Agora Jazz!


Agora Jazz!

Beijo do ar em minha face roxa
Estremece-me os lábios sem vida
Enrugando-me as digitais

Ora coração! Que fora sempre tão forte
Agora jaz! 

Não importa o motivo
Se for bala, atropelo ou suicídio,
Se confronto sério ou faíscas banais.

Esse coração que um dia foi norte
Agora jazz!


Tantas vezes pediu silêncio para ouvi-lo
E atenção alguma lhe dispensei.
Tempos que jamais serão iguais

Oh coração! Que outrora impávido e rijo,
Agora jazz! 

Em certos beijos lhe doei
Como prova de um amor incerto.
Feito bibelô de povos ancestrais


Fiz-te isso a um coração de grande porte
E agora jazzzz! 

Hoje gritas em meus olhos,
Pulsa, cospe, sangra a boca.
Remitências, convulsões gerais

És tu coração! Que há pouco tão suficiente
Agora jazzzzz! 

Posto novas notas de confronto
Inconclusas como sonhos
E em meus projetos pessoais

Vives tu coração! Que na palma perdes a vida.
Agora jazzzzzz!
  

Kyle Eastwood, Nat King Cole,
Amstrong, Scatman John.
Elza Soares, Ed Motta, sons vivos n´alma.

Oh nobre coração! Seu ultimo gemido é um grito alucinante
De Mimi Perrin e Winehouse
Agora Jazzzzzzz!



Ari Mascarenhas

A morte tem algo a dizer...




Diante de mais um romance que venceu a barreira dos 100 mil livros vendidos no Brasil pesava-me o histórico das experiências ruins que tive ao ler esse tipo de objeto literário: Livro Comercial.

Sozinho, confesso, jamais atravessaria esse paradigma e permitiria dar ouvidos a uma narradora tão excêntrica e soturna. Precisei do empenho e incentivo de minha namorada para começar. Propus uma leitura em dupla. Juntos avançamos página por página no romance e, à medida que conhecia a vida de Liesel, Max e Hans permiti que a Morte me envolvesse em seu relato e me peguei, não sei exatamente quando, interessado no desenvolvimento da narrativa, ainda com algumas reservas, sobretudo na verborragia da narradora que, de maneira redundante, ganhava tempo e criava uma maior expectativa no leitor. As barreiras foram caindo com o gênero misto, narração e dissertação, desenhando uma linha excitante de expectativa e emoção.

O enredo, sem dúvida nenhuma, é muito interessante, mas poderia se perder facilmente se o autor não contasse com suas notas centralizadas cuja função é restabelecer as ideias de quem narra. Além disso, as tais notas, aumentam a cumplicidade do leitor com a tragédia exposta de um ponto de vista inovador. Ou seja, são muitos os relatos sobre o Holocausto do ponto de vista dos judeus, militares alemães, artistas e até empresários (ver A Lista de Schindler), mas em A menina que Roubava livros, observamos a barbárie do ponto de vista da morte, agindo como testemunha de uma das maiores tragédias da humanidade.

Só o fato de a morte ser a narradora já é inovador, mas as novidades que o livro traz não param por aí. Há também, e para mim o mais importante fator, o objeto da história que aqui, diferentemente dos clássicos romances escritos sobre o nazismo, estabelece seu foco na percepção da guerra sobre o ponto de vista de um bairro pobre, poder-se-á dizer após a leitura, miserável da Alemanha hitlerista.  São os pobres que definham em dias frios e tensos, à espera de uma morte anunciada e alimentados por uma alienação quase sacra.

A história de Liesel é amarrada aos livros que lhe acompanham na vida. Alinhada também as suas experiências como leitora para si e para outros. A palavra que a resgata de sua realidade e quase sempre servem para contornar os desenhos solitários de suas dores expressas na memória de seu irmão, na perda de pessoas queridas e no presente nazista que lhe censura até os mais íntimos desejos de gritar contra seus verdadeiros inimigos.

Confesso que esse livro foi uma deliciosa surpresa, atingindo-me em cheio nos momentos em que o martírio dos judeus é narrado ou subtendido nas expressões caiadas dos alemães que mal tinham o que comer.  A morte, fria e impessoal quase sempre, não toma partido das causas, mas atribui todo o trabalho que a mesma tem durante o livro aos humanos “assustadores”, como ela mesma classifica, em uma reflexão curiosa como tantas outras dispensadas no texto: Não é da morte que devemos temer, ela só cumpre ordens.

O final, que eu já especulava como óbvio no decorrer do romance, foi a surpresa mais marcante de toda a história. Nada que revelarei agora, mas que determinou a característica social do romance. Permitindo-me concluir da seguinte maneira a cerca dos personagens: Os heróis são heróis pelo que fazem no dia-dia e não por um ato ou um evento esporádico.

A emoção com o desfecho é inevitável, mas o livro vale muito mais que algumas lágrimas na quadringentésima página. Trata-se de uma experiência táctil com as mazelas humanas repreendidas ironicamente por uma ignóbil figura, ignorada e desprezada quando seus diálogos se firmam em outros. A conversa com a morte é outra nota memorável de Liesel Meminger.

Marx e eu fomos ao museu (crônica diligente)



