UM TUCANO
Numa alvorada incerta,
um tucano de asas claras
riscou meu amanhecer.
solavancos sonoros dispersos.
solene e sombrio.
pousara em meu varal.
de minhas pernas vacilantes,
achei que o ouvi soltar
cantigas de povos distantes;
de almas antigas.
Com o abrir do grande bico
entoava um lirismo familiar.
Uma súplica de meu íntimo,
vozes humanas de uma Itapecerica,
que eu, filho da terra, desconhecia.
pelo sucesso em me acordar.
que lancei em sua direção.
fitou-me brevemente,
abriu uma grande capa
e lançou-se ao vento,
para longe de meu olhar atônito.
Eram tempos em que uma mata viva
enviava mensageiros nas
molduras de minhas manhãs.
o mata borrão verde
que via de minha janela.
Já que em seu lugar,
nasceu uma enorme anaconda
de concreto e asfalto.
um tucano de asas claras
riscou meu amanhecer.
Levantei-me apressado e furioso
com a ave que agredia meus sonhos;solavancos sonoros dispersos.
Quando cheguei ao quintal,
deparei-me com um gemidosolene e sombrio.
Uma alma empenada,
de bico baixo e curvado,pousara em meu varal.
Depois do breve susto,
e de recompor a firmezade minhas pernas vacilantes,
achei que o ouvi soltar
cantigas de povos distantes;
de almas antigas.
Com o abrir do grande bico
entoava um lirismo familiar.
Uma súplica de meu íntimo,
vozes humanas de uma Itapecerica,
que eu, filho da terra, desconhecia.
Vozes de avós.
Reparei em seu olhar de escanteio,
refletindo um brilho glorioso,pelo sucesso em me acordar.
“Maldita galinha preta e bicuda!”
Esbravejei acompanhado de algo qualquerque lancei em sua direção.
Esquivou-se de minha cólera,
Com certa tristeza expressa,fitou-me brevemente,
abriu uma grande capa
e lançou-se ao vento,
para longe de meu olhar atônito.
Anos depois compreendi
aquela visita matinal.Eram tempos em que uma mata viva
enviava mensageiros nas
molduras de minhas manhãs.
Ele veio se despedir
e junto foi embora tambémo mata borrão verde
que via de minha janela.
Para onde foram?
Não sei, mas creio que à praia.Já que em seu lugar,
nasceu uma enorme anaconda
de concreto e asfalto.
Um apólogo - Um brevíssimo olhar
Um apólogo - Machado de Assis ( clique nesse título para ouvir o conto)
O autor, ao narrar uma
contenda entre uma linha e uma agulha ( clique no título para ouvir o conto), reforça as relações entre classes
cosidas no pano da realidade. O esforço da agulha, que a seu ver não é
reconhecido como esperara, é responsável pelo sucesso da linha. A matriz de
forças que se estabelece na discussão apresentada no texto, desvela objetivos
individuais responsável pelo afastamento de uma luta unida e focada no
interesse comum. Pode-se perceber esse distanciamento no nas opiniões das
personagens que, por sua vez, encontram ecos nos discursos superficiais e inférteis
que justificam o prazer como sinônimo de sucesso. E para aquele que não
encontra seu lugar nos “espaços” nobres, como convinha desejar a nova classe
dominante, está fadado ao fracasso. Ainda que o conceito de fracasso seja
meramente uma exclusão por forças de modismos e valorização de
superficialidades, como por exemplo, um baile de luxo.
A agulha, soberba no
início, sucumbe em sua condição natural e, ainda como forma de punição, ouve o
discurso moralizante do alfinete.
A moral da história,
retratada no fim do conto, dá-se pela constatação de que a união das classes,
ou a ausência delas (as classes), revelaria uma força cooperativa tão, ou mais,
eficiente que o modelo exploratório existente; e que a harmonia entre as
diferenças é a única forma de encontrarmos no equilíbrio do trabalho a
libertação dos seres, “bailando num belo rodado de um vestido de baile”. Ou
seja, apenas essa harmonização, ainda que utópica, pode nos oferecer motivos
verdadeiros para que possamos nos orgulhar.
Um mundo onde o meu
sucesso seja fruto do sucesso alheio. Onde a sociedade possa brilhar tão forte
que ninguém se preocupará em iluminar obscuridades existenciais com seu pequeno
e inócuo feixe de luz.
