Soneto do credo amoroso

Era para se crer no amor real,
se real fosse não carecia de crer.
Um amor que não se viva por igual,
do pôr-do-sol ao rubro amanhecer.

No amor que se esvai na juventude,
ou que não se fortifica na convivência.
Naquele “na doença e na saúde”,
ou na pura paixão e na indecência.


Crer no amor que se vive,
ou recordar do “bom” que se viveu,
é a lufada de ar fresco que tive.

Pois ao sonhador que não se perdeu,
ou quem nada em seu peito reprime,
o Amor é o encanto que o medo venceu.

Violeta Pandolfi

Soneto de Aproximação

Em um sítio de constante lavor,
onde forma a opressão operária,
desce, incandescente, o lívido amor!
Feixe leve, que sob a brisa se espalha.

Iluminado, envolvido, agora fico,
e pouco vejo, além de seu olhar.
Nas dependências físicas onde existo,
sinto meu corpo, levemente, levitar.

E, com calma, posto-me de aproximado.
Ante o espanto que me deixara alerta,
dirijo-me à musa com desejo e cuidado.

Precavi-me, não convencido de decisão certa
Mais por medo de por ti ser machucado
Por seu envolto perfume e encanto de Roberta.


Ari Mascarenhas

NÓS MATÁMOS O CÃO TINHOSO - Texto na íntegra


NÓS MATÁMOS O CÃO TINHOSO

Conto de  LUÍS BERNARDO HONWANA

O Cão-Tinhoso tinha uns olhos azuis... 

O Cão-Tinhoso tinha uns olhos azuis que não tinham brilho nenhum, mas eram enormes e estavam sempre cheios de lágrimas, que lhe escorriam pelo focinho. Metiam medo aqueles olhos, assim tão grandes, a olhar como uma pessoa a pedir qualquer coisa sem querer dizer. 

Eu via todos os dias o Cão-Tinhoso a andar pela sombra do muro em volta do pátio da Escola, a ir para o canto das camas de poeira das galinhas do Senhor Professor. As galinhas nem fugiam, porque ele não se metia com elas, sempre a andar devagar, à procura de uma cama de poeira que não estivesse ocupada. 


QUER LER O TEXTO NA ÍNTEGRA? ENTÃO ACESSE, NO MENU SUPERIOR DESSE BLOG, A PÁGINA DEDICADA À OBRA. 

BOA LEITURA!

Itapecerica – decadência e hipocrisia (notas de um nativo).




Itapecerica – decadência e hipocrisia.