Durante a visita que fizemos à Avenida Paulista, Marx e eu, em decorrência da exposição “o moderno da coleção Itaú visita o MASP”, questionei-me, ao apreciar um quadro de Segall, sobre a forma como a arte moderna ganhou espaço na elite brasileira representando, em sua maioria, as vociferações da massa ascendente dos subúrbios e da zona rural. Esta reflexão acentuou-se dada trajetória do modernismo, de sua idealização até a semana da arte moderna, sobre os lares, bares e jardins da burguesia paulistana.
Por alguns instantes, ao contemplar a obra Soltando balão do pintor Ítalo-brasileiro Fúlvio Pennacchi (1946), refleti sobre o sucesso do modernismo sem essa matéria-prima, que oferecemos em abundancia, chamada cultura popular. Seria Possível? Por mais que os modelos vanguardistas apresentassem essa fórmula pronta para o sucesso (uma vez que a elite brasileira louvava tudo o que se considerava arte na Europa) chego a duvidar da grandeza comercial do modernismo com a ausência do pensamento antropofágico, écloga e patriota.
Naquele momento, ainda dentro do MASP imaginei as brilhantes mentes burguesas trabalhando sem o produto popular a fim de oferecer a elite só o que a elite tem e juntos morrerem de fastio e depressão. Ainda que este produto fosse importado, a mesmice atravessaria o oceano e restariam apenas os frios metais do café que coriscavam as boetas niqueladas dos barões capitalistas. 
Dias depois fomos à casa de Segall, que hoje graças a seus filhos tornou-se um importante museu da capital. Lá, deparei-me com detalhes de seu ateliê, das dependências de sua luxuosa moradia e com um quadro que me chamou bastante atenção, dada a aparente experiência biográfica do artista na epiderme da pintura. O quadro se chama Navio de emigrantes. Nesta obra, o artista, faz uma coletânea de sua vivência nas inúmeras viagens que fez durante sua vida itinerante pelo mundo.
O retrato não expõe as paisagens, as belas instalações das embarcações, ou ainda, os portos cheio de gente com bandeirinhas nas mãos; o quadro representa aquilo que nos é de mais atual, a maneira precária como a espécie humana é transportada em alguns lugares, e o que difere o bom do mau transporte.
Estou certo que poucos da elite burguesa atual sabem da verossimilhança deste quadro com a realidade urbana brasileira. O Navio de emigrantes, o caos que os pobres, ou melhor, emergentes de acordo com a política americana para o século XXI, sofrem naquilo que o sistema chama de “transporte público”.
Toda a minha reflexão que se iniciou diante do quadro Soltando Balão, que exibe a festividade popular, passou pela trágica condição que o sistema impõe aos verdadeiros vetores da economia emergente e chegou à conclusão que responde a questão inicial.
As fotos de B.J.Duarte são espelhos do espaço urbano que em breve estaria completamente modificado, em alguns momentos para atender a demanda, mas na maioria das vezes para mascarar a diferença social crescente em nosso país. Essas fotos serviram-me para concluir meu pensamento sobre o eixo horizontal que ascende do marco zero cartesiano criado para compreender o modernismo com a participação do povo e o modernismo sem a participação popular.
Mario de Andrade, Tarsila, Oswald, Cavalcanti e tantos outros expuseram o Brasil para que o Brasil pode-se ver. Ou seja, apenas as técnicas, a proposta revolucionária, o bom exemplo das vanguardas e o apoio dos separatistas não bastariam para eternizar a estética moderna. Este movimento nos ensinou que o moderno é fundamentado em uma fórmula antiga, que antecede os conceitos de república, capitalismo e lutas sociais; a posologia que levou o modernismo ao sucesso esta embasada nos conceitos humanistas que a burguesia, por conta de sua preocupação em enriquecer, precisa buscar na simplicidade do proletariado. 
De volta à Rebouças, Marx me deixou escorregar sozinho para o silêncio de meus sonhos e babas na janela do coletivo.


Ari Mascarenhas

Feriado


Aflito por um bom feriado
Fiz-me plateia em ato,
Para observar  o movimento das vidas
Revelando o dia.

O metrô dispara
As luzes explodem
Em faíscas efêmeras,
Supernovas alucinadas,
E o túnel se foi. 

Sentado no veludo
De uma poltrona coletiva
As estrelas piscam
Lanternas de carros, atônitos,
Parados, contrariando sua própria natureza.
Que lhe pede pra rodar.

No plano fundo um breu
De um negrume brilhante
Um pano escuro com pérolas coladas
 São neons, mercúrios, vagalumes em iluminações mortas.
Tortas, casebres  de madeira pingentes no morro,
No vale limpo, os sobrados burgueses despejam suas sujeiras,
Avenidas pintadas
Brasas de cigarros escoradas em muros pichados,
A queimar, queimar, queimar e se despedir,
Num adeus silencioso a quem vê e a quem fuma.

Antenas, sirenes, Santíssima Trindade no topo da catedral.
Luzes azuis de televisores despejam das janelas seus horrores,
Suas mesmices, seu reluzir alienante...
Sorrisos sem brilho, sem sentido;
Amorfos em bocas vazias que há dias não sabem o que é mastigar.
Hospitais lotados de vivos e mortos, de sangues coagulados num recuo inesperado
Para quem sempre fora pra frente.

O capão chegou
E o tampão de minha cabeça dói,
Por suportar tantas lágrimas
Dispensadas num papel qualquer, em tinta fresca
Nesse feriado que a aflição consome.

Não existem férias para a miséria,
Todo o dia é dia de sentir fome, frio, medo...
Nesse casamento com a desgraça até a que a morte os separe!

Desejo o que a profecia não previu,
A filosofia não entendeu,
Desejos próprios,
Sonhos meus.
Exprimíveis somente nas babas de minha poesia,
O ácido, o seco, o cal, o vento...
Meu gozo jorrado neste cimento,
Que sela minha gaveta fúnebre
Recheada deste defunto que a estética burguesa assassinou,
Sem história, sem devir...
Este corpo incolor, enferrujado,
Essa decomposição que o “capetalismo” globalizou.
Corpo em putrefação,
Corpo pela massa que amou, rejeitado.
De segunda a segunda, aflito por um bom
Feriado.




Ari Mascarenhas

 

Morená – Peça fala sobre a origem do mundo no Embu das Artes – Entrada Franca – dias 08 e 09 de dezembro.



O Teatro Popular Solano Trindade recebe, dias 8 e 9 de dezembro, a peça teatral “Morená”, espetáculo apresentado pelo grupo de teatro do Ponto de Cultura Arapoty Cultural que fala sobre a origem do ser humano contada a partir de uma cosmovisão Kamaiura.
A peça se passa com o avô Vento contando para sua neta Brisa a história do romance entre uma lagoa ancestral e o Sol, que teria dado origem à vida do ser humano na terra. Mavutsinim, o espírito do Sol, encanta-se com a beleza de Morená, uma entidade mítica formada a partir da fusão da alma de uma deusa estelar com a de uma lagoa. Apaixonado, ele se transforma no primeiro homem, e faz dela uma mulher, tornando-se o primeiro casal humano na terra.
No entanto Morená acaba atraindo a inimizade de Kanassan, um espírito sombrio que governava a penumbra e a noite ancestral.  A partir daí nasce uma rivalidade entre eles e muitas aventuras ocorrem, envolvendo os pássaros, os espíritos sombrios, o vento, as águas.  Toda a natureza se une para trazer o dia para o mundo e libertar Morená do jugo de Kanassan. Após uma grande batalha formam-se diversas nascentes e rios, inclusive o Xingú.
De uma forma lúdica e romanceada, fenômenos da natureza vão se personificando e levando o público a refletir sobre a formação deste mundo e a necessidade de preservá-lo.
O texto é de Kaká Werá, escritor e ambientalista de origem indígena tapuia. O elenco é formado por um grupo de jovens e adolescentes de Itapecerica da Serra, que estão concluindo uma formação de três anos como Agentes Culturais, curso que envolveu os temas Matrizes Indígenas Brasileiras, Matrizes Africanas, Teatro, Narração de Histórias, Música e Artesanato.
Morená tem direção de Tatiana Zalla, trilha sonora de Leandro Pfeifer e Cia Deodara,   iluminação de Fran Barros, coreografia de Fletir Cia de Dança, com participação especial da bailarina Thais Gimenez, Produção de Elaine Saron. Conta, ainda, com a colaboração de André Dib no registro fotográfico.