Soneto do credo amoroso
Era para se crer
no amor real,
se real fosse
não carecia de crer.
Um amor que não
se viva por igual,
do pôr-do-sol ao
rubro amanhecer.
No amor que se
esvai na juventude,
ou que não se
fortifica na convivência.
Naquele “na
doença e na saúde”,
ou na pura
paixão e na indecência.
Crer no amor que
se vive,
ou recordar do “bom”
que se viveu,
é a lufada de ar fresco que tive.
Pois ao sonhador
que não se perdeu,
ou quem nada em
seu peito reprime,
o Amor é o encanto que o medo venceu.
Violeta Pandolfi
Soneto de Aproximação
Em um sítio de
constante lavor,
onde forma a
opressão operária,
desce, incandescente,
o lívido amor!
Feixe leve, que sob a brisa se espalha.
Iluminado,
envolvido, agora fico,
e pouco vejo,
além de seu olhar.
Nas dependências
físicas onde existo,
sinto meu corpo,
levemente, levitar.
E, com calma,
posto-me de aproximado.
Ante o espanto
que me deixara alerta,
dirijo-me à musa
com desejo e cuidado.
Precavi-me, não
convencido de decisão certa
Mais por medo de
por ti ser machucado
Por seu envolto
perfume e encanto de Roberta.
Ari Mascarenhas
Ari Mascarenhas
NÓS MATÁMOS O CÃO TINHOSO - Texto na íntegra
NÓS MATÁMOS O CÃO TINHOSO
Conto de LUÍS BERNARDO HONWANA
O Cão-Tinhoso tinha uns olhos azuis que não tinham brilho nenhum, mas eram enormes e estavam sempre cheios de lágrimas, que lhe escorriam pelo focinho. Metiam medo aqueles olhos, assim tão grandes, a olhar como uma pessoa a pedir qualquer coisa sem querer dizer.
Conto de LUÍS BERNARDO HONWANA
O Cão-Tinhoso tinha uns olhos
azuis...
O Cão-Tinhoso tinha uns olhos azuis que não tinham brilho nenhum, mas eram enormes e estavam sempre cheios de lágrimas, que lhe escorriam pelo focinho. Metiam medo aqueles olhos, assim tão grandes, a olhar como uma pessoa a pedir qualquer coisa sem querer dizer.
Eu via todos os dias o Cão-Tinhoso
a andar pela sombra do muro em volta do pátio da Escola, a ir para o canto das
camas de poeira das galinhas do Senhor Professor. As galinhas nem fugiam,
porque ele não se metia com elas, sempre a andar devagar, à procura de uma cama
de poeira que não estivesse ocupada.
QUER LER O TEXTO NA ÍNTEGRA? ENTÃO ACESSE, NO MENU SUPERIOR DESSE BLOG, A PÁGINA DEDICADA À OBRA.
BOA LEITURA!
Itapecerica – decadência e hipocrisia (notas de um nativo).
A cidade onde vivo já teve tempos melhores. Itapecerica
da Serra, nos áureos anos das corridas de carros, era exatamente como uma
pequena vila deve ser: um ou outro comércio, famílias que se conhecem, pouca
pavimentação e o serviço básico de atendimento para seus moradores. À medida
que o tempo foi passando, a cidade foi inchando. Isso mesmo, Itapecerica
inchou, não prosperou.
Milhares de pessoas chegaram à região incentivados
pela especulação imobiliária que por sua vez foi corroendo o que nos restava de
mata atlântica. Mas os serviços não foram adequados para o desenvolvimento que
se promovia. O comércio capengou por anos e hoje também faz parte dessa grande
bolha que para alguns convém chamar de progresso.
Ao passear por minha cidade vejo as marcas do desprezo
em quase todas as ruas e vielas, e não se trata de um problema pautado na
administração atual, mas no conceito de administração que rege essa provinciana
comunidade. O pensamento do “quanto menos pior melhor” presente no discurso das
pessoas que sobrevivem de maneira esmoleira aos caprichos dos seus dirigentes,
o temor de uma transformação que coloque em risco determinadas regalias de
classes abastadas e, sobretudo a indiferença com que tratam o cidadão
itapecericano e todos os potenciais artísticos, econômicos e sociais de nosso
município.
