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Ari Mascarenhas
Podcast Piloto
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Ari Mascarenhas
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"Um Deus e seus demônios"
"Um Deus e seus demônios" - Uma breve leitura de O Evangelho Segundo Jesus Cristo de José Saramago.
Os dejetos
humanos são insuflados nas figuras de suas divindades. A perfeição utópica do
espírito dos homens não ecoa na configuração daquilo que lhe é supremo,
absoluto, onipresente. Esta obra revela, de maneira chocante- por aquebrantar
as cápsulas humanas de autoproteção e egocentrismo- o que existe de pior em um deus comprometido
com os valores mundanos de sua própria configuração. Não se poderia esperar uma
confecção mais humana de um Messias sem
a aproximação daquele que lhe enviou. Cito, para facilitar a comparação, os
inúmeros semideuses mitológicos que serviam aos anseios, desejos e vícios de
seus criadores. Esses deuses eram puras alegorias de sentimentos humanos que flanavam
entre a nobreza do amor e a grotesca inveja. Deuses que brincavam com os
humanos e, vez ou outra, infiltravam entre estes suas marionetes veladas. Jesus
é uma marionete de um ser tirano e assustadoramente autoritário, capaz de
destruir toda a humanidade apenas para atender aos desejos mais mesquinhos e
doentios que uma mente humana poderia criar. Nesse grande jogo de insinuações,
blefes, traições e muitas humilhações existem dois polos insofríveis por se
pautarem em mecanismos bem distintos: de um lado a completa ignorância, sempre
salvadora e ingênua, e do outro, o mais completo autoritarismo, intransigente,
característico de um humor sofrível que se pauta na tragédia alheia.
Mas entre os
polos, eis que existe o Meio. “Eu sou o
caminho, a verdade e a Vida” – A vida aqui é o meio, a transição, o processo de
mudança, o Grande Milagre que fora criado por capricho e não por necessidade. E
aqui está todo o drama de Jesus ( por vezes do próprio Diabo): Ter conhecimento
do Jogo e se ver completamente impotente para mudá-lo. O romance mostra um Messias, com poder de
curar, fazer milagres, mas não mudar as regras de um jogo insano.
Em “O evangelho
segundo Jesus Cristo”, José Saramago nos fornece instrumentos para refletir
sobre uma perspectiva diferente a respeito do sacrifício cristão e de seus
algozes. E mais, do meu ponto de vista, nos oferece uma coerente justificativa
para a reprodução de uma divindade unificada que, diferentemente daquilo que
nos vendem as igrejas cristãs, concatena-se em si as qualidades e os defeitos
antes bem distribuídos entre as divindades pagãs e até mesmo pertencentes às
sociedades maternas do berço da civilização ocidental. Ao suplicar aos homens
para que perdoe Deus, Jesus Cristo se torna o nosso cordeiro, aquele que
sacrificamos para continuar a crer e seguir o Deus que melhor nos representa,
com as características que nossa civilização, mesmo sem assumir tanto admira:
Autoritário, egocêntrico, Violento, impassível e, principalmente, Vingativo.
Um livro que
vale a pena cada passagem, cada parágrafo, por sua provocação e,
principalmente, pela releitura contextualizada da mais importante de nossa
humanidade nos últimos 2000 anos.
As ruas de minha antiga cidade
As ruas de
minha antiga cidade sempre despertaram diversas sensações nos seus moradores
mais antigos. Uns entoavam cantos as suas nostálgicas infâncias, outros
preferiam contemplar o passado em silêncio e veneração, havia até aqueles que
jamais confessaram seus devaneios e, numa redoma solitária, guardavam o tesouro
de suas memórias. Eu, que desde criança caminhei por esses ladrilhos, jamais
imaginei que faria parte do grupo de pessoas que lamentavam os tempos idos. Não
porque meu presente pouco se assemelha àquele lugar seguro; mas, prefiro crer,
que seja uma jornada insípida, delicada e sem volta.
Meu passado, incrustrado
nas lajotas dessas ruas, ressoam o que de melhor eu deixei na vida. Tais ecos
não surgem nos atos, nem mesmo nas relações, mas sim nas experiências que vivi.