Ficha Técnica:
Texto: Kaká Werá
Direção: Tatiana Zalla
Trilha Sonora: Leandro Pfeifer e Grupo Deodara
Iluminação: Fran Barros
Cenário: Elaine Saron e Stephanie Dias
Figurino: Sawara, Ana Maria Carvalho e Mariana Acioli
Maquilagem: Stephanie Dias
Produção: Elaine Saron
Assist de Produção: Stephanie Dias e Gabriel Franco
Designer Gráfico: Iago Sartini
Coreografias: Fletir Cia de Dança
Elenco: Arapoturma: Anna Raquel, Amanda Felix, Ari Mascarenhas,  Cinthia Mascarenhas, Gabriel Franco, Flavia Rodrigues, Luiza Rodrigues, Mannoela Silva,  Marlon Ricardo , Victor Andrade, Sawara
Músicos: Leandro Pfeifer, Elias Costa, Jessica Evangelista, Wellington Bernardo, Wesley Bernardo, Wesley Christian
Bailarina Convidada: Thais Gimenez
Fotógrafo: André Dib
Assessoria de Imprensa: Marlene Franco

SERVIÇO: “Morená”
Local: Teatro Popular Solano Trindade (Rua Santa Tereza, 30 – Embu das Artes)
Data: sábado 08 /12 às 15hs e 19hs e domingo 08/12 às 14hs e 16:30hs
Ingressos gratuitos
Recomendado para todas as idades
Mais informações:
INSTITUTO ARAPOTY – (11) 4165 4499 – cultura.arapoty@gmail.com
Rua Victor Manzine, 20 – Centro – Itapecerica da Serra – SP
* Texto – Assessoria de Imprensa

Internato Feminino - Peça aborda as pressões internas e externas da ditadura militar.


Toda vez que vejo uma notícia, livro ou peça cujo tema é a ditadura militar, insistentes rememorações do nazismo brasileiro (referencia direta aos instrumentos repressivos deste tempo), sinto que algo falta. E o que me provoca a pensar assim é o fato de ver a sociedade se movimentando contra a tendência, mais uma vez amparada por opiniões  burguesas, em transformar os atos macabros desse período em lenda. A quem isso interessa? É fácil saber. Transformar a tragédia da pseudo-revolução de 64 em historinhas da carochinha só interessa aos mesmos que apoiaram o regime e depois foram contra ele. Os imperialistas.


Fico receoso de dizer que o governo americano apoiou o golpe militar no Brasil e em todos os países latinos americanos que sofreram a barbárie, porque na verdade eles foram os “pais” do golpe e não apenas incentivadores.
Nossa revolta contra os militares brasileiros que festejam a “revolução de 1º de Abril” (porque 31 de março é uma data muito especial, sobretudo para mim, a ponto de ser manchada dessa forma, então, datemos de maneira correta), é algo tão parcial, tão superficial e tão nosso que causa certa repulsa. Não podemos esquecer-nos dos militares e das vítimas, devemos lutar para que tudo se esclareça, mas o que me incomoda é que não existe nenhum movimento de aversão aos americanos que por duas vezes apoiaram regimes ditatoriais no país e ainda são consagrados como heróis – NOSSOS HERÓIS.
Não se trata de xenofobia, é apenas uma constatação. É história!
No ultimo dia 1º de setembro tive o imenso prazer de assistir a peça Internato Feminino, desenvolvida por um grupo teatral de Itapecerica da Serra e dirigida por André dos Anjos, que também é o autor do texto.
A montagem nos remete a um espaço reservado, um internato, onde são aceitas meninas de famílias abastadas, cada qual com sua história e sua personalidade. De crenças distintas e sonhos que dialogam com suas almas femininas e adolescentes.  As meninas, visivelmente orientadas, revelam, no decorrer da peça, marcas de resistência ao regime imposto no internato. Essas resistências vão desde discussões abertas entre elas até armações endiabradas contra os símbolos da autoridade local. Um desses símbolos é a diretora do internato.

A princípio a diretora, também chamada de “estranha” pelas alunas, é uma personificação do regime militar vigente, mas no decorrer da peça ela revela a sua imponência contra “as regras que nem concorda”. Bem, não sou crítico de teatro, e fico muito feliz com isso. Porque o crítico deixa de viver o melhor da peça para observar detalhes técnicos. Gosto de ser plateia. E ser plateia na exibição de “Internato Feminino” foi realmente uma experiência indescritível.

Vou pautar minha observação no texto, por ser este um rio mais familiar a minha pessoa.
Como disse, a diretora (personagem que mais me chamou a atenção por diversos motivos) personifica, desde seu figurino até sua voz rouca e autoritária, um velho país decadente. Um país que fora violentado em seus direitos, um país furtado de sua liberdade de expressão, uma país humilhado e acusado de algo que sequer havia possibilidade de se tornar: Comunista. A diretora do internato é a personificação da “Pátria Mãe Gentil”, impondo seus valores arcaicos (por serem os únicos que lhe sobravam) a um grupo de jovens cujo espírito revolucionário grita contra a repressão alimentada naquele espaço. As marcas de sofrimento estão no caminhar da diretora e ainda nas lamentações, aparentemente apenas desabafos, que registram uma frustração com o projeto de um sistema que ela sequer quis que fosse imposto. Os guardas apareceram com suas roupas finas e engomadas, invadiram seu lar, sequestraram seus pais, violentaram o seu corpo e mataram o seu futuro, uma pequena criança de oito anos. A morte cruel da menina é a marca melancólica de um futuro que se encerra nas paredes de um internato gigantesco, sombrio e cujas regras é a comunicação editada e o silêncio. A presença desse instrumento opressivo é sempre soturna e denota devoções amalgamadas nas perdidas crenças utópicas.