A rede de saúde e de ensino é precária e não atende de
forma satisfatória nem aqueles que utilizam esporadicamente seus serviços.
Filas e filas nas madrugadas, às vezes chuvosas, ao lado do posto de saúde
central. Os corpos enfermos nos corredores do hospital e do pronto socorro.
Horas para atendimentos simples e meses para consultas mais sérias. Escolas em
visível decadência, professores sem preparo, salários cômicos e estruturas
ridículas que nada acrescentam no aprendizado dos alunos.
Uma cidade triste por natureza, de pessoas cabisbaixas
pelas ruas, de políticos mal intencionados, de uma burguesia bem estabelecida (alguém
sempre lucra com o caos), de corruptos imunes, de um clero hipócrita, de uma
cultura abandonada, de uma história esquecida, de um presente sem comemoração
alguma. Ou seja, a cidade onde moro é um amontoado de pessoas e problemas, em
alguns pontos chega a se assemelhar aos campos de concentração nazistas. Se
alguém discorda, dê uma passadinha em bairros do distrito do Jacira, por
exemplo. Ou seja, Itapecerica é uma bela maquete de um país como o nosso. O
sudeste, região aqui representada pelo Delfim Verde, se esbalda nas riquezas
adquiridas com a exploração do restante da região. Mas quando questionados,
sobre os enriquecimentos assustadores diante de misérias tão gritantes, o
discurso é sempre o mesmo: - O Brasil está crescendo.
Itapecerica da Serra é um mórbido instantâneo do
abandono. O que existem de bom aqui? Perguntaram-me alguns schopenhauerianos de plantão, e eu responderei que se pode
valorizar alguns poucos aspectos dessa pedra, e um deles é a resistência que
alguns artistas promovem em seus discursos estilísticos revoltosos, que propõe
mudanças possíveis e que assumem os seus telhados de vidro. Itapecerica ainda
tem matas, ainda tem nascentes, ainda tem pessoas de bom coração, ainda tem
grupos comprometidos com o seu crescimento, mas tudo isso por enquanto, já que
a vertiginosa queda em que estamos, e sua íngreme loucura, em breve não nos permitirá
sequer escrever um único parágrafo de uma nostalgia positiva em um artigo de
opinião intitulado “o espaço onde vivo”.
(Ari Mascarenhas - 04/2013)
O poeta*
À Manoel de Barros
Aprender a escrever logo e contar os encantos com os raros
brinquedos que tive.
Juntar as palavras e guarda-las no papel; depois por uma
capa bonita, com desenhos do meu irmão, e descansa-las nesse álbum na estante
de casa.
(...) entre Júlio
Verne e Lewis Carrol, deixar meu livro curtir, como deliciosas batatinhas de
festa de aniversário, que respingam nos dedos e nos palitos atravessados.
Depois de um tempo, ou de muito tempo, folhear suas páginas
amareladas, com uma saudade rubra na face e a certeza de que meus dias mais
felizes ficaram ali.
Que meu quintal encantado, onde vivi minhas primeiras
descobertas, se refaria.
Meu quarto aquecido, onde criei todas as minhas estórias,
repousaria na página dez.
Mas a cada página virada, diante de um tantão de cores e
formas ressuscitadas em meus olhos, pude
ver, no espelho de uma dispersa lágrima de alegria, que o mais importante eu
consegui...
Cresci e não virei poeta, mas jamais deixei de ser criança.
Ari Mascarenhas
*texto lido na abertura do Sarau sem pecado - realizado em Junho no Colégio Morumbi Sul
Nota de uma sexta chuvosa
A
vida é cheia de surpresas, boas e ruins. Ainda que queiramos apenas as boas,
surpresas são surpresas e, independente de gostarmos ou não a função delas é
nos surpreender. Quando boas, comemoramos, ruborizamos e ficamos satisfeitos
com nossas escolhas... As surpresas boas têm o poder de consolidar nossos
caminhos. Funcionam como uma espécie de “selo de qualidade” que fortifica
nossas escolhas e nos faz acreditar que a vida vale muito a pena. Elas são
esperadas, por mais que sejam surpresas, e quando chegam causam aquela sensação
de que todos os desafios são justificáveis, que todo medo é válido, que todo
cansaço é remunerado. As surpresas boas nos fazem sorrir, abraçar, amar ainda
mais aquilo (aqueles) que já amamos, nos faz crer em nossos sonhos e,
principalmente, nos enche de vida por nos permitir criar novos sonhos. Enfim,
as surpresas boas são aquelas que consideramos necessárias para continuarmos
nos trilhos traçados. Afirmo isso porque penso também nas ruins.
