunta final, a pergunta definitiva, para a qual o nevermore seria a última resposta, a mais desesperada, plena de dor e sofrimento.
Aqui posso afirmar que meu poema começara pelo fim, como deveriam começar todas as obras de arte. Então, precisamente nesse ponto de minhas meditações, tomei da pena pela primeira vez e compus a seguinte estância:
“Profeta!”, falei, “ser maligno, sempre profeta, ave ou demônio, Pelo céu que nos rodeia, pelo Deus que nós dois adoramos, Fala a esta pobre alma angustiada se no Éden distante Poderá abraçar a jovem a quem os anjos chamam Leonora, Abraçar a bela e rara jovem a quem os anjos chamam Leonora”. O Corvo disse: “Nunca mais”.
Só então escrevi essa estância; primeiro, para fixar o ponto supremo e poder, o mais claramente possível, variar, segundo sua gravidade e importância, as perguntas anteriores do amante; e, em segundo lugar, para decidir definitivamente o ritmo, o metro, a extensão e a disposição geral da estrofe, assim como para graduar as que deveriam antecedê-la, de modo que nenhuma a ultrapassasse em seu efeito rítmico. Se, no trabalho de composição que deveria seguir, eu houvesse sido tão imprudente a ponto de escrever estâncias mais vigorosas, eu as debilitaria, conscientemente e sem vacilação alguma, de modo que não interferissem no efeito do crescendo.
Aqui eu bem posso falar algo sobre a versificação. Meu primeiro objetivo era – como sempre – a originalidade. Uma das coisas mais absurdas do mundo é, para mim, ver como a originalidade da versificação tem sido tratada com descaso. Mesmo reconhecendo que no ritmo puro exista pouca possibilidade de variação, é evidente que as variedades em matéria de metro e estância são infinitas; sem embargo, durante séculos, nenhum homem fez alguma coisa de original a respeito da versificação, nem sequer algo parecido. O certo é que a originalidade – excetuando os espíritos de uma força insólita – não é, de maneira alguma, como muitos acreditam, questão de instinto ou de intuição. De um modo geral, só através de muito trabalho pode-se encontrá-la, e embora seja um mérito positivo da mais alta categoria, o espírito de invenção participa menos que o de negação para chegarmos até ela.
Não é preciso afirmar que não pretendi ser original nem no ritmo nem no metro de O Corvo. O primeiro é trocaico; o segundo, um octâmetro acatalético, alternando-se com um heptâmetro catalético que, repetindo-se, vai se converter em estribilho no quinto verso, finalizando com um tetâmetro catalético. Para expressar-me sem pedantismo, os pés empregados, que são troqueus, consistem em uma sílaba longa seguida de uma breve; o primeiro verso da estância é composto de oito pés; o segundo, de sete e meio; o terceiro, de oito; o quarto, de sete e meio; o quinto, também de sete e meio; o sexto, de três e meio. Ora, isolando cada um desses versos, veremos que já foram empregados antes, de maneira que a originalidade de O Corvo consiste na combinação dos mesmos em uma única estância. Até o presente momento, nada foi criado que se lho assemelhe. O efeito dessa combinação original se fortalece mediante alguns outros efeitos inusitados e absolutamente novos, obtidos por uma aplicação mais ampla da rima e da aliteração.
O ponto seguinte a ser considerado era o modo de estabelecer a comunicação entre o amante e o corvo. O primeiro ponto da questão consistia, naturalmente, no lugar. Poderia parecer que devesse brotar espontaneamente a idéia de uma selva ou de um campo, mas tenho sempre afirmado que para se criar o efeito de um incidente insulado, é absolutamente necessário um espaço estreito, pois este ganha a força de uma pintura. Ademais, oferece a vantagem moral de concentrar a atenção em um pequeno âmbito; não é preciso afirmar que esta vantagem não deve ser confundida com a que se obtenha da mera unidade de lugar.
Decidi, em seguida, situar o amante em seu quarto, em um quarto que havia santificado com as recordações da que vivera ali. O quarto é descrito como ricamente mobiliado, a fim de satisfazer as idéias de que já expus acerca da beleza, como a única tese verdadeira da poesia.
Havendo determinado assim o lugar, era preciso introduzir então a ave: a idéia de que esta penetrasse pela janela me parecia inevitável. Que o amante supusesse, no primeiro momento, que o aflar do pássaro contra o postigo fosse uma chamada à sua porta era uma idéia brotada de meu desejo de aumentar a curiosidade do leitor, obrigando-o a aguardar, mas também do desejo de colocar o efeito incidental da porta aberta de par a par pelo amante, que nada mais encontraria que a escuridão, e que pudesse aceitar a ilusão de que o espírito de sua amada estivesse a lhe chamar.
Fiz com que a noite parecesse tempestuosa, primeiro para explicar o motivo do corvo buscar a hospitalidade; segundo para criar o contraste com a serenidade material reinante no interior do quarto.
Fiz também com que a ave pousasse sobre o busto de Palas para estabelecer um contraste entre suas plumas e o mármore. Compreende-se que a idéia do busto foi suscitada unicamente pela ave; que fosse precisamente um busto de Palas para, em primeiro lugar, demonstrar a íntima relação com a erudição do amante e, em segundo lugar, por causa da própria sonoridade do nome Palas.
Até a metade do poema, explorei igualmente a força do contraste com o objetivo de aprofundar aquela que seria a impressão final. Por isso, conferi à entrada do corvo um matiz fantástico, aproximando-se já do cômico, pelo menos até onde meu assunto o permitia. O corvo penetra “a esvoaçar tumultuosamente”:
“Não fez nenhuma reverência;
não parou, não duvidou,
Mas, como um lord ou uma lady,
pousou sobre a minha porta”
Nas duas estâncias seguintes, o propósito se manifesta ainda mais:
“Então a ave de ébano induziu minha triste ilusão a sorrir,
Por sua grave postura e pela severidade de seu aspecto;
‘Apesar de tua crista ser lisa e rasa,” falei, “não és covarde,
Torvo, espectral e antigo Corvo que, errando, vens da noite;
Fala-me qual é o teu nome senhorial na Noite Plutoniana!’
O Corvo disse: ‘Nunca mais’.
Maravilhei-me ao escutar aquela ave desajeitada falar tão bem,
Apesar de sua resposta pouco esclarecedora e relevante;
Porque sabemos que nenhum ser humano ou vivente
Jamais se encantou ao ver um pássaro sobre a sua porta
Uma ave ou uma besta no busto esculpido sobre a sua porta
E que se chame ‘Nunca mais’.”
Preparado assim o efeito do desenlace, apressei-me em abandonar o tom fingido e adotar o sério, o mais profundo: esta mudança de tom se inicia no primeiro verso da estância que segue a que acabo de citar:
“Mas o Corvo, pousado no plácido busto, apenas aquelas, etc.”
A partir desse momento, o amante não mais zomba, já não vê nada de fictício no comportamento da ave. Fala dela como uma “espantosa, sinistra, ominosa ave de outrora”, e sentia que seus “feros olhos queimavam” o seu “coração”. Essa transição do pensamento e essa imaginação do amante têm como finalidade predispor o leitor a outras análogas, conduzindo o espírito até uma posição propícia para o desenlace, que virá tão rápida e diretamente quanto possível.
Com o desenlace propriamente dito, expressado no nevermore do corvo em resposta à última pergunta do amante – encontrará a sua amada no outro mundo? -, pode considerar-se concluído o poema em sua fase mais clara e natural, a de simples narração. Até o presente, tudo tem-se mantido nos limites do explicável e do real. Um corvo que aprendera mecanicamente a palavra nevermore, e que, tendo fugido de seu dono, pede abrigo, à meia-noite, em uma janela onde ainda brilha uma luz, fustigado pela fúria da tempestade; a janela de um estudante ocupado em ler um livro e a sonhar com a sua amada morta. Uma vez aberta a janela, aflando, a ave pousa o mais distante possível do estudante que, divertido pelo incidente, pergunta-lhe, brincando, o seu nome, sem esperar resposta. Mas o corvo, ao ser interrogado, responde com a sua palavra habitual – nevermore -, palavra que imediatamente suscita um eco melancólico no coração do estudante; e este, expressando em voz alta os pensamentos que aquela circunstância lhe sugere, se emociona diante da repetição do nevermore. O estudante se entrega às suposições que o caso lhe inspira, mas o ardor do coração humano não tarda em martirizar-se e, também, por uma espécie de superstição, a formular perguntas à ave, cuja resposta, o intolerável nevermore, lhe proporciona, ao amante, o mais horrível sofrimento. A narração, naquilo que designei como sua primeira fase ou fase natural, tem a sua conclusão precisamente nessa tendência do coração à tortura, levada ao extremo. Até aqui, nada foi mostrado que ultrapasse os limites da realidade.
Mas, nos temas manejados desse modo, por mais habilidade e mais vivas riquezas de incidentes que possua o artista, sempre mostrará um pouco da rudeza ou da nudez que repelem a leitura de uma pessoa sensível. Dois elementos são exigidos eternamente: por um lado, certa suma de complexidade ou, em outras palavras, de combinação; por outro, certa quantidade de espírito sugestivo, algo assim como uma veia subterrânea de pensamento, invisível e indefinida. Esta última quantidade é a que confere à obra de arte o ar opulento que cometemos a estupidez de confundir com o ideal. O que transforma em prosa (e prosa das mais chatas) a pretendida poesia dos que se denominam transcendentalistas, é justamente o excesso na expressão do sentido que só deve ser insinuado, é a mania de converter a corrente subterrânea de uma obra em outra corrente, visível na superfície.
Convencido disso, juntei as duas estâncias que concluem o poema, porque sua qualidade sugestiva haveria de penetrar em toda a narração antecedente. A corrente subterrânea do pensamento se mostra, pela primeira vez, nestes versos:
“Afasta teu bico do meu coração, afasta tua forma de minha porta!”
O Corvo disse: “Nunca mais”.
Quero ressaltar que a expressão “do meu coração” encerra a primeira expressão metafórica do poema. Estas palavras, com a resposta correspondente, leva o espírito a buscar um sentido moral em toda a narração que se desenvolvera anteriormente. Então o leitor começa a considerar o corvo como um ser emblemático. Mas só no último verso da última estância pode ver com nitidez a intenção de fazer do corvo o símbolo da recordação fúnebre e eterna:
“E o Corvo, ainda imutável, segue pousado, segue pousado
Sobre o pálido busto de Palas, bem sobre a minha porta;
Seus olhos se assemelham aos de um demônio que medita,
E a luz da lâmpada, que o cobre, lança a sua sombra no chão;
E minha alma, daquela sombra que jaz flutuando no chão
Não se levantará… nunca mais!”
EDGAR ALLAN POE – 1845