A cidade onde vivo já teve tempos melhores. Itapecerica da Serra, nos áureos anos das corridas de carros, era exatamente como uma pequena vila deve ser: um ou outro comércio, famílias que se conhecem, pouca pavimentação e o serviço básico de atendimento para seus moradores. À medida que o tempo foi passando, a cidade foi inchando. Isso mesmo, Itapecerica inchou, não prosperou.
Milhares de pessoas chegaram à região incentivados pela especulação imobiliária que por sua vez foi corroendo o que nos restava de mata atlântica. Mas os serviços não foram adequados para o desenvolvimento que se promovia. O comércio capengou por anos e hoje também faz parte dessa grande bolha que para alguns convém chamar de progresso.
Ao passear por minha cidade vejo as marcas do desprezo em quase todas as ruas e vielas, e não se trata de um problema pautado na administração atual, mas no conceito de administração que rege essa provinciana comunidade. O pensamento do “quanto menos pior melhor” presente no discurso das pessoas que sobrevivem de maneira esmoleira aos caprichos dos seus dirigentes, o temor de uma transformação que coloque em risco determinadas regalias de classes abastadas e, sobretudo a indiferença com que tratam o cidadão itapecericano e todos os potenciais artísticos, econômicos e sociais de nosso município.
A rede de saúde e de ensino é precária e não atende de forma satisfatória nem aqueles que utilizam esporadicamente seus serviços. Filas e filas nas madrugadas, às vezes chuvosas, ao lado do posto de saúde central. Os corpos enfermos nos corredores do hospital e do pronto socorro. Horas para atendimentos simples e meses para consultas mais sérias. Escolas em visível decadência, professores sem preparo, salários cômicos e estruturas ridículas que nada acrescentam no aprendizado dos alunos.
Uma cidade triste por natureza, de pessoas cabisbaixas pelas ruas, de políticos mal intencionados, de uma burguesia bem estabelecida (alguém sempre lucra com o caos), de corruptos imunes, de um clero hipócrita, de uma cultura abandonada, de uma história esquecida, de um presente sem comemoração alguma. Ou seja, a cidade onde moro é um amontoado de pessoas e problemas, em alguns pontos chega a se assemelhar aos campos de concentração nazistas. Se alguém discorda, dê uma passadinha em bairros do distrito do Jacira, por exemplo. Ou seja, Itapecerica é uma bela maquete de um país como o nosso. O sudeste, região aqui representada pelo Delfim Verde, se esbalda nas riquezas adquiridas com a exploração do restante da região. Mas quando questionados, sobre os enriquecimentos assustadores diante de misérias tão gritantes, o discurso é sempre o mesmo: - O Brasil está crescendo.
Itapecerica da Serra é um mórbido instantâneo do abandono. O que existem de bom aqui? Perguntaram-me alguns schopenhauerianos de plantão, e eu responderei que se pode valorizar alguns poucos aspectos dessa pedra, e um deles é a resistência que alguns artistas promovem em seus discursos estilísticos revoltosos, que propõe mudanças possíveis e que assumem os seus telhados de vidro. Itapecerica ainda tem matas, ainda tem nascentes, ainda tem pessoas de bom coração, ainda tem grupos comprometidos com o seu crescimento, mas tudo isso por enquanto, já que a vertiginosa queda em que estamos, e sua íngreme loucura, em breve não nos permitirá sequer escrever um único parágrafo de uma nostalgia positiva em um artigo de opinião intitulado “o espaço onde vivo”.


(Ari Mascarenhas - 04/2013)

O poeta*


À Manoel de Barros

Quando criança sempre quis ser poeta (...)

Aprender a escrever logo e contar os encantos com os raros brinquedos que tive.

Juntar as palavras e guarda-las no papel; depois por uma capa bonita, com desenhos do meu irmão, e descansa-las nesse álbum na estante de casa.
(...) entre  Júlio Verne e Lewis Carrol, deixar meu livro curtir, como deliciosas batatinhas de festa de aniversário, que respingam nos dedos e nos palitos atravessados.
Depois de um tempo, ou de muito tempo, folhear suas páginas amareladas, com uma saudade rubra na face e a certeza de que meus dias mais felizes ficaram ali.
Que meu quintal encantado, onde vivi minhas primeiras descobertas, se refaria.
Meu quarto aquecido, onde criei todas as minhas estórias, repousaria na página dez.
Mas a cada página virada, diante de um tantão de cores e formas ressuscitadas  em meus olhos, pude ver, no espelho de uma dispersa lágrima de alegria, que o mais importante eu consegui...

Cresci e não virei poeta, mas jamais deixei de ser criança.




Ari Mascarenhas

*texto lido na abertura do Sarau sem pecado - realizado em Junho no Colégio Morumbi Sul