As
surpresas ruins nos faz repensar nossas escolhas, nos entristece, nos desanima,
nos forçam a esquecer do que temos de bom, nos enfraquece, nos derruba, nos atrasa,
nos envelhece, nos obriga a acreditar que tudo está errado em nossas vidas. Mas
uma coisa boa tem nas surpresas ruins: Comparadas as boas elas são minorias. E
mais, podem ser transformadas em boas, se estivermos preparados, não para as
surpresas – cuja natureza não permite preparo – mas para os efeitos delas. De
repente, uma dor pode ser convertida com a capacidade de suportá-la, um medo
pode ser um desafio, um susto funciona como um alerta, uma morte como uma
revelação, como se a voltássemos a ter consciência de que somos frágeis e
pequenos nesse planeta, mas que ao mesmo tempo somos os condutores de nossas
vidas. Responsáveis pelas alegrias e pela predisposição em aproveitá-la.
As
surpresas boas ou ruins fazem parte de nossas vidas. Devemos geri-las, ou
digeri-las na medida em que surgem. As tramas entrelaçadas, entre aquilo que
chega e o que se vai, são responsáveis por definir esse longo texto que se
chama vida. Nós não fazemos a linha, mas somos os costureiros da peça que pode
nos aquecer, ser aconchegante e perfumada, ou do pano que, na forca do
desespero, servirá para sustentar o corpo imóvel, desanimado, resultante de uma
soma de surpresas mal compreendidas. Superar as surpresas ruins ou
transformá-las em boas é um sinal de maturidade. Ser maduro e entender que a
vida pode ser uma caixinha de surpresas, mas que nem sempre ela surge como um
bom-bocado num celofane atraente. Às vezes, vem só o “bocado”.
ASMC
Nova introspecção
Depois de um longo dia
De trabalho e dúvidas,
Sem luz por alguns minutos
E chuva por muitas horas...
Vejo-me aqui!
Dispensando o tempo roto
Um sustenta e o outro transpira
Este breve corpo sem ambição.
O silêncio que foge da rotina
Me devolve aos tempos
Que sempre quis abandonar.
Vendo as esculturas de Bretão
Sinto um desejo animal
De escrever um pouco de bagatelas,
Pra poder dizer que esse sou eu...
Cheio de nada e um nada de tudo!
Exercendo a doce arte do ócio,
Que salva meus dedos da necrose
Produto de uma mente em desuso.
(Ari Mascarenhas - 09/06/2015)
Rascunho
Queria escrever um poema direto,
sem rasuras ou resenhas,
rascunhos...
um próprio poema solto,
correndo o risco de desaparecer.
Um simples vírus, uma bomba,
ou ainda, um nada
que "desvirtualizaria" toda a criação,
quanta emoção!
A capacidade de criar sem deixar marcas me instiga.
Provoca em mim uma série de desejos,
impulsos, vontades selvagens...
vontade de despejar meus dedos sobre o teclado
e deixar fluir palavras, imaginadas,
cuja a única marca, que servirá como prova de que um dia existiram, simplesmente desaparecerá...
num espirro, num sussurro, num murro!
E quando tudo se desfizer em morfemas perdidos serei mais completo do que nunca.
Viverei a verdadeira liberdade
ao me livras de toda matéria poética,
quando todas as notas tocarem,
ficando apenas a sensação de que se ouviu um som.
de onde?
cadê?
Os versos se perderam e eu nem sei o porquê!
Minha tensa tentativa de pôr em prática certos pontos,
aqui se fizeram inteiros e consagraram-se em poesia.
Sem rascunhos, sem rasuras, só poesia, solta, pra ser lida e depois...foi...
Quem um dia se lembrará de ter lido isso?
Ari Mascarenhas 02/06/2015
A arte de contar histórias
Caros leitores do meu blog e que me acompanham nas redes sociais, tenho ouvido com frequência pedidos para que eu publicasse minha dissertação de mestrado. Pois bem, a USP fez isso por mim (rsrs). Já está disponível na biblioteca virtual da universidade.
Como lá não é possível tecer comentários, criei esse post no meu blog para que todos possam deixar suas impressões, críticas e sugestões.