Um país que não pode se expressar. Talvez tenha sido este o maior bastião do levante contra a ditadura e foi também dentro do internato feminino. As regras, impostas pela diretora que a mesma não criou, passaram a incomodar as internas e aos poucos, a juventude, começou a dizer o que sentia e armar defesas contra as mazelas internas. Tudo isso é empírico na peça. O que é mais marcante, ao meu ponto de vista nesse texto, é a pressão imposta à diretora.
Pois bem “a estranha” sofria pressões exteriores, uma nação cuja decadência estava nítida e que as forças estrangeiras espremiam ainda mais, até sentirem seus ímpetos de transformação sucumbirem num suspiro aliviado. A canção obscura, a marcha deficiente, a fala dificultada, a palmatória estridente, o olhar cansado, as roupas de outros tempos, fazem da diretora uma figura emblemática e reforçam, em seu texto, o sentimento de frustração de uma sociedade que apoiara o regime e agora se arrependera. O apoio ao regime militar, sobretudo pela “marcha da Família” era agora um câncer de tristeza e submissão aos monstros que estavam no poder, roubando seus filhos, estuprando suas mulheres e matando seus padres. Enfim, as dores de um golpe que em pouquíssimo tempo mostrou suas garras provocam na alma da diretora, ou do país, um instinto de sobrevivência que, diante da opressão que se estabelecera com o AI-5, passa a iluminar as tabernas mais distantes, os porões silenciosos, os grupos secretos, os textos mimeografados, em uma resistência coletiva, silenciosa, que em pouco tempo ganharia voz e bradaria contra os inimigos mais imediatos. 
A peça se limita a representar a luta contra os inimigos imediatos. E, de acordo com sua proposta, supera as expectativas da plateia ao demonstrar, através da construção da diretora, que a força exterior é muito maior do que podemos compreender e que lutar contra ela requer a abstenção de tudo o que julgamos como seguro. A “Estranha” vai para o DOPS, em seguida desaparece, e deixa o recado para aqueles que se levantam contra o exterior, para aqueles que almejam derrubar as “torres gêmeas”: Os heróis, no futuro, serão eles – os opressores!
Os Estados Unidos da América, em seu projeto anticomunista, promoveram as maiores barbáries do mundo e quase nunca apontamos para isso. Jogaram a bomba em Hiroshima e os japoneses é que pediram desculpas, patrocinaram as guerras de desestabilização nos países africanos, investiram pesado na consolidação dos golpes na América latina e os vilões são: Pinochet, Geisel, Torrijos, Barrientos, Banzer, Muller, Médici entre outros.  Mas quase nunca são Roosevelt, Truman, Nixon, Ford, Johnson e Kennedy, e o que é pior, esse ultimo é visto como herói. Herói de quem?
Elenco de Internato Feminino - dia 01/09 Espaço das Artes - Santo Eduardo- Embu / SP
E hoje, lembramos com lástima os eventos do golpe e recrutamos os jovens para uma rememoração a fim de não permitirmos que esse “holocausto brasileiro” seja esquecido, que os militares sejam punidos, que as vítimas indenizadas; uma retroalimentação do ódio que se torna alvo de discussões de adolescentes no Mac Donald. Entre um corpo ou outro que é lembrado, entre uma vítima ou outra que conheço no facebook, entre um desaparecido ou outro que despareceu vestindo jeans, peço o meu big Mac com bastante molho e uma coca cola bem gelada oferecida por aqueles que tanto mataram nessa colônia.
O que o Internato Feminino mostra em sua essência não é a dor das meninas oprimidas ou de uma diretora que sofre com as feridas nas paredes do calabouço de sua alma, mas sim, a importância dessa pressão externa sobre os ombros de uma sociedade submissa que sequer consegue identificar de onde surgem os gritos de ordem, as marcas nas palmas e o eco coletivo que nos enterra em SILÊNCIO!

Parabéns ao elenco e a direção  da Peça Internato Feminino. Grupos como esse que nos faz sentir orgulho dos jovens de nossa cidade.

( fotos: Arquivo pessoal)

O Corvo e a Filosofia da Composição - Poe


O Corvo

Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de algúem que batia levemente a meus umbrais.
"Uma visita", eu me disse, "está batendo a meus umbrais.


É só isto, e nada mais." Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro,
E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
Como eu qu'ria a madrugada, toda a noite aos livros dada
P'ra esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais -
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,
Mas sem nome aqui jamais! Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
Mas, a mim mesmo infundido força, eu ia repetindo,
"É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.
É só isto, e nada mais". E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
"Senhor", eu disse, "ou senhora, decerto me desculpais;
Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo,
Tão levemente batendo, batendo por meus umbrais,
Que mal ouvi..." E abri largos, franqueando-os, meus umbrais.
Noite, noite e nada mais. A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
E a única palavra dita foi um nome cheio de ais -
Eu o disse, o nome dela, e o eco disse aos meus ais.
Isso só e nada mais. Para dentro então volvendo, toda a alma em mim ardendo,
Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
"Por certo", disse eu, "aquela bulha é na minha janela.
Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais."
Meu coração se distraía pesquisando estes sinais.
"É o vento, e nada mais." Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais.
Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,
Mas com ar solene e lento pousou sobre os meus umbrais,
Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais,
Foi, pousou, e nada mais. E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
Com o solene decoro de seus ares rituais.
"Tens o aspecto tosquiado", disse eu, "mas de nobre e ousado,
Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!
Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais."
Disse o corvo, "Nunca mais". Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,
Inda que pouco sentido tivessem palavras tais.
Mas deve ser concedido que ninguém terá havido
Que uma ave tenha tido pousada nos meus umbrais,
Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais,
Com o nome "Nunca mais". Mas o corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,
Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.
Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento
Perdido, murmurei lento, "Amigo, sonhos - mortais
Todos - todos já se foram. Amanhã também te vais".
Disse o corvo, "Nunca mais". A alma súbito movida por frase tão bem cabida,
"Por certo", disse eu, "são estas vozes usuais,
Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono
Seguiram até que o entono da alma se quebrou em ais,
E o bordão de desesp'rança de seu canto cheio de ais
Era este "Nunca mais". Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,
Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;
E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira
Que qu'ria esta ave agoureia dos maus tempos ancestrais,
Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais,
Com aquele "Nunca mais". Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo
À ave que na minha alma cravava os olhos fatais,
Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando
No veludo onde a luz punha vagas sobras desiguais,
Naquele veludo onde ela, entre as sobras desiguais,
Reclinar-se-á nunca mais! Fez-se então o ar mais denso, como cheio dum incenso
Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais.
"Maldito!", a mim disse, "deu-te Deus, por anjos concedeu-te
O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais,
O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!"
Disse o corvo, "Nunca mais". "Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!
Fosse diabo ou tempestade quem te trouxe a meus umbrais,
A este luto e este degredo, a esta noite e este segredo,
A esta casa de ância e medo, dize a esta alma a quem atrais
Se há um bálsamo longínquo para esta alma a quem atrais!
Disse o corvo, "Nunca mais". "Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!
Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais.
Dize a esta alma entristecida se no Éden de outra vida
Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!"
Disse o corvo, "Nunca mais". "Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!", eu disse. "Parte!
Torna á noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!
Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!
Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!
Tira o vulto de meu peito e a sombra de meus umbrais!"
Disse o corvo, "Nunca mais". E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda
No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.
Seu olhar tem a medonha cor de um demônio que sonha,
E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão há mais e mais,
Libertar-se-á... nunca mais!