Nota de uma sexta chuvosa




A vida é cheia de surpresas, boas e ruins. Ainda que queiramos apenas as boas, surpresas são surpresas e, independente de gostarmos ou não a função delas é nos surpreender. Quando boas, comemoramos, ruborizamos e ficamos satisfeitos com nossas escolhas... As surpresas boas têm o poder de consolidar nossos caminhos. Funcionam como uma espécie de “selo de qualidade” que fortifica nossas escolhas e nos faz acreditar que a vida vale muito a pena. Elas são esperadas, por mais que sejam surpresas, e quando chegam causam aquela sensação de que todos os desafios são justificáveis, que todo medo é válido, que todo cansaço é remunerado. As surpresas boas nos fazem sorrir, abraçar, amar ainda mais aquilo (aqueles) que já amamos, nos faz crer em nossos sonhos e, principalmente, nos enche de vida por nos permitir criar novos sonhos. Enfim, as surpresas boas são aquelas que consideramos necessárias para continuarmos nos trilhos traçados. Afirmo isso porque penso também nas ruins.
As surpresas ruins nos faz repensar nossas escolhas, nos entristece, nos desanima, nos forçam a esquecer do que temos de bom, nos enfraquece, nos derruba, nos atrasa, nos envelhece, nos obriga a acreditar que tudo está errado em nossas vidas. Mas uma coisa boa tem nas surpresas ruins: Comparadas as boas elas são minorias. E mais, podem ser transformadas em boas, se estivermos preparados, não para as surpresas – cuja natureza não permite preparo – mas para os efeitos delas. De repente, uma dor pode ser convertida com a capacidade de suportá-la, um medo pode ser um desafio, um susto funciona como um alerta, uma morte como uma revelação, como se a voltássemos a ter consciência de que somos frágeis e pequenos nesse planeta, mas que ao mesmo tempo somos os condutores de nossas vidas. Responsáveis pelas alegrias e pela predisposição em aproveitá-la.
As surpresas boas ou ruins fazem parte de nossas vidas. Devemos geri-las, ou digeri-las na medida em que surgem. As tramas entrelaçadas, entre aquilo que chega e o que se vai, são responsáveis por definir esse longo texto que se chama vida. Nós não fazemos a linha, mas somos os costureiros da peça que pode nos aquecer, ser aconchegante e perfumada, ou do pano que, na forca do desespero, servirá para sustentar o corpo imóvel, desanimado, resultante de uma soma de surpresas mal compreendidas. Superar as surpresas ruins ou transformá-las em boas é um sinal de maturidade. Ser maduro e entender que a vida pode ser uma caixinha de surpresas, mas que nem sempre ela surge como um bom-bocado num celofane atraente. Às vezes, vem só o “bocado”.
 ASMC

Nova introspecção

Depois de um longo dia
De trabalho e dúvidas,
Sem luz por alguns minutos
E chuva por muitas horas...
Vejo-me aqui!

Banco negro e caneta vermelha,
Dispensando o tempo roto
Um sustenta e o outro transpira
Este breve corpo sem ambição.

O silêncio que foge da rotina
Me devolve aos tempos
Que sempre quis abandonar.

Vendo as esculturas de Bretão
Sinto um desejo animal
De escrever um pouco de bagatelas,
Pra poder dizer que esse sou eu...

Cheio de nada e um nada de tudo!
Exercendo a doce arte do ócio,
Que salva meus dedos da necrose
Produto de uma mente em desuso.

(Ari Mascarenhas - 09/06/2015)


Rascunho



Queria escrever um poema direto,
sem rasuras ou resenhas,
rascunhos...
um próprio poema solto,
correndo o risco de desaparecer.
Um simples vírus, uma bomba,
ou ainda, um nada
que "desvirtualizaria" toda a criação,
quanta emoção!
A capacidade de criar sem deixar marcas me instiga.
Provoca em mim uma série de desejos,
impulsos, vontades selvagens...
vontade de despejar meus dedos sobre o teclado
e deixar fluir palavras, imaginadas,
cuja a única marca, que servirá como prova de que um dia existiram, simplesmente desaparecerá...
num espirro, num sussurro, num murro!
E quando tudo se desfizer em morfemas perdidos serei mais completo do que nunca.
Viverei a verdadeira liberdade
ao me livras de toda matéria poética,
quando todas as notas tocarem,
ficando apenas a sensação de que se ouviu um som.
de onde?
cadê?
Os versos se perderam e eu nem sei o porquê!
Minha tensa tentativa de pôr em prática certos pontos,
aqui se fizeram inteiros e consagraram-se em poesia.
Sem rascunhos, sem rasuras, só poesia, solta, pra ser lida e depois...foi...
Quem um dia se lembrará de ter lido isso?

Ari Mascarenhas 02/06/2015

A arte de contar histórias

Caros leitores do meu blog e que me acompanham  nas redes sociais, tenho ouvido com frequência pedidos para que eu publicasse minha dissertação de mestrado. Pois bem, a USP fez isso por mim (rsrs). Já está disponível na biblioteca virtual da universidade.

Como lá não é possível tecer comentários, criei esse post no meu blog para que todos possam deixar suas impressões, críticas e sugestões.

Segue o link da postagem: http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8156/tde-27032015-144818/pt-br.php

Fiquem à vontade e boa leitura!




