Matrix e o modernismo ( correlações interpretativas)


A cena do filme Matrix (1999), em que a personagem Morpheu apresenta as pílulas ao protagonista Neo, se desenrola com a chegada desse segundo a uma sala com um certo ar obscuro e misterioso, tal como o que se revelará naquele recinto. Em seguida, Morpheu revela a Neo que reconhece a sua surpresa e sua curiosidade em relação ao que está acontecendo. Para ilustrar melhor o acontecimento, Morpheu usa como metáfora o enredo de “Alice no País das Maravilhas” (Lewis Carrol, 1865), sobretudo no trecho em que a garota, ainda atordoada de um sono profundo, se depara com um coelho com um relógio na mão pedindo para que ela o siga. Seguir o coelho aqui é se permitir adentrar no mundo das revelações.

Então, Morpheu  faz uma breve apresentação parcial do que é a Matrix, destacando que toda a realidade que permeia a vida que Neo conhece é na verdade um espectro falso, criado para escravizar e aprisionar aqueles que nela vivem. Na sequência da cena, eis a oferta de libertação. Morpheu oferece, numa clara alusão ao “livre arbítrio” cristão, a opção de Neo continuar vivendo a ilusão projetada na Matrix, tomando a pílula azul, ou se libertar e vivenciar a realidade em uma ótica mais profunda e, portanto, mais real. Para isso, ele precisa tomar a pílula vermelha. Neo escolhe a segunda opção, mas não sem antes ser alertado por Morpheu de que essa escolha não tem volta. A cena se encerra com Morpheu saindo do recinto e, tal como o coelho de Alice, chamando Neo para que o acompanhasse no universo que estava na iminência de se revelar.


Para além das inúmeras referências cristãs que a cena traz, como a já mencionada citação do “livre arbítrio”, a presença de “Trinity” ( a “Santíssima Trindade”) e das cores da pílula (vermelho – a mesma cor da fruta do conhecimento em Gênesis), a cena pode ser interpretada em outras esferas da vida humana, sobretudo no que se refere a arte.

O mundo Moderno, que se instaurou com a queda das nobrezas europeias e a ascensão burguesa no final do século XVIII, foi concebido por intermédio de uma série de pensamentos questionadores que culminaram na compreensão de que a Liberdade e a igualdade eram direitos de todos os seres humanos. Essa série de pensamentos que permeou tanto campos filosóficos, religiosos e até artísticos foi denominada de Iluminismo.


O pensamento iluminista sempre valorizou a expressão artística como forma de compreender a realidade e discuti-la. Contudo, os poderes concentrados nas novas elites fizeram com que o projeto de “mundo moderno” se tornasse, ainda no século XIX obsoleto e cruel com a maior parte da população europeia. Enfim, vieram os avanços científicos e com eles novas perspectivas do pensamento humano se desenvolveram. A arte, cuja natureza principal é o questionamento, também rompeu com as amarras românticas, idealizadas, e propôs, para além do culto à forma, um espaço de reflexão, de questionamento, ou ainda de libertação.

Esses movimentos artísticos foram denominados de “Vanguardas” e sua consolidação no início no século XX, sobretudo ao usurpar as formas literárias já tradicionais ( o romance e a lírica) formatou a escola moderna. Contudo, para compreender uma obra moderna, com seus questionamentos, com suas inquietações, com suas propostas revolucionárias, com suas estéticas, com suas releituras históricas e principalmente com sua libertação das amarras de modelos já consolidados e opressores, é necessário tomar a pílula vermelha.

A pílula vermelha é aquela que te liberta da alienação, que te permite reconhecer o rompimento das expressões e reforçam os elementos das impressões( Expressionismo). É aquela que te permite filtrar as propostas do futuro de forma a afastar toda e qualquer possibilidade de retorno aos modelos totalitários e opressores (futurismo). É aquela que propõe um olhar artístico até onde não se tem arte ( no amor, ou no elevador) reconhecendo que o artístico está na inutilidade primitiva do objeto (dadaísmo).Ou ainda, na melhor parte dela, é o rompimento total da censura da forma permitindo que sua mente e seu corpo naveguem livremente por todos as dimensões da realidade (surrealismo).