Tradução : Fernando Pessoa


 

 

A FILOSOFIA DA COMPOSIÇÃO

 
Em uma nota que neste momento tenho à vista, Charles Dickens diz o seguinte, referindo-se a uma análise que fiz do mecanismo de Barnaby Rudge: “Sabe que Godwin escreveu seu Caleb Williams de trás para frente? Começou emaranhando a matéria do segundo livro e logo, para compor o primeiro, pensou nos meios de justificar o que havia feito”.
Parece-me difícil de acreditar que esse fora precisamente o método de composição de Godwin e, de fato, o que o mesmo confessa não está de acordo, de modo algum, com a idéia do Sr. Dickens. Mas o autor de Caleb Williams era um artista demasiado entendido para deixar de compreender as vantagens que pode obter com algum procedimento semelhante. Eis algo evidente: um plano qualquer que seja digno desse nome só pode ser traçado visando o desenlace antes que a pena ataque o papel. Só quando se tem continuamente presente a idéia do desenlace é que podemos conferir a um plano a sua indispensável aparência lógica e de causalidade, procurando fazer com que todas as incidências e, especialmente, o tom geral tendam a desenvolver a intenção estabelecida.
Creio que existe um erro radical no método empregado para se construir um conto. Algumas vezes, a história nos proporciona uma tese; outras vezes, o escritor é inspirado por um acontecimento contemporâneo; ou, no melhor dos casos, senta-se para combinar os feitos surpreendentes que hão de formar a base de sua narrativa, procurando introduzir as descrições, o diálogo ou o seu comentário pessoal onde quer que um resquício no tecido da ação lhe force a fazê-lo. Eu prefiro começar com a consideração de um efeito. Tendo sempre em vista a originalidade (porque é falso consigo mesmo quem se atreve a desprezar um meio de interesse tão evidente e fácil), digo-me, antes de tudo: “Dentre os inumeráveis efeitos ou impressões que é capaz de receber o coração, a inteligência ou, falando em termos mais gerais, a alma, qual será o único que eu deva eleger no presente caso?” Tendo já elegido um tema novelesco e, depois, um vigoroso efeito, indago se vale mais evidenciar os incidentes ou o tom – ou os incidentes vulgares e um tom particular ou a singularidade tanto dos incidentes, quanto do tom -; logo procuro, em torno de mim, ou melhor, em mim mesmo, as combinações de acontecimentos ou de tons que podem ser mais adequados para criar o efeito em questão.
Tenho pensado quão interessante seria um artigo escrito por um autor que quisesse e que pudesse descrever, passo a passo, a marcha progressiva seguida em qualquer uma de suas obras até chegar ao término definitivo de sua realização. Seria, para mim, impossível explicar por que ainda não foi oferecido ao público um trabalho semelhante; mas talvez a vaidade dos autores seja a causa mais poderosa para justificarmos essa lacuna literária. Muitos escritores, especialmente os poetas, preferem deixar que acreditemos que escrevem graças a uma espécie de sutil frenesi ou de intuição extática; teriam verdadeiros calafrios se tivessem que permitir ao público dar uma olhadela por trás da cortina, para contemplar os trabalhosos e vacilantes embriões de pensamentos, a verdadeira decisão adotada no último momento, os relances de idéias que durante muito tempo resistem a mostrar-se, o pensamento plenamente maduro mas rejeitado por ser inaproveitável, a eleição prudente e os arrependimentos, as dolorosas emendas e interpolações; em suma, os rolamentos e as rodas, os artifícios para a troca de decoração, as escadas e os alçapões, as penas de galo, as cores, os disfarces e todos os enfeites que em noventa e nove por cento dos casos são o peculiar do histrião literário.
No entanto, sei que não é freqüente um autor estar disposto a reconstruir o caminho por onde chegou a seu desenlace. Geralmente, as idéias surgem mescladas; logo são seguidas e finalmente esquecidas da mesma maneira.
Quanto a mim, não compartilho com a repugnância do que acabo de falar, nem encontro a menor dificuldade em recordar a marcha progressiva de todas as minhas composições. Posto que o interesse dessa análise ou reconstrução, que tenho considerado como um desideratum, é inteiramente independente de qualquer interesse real ou imaginário na coisa analisada, não poderei ser censurado se revelo aqui o modus operandi utilizado para construir uma de minha obras. Escolhi “O Corvo” por ser esta a mais conhecida de todas. Meu propósito consiste em demonstrar que nenhum ponto da composição pode ser atribuído à intuição ou à sorte; e que aquela avançou até seu término, passo a passo, com a mesma exatidão e lógica rigorosa de um problema matemático.
Posto que não responde diretamente à questão poética, esqueçamos a circunstância ou a necessidade de que nasceu a intenção de compor um poema que satisfizesse ao mesmo tempo o gosto popular e o gosto crítico.
Minha análise começa, pois, a partir dessa intenção.
A consideração inicial foi esta: a dimensão. Se uma obra literária é muito extensa para ser lida de uma só assentada, devemos resignar-nos a eliminar o efeito, soberanamente decisivo, da unidade de impressão; porque quando são necessárias duas assentadas, interpõem-se entre elas os assuntos do mundo, e o que chamamos de conjunto ou totalidade cai por terra. Mas, tendo em vista que, coeteris paribus, nenhum poeta pode renunciar a tudo o que contribui para que alcance seu propósito, é importante examinar se há na extensão alguma vantagem, qualquer que seja, que compense a perda da unidade. Respondo logo negativamente. O que chamamos de poema extenso nada mais é do que uma sucessão de poemas curtos, de efeitos poéticos breves. De nada nos serve demonstrar que um poema só o é quando eleva a alma e lhe traz uma excitação intensa: por uma necessidade psíquica, todas as excitações intensas são de curta duração. Por isso, pelo menos a metade do Paraíso Perdido não é mais que pura prosa: há nele uma série de excitações poéticas salpicadas inevitavelmente de depressões. A obra, por causa de sua extensão excessiva, carece daquele elemento artístico tão decisivamente importante: a totalidade ou a unidade de efeito.
No que se refere às dimensões, há, evidentemente, um limite positivo para todas as obras literárias: o limite de uma só sessão. É certo que em alguns gêneros da prosa, como em Robinson Crusoe, não se exige a unidade, porque aquele limite pode ser traspassado. Sem embargo, nunca será conveniente traspassá-lo em um poema. No mesmo limite, a extensão de um poema deve ser muito bem pensada, para manter uma relação matemática com o mérito do mesmo, isto é, com a elevação ou a excitação que comporta; em outras palavras, com a quantidade de autêntico efeito poético com que possa impressionar as almas. Esta regra só tem uma condição restrita, a saber: que uma relativa duração é absolutamente indispensável para causar um efeito, qualquer que seja.