Segue o link da postagem: http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8156/tde-27032015-144818/pt-br.php
Fiquem à vontade e boa leitura!
Como lá não é possível tecer comentários, criei esse post no meu blog para que todos possam deixar suas impressões, críticas e sugestões.
Segue o link da postagem: http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8156/tde-27032015-144818/pt-br.php
Fiquem à vontade e boa leitura!
Morrendo de Amor
Certo!
Quer
falar de amor?
Quer
falar do ser?
E
ser o que o amor deseja?
Certo!
Façamos!
Digo
que vivi grandes paixões
Que
viraram grandes tolices
E as paixões, travestidas de amor, fecundaram grande
angústia quando se revelaram passageiras.
Sozinho, toda vez que um verão passava, eu me
perguntava: Isso foi amor?
Meu ingênuo coração triste, minha frágil existência se
contorcia a cada canção que lembrava os beijos dela.
De íntimo ferido entregava-me a cada crepúsculo;
Matando-me diariamente.
Até o dia em que um adulto me disse: - Você cresceu
meu menino!
E hoje, sério e racional com as coisas do coração,
Sinto tanta falta do tempo em que qualquer paixão, por
menor que fosse, me fazia morrer de amor.
Ari Mascarenhas
Amar é desarmar
Eram flores ideológicas, se
fizeram pétalas perfumadas.
Eram ascos sonoros, se fizeram
recepções respeitosas.
Eram gritos profanos, se fizeram
sussurros prudentes.
Era tão desumano, mas sempre com
uma retórica caprichosa.
Era armado, pronto pra batalha.
Armado e vergado, como uma arapuca
de cipó.
Seco e alinhado, numa trilha de um
tatu qualquer.
Resistente a vendavais, chuvas e
tropeços desatentos de humanos dispersos.
Forte, rijo, geométrico; bem ali,
no meio do caminho.
Mas tanta resistência não foi
suficiente para um sopro de amor,
Um sopro simples, leve e afônico.
Um sopro de harmonia divina e
cintilante.
Que chegou sorrateiro em um dia
Um dia-amante, um diamante.
Desses que nos assaltam e projetam
novos tempos,
Num único instante, num único
olhar.
E de lá pra cá tudo o que era
velho se esvaio,
deixando um grande vale para nosso
plantio.
Verdejantes mantos que nos
aqueceram
Na eternidade de nossos
sentimentos.
Foi por terra valores empapados,
Empecilhos de um tempo de poeira
Necessidade de se desarmar de
velhas crenças
Para amar de forma verdadeira.
Ari Mascarenhas
Aos poucos ELE se apresenta e as Pedras Rolam (Rolling Stones)*. - Uma breve leitura do romance "O mestre e Margarida" de Mikhail Bulgákov
Acabo
de ter uma aula com o professor Wolland e tenho algumas coisas a dizer. ...
Quando
peguei em mãos a obra “O Mestre e Margarida” de Mikhail Bulgákov (1891-1940)
estava preparado para ler uma crítica ferrenha ao “comunismo” russo conforme
haviam me indicado. Por conta de minhas
ideologias de esquerda a leitura dessa obra seria um grande desafio, pois,
ainda que eu me considere uma pessoa aberta às críticas, é certo que elas
precisam vir acompanhadas de bons argumentos, do contrário, eu abandonaria o
livro nas primeiras páginas. Mas, ainda no primeiro capítulo, quando o
professor é apresentado ao crítico e ao poeta, fiquei certo de uma coisa: Não
se tratava de um romance que criticaria o regime soviético, mas sim uma crítica
à corrupção humana, independente de sua opção política.
![]() |
| Edição 2009 |
O
livro pode ser classificado como realismo fantástico em partes. Quero dizer, ao
tempo em que vislumbramos uma descrição profunda do narrador e uma tentativa de
ambientalisar a narrativa na sociedade moscovita do início do século XX, ele
nos carrega, de maneira delirante, ao universo paralelo da fantasia e do
surrealismo, sempre dotado de uma criticidade ácida aliviada por uma animação
simbólica que remonta cenários da Disney e dos irmãos Grimm.
NOTA:
Se o leitor dessa singela nota quiser conhecer o enredo do romance, sugiro que
o leia. Afinal, ninguém é mais apropriado para lhe contar isso que o próprio Bulgákov.