Morrendo de Amor


Certo!
Quer falar de amor?
Quer falar do ser?
E ser o que o amor deseja?

Certo!
Façamos!

Digo que vivi grandes paixões
Que viraram grandes tolices

E as paixões, travestidas de amor, fecundaram grande angústia quando se revelaram passageiras.
Sozinho, toda vez que um verão passava, eu me perguntava: Isso foi amor?

Meu ingênuo coração triste, minha frágil existência se contorcia a cada canção que lembrava os beijos dela.

De íntimo ferido entregava-me a cada crepúsculo;
E sorvia dentro de mim um prazer amargo, bílis.
Matando-me diariamente.
Até o dia em que um adulto me disse: - Você cresceu meu menino!
E hoje, sério e racional com as coisas do coração,
Sinto tanta falta do tempo em que qualquer paixão, por menor que fosse, me fazia morrer de amor.



Ari Mascarenhas                                                     

Amar é desarmar


Eram flores ideológicas, se fizeram pétalas perfumadas.
Eram ascos sonoros, se fizeram recepções respeitosas.
Eram gritos profanos, se fizeram sussurros prudentes.
Era tão desumano, mas sempre com uma retórica caprichosa.

Era armado, pronto pra batalha.
Armado e vergado, como uma arapuca de cipó.
Seco e alinhado, numa trilha de um tatu qualquer.
Resistente a vendavais, chuvas e tropeços desatentos de humanos dispersos.
Forte, rijo, geométrico; bem ali, no meio do caminho.

Mas tanta resistência não foi suficiente para um sopro de amor,
Um sopro simples, leve e afônico.
Um sopro de harmonia divina e cintilante.
Que chegou sorrateiro em um dia

Um dia-amante, um diamante.

Desses que nos assaltam e projetam novos tempos,
Num único instante, num único olhar.
Um dia que o sol não fora protagonista.
E de lá pra cá tudo o que era velho se esvaio,
deixando um grande vale para nosso plantio.



Verdejantes mantos que nos aqueceram
Na eternidade de nossos sentimentos.



Foi por terra valores empapados,
Empecilhos de um tempo de poeira
Necessidade de se desarmar de velhas crenças
Para amar de forma verdadeira.


Ari Mascarenhas

Aos poucos ELE se apresenta e as Pedras Rolam (Rolling Stones)*. - Uma breve leitura do romance "O mestre e Margarida" de Mikhail Bulgákov


Acabo de ter uma aula com o professor Wolland e tenho algumas coisas a dizer. ...