Tendo em vista essas considerações, assim como aquele grau de excitação que eu não situava acima do gosto popular nem abaixo do gosto crítico, concebi antes de tudo uma idéia sobre a extensão idônea para o poema projetado: uns cem versos aproximadamente. Na realidade, cento e oito.
Meu pensamento se fixou seguidamente na elevação de uma impressão ou de um efeito que pudesse causar. Aqui creio que convém observar que, através desse trabalho de construção, tive sempre presente a vontade de criar uma obra universalmente apreciável. Iria longe demais se eu demonstrasse, no presente tratado, o que tenho insistido muitas vezes: que o belo é o único âmbito legítimo da poesia. Contudo, direi umas palavras para apresentar meu verdadeiro pensamento, que alguns de meus amigos se apressaram a dissimular. O prazer mais intenso, mais elevado e mais puro não se encontra – segundo creio – mais que na contemplação do belo. Quando os homens falam de beleza, não entendem precisamente uma qualidade, como se supõe, mas uma impressão: em suma, têm presente a violenta e pura elevação da alma – não do intelecto ou do coração -, como já falei, e que resulta da contemplação do belo. Ora, considero a beleza como o âmbito da poesia porque é uma regra evidente da arte que os efeitos deveriam brotar necessariamente de causas diretas, que os objetivos deveriam ser alcançados com os meios mais apropriados para tal – já que nenhum homem chegou a ser tão estúpido para negar que a elevação singular de que estou tratando se encontra mais facilmente ao alcance da poesia. No entanto, o objetivo verdade, ou satisfação do intelecto, e o objetivo paixão, ou excitação do coração, são muito mais fáceis de se alcançar por meio da prosa – embora, em certa medida, estejam também ao alcance da poesia. Em resumo, a verdade requer uma precisão, e a paixão, uma familiaridade (os homens verdadeiramente apaixonados me compreenderão), radicalmente contrárias àquela beleza, que não é senão a excitação – reafirmo – ou o embriagador arrebatamento da alma. De tudo o que foi dito até agora, não se pode deduzir, de modo algum, que nem a paixão nem a verdade possam ser introduzidas em um poema, senão com benefícios para este, já que podem servir para aclarar ou para potencializar o efeito global, como as dissonâncias na música, pelo contraste. Mas o autêntico artista há de se esforçar sempre, antes de tudo, em reduzi-las a um papel propício ao objetivo pretendido, e depois torneá-las, tanto quanto possível, com o aroma da beleza, que é a atmosfera e a essência do poema.
Por conseqüência, considerando o belo como o meu terreno próprio, perguntei-me: “Qual é o tom para a sua manifestação mais alta?”. Este seria o tema de minha seguinte meditação, e toda a experiência humana nos leva a crer que esse tom é o da tristeza. Qualquer que seja seu parentesco, a beleza, em seu desenvolvimento supremo, induz às lágrimas, inevitavelmente, as almas sensíveis. Assim, a melancolia é o mais idôneo dos tons poéticos.
Uma vez determinados a dimensão, o terreno e o tom do meu trabalho, dediquei-me a buscar alguma curiosidade artística de alto grau que pudesse atuar como chave na construção do poema, de algum eixo sobre o qual toda a máquina pudesse girar. Refletindo sobre todos os efeitos conhecidos pela arte ou, mais propriamente, sobre todos os meios de efeito – no sentido cênico -, não poderia deixar de compreender que nenhum havia sido empregado com tanta freqüência quanto o do estribilho. A universalidade deste bastava para me convencer acerca de seu intrínseco valor, evitando a necessidade de submetê-lo a uma análise. De qualquer modo, eu não o considerava, senão enquanto suscetível de aperfeiçoamento, e tão logo pude perceber que ainda se encontrava em um estado primitivo. Tal como habitualmente é empregado, o estribilho não só é limitado às composições líricas, como a força da impressão que deve causar depende do vigor da monotonia no som e na idéia. Só se pode extrair o prazer mediante a sensação de identidade ou de repetição. Resolvi, desse modo, variar o efeito, com a finalidade de acrescentá-lo, permanecendo fiel à monotonia do som, mas alterando continuamente o da idéia: em outras palavras, procurei causar uma série contínua de efeitos novos com uma série de variadas aplicações do estribilho, deixando que este fosse quase sempre parecido.
Havendo já fixado esses pontos, preocupei-me com a natureza do meu estribilho: posto que sua aplicação tinha de ser variada com freqüência, era evidente que o estribilho em questão teria que ser breve, pois encontraria dificuldades insuperáveis para variar freqüentemente as aplicações de uma frase um pouco extensa. Por outro lado, a facilidade de variação estaria em proporção à brevidade da frase. Isto me conduziu a adotar como estribilho ideal uma única palavra.
Refleti, em seguida, sobre o caráter daquela palavra. Tendo decidido que haveria um estribilho, a divisão do poema em estâncias surgia como um corolário necessário, pois o estribilho constitui a conclusão de cada estrofe. Não havia dúvida para mim que semelhante conclusão ou término, para possuir força, deveria ser necessariamente sonora e suscetível de uma ênfase prolongada. Aquelas considerações me conduziram inevitavelmente ao o prolongado, que é a vogal mais sonora, associada ao r, porque esta é a consoante mais vigorosa.
Já bem determinado o som do estribilho, era preciso, depois, eleger uma palavra que o contivesse e, ao mesmo tempo, estivesse harmoniosamente de acordo com a melancolia que eu havia adotado como tom geral do poema. Seria impossível não se deparar com a palavra nevermore (nunca mais). Na verdade, esta foi a primeira que me veio à mente.
O desideratum seguinte foi este: qual seria o pretexto útil para empregar continuamente a palavra nevermore? Ao ver a dificuldade que se me apresentava para encontrar uma razão válida dessa repetição contínua, não deixei de observar que essa dificuldade surgia tão só de que tal palavra, repetida tão obstinada e monotonamente, seria proferida por um ser humano. Em resumo: a dificuldade consistia em conciliar a monotonia aludida com o exercício da razão na criatura chamada para repetir a palavra. Surgiu então a possibilidade de uma criatura não racional e, sem embargo, dotada de palavra: como é lógico, pensei, de início, em um papagaio; no entanto, este foi imediatamente substituído por um corvo, que também é dotado de palavra e, ademais, está infinitamente mais de acordo com o tom desejado.