Enfim, a pílula vermelha não tem volta, porque uma vez libertado da alienação social, política, consumista, individualista e formal, não há mais volta. O indivíduo jamais se deixará aprisionar sem cogitar, em algum momento, a possibilidade de se rebelar.

O modernismo é o movimento cultural que envolve todas essas premissas e, consequentemente, reestrutura o pensamento literário fazendo com a arte sirva a um propósito cada vez mais claro e libertador: QUESTIONE! Pois assim, seguindo sempre o coelho da curiosidade e da inquietação, você poderá alcançar sempre o novo, e ser o seu próprio NEO!

Gil Vicente no seu tempo e no nosso tempo" - conferência em Coimbra | José Bernardes





 



Conferência na Biblioteca-Geral da Universidade de Coimbra, associada à temporada no Teatro da Cerca de São Bernardo do espectáculo "Embarcação do Inferno", de Gil Vicente (co-produção A Escola da Noite / Cendrev) - Intervenção de José Augusto Cardoso Bernardes, professor da Universidade de Coimbra. 17/11/2016, 18h00

Jamais serei brasileiro!

Você tem orgulho de ser BRASILEIRO? Se sim, sugiro que leia esse texto e talvez descubra que está fazendo algo errado contra si mesmo.

Em tempos em que modelos tão ultrapassados de ufanismo retornam ao nosso cotidiano, com pessoas diariamente defendendo as cores patrióticas, os símbolos nacionais e até o velho hino — que agora é cantado (ou tentam cantar) com as duas partes nos eventos esportivos, onde a obrigatoriedade da execução do hino se contradiz com a letra que diz “em teu seio, ó liberdade, desafia o nosso peito à própria morte” (liberdade e lei que pune com multa de até 100 mil reais parece não ornar), alguns termos me chamam a atenção. Mas deixemos os símbolos de lado, até porque essa é uma seara que nos levaria longe para entendermos como a camisa do time da CBF (Uma das instituições mais corruptas da história do Brasil) pode ser usada como insígnia de patriotismo e de luta contra a corrupção? Quero abordar aqui algo que independe de sua escolha ideológica ou inclinação política, trata-se da adoção de um termo que reproduz uma imagem muito negativa, de nós mesmos, e quase nunca questionamos sobre o uso dele: O gentílico “brasileiro”.


Segundo Maurice Halbwachs (2010), as estruturas linguísticas configuram discursos que atuam diretamente na formatação de uma sociedade. Ou seja, as palavras e seus respectivos conceitos, com ou não variações, agregam em si enormes cargas discursivas que nos condicionam à reprodução de conceitos e valores em nossas relações. No entanto, a reprodução, de acordo Durkheim (2013), é quase sempre destituída de reflexão crítica, disseminando assim padrões, juízos, convicções e princípios que não foram criados pelos usuários do termo, mas pelos antigos dominantes. E o pior, na maioria das vezes a reprodução acrítica de determinadas sentenças impacta negativamente contra os próprios proclamadores. Se você não é da área de humanas, talvez esses conceitos possam lhe parecer muito abstratos, mas fique tranquilo, a seguir vou mostrar um caso prático (que é o tema deste texto) para compreendermos de maneira mais clara o que é a “morfologia social”.