A classe media do Brasil contemporâneo


( Este é um desabafo contra  aqueles que não acreditam no Brasil. Esse povo pessimista que fica emporcalhando a paisagem tão bem vendida lá fora, que reflete o país das oportunidades e das realizações).


O verdadeiro retrato da felicidade está na beleza dessa gente, com seus calçados caros e suas roupas de marca, com suas mansões de pé direito alto, de caros balaustres, piso travertino na cor madrepérola, sob um teto solar que de noite traz o bailar das estrelas como companhia.
Crianças que gozam de uma saúde de aço, com suas barrigas bem alimentadas, cujo prato dispõe de espaço pras frutas da época, hon-maguro e trufa branca.  Uma mesa sempre farta, geladeira abarrota de alimentos, yogurtes e sucos  dos mais variados sabores.
Uma alimentação como essa só poderia resultar no belíssimo desempenho escolar que essas crianças têm. A de vestido vermelho já sabe o que fará com seu diploma de doutorado. A mais tímida, na porta da mansão, nos observa e avalia nossa descrição com seu olhar atento que só uma boa médica poderia dispor. A mãe, não precisa nem dizer, é PHD em Química, formou-se no exterior e hoje deixou as atividades acadêmicas em segundo plano, decidiu dedicar-se ao universo da arte e ao glamour dos vernissages, aliás, essa é uma rara aparição dela no seio familiar, ao lado de filhos e filhas tão bem encaminhados na vida que fazem com que ela tenha esse sorriso inquebrantável no rosto.
A criança encostada na parede é a que optou pela carreira de modelo fotográfico, faz pose até para foto de família. O que está no colo é um gênio, antes de completar o primeiro ano já consegue observar até os espaços não evidenciados e, claro, como todo gênio é cheio de modéstia, deixa de encarar a lente por ser o mais egocêntrico do grupo, deixou de mamar ainda cedo, não porque não houvesse leite, mas porque julgou não mais precisar. Leite materno é para fracos. Aliás, essa é uma máxima nessa família e em todas as famílias abastadas da nossa sociedade, deixam de amamentar cedo, por opção, contrariando aquelas campanhas canastronas que aparecem na televisão, ou melhor, no telão que eles veem na sala de estar. São campanhas que só servem pra países subdesenvolvidos, não esse. Aqui, pode-se deixar de mamar, existem outros tantos alimentos, à disposição de todos, que nutriram os desmamados sem maiores problemas.
Ao fundo, uma bananeira, talvez a coisa mais sem nexo nessa fotografia. Afinal, o que faz uma bananeira, fruta comum entre os pobres, numa fotografia que reflete a beleza de uma rica família brasileira? Uma falha do fotógrafo, sem dúvida. Prefiro esquecê-la, esse detalhe me faz lembrar os tempos em que meu país tinha pobreza, que pessoas passavam fome, eram doentes, analfabetas e numerosas; não tinham tratamento médico, dentário, nem escolas e nem comida. Como disse, prefiro esquecer. Como é lindo ser classe média. Viver num país em que o cenário comum é a fartura expressa no olhar de famílias bem-nutridas e cheias de saúde pra dar e vender e fazer gringo morrer de inveja.
 