Assim, pois, havia chegado à concepção de um corvo. O corvo, ave de mau agouro, repetindo obstinadamente a palavra nevermore ao final de cada estância em um poema de tom melancólico e extensão de cerca de cem versos, aproximadamente. Então, sem perder de vista o superlativo ou a perfeição em todos os pontos, perguntei-me: “Dentre todos os temas melancólicos, qual é o maior, segundo o entende universalmente a humanidade?” Resposta inevitável: “A morte”. “E quando esse assunto, o mais triste de todos, é também o mais poético?”. Segundo o já explicado com bastante amplitude, a resposta me veio facilmente: “Quando ele se alia intimamente com a beleza”. Logo a morte de uma bela mulher é, sem dúvida alguma, o tema mais poético do mundo, e parece-me óbvio que a boca mais apta para desenvolver o tema é a do amante privado de seu tesouro.
Teria que combinar, em seguida, aquelas duas idéias: um amante que chora a sua amada morta e um corvo que repete continuamente a palavra nevermore. Não só teria que combiná-las, como teria que variar a aplicação da palavra repetida; mas o único meio possível para semelhante combinação consistia em imaginar um corvo que aplicasse a palavra para responder as perguntas do amante. Então pude tirar vantagem da facilidade que se me oferecia para o efeito do qual meu poema estava dependendo, isto é, o efeito da variação da aplicação. Compreendi que poderia formular a primeira pergunta feita pelo amante, a qual o corvo responderia nevermore; que desta primeira pergunta poderia fazer uma espécie de lugar-comum; da segunda, algo menos comum; da terceira, algo menos comum ainda, e assim sucessivamente, até que por último o amante, arrancado de sua indolência pela índole melancólica da palavra, pela sua freqüente repetição e pela fama sinistra do pássaro, fosse lançado a uma agitação supersticiosa e, loucamente, formulasse perguntas diversas, mas apaixonadamente interessantes ao seu coração; perguntas que dessem a medida exata da superstição e do singular desespero que encontra o prazer em sua própria tortura, não por crer o amante na índole profética ou diabólica da ave (que, segundo lhe demonstra a razão, não faz mais que repetir algo aprendido mecanicamente), mas por experimentar um prazer inusitado ao formulá-las daquele modo, recebendo do nevermore sempre esperado uma ferida deliciosa e insuportável. Vendo semelhante facilidade que se me oferecia ou, melhor dizendo, que se me impunha no transcurso do meu trabalho, decidi primeiro formular a pergunta final, a pergunta definitiva, para a qual o nevermore seria a última resposta, a mais desesperada, plena de dor e sofrimento.
Aqui posso afirmar que meu poema começara pelo fim, como deveriam começar todas as obras de arte. Então, precisamente nesse ponto de minhas meditações, tomei da pena pela primeira vez e compus a seguinte estância:
“Profeta!”, falei, “ser maligno, sempre profeta, ave ou demônio, Pelo céu que nos rodeia, pelo Deus que nós dois adoramos, Fala a esta pobre alma angustiada se no Éden distante Poderá abraçar a jovem a quem os anjos chamam Leonora, Abraçar a bela e rara jovem a quem os anjos chamam Leonora”. O Corvo disse: “Nunca mais”.
Só então escrevi essa estância; primeiro, para fixar o ponto supremo e poder, o mais claramente possível, variar, segundo sua gravidade e importância, as perguntas anteriores do amante; e, em segundo lugar, para decidir definitivamente o ritmo, o metro, a extensão e a disposição geral da estrofe, assim como para graduar as que deveriam antecedê-la, de modo que nenhuma a ultrapassasse em seu efeito rítmico. Se, no trabalho de composição que deveria seguir, eu houvesse sido tão imprudente a ponto de escrever estâncias mais vigorosas, eu as debilitaria, conscientemente e sem vacilação alguma, de modo que não interferissem no efeito do crescendo.
Aqui eu bem posso falar algo sobre a versificação. Meu primeiro objetivo era – como sempre – a originalidade. Uma das coisas mais absurdas do mundo é, para mim, ver como a originalidade da versificação tem sido tratada com descaso. Mesmo reconhecendo que no ritmo puro exista pouca possibilidade de variação, é evidente que as variedades em matéria de metro e estância são infinitas; sem embargo, durante séculos, nenhum homem fez alguma coisa de original a respeito da versificação, nem sequer algo parecido. O certo é que a originalidade – excetuando os espíritos de uma força insólita – não é, de maneira alguma, como muitos acreditam, questão de instinto ou de intuição. De um modo geral, só através de muito trabalho pode-se encontrá-la, e embora seja um mérito positivo da mais alta categoria, o espírito de invenção participa menos que o de negação para chegarmos até ela.
Não é preciso afirmar que não pretendi ser original nem no ritmo nem no metro de O Corvo. O primeiro é trocaico; o segundo, um octâmetro acatalético, alternando-se com um heptâmetro catalético que, repetindo-se, vai se converter em estribilho no quinto verso, finalizando com um tetâmetro catalético. Para expressar-me sem pedantismo, os pés empregados, que são troqueus, consistem em uma sílaba longa seguida de uma breve; o primeiro verso da estância é composto de oito pés; o segundo, de sete e meio; o terceiro, de oito; o quarto, de sete e meio; o quinto, também de sete e meio; o sexto, de três e meio. Ora, isolando cada um desses versos, veremos que já foram empregados antes, de maneira que a originalidade de O Corvo consiste na combinação dos mesmos em uma única estância. Até o presente momento, nada foi criado que se lho assemelhe. O efeito dessa combinação original se fortalece mediante alguns outros efeitos inusitados e absolutamente novos, obtidos por uma aplicação mais ampla da rima e da aliteração.
O ponto seguinte a ser considerado era o modo de estabelecer a comunicação entre o amante e o corvo. O primeiro ponto da questão consistia, naturalmente, no lugar. Poderia parecer que devesse brotar espontaneamente a idéia de uma selva ou de um campo, mas tenho sempre afirmado que para se criar o efeito de um incidente insulado, é absolutamente necessário um espaço estreito, pois este ganha a força de uma pintura. Ademais, oferece a vantagem moral de concentrar a atenção em um pequeno âmbito; não é preciso afirmar que esta vantagem não deve ser confundida com a que se obtenha da mera unidade de lugar.
Decidi, em seguida, situar o amante em seu quarto, em um quarto que havia santificado com as recordações da que vivera ali. O quarto é descrito como ricamente mobiliado, a fim de satisfazer as idéias de que já expus acerca da beleza, como a única tese verdadeira da poesia.