Quando peguei em mãos a obra “O Mestre e Margarida” de Mikhail Bulgákov (1891-1940) estava preparado para ler uma crítica ferrenha ao “comunismo” russo conforme haviam me indicado.  Por conta de minhas ideologias de esquerda a leitura dessa obra seria um grande desafio, pois, ainda que eu me considere uma pessoa aberta às críticas, é certo que elas precisam vir acompanhadas de bons argumentos, do contrário, eu abandonaria o livro nas primeiras páginas. Mas, ainda no primeiro capítulo, quando o professor é apresentado ao crítico e ao poeta, fiquei certo de uma coisa: Não se tratava de um romance que criticaria o regime soviético, mas sim uma crítica à corrupção humana, independente de sua opção política.
Edição 2009
O livro pode ser classificado como realismo fantástico em partes. Quero dizer, ao tempo em que vislumbramos uma descrição profunda do narrador e uma tentativa de ambientalisar a narrativa na sociedade moscovita do início do século XX, ele nos carrega, de maneira delirante, ao universo paralelo da fantasia e do surrealismo, sempre dotado de uma criticidade ácida aliviada por uma animação simbólica que remonta cenários da Disney e dos irmãos Grimm.
NOTA: Se o leitor dessa singela nota quiser conhecer o enredo do romance, sugiro que o leia. Afinal, ninguém é mais apropriado para lhe contar isso que o próprio Bulgákov. O que pretendo expor nessas linhas é uma interpretação do que me foi apresentado pelo autor. 
Já nos primeiros capítulos é possível notar a impotência das ideologias humanas, manipuladas de acordo com o interesse dos políticos, diante da sagacidade do Demônio. Sobretudo porque ele não dispõe de armas celestiais ou argumentos infalíveis capazes de convencer a humanidade de suas verdades, mas sim porque ele usa a maior de todas as forças contra o homem, cuja potência, ao ser demonstrada, é reconhecida, a princípio, como inacreditável, insuperável, maravilhoso e, portanto, invencível: A farsa.
Mikhail Bulgákov
As peripécias do Demônio acabam por revela-lo a todos aqueles que cruzam seu caminho e que atônitos passaram o resto de suas vidas traumatizados pela perturbadora sensação de que ele jamais os deixará. Satanás é um espelho. Na obra ele surge como um mago, incita os homens e realiza desejos. No entanto, tais realizações são tão frágeis quanto o caráter dos felizardos.  Wolland, o professor demoníaco, e seu séquito escolhem suas vítimas na maquiada sociedade socialista, cuja adesão ao regime se dá muito mais pelo medo que pelo compromisso com a causa, e os instiga a derrubarem suas máscaras e revelarem a pérfida alma egoísta que habita cada um. Ninguém, absolutamente ninguém, resiste aos dólares, às roupas parisienses, a luxúria e a oportunidade de satisfazerem seus impulsos de consumo.  Mesmo que isso signifique uma declaração de ódio à causa comunista. E assim, os camaradas vão caindo. Não diante do irreal ou do fantástico “Ser” que surge numa tarde quente de Moscou, mas sim, diante do Demônio que sempre estivera instaurado dentro de si.
Os heróis da trama são justamente “O Mestre” e sua amada “Margarida” que, aliam-se ao Demônio não por suas almas fétidas e sandias, mas, ao contrário, pela pureza e verdade de seus sentimentos.  O primeiro, por romancear a vida de Pôncio Pilatos, recebe como punição a indiferença da sociedade intelectual e críticas que o eliminam do cenário cultural bolchevique. Na impossibilidade de prever outros caminhos, que na verdade não haviam, ele enlouquece e queima sua obra, desagradando profundamente sua amada, Margarida, que por sua vez é casada e vive uma vida de prestígio ao lado de um rico russo numa sociedade de “iguais”. Diante do seu quadro de aparente loucura, o Mestre é encaminhado ao hospício pois, além da impossibilidade de viver sem sua amada, acaba por afirmar que conhecera o Diabo. Margarida, na busca incessante para reencontrar seu Mestre querido, sucumbi a tentação de Satanás e, por amor, aceita abrir mão de toda e qualquer aparência social em busca do seu objetivo.  Duas almas puras que a corrupção humana, violentamente, separara em nome de interesses mesquinhos, na defesa de uma causa de adesão falsa. Para o Mestre e Margarida Satanás não se mostra austero, não assusta e muito menos representa o Mal. Isso porque a realidade de suas vidas, antes do mágico encontro com Wolland, era bem mais assustadora.
Pilatos e a primeira audiência de Yeshua
Paralelo ao enredo carregado de símbolos que revela as relações corrupta da sociedade, há a revisão histórica da vida de Pilatos e Mateus Levi. O apóstolo, acusado por Cristo de ser um falso marqueteiro de seus feitos, destaca-se pela sua fidelidade e resignação aos propósitos de Yeshua. Nessa releitura, Pilatos surge como alguém que fez o possível para que Jesus não fosse condenado, por entender que esse não oferecia nenhum mal aos interesses de Roma, e que a decisão de Caifás, um corrupto religioso da época, era irresponsável, já que condenaria a morte um homem sem crimes para satisfazer sua leitura arbitrária e equivocada de Davi. Yeshua, com sua simplicidade e retórica, perturbou Pilatos por muitos anos. O procurador, assim que Pôncio é chamado em grande parte do romance, não teria mais paz, mesmo depois de sua morte, que aliás nunca fora mencionada. 