Obrigado meu Brasil, obrigado presidente, nossos governantes de hoje e de ontem. Obrigado por nos fazer acreditar em imagens como essa que tentei retratar, uma imagem do rico e próspero Brasil do presente

desse filho que não foge à luta!

As palavras do poeta que imortalizou o homem!



Ah! Absalão!Absalão! – Permitam-me que lhes transcreva as palavras do artista Faulkner que imortalizou o homem William.


Autor de diversos romances, contos e roteiros cinematográficos, o escritor americano Willian Cuthbert Faulkner (1987-1962), recebeu em 1949 o Prêmio Nobel de literatura e , na cerimônia do Prêmio, declamou um discurso que ficou imortalizado pelo estilo peculiar. O aguçado fluxo de consciência, presente nas obras do autor, fora apresentado de forma primordiosa em sua retórica que deixava, naquele momento, de ser apenas um discurso para se tornar história.


“Senhoras e senhores, sinto que este prêmio não foi concedido a mim enquanto homem, mas o meu trabalho — o trabalho de uma vida na angústia e no sofrimento do espírito humano, não pela glória e menos ainda para obter lucro, mas para criar dos materiais do espírito humano algo que não existia antes. Assim, este prêmio está tão somente sob minha custódia. Não será difícil encontrar, para sua parte financeira, um destino condizente com o propósito e significado de sua origem. Mas eu gostaria de fazer o mesmo com esta aclamação também, utilizando este momento como o pináculo a partir do qual posso ser ouvido pelos jovens homens e mulheres já dedicados à mesma agonia e faina, entre os quais já está aquele que um dia estará aqui onde eu estou.
“Nossa tragédia, hoje, é um geral e universal temor físico suportado há tanto tempo que podemos mesmo tocá-lo. Não há mais problemas do espírito. Há somente a questão: quando irão me explodir? Por causa disto, o jovem ou a jovem que hoje escreve tem esquecido os problemas do coração humano em conflito consigo mesmo, os quais por si só fazem a boa literatura, uma vez que apenas sobre isso vale a pena escrever, apenas isso vale a angústia e o sofrimento.


“Ele, o jovem, deve aprendê-los novamente. Ele deve ensinar a si mesmo que o mais fundamental dentre todas as coisas é estar apreensivo; e, tendo ensinado isto a si mesmo, esquecê-lo para sempre, não deixando espaço em seu trabalho senão para as velhas verdades e truísmos do coração, as velhas verdades universais sem as quais qualquer estória torna-se efêmera e condenada — amor e honra e piedade e orgulho e compaixão e sacrifício. Antes que assim o faça, ele labora sob uma maldição. Ele escreve não sobre amor, mas sobre luxúria, sobre derrotas em que ninguém perde nada de valor, sobre vitórias sem esperança e, o pior de tudo, sem piedade e compaixão. Sua atribulação não aflige ossos universais, não deixa cicatrizes. Ele escreve não a partir do coração, mas das glândulas.“Até que reaprenda estas coisas, ele irá escrever como se compartisse e observasse o fim do homem. Eu me recuso a aceitar o fim do homem. É bastante cômodo dizer que o homem é imortal simplesmente porque ele irá subsistir: que quando o último tilintar do destino tiver soado e se esvaecido da última rocha inútil suspensa estática no último vermelho e moribundo entardecer, que mesmo então haverá ainda mais um som: sua fraca e inexaurível voz, ainda a falar. Eu me recuso a aceitar isto. Creio que o homem não irá meramente perdurar: ele triunfará. 



Ele é imortal, não porque dentre as criaturas tem ele uma voz inexaurível, mas porque ele tem uma alma, um espírito capaz de compaixão e sacrifício e resistência. O dever do poeta, do escritor, é escrever sobre essas coisas. É seu privilégio ajudar o homem a resistir erguendo seu coração, recordando-o a coragem e honra e esperança e orgulho e compaixão e piedade e sacrifício que têm sido a glória do seu passado. A voz do poeta necessita ser não meramente o registro e testemunho do homem, ela pode ser uma das escoras, o pilar para ajudá-lo a subsistir e prevalecer.”

Suarte na feira de Artes do Santa Tereza

Durante a apresentação do Itapoesia na Feira de Artes do Jardim Santa Tereza fui convidado a gravar esse vídeo para o grupo Salve Embu.
Suarte, poema publicado no livro Contempoemidade: Olhares sobre o espaço que nos cerca (2011), é um panorama da cidade, sobretudo no que se refere a sua produção artística, uma arte que abrange todas as categorias sociais e não discrmina. Lugar-comum de manifestação humana.

Suarte




Acesse já: http://www.algol.com.br/contempoemidade.html

Assíndeto temporal

Fonte img: compartilhandoasletras.com


(Assíndeto – figura de palavra que elimina a conjunção coordenativa das orações)

Meu coração quer cantar,
Avisou, canta, parará.
Não me preocupo com silêncio
Escureceu, mergulha, despertará.

É um todo que marca minha personalidade
Tão confusa e confiscada que         Perdi, acho, encontrarei.

Minha pobre identidade poética
Afundou, levanta, voará.
Faz-se vida independente  
Nasceu, cresce, morrerá.

Não me perco nas ideias desconexas
Nem suplico compreensão              Fui, estou, voltarei.

Mergulho sóbrio em meu ego
Preparou, atira, afogará
Afogo-se em medos e molhos
Sussurrou, grita, silenciará

A verdade e qualidade poética
Quem aqui pode julgar?             Votei, arrependo, anularei.



Ari Mascarenhas

O contracheque ( nanoconto)

Assim que cheguei ao escritório, abri o contracheque que adormecera sobre a mesa.
O auto-salário e a lista de benefícios intermináveis prenderam minha respiração; um frio percorreu minhas pernas até alcançar minha espinha e me deixar assombrado.
Antes de pedir para que alguém desligasse o ar condicionado, resolvi deixar de bisbilhotar a vida financeira de meu chefe.


Ari Mascarenhas

Canções sem palavras



                                  à pianista Sônia Rubinsky




Soa, Soa Lua Nova

Tercetos vivos,

Velados e regados em círculos finos,

Em souvenires prateados. 


Soa somente essa canção, sinais.

Sempre acesa e avessa às sedas,

palavras sem cantis.


Eis a peça quatro notas,

em sonolenta adolescência resisti.

Seus soares são vozes

zunindo em nosso passado.



Soa Lua nova

tão bela quanto era cheia

de ilusões em Lobos Neves.

Quase inclinasse açudes,

sensações cancionadas,

no deslize de seus dedos,

nessas Canções sem Palavras.



Heresias minhas tais notas

anotadas nessa cesta.

Poesia desse servo impulso.

Eis pessoas que detestam.



Soa Villa-Lobos nesse bis "exaltado",

em nossos aplausos senis.



Soa Sônia em novenas renovadas.