Cada rua
deserta, cada asfalto rachado testemunhou as noites gatunas que experimentei na
adolescência. Cada neon ofuscado, cada poste ensebado pela cola dos
lambe-lambes são testemunhas de um "eu" que não se perdeu no
presente, apenas se apagou ante as aparências de um homem responsável, cuja
finalidade é ilustrar uma sociedade esvaziada de sensações e embalsamada em
suas hipócritas leis.
Ari Mascarenhas
Foto: (http://www.rmgouvealeiloes.com.br/catalogo)
Homem que amava os cachorros - bom, sem Réquiem.
O livro descreve, em detalhes,
três perspectivas interessantes sobre a barbárie stalinista e a adesão dos
"comunistas" ingênuos que defenderam o czar vermelho até o fim. A
perspectiva de Trotsky, da resistência e da luta pelo ideal socialista-marxista
não contaminado pela ambição do ditador do Kremlin; a perspectiva de Ramon
Mercader, alienado pela ambição de se tornar um grande herói do regime
soviético, contrariando sua própria natureza comunista que o enraivecia com o
abandono da URSS para com sua famigerada Espanha; e, por fim, a de Ivan,
narrador cubano, que faz uma leitura crítica dos desmandos de Stálin e da
aproximação, no modus operandis, do
ditador soviético com o nazismo alemão. Um livro que vale muito a pena pelo
olhar histórico, pela narrativa muito bem construída; mas, principalmente, pelo
senso crítico que o romance instiga em seus leitores a cada capítulo. Uma
história onde a verdade é clara: A
revolução da classe operária chega ao fim
com a morte de Lênin, na URSS.No geral a obra atende ao propósito de revisitar a história, de forma romanciada, sob diversos olhares; no entanto, o último capítulo, intitulado Réquiem, pareceu-me bastante desnecessário, já que ele desconstrói a importância histórica dos fatos decorridos e supõe que a não existência da prática socialista poderia ter evitado os transtornos oriundos dos desvios. Nesse sentido, Daniel (o personagem) não reconhece a vitalidade da revisitação histórica de aprendizado, e valoriza uma fictícia crença de que o mundo, talvez, seria melhor sem o que ele chama de tragédia dialética. Como se fosse simples, confortável e mais humano a barbárie capitalista, não abordada no livro, por questões óbvias, mas esquecida na penumbra de um olhar parcial que discursa na missa de sepultamento do socialismo. Sem ele, essa conclusão ficaria a cargo do leitor que, a meu ver, teria mais liberdade para escolher. Assim, o capítulo Réquiem é extremamente panfletário e, por sua natureza, desnecessário a uma obra tão interessante quanto provocadora.
Seja Marginal, seja herói. ( uma homenagem ao Chacal)
Seja Marginal, seja herói
bem cantou Chacal
pra mim e pra nóis
o mito da letra imoral,
sobre a força do pavor
que assombra o sistema
o meu canto é encanto
que ameniza o problema
sofro calmo nos versos
calmo canto nas trevas
de jaqueta no vale das letras
de manso, chega, grita e leva.
meu poema não é só discurso
que bate e ecoa no coração
é recado de humildade em curso
pra toca na alma de cada
irmão.
Sou daqui da sul,
sou de qualquer lugar
onde houver oprimido
instalarei meu lar,
porque sou o arauto da miséria
não por opção,
mas por ver tantas idas e
vindas
sem resolução.
escrevo com o impulso do
pensamento
descrevendo as mazelas do meu
sentimento
nesses tempo em que cada um
diz o que pensa
minhas palavras vão soar como
ofensa
mas não se intimide diante da
realidade
minha verborragia emana
verdade.
o projeto aqui é pra
conscientizar, não é pra rir
mas se sentir vontade, pode
aplaudir.
Ari Mascarenhas ( 08/2014)
UM TUCANO
Numa alvorada incerta,
um tucano de asas claras
riscou meu amanhecer.
solavancos sonoros dispersos.
solene e sombrio.
pousara em meu varal.
de minhas pernas vacilantes,
achei que o ouvi soltar
cantigas de povos distantes;
de almas antigas.
Com o abrir do grande bico
entoava um lirismo familiar.