A Moscou, repleta por corruptos como Caifás, agora revivia o embate entre Pilatos e Levi. No passado, o procurador ofereceu a Matheus a liberdade e a realização de todos os seus desejos e recebeu do discípulo um categórico NÃO. Matheus estava decidido a redimir-se do mal feito ao seu Mestre com devoção incorruptível. Este ato aprofunda ainda mais Pôncio na melancólica e efêmera cova aberta de sua alma. No reencontro, Levi pede a Wolland que leve os heróis com ele, pedido atendido com prazer pelo Demônio, pois, depois de tanto tempo, a alma pura e sincera daqueles jovens, flutuava acima do ar contaminado moscovita, assim como pura era o semblante, o coração e a memória de Yeshua. Ou seja, aqueles amantes deram a Pilatos a possibilidade de sua redenção. Salvá-los foi a sua contribuição para os desígnios de Jesus que, como retribuição, deu ao Mestre e a Margarida o poder de libertá-lo.
A obra é carregada de símbolos cuja interpretação requer anos de análise, talvez por isso esse livro, mesmo depois de tanto tempo escrito, carregue em si a áurea dos grandes clássicos.
Dentre os inúmeros personagens de destaque do romance, gostaria, para finalizar, de falar brevemente de um que chamou muito minha atenção. Trata-se de Artchibald Artchibádovitch cuja admiração do narrador parece não ter fim. Personagem de grande importância para a engrenagem do sistema social, respeitado pelos intelectuais e políticos de Moscou, é proprietário de um restaurante na Sandovia, importante avenida moscovita, conhecido por reunir a nata da sociedade socialista. Esse personagem surge em dois momentos e apresenta práticas curiosas. Na primeira ele humilha um funcionário e o constrange na frente de todos, revelando sua autoridade e violência, sem abalar, contudo, a admiração dos outros e do narrador. No segundo momento, próximo ao desfecho do romance, ele flerta com Korôviev e Behemoth, membros da trupe do Demônio, e os auxilia na destruição do restaurante, sem deixar suspeitas sobre si, fugindo do local de destruição com um breve sorriso no rosto e ainda sendo admirado por todos. Esse Artchibald Artchibádovitch é uma figura emblemática. Pois mesmo diante de tantas agressões claras aos interesses do Partido Comunista, mesmo diante de auxílio aos estrangeiros que fulminaram a racionalidade dos “camaradas”, ele ainda é reconhecido como um grande homem, um admirável cidadão, um alguém acima de qualquer suspeita.
Satanás respeita Artchibald porque vê nele um ser que de tão escrachado em suas atitudes macabras acaba por cegar aos seus próximos, como se fosse um anjo caído, que ninguém jamais presenciou a queda. Quantos desses não conhecemos entre nós? E por que nunca são pegos? Depois de ler o livro comecei a achar que eles talvez tenham mesmo um pacto.
Concluo, com minha leitura, que a crítica de Bulgákov não é mesmo ao ideal comunista, ou ainda aos pensamentos de Marx, como alguns maldosos capitalistas presumem ao resenharem o livro. Trata-se de um modelo de sociedade corrupta que se revela viva e crescente nos espaços onde o Demônio, com seus fetiches e prazeres, corrompe milhares de almas diariamente e que infesta as crenças em ideologias transformadoras ao desvirtuar e marginalizar os poucos humanos que ainda acreditam em Deus. Para um ateu convicto como eu, a conclusão de uma leitura orientada por termos como “Diabo” e “Deus” não parece muito coerente, então lhe peço, leitor benévolo, que substitua esses verbetes, aqui registrados, por “Capitalismo” e “Amor”. Não tenho aqui a pretensão de dizer verdades ou mentiras, é só uma opinião de um jovem leitor que acabou de tomar um suco de damasco com espuma, e que entorpecido pela madrugada fria na serra, decidiu encerrar suas elucubrações e descansar. A distância ouço alguns soluços, silêncios da noite e a voz quente do professor Wolland:
- A aula acabou!
  
Itapecerica da Serra, 05 de Agosto de 2014


*A banda Rolling Stones se inspirou nessa obra para a composição de um de seus maiores clássicos Sympathy For The Devil.

Soneto



Volto ao poema e ao canto.
Gorjeio em letras imprecisas.
Teço pra ti esta veste e tanto
laureio pelo biênio de guarida.



Você que mil beijos macios
guardou nos meus lábios de relevos
turvados, delgados e sandios...     
notas breves, ária e enredos.



Guardo um invólucro delicado
cravado em mim naquele dia
...de seu toque, seu cuidado.



Grandes e perpétuas profecias
cunham em ouro cintilado
...nesse sonho de sua autoria.



Ari Mascarenhas