O que pretendo expor nessas linhas é uma interpretação do que me foi
apresentado pelo autor.
Já
nos primeiros capítulos é possível notar a impotência das ideologias humanas,
manipuladas de acordo com o interesse dos políticos, diante da sagacidade do Demônio.
Sobretudo porque ele não dispõe de armas celestiais ou argumentos infalíveis capazes
de convencer a humanidade de suas verdades, mas sim porque ele usa a maior de
todas as forças contra o homem, cuja potência, ao ser demonstrada, é
reconhecida, a princípio, como inacreditável, insuperável, maravilhoso e,
portanto, invencível: A farsa.
![]() |
| Mikhail Bulgákov |
As
peripécias do Demônio acabam por revela-lo a todos aqueles que cruzam seu
caminho e que atônitos passaram o resto de suas vidas traumatizados pela
perturbadora sensação de que ele jamais os deixará. Satanás é um espelho. Na
obra ele surge como um mago, incita os homens e realiza desejos. No entanto,
tais realizações são tão frágeis quanto o caráter dos felizardos. Wolland, o professor demoníaco, e seu séquito
escolhem suas vítimas na maquiada sociedade socialista, cuja adesão ao regime
se dá muito mais pelo medo que pelo compromisso com a causa, e os instiga a
derrubarem suas máscaras e revelarem a pérfida alma egoísta que habita cada um.
Ninguém, absolutamente ninguém, resiste aos dólares, às roupas parisienses, a
luxúria e a oportunidade de satisfazerem seus impulsos de consumo. Mesmo que isso signifique uma declaração de
ódio à causa comunista. E assim, os camaradas vão caindo. Não diante do irreal
ou do fantástico “Ser” que surge numa tarde quente de Moscou, mas sim, diante
do Demônio que sempre estivera instaurado dentro de si.
Os
heróis da trama são justamente “O Mestre” e sua amada “Margarida” que, aliam-se
ao Demônio não por suas almas fétidas e sandias, mas, ao contrário, pela pureza
e verdade de seus sentimentos. O primeiro,
por romancear a vida de Pôncio Pilatos, recebe como punição a indiferença da
sociedade intelectual e críticas que o eliminam do cenário cultural
bolchevique. Na impossibilidade de prever outros caminhos, que na verdade não
haviam, ele enlouquece e queima sua obra, desagradando profundamente sua amada,
Margarida, que por sua vez é casada e vive uma vida de prestígio ao lado de um
rico russo numa sociedade de “iguais”. Diante do seu quadro de aparente
loucura, o Mestre é encaminhado ao hospício pois, além da impossibilidade de
viver sem sua amada, acaba por afirmar que conhecera o Diabo. Margarida, na
busca incessante para reencontrar seu Mestre querido, sucumbi a tentação de Satanás
e, por amor, aceita abrir mão de toda e qualquer aparência social em busca do
seu objetivo. Duas almas puras que a
corrupção humana, violentamente, separara em nome de interesses mesquinhos, na
defesa de uma causa de adesão falsa. Para o Mestre e Margarida Satanás não se
mostra austero, não assusta e muito menos representa o Mal. Isso porque a
realidade de suas vidas, antes do mágico encontro com Wolland, era bem mais
assustadora.
![]() |
| Pilatos e a primeira audiência de Yeshua |
Paralelo
ao enredo carregado de símbolos que revela as relações corrupta da sociedade,
há a revisão histórica da vida de Pilatos e Mateus Levi. O apóstolo, acusado
por Cristo de ser um falso marqueteiro de seus feitos, destaca-se pela sua
fidelidade e resignação aos propósitos de Yeshua. Nessa releitura, Pilatos
surge como alguém que fez o possível para que Jesus não fosse condenado, por
entender que esse não oferecia nenhum mal aos interesses de Roma, e que a
decisão de Caifás, um corrupto religioso da época, era irresponsável, já que
condenaria a morte um homem sem crimes para satisfazer sua leitura arbitrária e
equivocada de Davi. Yeshua, com sua simplicidade e retórica, perturbou Pilatos
por muitos anos. O procurador, assim que Pôncio é chamado em grande parte do
romance, não teria mais paz, mesmo depois de sua morte, que aliás nunca fora
mencionada.