Ari Mascarenhas

Queria escrever somente

Não sei ao certo o que desejo com isso. Talvez apenas expressar. Um ímpeto guardado dentro da alma que pedi pra saltar e gravar-se no papel, na tela do computador, nas palavras. A grafia que registra os instantes. O meu instante.
Pois bem, mas o que exatamente esse impulso me força a dizer? Uma manifestação de repúdio aos fatos políticos atuais? Mais uma daquelas repetidas reclamações contra a excessiva exposição do carnaval que se repete anualmente? Um comentário banal sobre o futebol que de tão exposto na mídia acaba por se tornar cada vez mais banal? Ou alguma mensagem positiva que sugira a  mesmice como um lugar seguro e tranquilo em nossa busca incessante de não fazer nada?
Poderia expor também minha eterna discussão sobre o biografismo, se é que alguém vai ler isso, e assinar no fim como Luis Fernando Veríssimo. Isso garantiria os leitores que ignorariam os textos e o transformaria em um texto viral (termo da moda) nas redes sociais, e-mails e correntes. A exposição estaria garantida, mas não supriria o meu desejo de escrever somente. No fundo não é isso que eu esperava. Era só escrever e ignorar as muitas vozes que ficam em minha mente ditando o texto, citando minhas leituras, implorando pelas correções e enchendo meu saco.
Quero ignorar as vozes, os ruídos, os sussurros.
Não quero falar dos assuntos da mídia, nem das novidades da internet, nem dos assuntos que estão “bombando” nas redes sociais, enfim, não quero me preocupar com aquilo que acontece aos outros e tampouco ao que me acontece. Sem o direito de me defender ou acusar. Não quero desistir e nem lutar, talvez deixe aos meus inimigos aquele gostinho de vitória, já que quase nunca me viram calado, ou tão inerte como aparentemente estou. Casualidades glaucas é o que na verdade minha mente deseja agora. Essa calmaria esmeraldina que alguns chamam de morte.
Não, não quero morrer. É apenas uma metáfora, claro. É a morte das experiências, das sensações racionalizadas, das crenças, da utopia. Isso mesmo apenas da utopia. Quero continuar respirando, afinal, enquanto o coração bater eu estenderei minha trajetória sem aquelas interrupções alarmantes que chocam as famílias e alimentam as estatísticas. Não quero em minha lápide um tempo menor que 50 anos, independente de como se deram esses 50 anos. Meio século de respiração.
Meu lado de humano pergunta: Pra que serve respirar sem suspirar? O ciclo do sangue sem variações provocadas pela emoção? Um batimento contínuo e lento sem as palpitações mais empolgantes? Pra que serve comemorar os dias sem ter nada pra dizer?
E eu que queria escrever somente acabei caindo na auto-ajuda, bah! Agora não posso mais assinar como Luiz Fernando Veríssimo. Não tem humor.
Aproveitando que esse é um ano de eleição, e que ninguém se lembra mais do mal que essa assinatura fez a nossa educação, e que não falarei mal de políticos, e que também pode se tornar viral, e para não perder minha empolgação de viver que está diretamente ligada à crítica ao biografismo, assino como não poderia deixar de assinar.

Fiquem com Deus

Gabriel Chalita. 

PRESENTE


Presente é o vento que afaga,
                          O calor de um abraço,
                                           Uma mão que se estende.


Presente é o pacto do momento,
                     A cor de uma emoção,
                                   Um alguém não ausente.


Presente é um brilho no olhar,
                 Um beijo na face,
                 Um impulso contente.


Presente é o agora vivido,
              É o ser e o estar,
                                      Um carinho, simplesmente.



Ari Mascarenhas

Almas Pungentes Suaves

Produto final da oficina literária Arapoty – Proposta: Criar um texto que fale da experiência com a Oficina Literária nos encontros desse ano.





Almas Pungentes Suaves

Nos domingos missionários
Onde diálogo se fez tesouro, Vi...

... as estepes moçambicanas nas crias de Mia
... as trincheiras angolanas no manifesto Pepetela
...a ginga e a esquiva da picardia antoniana em ruas paulistanas
...a infantaria  guineense nas tradições de Helder Proença
...as lívidas poeiras na morna Évora e no canto claridoso

                           Nadei...
... nas lágrimas lusitanas da saudade no Porto – Naú de Ícaro

                  Sorri...
Com a tragicomédia shakespeariana remontada na ariana compadecida


Tudo escrito em tintas mentais
Numa baluma de aço proposta
Por Menard nas ficções de Borges

E vividas na arte regional
Dos itapoetas, de Cássio e de uma Trindade Laica.

“Mais que domingos literários lidos
Sinto hoje uma riqueza  e uma miséria.
Sou rico na experiência desse convívio
E pobre nos domingos do porvir.
Como um órfão em despedida, até o término do ano.

Mas levo no coração as lições destas manhãs...
Frias, ensolaradas, chuvosas e domingas.
Manhãs com amigos nesta irmandade poética que se fez maquete
De nossa mestre  e sonhada utopia.

A literatura é laço
Une e urge versos livres e rimas
Neste invólucro final de nossa oficina.

Manhãs sem rotina
Num compromisso épico de heróis serranos
Da pedra lisa histórica
Almas pungentes nessa poesia.

Ari Mascarenhas - 

Encerramento da Oficina Literária

Caros Amigos

Gostaria de agradecer a todos que participaram e contribuiram com a oficina literária do Instituto Arapoty 2011.
No ultimo domingo, estivemos reunidos na sede do Arapoty para a entrega dos certificados e a cerimônia de encerramento que contou com a apresentação do Arapoturma, dos poetas do Itapoesia e com uma presença marcante da família Arapoty.
Em 2012 vamos preparar uma oficina mais atuante e talvez aos sábados para que todos possam participar.

Agradeço imensamente ao Kaká Werá e a Elaine pelo apoio e por nos conceder o espaço. Mas como não poderia ser diferente, gostaria de fazer um agradecimento especial aos alunos da oficina, com os quais pude contar nas manhãs de domingo desse segundo semestre, independente das condições climáticas ou dos atrativos que um domingo de manhã possa oferecer. Os heróis dos domingos literários:
Antonio Abrantes Gonçalves 
Benedito Deíta 
Cinthia Lopes Duarte 
Francisco Feitosa
Francisco Urcine de Almeida
Josias Patriolino 
Kôguen Gouveia 
Luiz Eduardo Osse 
Robson da Silva Lopes Lopes 
Rone Santiago 
Rita de Cássia Paola de Souza 
Paulo Henrique Inocente


Muito Obrigado e Feliz 2012, meus amigos.