Uma súplica de meu íntimo,
vozes humanas de uma Itapecerica,
que eu, filho da terra, desconhecia.
pelo sucesso em me acordar.
que lancei em sua direção.
fitou-me brevemente,
abriu uma grande capa
e lançou-se ao vento,
para longe de meu olhar atônito.
Eram tempos em que uma mata viva
enviava mensageiros nas
molduras de minhas manhãs.
o mata borrão verde
que via de minha janela.
Já que em seu lugar,
nasceu uma enorme anaconda
de concreto e asfalto.
um tucano de asas claras
riscou meu amanhecer.
Levantei-me apressado e furioso
com a ave que agredia meus sonhos;solavancos sonoros dispersos.
Quando cheguei ao quintal,
deparei-me com um gemidosolene e sombrio.
Uma alma empenada,
de bico baixo e curvado,pousara em meu varal.
Depois do breve susto,
e de recompor a firmezade minhas pernas vacilantes,
achei que o ouvi soltar
cantigas de povos distantes;
de almas antigas.
Com o abrir do grande bico
entoava um lirismo familiar.
Uma súplica de meu íntimo,
vozes humanas de uma Itapecerica,
que eu, filho da terra, desconhecia.
Vozes de avós.
Reparei em seu olhar de escanteio,
refletindo um brilho glorioso,pelo sucesso em me acordar.
“Maldita galinha preta e bicuda!”
Esbravejei acompanhado de algo qualquerque lancei em sua direção.
Esquivou-se de minha cólera,
Com certa tristeza expressa,fitou-me brevemente,
abriu uma grande capa
e lançou-se ao vento,
para longe de meu olhar atônito.
Anos depois compreendi
aquela visita matinal.Eram tempos em que uma mata viva
enviava mensageiros nas
molduras de minhas manhãs.
Ele veio se despedir
e junto foi embora tambémo mata borrão verde
que via de minha janela.
Para onde foram?
Não sei, mas creio que à praia.Já que em seu lugar,
nasceu uma enorme anaconda
de concreto e asfalto.
Um apólogo - Um brevíssimo olhar
Um apólogo - Machado de Assis ( clique nesse título para ouvir o conto)
O autor, ao narrar uma
contenda entre uma linha e uma agulha ( clique no título para ouvir o conto), reforça as relações entre classes
cosidas no pano da realidade. O esforço da agulha, que a seu ver não é
reconhecido como esperara, é responsável pelo sucesso da linha. A matriz de
forças que se estabelece na discussão apresentada no texto, desvela objetivos
individuais responsável pelo afastamento de uma luta unida e focada no
interesse comum. Pode-se perceber esse distanciamento no nas opiniões das
personagens que, por sua vez, encontram ecos nos discursos superficiais e inférteis
que justificam o prazer como sinônimo de sucesso. E para aquele que não
encontra seu lugar nos “espaços” nobres, como convinha desejar a nova classe
dominante, está fadado ao fracasso. Ainda que o conceito de fracasso seja
meramente uma exclusão por forças de modismos e valorização de
superficialidades, como por exemplo, um baile de luxo.
A agulha, soberba no
início, sucumbe em sua condição natural e, ainda como forma de punição, ouve o
discurso moralizante do alfinete.
A moral da história,
retratada no fim do conto, dá-se pela constatação de que a união das classes,
ou a ausência delas (as classes), revelaria uma força cooperativa tão, ou mais,
eficiente que o modelo exploratório existente; e que a harmonia entre as
diferenças é a única forma de encontrarmos no equilíbrio do trabalho a
libertação dos seres, “bailando num belo rodado de um vestido de baile”. Ou
seja, apenas essa harmonização, ainda que utópica, pode nos oferecer motivos
verdadeiros para que possamos nos orgulhar.
Um mundo onde o meu
sucesso seja fruto do sucesso alheio. Onde a sociedade possa brilhar tão forte
que ninguém se preocupará em iluminar obscuridades existenciais com seu pequeno
e inócuo feixe de luz.
Soneto do credo amoroso
Era para se crer
no amor real,
se real fosse
não carecia de crer.