Você sabia que o gentílico “brasileiro” foi, até o começo do século XX, um termo pejorativo atribuído aos portugueses que exploraram a antiga colônia e voltavam para Portugal ricos, mas destituídos de cultura? Ou seja, eram considerados chulos e, apesar de ricos, não mereciam respeito da elite portuguesa. São inúmeras as citações de personagens “brasileiras “na literatura portuguesa, desde Padre Antonio Vieira à Eça de Queirós. O brasileiro como figura literária era quase sempre um bufão e carregava em si duas contradições, a imagem do progresso financeiro e o retrocesso à selvageria, comum naqueles que não convivem com os hábitos modernos e civilizados da sociedade oitocentista europeia. Portanto, brasileiro é uma figura mitificada no imaginário popular cujas posses não obscurecem a sua conduta reprovável, seu caráter duvidoso e sua completa ausência de sofisticação.


Agora pensem em uma rima para a palavra brasileiro? O que apareceu: Pedreiro, padeiro, fuzileiro, barbeiro… entre outras, não foi? Observem que essas palavras têm algo em comum: São profissões. Ou seja, estão diretamente associadas à função exercida por alguém. Logo, brasileiro é, literalmente, aquele que vive da extração do pau-brasil. Ou aquele que enriquece do trabalho no Brasil, conforme readequou-se no léxico português do século XIX, segundo Machado (2003).

O sufixo “eiro” ou “eira” (cabeleireira, costureira etc.) são exclusivamente utilizados, em língua portuguesa, para indicar a profissão exercida pelo indivíduo.

Agora, diga a si mesmo se você conhece algum país no mundo em que o adjetivo gentílico, aquele que identifica o povo, suas respectivas culturas e tradições possuí o termo referencial dessa identificação diretamente atrelado a uma função laboral? Pode pensar à vontade. Você dificilmente irá encontrar.

Dessa forma, quando nos identificamos como “brasileiros” reforçamos o estereótipo do homem trabalhador, honesto e confiável? NÃO!!! Lembre-se que quem criou o termo foram os portugueses e brasileiro é só alguém que pratica algo manual, ganha mais do que eles (possivelmente) e não possuí nenhuma cultura que mereça a atenção. Aliás, não possui cultura nenhuma. Brasileiro é talvez um emergente, mas um certo ignorante.

Não estou dizendo que é assim que os portugueses e o mundo nos veem atualmente, mas é assim que nos apresentamos e entoamos o tal orgulho de “Ser brasileiro”. Junto com o antiquíssimo modelo idealizante de uma nação unificada, uniforme e cristã, alimentado pelo ufanismo (que por si só já nos carimba como ignorantes), a palavra brasileiro não identifica a pluralidade cultural, religiosa e linguística que nos configura, mas sim nos recoloca às posições servis à coroa portuguesa, do século XIX. Como não existe mais monarquia em Portugal e com a consolidação do domínio das corporações cujas matrizes estão sediadas nas potências desenvolvidas, então o termo serve para nos lembrar que os reis mudaram, mas os servos jamais mudarão.

O termo correto, em língua portuguesa, que atribui o sentido de natividade, de origem, ou de características é formatado pelo sufixo “ano” (moçambicano), “ão” (alemão), “ense” (paranaense), “ês” (japonês) e “eu” (europeu). Dessa forma, correto estão os italianos, que desde sempre nos identificaram como “brasilianos”. Portanto, faça o bem para a nossa língua portuguesa, de hoje em diante afirme-se, defenda, ensine o seu espírito patriota a ser “brasiliano”, pois “brasileiro” em nada ajuda a sua imagem e ainda contribui para reforçar esteriótipos preconceituosos que não raro surgem nas relações dos tupiniquins com os “desenvolvidos”.

Mas se ainda não está convencido em adotar o termo “brasiliano”, pois se sente apegado ao “brasileiro” como uma ferrugem se apega a uma barra de aço, tenho mais um argumento associado ao termo. Se você é patriota e defende a cultura e os valores do nosso país, não ajude a atrelar nossa identidade às funções laborais que ajudaram a extinguir o nosso maior símbolo nacional. Símbolo esse que não foi criado por nenhuma campanha política e tampouco por instituições de caráter duvidoso, foi confeccionado pela natureza que assim como ele é tão mal tratada por nós: O pau-brasil.