A
Moscou, repleta por corruptos como Caifás, agora revivia o embate entre Pilatos
e Levi. No passado, o procurador ofereceu a Matheus a liberdade e a realização
de todos os seus desejos e recebeu do discípulo um categórico NÃO. Matheus
estava decidido a redimir-se do mal feito ao seu Mestre com devoção
incorruptível. Este ato aprofunda ainda mais Pôncio na melancólica e efêmera
cova aberta de sua alma. No reencontro, Levi pede a Wolland que leve os heróis
com ele, pedido atendido com prazer pelo Demônio, pois, depois de tanto tempo,
a alma pura e sincera daqueles jovens, flutuava acima do ar contaminado
moscovita, assim como pura era o semblante, o coração e a memória de Yeshua. Ou
seja, aqueles amantes deram a Pilatos a possibilidade de sua redenção.
Salvá-los foi a sua contribuição para os desígnios de Jesus que, como retribuição,
deu ao Mestre e a Margarida o poder de libertá-lo.
A
obra é carregada de símbolos cuja interpretação requer anos de análise, talvez
por isso esse livro, mesmo depois de tanto tempo escrito, carregue em si a
áurea dos grandes clássicos.
Dentre
os inúmeros personagens de destaque do romance, gostaria, para finalizar, de
falar brevemente de um que chamou muito minha atenção. Trata-se de Artchibald
Artchibádovitch cuja admiração do narrador parece não ter fim. Personagem de grande
importância para a engrenagem do sistema social, respeitado pelos intelectuais
e políticos de Moscou, é proprietário de um restaurante na Sandovia, importante
avenida moscovita, conhecido por reunir a nata da sociedade socialista. Esse personagem
surge em dois momentos e apresenta práticas curiosas. Na primeira ele humilha
um funcionário e o constrange na frente de todos, revelando sua autoridade e
violência, sem abalar, contudo, a admiração dos outros e do narrador. No
segundo momento, próximo ao desfecho do romance, ele flerta com Korôviev e
Behemoth, membros da trupe do Demônio, e os auxilia na destruição do
restaurante, sem deixar suspeitas sobre si, fugindo do local de destruição com
um breve sorriso no rosto e ainda sendo admirado por todos. Esse Artchibald
Artchibádovitch é uma figura emblemática. Pois mesmo diante de tantas agressões
claras aos interesses do Partido Comunista, mesmo diante de auxílio aos
estrangeiros que fulminaram a racionalidade dos “camaradas”, ele ainda é
reconhecido como um grande homem, um admirável cidadão, um alguém acima de
qualquer suspeita.
Satanás
respeita Artchibald porque vê nele um ser que de tão escrachado em suas
atitudes macabras acaba por cegar aos seus próximos, como se fosse um anjo
caído, que ninguém jamais presenciou a queda. Quantos desses não conhecemos
entre nós? E por que nunca são pegos? Depois de ler o livro comecei a achar que
eles talvez tenham mesmo um pacto.
Concluo,
com minha leitura, que a crítica de Bulgákov não é mesmo ao ideal comunista, ou
ainda aos pensamentos de Marx, como alguns maldosos capitalistas presumem ao resenharem
o livro. Trata-se de um modelo de sociedade corrupta que se revela viva e
crescente nos espaços onde o Demônio, com seus fetiches e prazeres, corrompe
milhares de almas diariamente e que infesta as crenças em ideologias
transformadoras ao desvirtuar e marginalizar os poucos humanos que ainda
acreditam em Deus. Para um ateu convicto como eu, a conclusão de uma leitura
orientada por termos como “Diabo” e “Deus” não parece muito coerente, então lhe
peço, leitor benévolo, que substitua esses verbetes, aqui registrados, por “Capitalismo”
e “Amor”. Não tenho aqui a pretensão de dizer verdades ou mentiras, é só uma
opinião de um jovem leitor que acabou de tomar um suco de damasco com espuma, e
que entorpecido pela madrugada fria na serra, decidiu encerrar suas
elucubrações e descansar. A distância ouço alguns soluços, silêncios da noite e
a voz quente do professor Wolland:
-
A aula acabou!
Itapecerica
da Serra, 05 de Agosto de 2014
*A banda Rolling Stones se inspirou
nessa obra para a composição de um de seus maiores clássicos Sympathy For The
Devil.
Assinar:
Postagens (Atom)