Um amor que não
se viva por igual,
do pôr-do-sol ao
rubro amanhecer.
No amor que se
esvai na juventude,
ou que não se
fortifica na convivência.
Naquele “na
doença e na saúde”,
ou na pura
paixão e na indecência.
Crer no amor que
se vive,
ou recordar do “bom”
que se viveu,
é a lufada de ar fresco que tive.
Pois ao sonhador
que não se perdeu,
ou quem nada em
seu peito reprime,
o Amor é o encanto que o medo venceu.
Violeta Pandolfi
Soneto de Aproximação
Em um sítio de
constante lavor,
onde forma a
opressão operária,
desce, incandescente,
o lívido amor!
Feixe leve, que sob a brisa se espalha.
Iluminado,
envolvido, agora fico,
e pouco vejo,
além de seu olhar.
Nas dependências
físicas onde existo,
sinto meu corpo,
levemente, levitar.
E, com calma,
posto-me de aproximado.
Ante o espanto
que me deixara alerta,
dirijo-me à musa
com desejo e cuidado.
Precavi-me, não
convencido de decisão certa
Mais por medo de
por ti ser machucado
Por seu envolto
perfume e encanto de Roberta.
Ari Mascarenhas
Ari Mascarenhas
NÓS MATÁMOS O CÃO TINHOSO - Texto na íntegra
NÓS MATÁMOS O CÃO TINHOSO
Conto de LUÍS BERNARDO HONWANA
O Cão-Tinhoso tinha uns olhos azuis que não tinham brilho nenhum, mas eram enormes e estavam sempre cheios de lágrimas, que lhe escorriam pelo focinho. Metiam medo aqueles olhos, assim tão grandes, a olhar como uma pessoa a pedir qualquer coisa sem querer dizer.
Conto de LUÍS BERNARDO HONWANA
O Cão-Tinhoso tinha uns olhos
azuis...
O Cão-Tinhoso tinha uns olhos azuis que não tinham brilho nenhum, mas eram enormes e estavam sempre cheios de lágrimas, que lhe escorriam pelo focinho. Metiam medo aqueles olhos, assim tão grandes, a olhar como uma pessoa a pedir qualquer coisa sem querer dizer.
Eu via todos os dias o Cão-Tinhoso
a andar pela sombra do muro em volta do pátio da Escola, a ir para o canto das
camas de poeira das galinhas do Senhor Professor. As galinhas nem fugiam,
porque ele não se metia com elas, sempre a andar devagar, à procura de uma cama
de poeira que não estivesse ocupada.
QUER LER O TEXTO NA ÍNTEGRA? ENTÃO ACESSE, NO MENU SUPERIOR DESSE BLOG, A PÁGINA DEDICADA À OBRA.
BOA LEITURA!
Itapecerica – decadência e hipocrisia (notas de um nativo).
A cidade onde vivo já teve tempos melhores. Itapecerica
da Serra, nos áureos anos das corridas de carros, era exatamente como uma
pequena vila deve ser: um ou outro comércio, famílias que se conhecem, pouca
pavimentação e o serviço básico de atendimento para seus moradores. À medida
que o tempo foi passando, a cidade foi inchando. Isso mesmo, Itapecerica
inchou, não prosperou.
Milhares de pessoas chegaram à região incentivados
pela especulação imobiliária que por sua vez foi corroendo o que nos restava de
mata atlântica. Mas os serviços não foram adequados para o desenvolvimento que
se promovia. O comércio capengou por anos e hoje também faz parte dessa grande
bolha que para alguns convém chamar de progresso.
Ao passear por minha cidade vejo as marcas do desprezo
em quase todas as ruas e vielas, e não se trata de um problema pautado na
administração atual, mas no conceito de administração que rege essa provinciana
comunidade. O pensamento do “quanto menos pior melhor” presente no discurso das
pessoas que sobrevivem de maneira esmoleira aos caprichos dos seus dirigentes,
o temor de uma transformação que coloque em risco determinadas regalias de
classes abastadas e, sobretudo a indiferença com que tratam o cidadão
itapecericano e todos os potenciais artísticos, econômicos e sociais de nosso
município.