Agora se você é daquele que faz continência, exalta e carrega a bandeira americana em suas manifestações públicas, se você defende a inserção no calendário nacional de feriado para o dia 4 de julho, e usa o lema “Make Brazil Great Again” como clara demonstração do seu nacionalismo brasileiro, o que eu posso lhe dizer é que você está muito certo. Parabéns! De fato, essas são ações de quem se vê como “brasileiro” — rude, servil e ignorante. O seu desrespeito por você mesmo é tão grande que você é incapaz de perceber que até o norte-americano, a quem tanto você se inclina e se oferece, te chama de “brasiliano”, já que brazilian, observe o sufixo, nada tem a ver com profissão.

Essa discussão nada tem a ver com xenofobia, até porque no Brasil é comum a xenofobia contra imigrantes africanos, latinos e até orientais; mas, nosso espírito servil nunca nos deixou trair nosso compromisso com os antigos senhores dessas terras e seus herdeiros vitalícios.

Portanto, tenha mais amor por si mesmo. Respeite a diversidade da sua pátria e a natureza de seus filhos que aqui nasceram e que morreram brasilianos.


Ari Silva Mascarenhas de Campos*

Coimbra, 01 de setembro de 2020.


*Professor, escritor, poeta e ensaista brasileiro. Investigador ativo das literaturas contemporâneas. Doutorando da Universidade de Coimbra.


Referências bibliográficas

DURKHEIM, Émile. The Rules of Sociological Method:And Selected Texts On Sociology And Its Method. Londres: Macmillian education U.K., 2013.

HALBWACHS, Maurice. Morfologia Social. Lisboa: Edições 70, 2010.

MACHADO, José P. Dicionário etimológico da língua portuguesa. Volume 1. Porto: Livros Horizonte, 2003.

 


Para Dona Malvina 

À mulher mais importante de minha vida. 

Mãe, acho que a senhora já sabe o quanto eu escrevi nessa vida. Sabe que publiquei livros, artigos acadêmicos, posfácios, prefácios, artigos de jornal, manifestos, declarações, inventários e inúmeros documentos. 

Sabe que escrevi poesias, de amor, de saudade, de felicidade. Poesias de protesto, poesias de resignação, de alegrias, de decepção, poesia religiosa, poesia pagã. Poesias para muitos amigos, para os meus irmãos, para desconhecidos, para muitas mulheres. 

Sabe que escrevi cinco livros só com poesias. Algumas boas, outras nem tanto, algumas inspiradas, outras só para cumprir páginas, e outras ainda piores que me foram encomendadas. 

Sabe que eu escrevi diários, desde quando tinha oito anos. Aliás, ainda os escrevo, claro que hoje com menos intensidade que os meus impulsos adolescentes pediam na minha juventude. Escrevi jornais, na escola. Escrevi inúmeras provas, trabalhos, resenhas, resumos, dissertações, explicações, felicitações... Escrevi muitas histórias. Contos, romances, escrevi desenlaces que na vida real jamais resolvi... Quantas canções. 

Foram tantos os motivos que me fizeram e ainda me fazem escrever que nem sei dizer  o que é realmente importante e o que não é, na hora de decidir se deixo ou não escrito. Mas sempre escrevi para as pessoas que me importavam.

Então, a escola em que trabalho atualmente, decidiu que faria um trabalho para o dia das mães e a coordenadora, para quem eu já escrevi muitas mensagens, me pediu que eu orientasse os meus alunos nessa atividade. Bem, passei alguns dias pensando em algum texto motivador para apresentar a eles, como exemplo do que se pode escrever para uma mãe. 

Foi aí que eu me dei conta do erro que cometi, sem nunca ter percebido. 