Ari Mascarenhas e Marcio Callegaro no Bate Papo Beneficente Cinezen - que abordará o mercado editorial dia 26/11

Encontro de 26/11, em prol da Casa Vó Benedita, reunirá às 20h, na Ao Café, Ari Mascarenhas, editor do selo de ficção Mirfak, da Algol Editora, e o escritor Márcio Callegaro

Por André Azenha 

Não são poucos os casos. A pessoa quer publicar sua obra, procura uma gráfica, faz mil exemplares, lança o livro, vende alguns e fica com um grande estoque em casa, encalhado. Por outro lado, há as editoras. Muitos escritores não conseguem ver suas obras literárias publicadas e distribuídas profissionalmente por essas empresas. Com o intuito de elucidar questões referentes ao mercado editorial, como proceder junto e o que interessa à editora, que o CineZen realizará, em 26 de novembro, um sábado, às 20h, na Ao Café, o “CineZen Mercado Editorial: necessidades das editoras e autores”. O bate-papo contará com a presença de dois profissionais do segmento: Ari Mascarenhas, editor do selo de ficção Mirfak, da Algol Editora, de São Paulo, e Márcio Callegaro, escritor que lançará em breve seu primeiro romance, “Bala com Bala”, distribuído nacionalmente. Ambos responderão perguntas do público.
O encontro é beneficente: pede-se a gentileza da doação de uma lata de Mucilon ou um quilo de alimento não perecível em prol da Casa Vó Benedita, ou um brinquedo em bom estado para a ação Na Trilha do Noel, da Associação Projeto TAMTAM.
Ao Café (www.aocafe.com.br) fica na Avenida Siqueira Campos, 462, no Boqueirão, esquina do Canal 4 com a Rua Doutor Lobo Viana. Durante o evento, serão sorteados livros e vales-locação da Vídeo Paradiso.
Sobre os debatedores:
Ari e Márcio no lançamento da antologia "Contempoemidade", em São Paulo (Foto: L.AUGUSTO)
Ari Mascarenhas: Graduado em Letras (2007), pós-graduado em Estudos Literários (2010) e com Extensão Universitária pela faculdade de Filosofia, Letras e ciências humanas ( FFLCH-USP) em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa (2010). Autor dos livros “Fruto Vermelho” (2008) e “Contempoemidade: Olhares sobre o espaço que nos cerca” (2011), onde atuou também como organizador da coletânea. Professor de Literatura, atualmente ministra o curso de Literaturas de Língua Portuguesa no Instituto Arapoty, faz parte do grupo de poetas de Itapecerica da Serra (Itapoesia). Atua como membro titular do Grupo de estudos de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa  - FFLCH- USP. É editor do selo de ficção, Mirfak, da Algol Editora desde 2008.
Marcio Callegaro nasceu em São Paulo, re eside em Santos desde 1997.  É estudioso de Teoria da Literatura, transita com facilidade entre diferentes gêneros textuais.  Dramaturgo e romancista, possui premiações em música, teatro, roteiro de HQ, fan fiction, contos fantásticos e literatura infanto-juvenil. Participa da antologia “Contempoemidade — olhares sobre o espaço que nos cerca”, pela Algol Editora, com programação de lançamento de seu romance para novembro deste ano. Contato: mrcallegaro@yahoo.com.br.

André Azenha
: Jornalista, crítico de cinema, editor do www.cinezen.net e do CulturalMente Santista (santoscultural.net). É formado em Roteiro pela Escola de Cinema de São Paulo. Foi repórter e colunista de sites, revistas e jornais de São Paulo, Rio de Janeiro, Recife e Alagoas. Desde 2007 é repórter da Veja Litoral Paulista. Em 2008, publicou seu primeiro livro, “Poesia a Quatro Mãos”, escrito em parceria com sua mãe e poetisa Regina Azenha. Trabalhou com o crítico de cinema Rubens Ewald Filho entre 2008 e 2009. Em 2011, fez críticas de filmes para a revista Época São Paulo. No mesmo ano, passou a assinar colunas semanais no portal do Curta Santos e no Jornal da Orla. Mediou o ciclo Documentários Comentados, no Sesc Santos. Participa de e organiza ciclos de cinema e eventos culturais. Colabora com a revista literária Mirante e o Clube de Poetas do Litoral. Também é assessor de imprensa: atuou em agências de comunicação de São Paulo de 2008 a 2011. Em 2009, assessorou a Feira Música Brasil, maior evento do gênero na América Latina, ocorrido no Recife. Criou o CineZen em março de 2009 e no ano seguinte passou a organizar do “CineZen Convida”, com o objetivo de estimular a discussão e a produção cultural. Em 2011, lançou o site CulturalMente Santista, que visa criar um registro jornalístico, na internet, da memória cultural de Santos e região. Escreve também no blog pessoal www.andreazenha.com. Contato: editor.cinezencultural@gmail.com e 13 9744-3726.
Sobre a Algol: Editora brasileira que mantém como foco editorial o universo da música erudita (exclusiva no país unicamente neste segmento). Foi fundada em 2006 pelo empresário Heraldo Luiz Marin. A pedra inaugural foi a publicação do  livro/CD “Minhas Pobres Canções”, da soprano Niza de Castro Tank, trazendo a integral das canções de Carlos Gomes. Em 2009, ganhou notoriedade dentro do universo erudito nacional ao adquirir os direitos e promover o Prêmio Carlos Gomes, já na sua 15ª edição. Trata-se de um importante evento que reconhece os maiores nomes da cena clássica contemporânea. Em 2011, com o intuito de avançar no mercado de livros de ficção e poesia criou o selo Mirfak.

Serviço:
1CineZen Mercado Editorial: necessidades das editoras e autores
Quando: Sábado, 26 de novembro, 20h
Onde: Ao Café, Avenida Siqueira Campos, 462, Boqueirão, Santos (telefone: 13 3224-5744
Entrada no evento é franca*
*Pede-se um quilo de alimento ou uma lata de Mucilon para a Casa Vó Benedita
.
Organização:
CineZen: Site independente sobre cinema, DVD e Blu-ray, TV e eventualmente literatura, quadrinhos, teatro, música e artes plásticas, lançado em 29 de março de 2009. Tem o objetivo de informar, analisar obras e cobrir eventos dessas áreas (com atenção para a Baixada Santista) e prestar serviços. Semanalmente publica críticas das estreias de cinema e lançamentos em home vídeo, desde filmes contemporâneos até clássicos e cults, colunas, contos, crônicas, reportagens e vídeos, entre outras novidades. Conta com colaboradores de Santos, São Paulo, Santa Catarina, Recife e em 2010 firmou parceria com a Cinemaki, rede social para a discussão de cinema, com membros do Brasil, Argentina, Chile, México, Colômbia, Peru, Venezuela, Espanha, Índia, Estados Unidos e Reino Unido. Atualmente conta com 56 mil acessos únicos mensais. Pode ser acessado pelos endereços www.cinezen.net ou www.cinezencultural.com.br. Contatos: editor.cinezencultural@gmail.com e 13 9744-3726.
Apoio cultural:
Ao Café: Instalada em uma aconchegante casa, rodeada de muito verde, a Cafeteria Ao Café, inaugurada em maio de 2006, se ressalta não só pelo atendimento personalizado, mas principalmente como um local onde se respira cultura. O cardápio possui 20 tipos de café, entre gelados e quentes. Quem preferir um chazinho, a casa possui 33 opções: nacionais e importados, quentes ou gelados. Foi a primeira cafeteria a trazer para a cidade de Santos as famosas sodas italianas. São oito sabores: destacam-se: amora, cereja e maçã-verde. A cafeteria também oferece cervejas long neck Bohemia Pilsen, Bohemia Escura, e a belga Stella Artois, e sorvetes da marca La Basque. Para acompanhar as bebidas a tentação fica por conta dos bolos e salgados. A programação cultural da casa é eclética e pode ser conferida no site www.aocafe.com.br.
Vídeo Paradiso: Locadora que completou 20 anos de atuação em agosto de 2011, possui um acervo com mais de 17 mil títulos, entre DVDs, Blu-rays e fitas VHS. Tem sido parceira e apoiado projetos culturais da região, como da Cinemateca de Santos, Cineclube Lanterna Mágica, Oficinas Querô, cujos curtas são disponibilizados para locação gratuita, Sesc, Curta Santos e o CineZen. Mais em www.videoparadiso.com.br.