A rede de saúde e de ensino é precária e não atende de
forma satisfatória nem aqueles que utilizam esporadicamente seus serviços.
Filas e filas nas madrugadas, às vezes chuvosas, ao lado do posto de saúde
central. Os corpos enfermos nos corredores do hospital e do pronto socorro.
Horas para atendimentos simples e meses para consultas mais sérias. Escolas em
visível decadência, professores sem preparo, salários cômicos e estruturas
ridículas que nada acrescentam no aprendizado dos alunos.
Uma cidade triste por natureza, de pessoas cabisbaixas
pelas ruas, de políticos mal intencionados, de uma burguesia bem estabelecida (alguém
sempre lucra com o caos), de corruptos imunes, de um clero hipócrita, de uma
cultura abandonada, de uma história esquecida, de um presente sem comemoração
alguma. Ou seja, a cidade onde moro é um amontoado de pessoas e problemas, em
alguns pontos chega a se assemelhar aos campos de concentração nazistas. Se
alguém discorda, dê uma passadinha em bairros do distrito do Jacira, por
exemplo. Ou seja, Itapecerica é uma bela maquete de um país como o nosso. O
sudeste, região aqui representada pelo Delfim Verde, se esbalda nas riquezas
adquiridas com a exploração do restante da região. Mas quando questionados,
sobre os enriquecimentos assustadores diante de misérias tão gritantes, o
discurso é sempre o mesmo: - O Brasil está crescendo.
Itapecerica da Serra é um mórbido instantâneo do
abandono. O que existem de bom aqui? Perguntaram-me alguns schopenhauerianos de plantão, e eu responderei que se pode
valorizar alguns poucos aspectos dessa pedra, e um deles é a resistência que
alguns artistas promovem em seus discursos estilísticos revoltosos, que propõe
mudanças possíveis e que assumem os seus telhados de vidro. Itapecerica ainda
tem matas, ainda tem nascentes, ainda tem pessoas de bom coração, ainda tem
grupos comprometidos com o seu crescimento, mas tudo isso por enquanto, já que
a vertiginosa queda em que estamos, e sua íngreme loucura, em breve não nos permitirá
sequer escrever um único parágrafo de uma nostalgia positiva em um artigo de
opinião intitulado “o espaço onde vivo”.
(Ari Mascarenhas - 04/2013)
O poeta*
À Manoel de Barros
Aprender a escrever logo e contar os encantos com os raros
brinquedos que tive.
Juntar as palavras e guarda-las no papel; depois por uma
capa bonita, com desenhos do meu irmão, e descansa-las nesse álbum na estante
de casa.
(...) entre Júlio
Verne e Lewis Carrol, deixar meu livro curtir, como deliciosas batatinhas de
festa de aniversário, que respingam nos dedos e nos palitos atravessados.
Depois de um tempo, ou de muito tempo, folhear suas páginas
amareladas, com uma saudade rubra na face e a certeza de que meus dias mais
felizes ficaram ali.
Que meu quintal encantado, onde vivi minhas primeiras
descobertas, se refaria.
Meu quarto aquecido, onde criei todas as minhas estórias,
repousaria na página dez.
Mas a cada página virada, diante de um tantão de cores e
formas ressuscitadas em meus olhos, pude
ver, no espelho de uma dispersa lágrima de alegria, que o mais importante eu
consegui...
Cresci e não virei poeta, mas jamais deixei de ser criança.
Ari Mascarenhas
*texto lido na abertura do Sarau sem pecado - realizado em Junho no Colégio Morumbi Sul
Nota de uma sexta chuvosa
A
vida é cheia de surpresas, boas e ruins. Ainda que queiramos apenas as boas,
surpresas são surpresas e, independente de gostarmos ou não a função delas é
nos surpreender. Quando boas, comemoramos, ruborizamos e ficamos satisfeitos
com nossas escolhas... As surpresas boas têm o poder de consolidar nossos
caminhos. Funcionam como uma espécie de “selo de qualidade” que fortifica
nossas escolhas e nos faz acreditar que a vida vale muito a pena. Elas são
esperadas, por mais que sejam surpresas, e quando chegam causam aquela sensação
de que todos os desafios são justificáveis, que todo medo é válido, que todo
cansaço é remunerado. As surpresas boas nos fazem sorrir, abraçar, amar ainda
mais aquilo (aqueles) que já amamos, nos faz crer em nossos sonhos e,
principalmente, nos enche de vida por nos permitir criar novos sonhos. Enfim,
as surpresas boas são aquelas que consideramos necessárias para continuarmos
nos trilhos traçados. Afirmo isso porque penso também nas ruins.