Havendo determinado assim o lugar, era preciso introduzir então a ave: a idéia de que esta penetrasse pela janela me parecia inevitável. Que o amante supusesse, no primeiro momento, que o aflar do pássaro contra o postigo fosse uma chamada à sua porta era uma idéia brotada de meu desejo de aumentar a curiosidade do leitor, obrigando-o a aguardar, mas também do desejo de colocar o efeito incidental da porta aberta de par a par pelo amante, que nada mais encontraria que a escuridão, e que pudesse aceitar a ilusão de que o espírito de sua amada estivesse a lhe chamar.
Fiz com que a noite parecesse tempestuosa, primeiro para explicar o motivo do corvo buscar a hospitalidade; segundo para criar o contraste com a serenidade material reinante no interior do quarto.
Fiz também com que a ave pousasse sobre o busto de Palas para estabelecer um contraste entre suas plumas e o mármore. Compreende-se que a idéia do busto foi suscitada unicamente pela ave; que fosse precisamente um busto de Palas para, em primeiro lugar, demonstrar a íntima relação com a erudição do amante e, em segundo lugar, por causa da própria sonoridade do nome Palas.
Até a metade do poema, explorei igualmente a força do contraste com o objetivo de aprofundar aquela que seria a impressão final. Por isso, conferi à entrada do corvo um matiz fantástico, aproximando-se já do cômico, pelo menos até onde meu assunto o permitia. O corvo penetra “a esvoaçar tumultuosamente”:
“Não fez nenhuma reverência;
não parou, não duvidou,
Mas, como um lord ou uma lady,
pousou sobre a minha porta”
Nas duas estâncias seguintes, o propósito se manifesta ainda mais:
“Então a ave de ébano induziu minha triste ilusão a sorrir,
Por sua grave postura e pela severidade de seu aspecto;
‘Apesar de tua crista ser lisa e rasa,” falei, “não és covarde,
Torvo, espectral e antigo Corvo que, errando, vens da noite;
Fala-me qual é o teu nome senhorial na Noite Plutoniana!’
O Corvo disse: ‘Nunca mais’.
Maravilhei-me ao escutar aquela ave desajeitada falar tão bem,
Apesar de sua resposta pouco esclarecedora e relevante;
Porque sabemos que nenhum ser humano ou vivente
Jamais se encantou ao ver um pássaro sobre a sua porta
Uma ave ou uma besta no busto esculpido sobre a sua porta
E que se chame ‘Nunca mais’.”
Preparado assim o efeito do desenlace, apressei-me em abandonar o tom fingido e adotar o sério, o mais profundo: esta mudança de tom se inicia no primeiro verso da estância que segue a que acabo de citar:
“Mas o Corvo, pousado no plácido busto, apenas aquelas, etc.”
A partir desse momento, o amante não mais zomba, já não vê nada de fictício no comportamento da ave. Fala dela como uma “espantosa, sinistra, ominosa ave de outrora”, e sentia que seus “feros olhos queimavam” o seu “coração”. Essa transição do pensamento e essa imaginação do amante têm como finalidade predispor o leitor a outras análogas, conduzindo o espírito até uma posição propícia para o desenlace, que virá tão rápida e diretamente quanto possível.
Com o desenlace propriamente dito, expressado no nevermore do corvo em resposta à última pergunta do amante – encontrará a sua amada no outro mundo? -, pode considerar-se concluído o poema em sua fase mais clara e natural, a de simples narração. Até o presente, tudo tem-se mantido nos limites do explicável e do real. Um corvo que aprendera mecanicamente a palavra nevermore, e que, tendo fugido de seu dono, pede abrigo, à meia-noite, em uma janela onde ainda brilha uma luz, fustigado pela fúria da tempestade; a janela de um estudante ocupado em ler um livro e a sonhar com a sua amada morta. Uma vez aberta a janela, aflando, a ave pousa o mais distante possível do estudante que, divertido pelo incidente, pergunta-lhe, brincando, o seu nome, sem esperar resposta. Mas o corvo, ao ser interrogado, responde com a sua palavra habitual – nevermore -, palavra que imediatamente suscita um eco melancólico no coração do estudante; e este, expressando em voz alta os pensamentos que aquela circunstância lhe sugere, se emociona diante da repetição do nevermore. O estudante se entrega às suposições que o caso lhe inspira, mas o ardor do coração humano não tarda em martirizar-se e, também, por uma espécie de superstição, a formular perguntas à ave, cuja resposta, o intolerável nevermore, lhe proporciona, ao amante, o mais horrível sofrimento. A narração, naquilo que designei como sua primeira fase ou fase natural, tem a sua conclusão precisamente nessa tendência do coração à tortura, levada ao extremo. Até aqui, nada foi mostrado que ultrapasse os limites da realidade.
Mas, nos temas manejados desse modo, por mais habilidade e mais vivas riquezas de incidentes que possua o artista, sempre mostrará um pouco da rudeza ou da nudez que repelem a leitura de uma pessoa sensível. Dois elementos são exigidos eternamente: por um lado, certa suma de complexidade ou, em outras palavras, de combinação; por outro, certa quantidade de espírito sugestivo, algo assim como uma veia subterrânea de pensamento, invisível e indefinida. Esta última quantidade é a que confere à obra de arte o ar opulento que cometemos a estupidez de confundir com o ideal. O que transforma em prosa (e prosa das mais chatas) a pretendida poesia dos que se denominam transcendentalistas, é justamente o excesso na expressão do sentido que só deve ser insinuado, é a mania de converter a corrente subterrânea de uma obra em outra corrente, visível na superfície.
Convencido disso, juntei as duas estâncias que concluem o poema, porque sua qualidade sugestiva haveria de penetrar em toda a narração antecedente. A corrente subterrânea do pensamento se mostra, pela primeira vez, nestes versos:
“Afasta teu bico do meu coração, afasta tua forma de minha porta!”
O Corvo disse: “Nunca mais”.
Quero ressaltar que a expressão “do meu coração” encerra a primeira expressão metafórica do poema. Estas palavras, com a resposta correspondente, leva o espírito a buscar um sentido moral em toda a narração que se desenvolvera anteriormente. Então o leitor começa a considerar o corvo como um ser emblemático. Mas só no último verso da última estância pode ver com nitidez a intenção de fazer do corvo o símbolo da recordação fúnebre e eterna:
“E o Corvo, ainda imutável, segue pousado, segue pousado
Sobre o pálido busto de Palas, bem sobre a minha porta;
Seus olhos se assemelham aos de um demônio que medita,
E a luz da lâmpada, que o cobre, lança a sua sombra no chão;
E minha alma, daquela sombra que jaz flutuando no chão
Não se levantará… nunca mais!”
EDGAR ALLAN POE – 1845