27 de Setembro - Sobre o Conceito de História - Walter Benjamim



Hoje, 27 de Setembro 2011 , de acordo com os registros históricos que se adicionam, somente, coforme descreve o autor abaixo, marca o 71º aniversário do suicídio de Walter Benjamim, que entre os Pirineus, na fronteira entre a França e a Espanha, decidiu por dar cabo a sua existência a se entregar nas mãos dos nazistas que, segundo consta, avançavam. 

Decidi por reproduzir esse texto para que possamos refletir um pouco sobre a questão da experiência e do verdadeiro sentido histórico. Das relações com os fatos e a maneira como o historicismo produz a linha de percepção histórica de maneira estritamente discursiva.
Espero que apreciem esse texto o tanto quanto eu.





Sobre o Conceito de História ( 1940) Walter Benjamim







1
Conhecemos a história de um autômato construído de tal modo que podia responder a cada lance de um jogador de xadrez com um contralance, que lhe assegurava a vitória. Um fantoche vestido à turca, com um narguilé na boca, sentava-se diante do tabuleiro, colocado numa grande mesa. Um sistema de espelhos criava a ilusão de que a mesa era totalmente visível, em todos os seus pormenores. Na realidade, um anão corcunda se escondia nela, um mestre no xadrez, que dirigia com cordéis a mão do fantoche. Podemos imaginar uma contrapartida filosófica desse mecanismo. O fantoche chamado “materialismo histórico” ganhará sempre. Ele pode enfrentar qualquer desafio, desde que tome a seu serviço a teologia. Hoje, ela é reconhecidamente pequena e feia e não ousa mostrar-se.
2
“Entre os atributos mais surpreendentes da alma hu-mana”, diz Lotze, “está, ao lado de tanto egoísmo individual, uma ausência geral de inveja de cada presente com relação a seu futuro”. Essa reflexão conduz-nos a pensar que nossa imagem da felicidade é totalmente marcada pela época que nos foi atribuída pelo curso da nossa existência. A felicidade capaz de suscitar nossa inveja está toda, inteira, no ar que já respiramos, nos homens com os quais poderíamos ter conversado, nas mulheres que poderíamos ter possuído. Em outras palavras, a imagem da felicidade está indissoluvelmente ligada à da salvação. O mesmo ocorre com a imagem do passado, que a história transforma em coisa sua. O passado traz consigo um índice misterioso, que o impele à redenção. Pois não somos tocados por um sopro do ar que foi respirado antes? Não existem, nas vozes que escutamos, ecos de vozes que emudeceram? Não têm as mulheres que cortejamos irmãs que elas não chegaram a conhecer? Se assim é, existe um encontro secreto, marcado entre as gerações precedentes e a nossa. Alguém na terra está à nossa espera. Nesse caso, como a cada geração, foi-nos concedida uma frágil força messiânica para a qual o passado dirige um apelo. Esse apelo não pode ser rejeitado impunemente. O materialista histórico sabe disso.
3
O cronista que narra os acontecimentos, sem distinguir entre os grandes e os pequenos, leva em conta a verdade de que nada do que um dia aconteceu pode ser considerado perdido para a história. Sem dúvida, somente a humanidade redimida poderá apropriar-se totalmente do seu passado. Isso quer dizer: somente para a humanidade redimida o passado é citável, em cada um dos seus momentos. Cada momento vivido transforma-se numa citation à l’ordre du jour — e esse dia é justamente o do juízo final.
4
“Lutai primeiro pela alimentação e pelo vestuário,  
e em seguida o reino de Deus virá por si mesmo".  
Hegel, 1807
A luta de classes, que um historiador educado por Marx jamais perde de vista, é uma luta pelas coisas brutas e ma-teriais, sem as quais não existem as refinadas e espirituais. Mas na luta de classes essas coisas espirituais não podem ser representadas como despojos atribuídos ao vencedor. Elas se manifestam nessa luta sob a forma da confiança, da coragem, do humor, da astúcia, da firmeza, e agem de longe, do fundo dos tempos. Elas questionarão sempre cada vitória dos domi-nadores. Assim como as flores dirigem sua corola para o sol, o passado, graças a um misterioso heliotropismo, tenta dirigir-se para o sol que se levanta no céu da história. O materialismo histórico deve ficar atento a essa transformação, a mais imper-ceptível de todas.
5
A verdadeira imagem do passado perpassa, veloz. O pas-sado só se deixa fixar, como imagem que relampeja irrever-sivelmente, no momento em que é reconhecido. “A verdade nunca nos escapará” — essa frase de Gottfried Keller carac-teriza o ponto exato em que o historicismo se separa do mate-rialismo histórico. Pois irrecuperável é cada imagem do presente que se dirige ao presente, sem que esse presente se sinta visado por ela.
6
Articular historicamente o passado não significa conhecê-lo “como ele de fato foi”. Significa apropriar-se de uma remi-niscência, tal como ela relampeja no momento de um perigo. Cabe ao materialismo histórico fixar uma imagem do passado, como ela se apresenta, no momento do perigo, ao sujeito his-tórico, sem que ele tenha consciência disso. O perigo ameaça tanto a existência da tradição como os que a recebem. Para ambos, o perigo é o mesmo: entregar-se às classes dominantes, como seu instrumento. Em cada época, é preciso arrancar a tradição ao conformismo, que quer apoderar-se dela. Pois o Messias não vem apenas como salvador; ele vem também como o vencedor do Anticristo. O dom de despertar no pas-sado as centelhas da esperança é privilégio exclusivo do histo-riador convencido de que também os mortos não estarão em segurança se o inimigo vencer. E esse inimigo não tem cessado de vencer.