As
surpresas ruins nos faz repensar nossas escolhas, nos entristece, nos desanima,
nos forçam a esquecer do que temos de bom, nos enfraquece, nos derruba, nos atrasa,
nos envelhece, nos obriga a acreditar que tudo está errado em nossas vidas. Mas
uma coisa boa tem nas surpresas ruins: Comparadas as boas elas são minorias. E
mais, podem ser transformadas em boas, se estivermos preparados, não para as
surpresas – cuja natureza não permite preparo – mas para os efeitos delas. De
repente, uma dor pode ser convertida com a capacidade de suportá-la, um medo
pode ser um desafio, um susto funciona como um alerta, uma morte como uma
revelação, como se a voltássemos a ter consciência de que somos frágeis e
pequenos nesse planeta, mas que ao mesmo tempo somos os condutores de nossas
vidas. Responsáveis pelas alegrias e pela predisposição em aproveitá-la.
As
surpresas boas ou ruins fazem parte de nossas vidas. Devemos geri-las, ou
digeri-las na medida em que surgem. As tramas entrelaçadas, entre aquilo que
chega e o que se vai, são responsáveis por definir esse longo texto que se
chama vida. Nós não fazemos a linha, mas somos os costureiros da peça que pode
nos aquecer, ser aconchegante e perfumada, ou do pano que, na forca do
desespero, servirá para sustentar o corpo imóvel, desanimado, resultante de uma
soma de surpresas mal compreendidas. Superar as surpresas ruins ou
transformá-las em boas é um sinal de maturidade. Ser maduro e entender que a
vida pode ser uma caixinha de surpresas, mas que nem sempre ela surge como um
bom-bocado num celofane atraente. Às vezes, vem só o “bocado”.
ASMC
Nova introspecção
Depois de um longo dia
De trabalho e dúvidas,
Sem luz por alguns minutos
E chuva por muitas horas...
Vejo-me aqui!
Dispensando o tempo roto
Um sustenta e o outro transpira
Este breve corpo sem ambição.
O silêncio que foge da rotina
Me devolve aos tempos
Que sempre quis abandonar.
Vendo as esculturas de Bretão
Sinto um desejo animal
De escrever um pouco de bagatelas,
Pra poder dizer que esse sou eu...
Cheio de nada e um nada de tudo!
Exercendo a doce arte do ócio,
Que salva meus dedos da necrose
Produto de uma mente em desuso.
(Ari Mascarenhas - 09/06/2015)
Rascunho
Queria escrever um poema direto,
sem rasuras ou resenhas,
rascunhos...
um próprio poema solto,
correndo o risco de desaparecer.
Um simples vírus, uma bomba,
ou ainda, um nada
que "desvirtualizaria" toda a criação,
quanta emoção!
A capacidade de criar sem deixar marcas me instiga.
Provoca em mim uma série de desejos,
impulsos, vontades selvagens...
vontade de despejar meus dedos sobre o teclado
e deixar fluir palavras, imaginadas,
cuja a única marca, que servirá como prova de que um dia existiram, simplesmente desaparecerá...
num espirro, num sussurro, num murro!
E quando tudo se desfizer em morfemas perdidos serei mais completo do que nunca.
Viverei a verdadeira liberdade
ao me livras de toda matéria poética,
quando todas as notas tocarem,
ficando apenas a sensação de que se ouviu um som.
de onde?
cadê?
Os versos se perderam e eu nem sei o porquê!
Minha tensa tentativa de pôr em prática certos pontos,
aqui se fizeram inteiros e consagraram-se em poesia.
Sem rascunhos, sem rasuras, só poesia, solta, pra ser lida e depois...foi...
Quem um dia se lembrará de ter lido isso?
Ari Mascarenhas 02/06/2015
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