7
“Pensa na escuridão e no grande frio   Que reinam nesse vale, onde soam lamentos.” 
Brecht, Ópera dos três vinténs
Fustel de Coulanges recomenda ao historiador interessado em ressuscitar uma época que esqueça tudo o que sabe sobre fases posteriores da história. Impossível caracterizar melhor o método com o qual rompeu o materialismo histórico. Esse método é o da empatia. Sua origem é a inércia do coração, a acedia, que desespera de apropriar-se da verdadeira imagem histórica, em seu relampejar fugaz. Para os teólogos medievais, a acedia era o primeiro fundamento da tris-teza. Flaubert, que a conhecia, escreveu: “Peu de gens devi-neront combien il a fallu être triste pour ressusciter Carthage”. A natureza dessa tristeza se tomará mais clara se nos perguntarmos com quem o investigador historicista estabelece uma relação de empatia. A resposta é inequívoca: com o ven-cedor. Ora, os que num momento dado dominam são os herdeiros de todos os que venceram antes. A empatia com o vencedor beneficia sempre, portanto, esses dominadores. Isso diz tudo para o materialista histórico. Todos os que até hoje venceram participam do cortejo triunfal, em que os dominadores de hoje espezinham os corpos dos que estão prostrados no chão. Os despojos são carregados no cortejo, como de praxe. Esses despojos são o que chamamos bens culturais. O materialista histórico os contempla com distanciamento. Pois todos os bens culturais que ele vê têm uma origem sobre a qual ele não pode refletir sem horror. Devem sua existência não somente ao esforço dos grandes gênios que os criaram, como à corvéia anônima dos seus contemporâneos. Nunca houve um monumento da cultura que não fosse também um monumento da barbárie. E, assim como a cultura não é isenta de barbárie, não o é, tampouco, o processo de transmissão da cultura. Por isso, na medida do possível, o materialista histórico se desvia dela. Considera sua tarefa escovar a história a contrapelo.

8
A tradição dos oprimidos nos ensina que o “estado de exceção” em que vivemos é na verdade a regra geral. Preci-samos construir um conceito de história que corresponda a essa verdade. Nesse momento, perceberemos que nossa tarefa é originar um verdadeiro estado de exceção; com isso, nossa posição ficará mais forte na luta contra o fascismo. Este se beneficia da circunstância de que seus adversários o enfren-tam em nome do progresso, considerado como uma norma histórica. O assombro com o fato de que os episódios que vivemos no séculos XX “ainda” sejam possíveis, não é um assombro filosófico. Ele não gera nenhum conhecimento, a não ser o conhecimento de que a concepção de história da qual emana semelhante assombro é insustentável.

9
“Minhas asas estão prontas para o vôo, Se pudesse, eu retrocederia Pois eu seria menos feliz Se permanecesse imerso no tempo vivo." 
Gerhard Scholem, Saudação do anjo
Há um quadro de Klee que se chama Angelus Novus. Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas. O anjo da história deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivel-mente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos progresso.


10
Os temas que as regras do claustro impunham à medi-tação dos monges tinham como função desviá-los do mundo e das suas pompas. Nossas reflexões partem de uma preocu-pação semelhante. Neste momento, em que os políticos nos quais os adversários do fascismo tinham depositado as suas esperanças jazem por terra e agravam sua derrota com a trai-ção à sua própria causa, temos que arrancar a política das malhas do mundo profano, em que ela havia sido enredado por aqueles traidores. Nosso ponto de partida é a idéia de que a obtusa fé no progresso desses políticos, sua confiança no “apoio das massas” e, finalmente, sua subordinação servil a um aparelho incontrolável são três aspectos da mesma reali-dade. Estas reflexões tentam mostrar como é alto o preço que nossos hábitos mentais têm que pagar quando nos associamos a uma concepção da história que recusa toda cumplicidade com aquela à qual continuam aderindo esses políticos.

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O conformismo, que sempre esteve em seu elemento na social-democracia, não condiciona apenas suas táticas polí-ticas, mas também suas idéias econômicas. E uma das causas do seu colapso posterior. Nada foi mais corruptor para a clas-se operária alemã que a opinião de que ela nadava com a corrente. O desenvolvimento técnico era visto como o declive da corrente, na qual ela supunha estar nadando. Daí só havia um passo para crer que o trabalho industrial, que aparecia sob os traços do progresso técnico, representava uma grande conquista política. A antiga moral protestante do trabalho, secularizada, festejava uma ressurreição na classe trabalha-dora alemã. O Programa de Gotha já continha elementos dessa confusão. Nele, o trabalho é definido como “a fonte de toda riqueza e de toda civilização”. Pressentindo o pior, Marx replicou que o homem que não possui outra propriedade que a sua força de trabalho está condenado a ser “o escravo de outros homens, que se tornaram... proprietários”. Apesar disso, a confusão continuou a propagar-se, e pouco depois Josef Dietzgen anunciava: “O trabalho é o Redentor dos tempos modernos... No aperfeiçoamento... do trabalho reside a riqueza, que agora pode realizar o que não foi realizado por nenhum salvador”. Esse conceito de trabalho, típico do mar-xismo vulgar, não examina a questão de como seus produtos podem beneficiar trabalhadores que deles não dispõem. Seu interesse se dirige apenas aos progressos na dominação da natureza, e não aos retrocessos na organização da sociedade. Já estão visíveis, nessa concepção, os traços tecnocráticos que mais tarde vão aflorar no fascismo. Entre eles, figura uma concepção da natureza que contrasta sinistramente com as utopias socialistas anteriores a março de 1848. O trabalho, como agora compreendido, visa uma exploração da natureza, comparada, com ingênua complacência, à exploração do pro-letariado. Ao lado dessa concepção positivista, as fantasias de um Fourier, tão ridicularizadas, revelam-se surpreendentemente razoáveis. Segundo Fourier, o trabalho social bem organizado teria entre seus efeitos que quatro luas ilumina-riam a noite, que o gelo se retiraria dos pólos, que a água marinha deixaria de ser salgada e que os animais predatórios entrariam a serviço do homem. Essas fantasias ilustram um tipo de trabalho que, longe de explorar a natureza, libera as criações que dormem, como virtualidades, em seu ventre. Ao conceito corrompido de trabalho corresponde o conceito com-plementar de uma natureza, que segundo Dietzgen, “está ali, grátis”.

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“Precisamos da história, mas não como precisam dela  os ociosos que passeiam no jardim da ciência.” 
Nietzsche, Vantagens e desvantagens da história para a vida
O sujeito do conhecimento histórico é a própria classe combatente e oprimida. Em Marx, ela aparece como a última classe escravizada, como a classe vingadora que consuma a tarefa de libertação em nome das gerações de derrotados. Essa consciência, reativada durante algum tempo no movimento espartaquista, foi sempre inaceitável para a social-democracia. Em três decênios, ela quase conseguiu extinguir o nome de Blanqui, cujo eco abalara o século passado. Preferiu atribuir à classe operária o papel de salvar gerações futuras. Com isso, ela a privou das suas melhores forças. A classe operária desa-prendeu nessa escola tanto o ódio como o espírito de sacrifício. Porque um e outro se alimentam da imagem dos ante-passados escravizados, e não dos descendentes liberados.

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“Nossa causa está cada dia mais clara e o povo cada dia mais esclarecido.” 
Josef Dietzgen, Filosofia social-democrata
A teoria e, mais ainda, a prática da social-democracia foram determinadas por um conceito dogmático de progresso sem qualquer vínculo com a realidade. Segundo os social-democratas, o progresso era, em primeiro lugar, um progresso da humanidade em si, e não das suas capacidades e conheci-mentos. Em segundo lugar, era um processo sem limites, idéia correspondente à da perfectibilidade infinita do gênero hu-mano. Em terceiro lugar, era um processo essencialmente automático, percorrendo, irresistível, uma trajetória em fle-cha ou em espiral. Cada um desses atributos é controvertido e poderia ser criticado. Mas, para ser rigorosa, a crítica precisa ir além deles e concentrar-se no que lhes é comum. A idéia de um progresso da humanidade na história é inseparável da idéia de sua marcha no interior de um tempo vazio e homo-gêneo. A crítica da idéia do progresso tem como pressuposto a crítica da idéia dessa marcha.

14
“A Origem é o Alvo.” 
Karl Kraus, Palavras em verso
A história é objeto de uma construção cujo lugar não é o tempo homogêneo e vazio, mas um tempo saturado de “ago-ras”. Assim, a Roma antiga era para Robespierre um passado carregado de “agoras”, que ele fez explodir do continuum da história. A Revolução Francesa se via como uma Roma res-surreta. Ela citava a Roma antiga como a moda cita um ves-tuário antigo. A moda tem um faro para o atual, onde quer que ele esteja na folhagem do antigamente. Ela é um salto de tigre em direção ao passado. Somente, ele se dá numa arena comandada pela classe dominante. O mesmo salto, sob o livre céu da história, é o salto dialético da Revolução, como o con-cebeu Marx.

15
A consciência de fazer explodir o continuum da história é própria às classes revolucionárias no momento da ação. A Grande Revolução introduziu um novo calendário. O dia com o qual começa um novo calendário funciona como um acele-rador histórico. No fundo, é o mesmo dia que retorna sempre sob a forma dos dias feriados, que são os dias da reminiscên-cia. Assim, os calendários não marcam o tempo do mesmo modo que os relógios. Eles são monumentos de uma cons-ciência histórica da qual não parece mais haver na Europa, há cem anos, o mínimo vestígio. A Revolução de julho registrou ainda um incidente em que essa consciência se manifestou. Terminado o primeiro dia de combate, verificou-se que em vários bairros de Paris, independentes uns dos outros e na mesma hora, foram disparados tiros contra os relógios locali-zados nas torres. Uma testemunha ocular, que talvez deva à rima a sua intuição profética, escreveu:
“Qui le croirait! on dit qu’irrités contre l’heure De nouveaux Josués, au pied de chaque tour, 
Tiraient sur les cadrans pour arrêter le jour.”

16
O materialista histórico não pode renunciar ao conceito de um presente que não é transição, mas pára no tempo e se imobiliza. Porque esse conceito define exatamente aquele presente em que ele mesmo escreve a história. O historicista apresenta a imagem “eterna” do passado, o materialista histórico faz desse passado uma experiência única. Ele deixa a outros a tarefa de se esgotar no bordel do historicismo, com a meretriz “era uma vez”. Ele fica senhor das suas forças, suficientemente viril para fazer saltar pelos ares o continuum da história.

17
O historicismo culmina legitimamente na história uni-versal. Em seu método, a historiografia materialista se dis-tancia dela talvez mais radicalmente que de qualquer outra. A história universal não tem qualquer armação teórica. Seu pro-cedimento é aditivo. Ela utiliza a massa dos fatos, para com eles preencher o tempo homogêneo e vazio. Ao contrário, a historiografia marxista tem em sua base um princípio cons-trutivo. Pensar não inclui apenas o movimento das idéias, mas também sua imobilização. Quando o pensamento pára, bruscamente, numa configuração saturada de tensões, ele lhes comunica um choque, através do qual essa configuração se cristaliza enquanto mônada. O materialista histórico só se aproxima de um objeto histórico quando o confronta en-quanto mônada. Nessa estrutura, ele reconhece o sinal de uma imobilização messiânica dos acontecimentos, ou, dito de outro modo, de uma oportunidade revolucionária de lutar por um passado oprimido. Ele aproveita essa oportunidade para extrair uma época determinada do curso homogêneo da his-tória; do mesmo modo, ele extrai da época uma vida deter-minada e, da obra composta durante essa vida, uma obra determinada. Seu método resulta em que na obra o conjunto da obra, no conjunto da obra a época e na época a totalidade do processo histórico são preservados e transcendidos. O fruto nutritivo do que é compreendido historicamente contém em seu interior o tempo, como sementes preciosas, mas insípidas.

18
“Comparados com a história da vida orgânica na Terra”, diz um biólogo contemporâneo, “os míseros 50 000 anos do Homo sapiens representam algo como dois segundos ao fim de um dia de 24 horas, Por essa escala, toda a história da huma-nidade civilizada preencheria um quinto do último segundo da última hora.” O “agora”, que como modelo do messiânico abrevia num resumo incomensurável a história de toda a humanidade, coincide rigorosamente com o lugar ocupado no universo pela história humana. 


Apêndice
1
O historicismo se contenta em estabelecer um nexo cau-sal entre vários momentos da história. Mas nenhum fato, meramente por ser causa, é só por isso um fato histórico. Ele se transforma em fato histórico postumamente, graças a acon-tecimentos que podem estar dele separados por milênios. O historiador consciente disso renuncia a desfiar entre os dedos os acontecimentos, como as contas de um rosário. Ele capta a configuração, em que sua própria época entrou em contato com uma época anterior, perfeitamente determinada. Com isso, ele funda um conceito do presente como um “agora” no qual se infiltraram estilhaços do messiânico.

2
Certamente, os adivinhos que interrogavam o tempo para saber o que ele ocultava em seu seio não o experimentavam nem como vazio nem como homogêneo. Quem tem em mente esse fato, poderá talvez ter uma idéia de como o tempo pas-sado é vivido na rememoração: nem como vazio, nem como homogêneo. Sabe-se que era proibido aos judeus investigar o futuro. Ao contrário, a Torá e a prece se ensinam na reme-moração. Para os discípulos, a rememoração desencantava o futuro, ao qual sucumbiam os que interrogavam os adivinhos. Mas nem por isso o futuro se converteu para os judeus num tempo homogêneo e vazio. Pois nele cada segundo era a porta estreita pela qual podia penetrar o Messias.




Tradução de Sérgio Paulo Rouanet

Ensaio obtido em Walter Benjamin -– Obras escolhidas. Vol. 1. Magia e técnica, arte e política. Ensaios sobre literatura e história da cultura. Prefácio de Jeanne Marie Gagnebin. São Paulo: Brasiliense, 1987, p. 222-232.