Escrevi a vida inteira, para tanta gente com quem me importei, para tantas namoradas que nunca mais me olharam, para tantos amigos que já me abandonaram há tanto tempo, para tantos alunos que já se formaram, para tantas línguas que não ouço mais, para tantos ouvidos que se fecharam...Mas para a única pessoa que nunca me abandonou eu jamais escrevi uma única linha. Exceto aquele “amor” que costurei no coração de algodão produzido no trabalho da minha terceira série. Coração esse que eu sei que a senhora ainda guarda, na sua velha caixinha de costura, e que toda vez que espeta uma agulha lê a única palavra que deixei registrada para ti.

Por isso, minha amada e querida mãe, hoje escrevo para dizer que essa será a primeira de muitas cartas que lhe enviarei, porque ninguém nessa vida merece, para mim,  mais palavras de amor, de carinho e de eterna gratidão quanto a senhora.

Por isso encerro esse pequeno relato com alguns curtos versos que teci exclusivamente para ti.

 Mãe querida, mãe amada

De ti, são doces as lembranças

De ti, vem a força que me apoio

De ti, vem a certa esperança

 

Se me movo, se me deito,

Se me ergo, se caminho,

Se existo, se logo penso,

É por ti, por teu carinho.

 

Mãe, termo que entristece o poeta,

por ser a única palavra que não rima,

Mas até nisso, fez-me na vida feliz

Já que a posso substituir por Malvina.

 

Perdoe-me, por tanto demorar

A oferecer homenagem nesses versos.

Agora, como primeiro ato registrado

Meu amor e meus sentimentos eternos.

 

À você rainha, minha ode se amplia

E faço da vida à ti honrarias altivas

Seguindo os ensinamentos que me dera

Em suas horas humanas e divinas.

 

Feliz dia das mães.

 

De seu filho que tanto te ama,

Ari Mascarenhas

Trabalho ou Sacrifício? Qual dos dois lhe parece mais motivador?


Conhecer a origem das palavras, nos permite compreender como o seu desenvolvimento foi lhe ofertando novos significados e, assim, podemos mensurar o quanto o uso dela na atualidade e afastou do sentido original, tornando-se às vezes antagônica ao senso formador do termo. Assim, vejamos nesse breve texto como as palavras “Trabalho” e “Sacrifício” atendem hoje a sentidos um tanto quanto disparatados de suas raízes.  

A palavra TRABALHO está localizada como derivação do verbo trabalhar, registrando-se no latim vulgar tripaliāre, interpretado como torturar, tendo raiz no latim tardio tripalium, em referência a um artefato de tortura usado pelos antigos romanos para castigar os réus ou condenados. 

O tripalium era um instrumento feito de três paus (tri = três e palium = palito). Neste aparelho de tortura, o criminoso era amarrado e depois submetido a chicoteamento. Não é de estranhar que, com o passar do tempo, a denominação tripalium do latim vulgar passasse a se chamar fadiga, sofrimento ou penalidade (esta denominação estava associada normalmente às atividades realizadas no campo e no regime de escravidão). 

Ao conhecer a etimologia de algumas palavras é produzido um efeito iluminador, já que a análise do termo permite compreender sua valorização ao longo da história. No caso da palavra trabalho, a mesma se refere à atividade transformadora que determina o rumo da humanidade. 

Na cultura greco-latina, a atividade trabalhista teve pouco reconhecimento social, pois o trabalho manual era considerado algo indigno e associado à condição de escravo. Se tomarmos como referência a mentalidade grega, um indivíduo que recebia salário de outro não podia ser considerado uma pessoa livre e, consequentemente, sua forma de vida não era estimulante (na pólis de Atenas, o trabalho manual e de pequenos comerciantes eram especialmente depreciados, porém a atividade artística gozava de prestígio e reconhecimento). 

Na civilização romana, mantinha-se o desprezo às atividades produtivas mais rudimentares, uma vez que a vida plena estava focada no lazer, na arte e na filosofia. Por outro lado, o termo negócio tinha um significado depreciativo que, na verdade, etimologicamente significa "negação do lazer" (negotium). 

Na visão judaico-cristã encontramos em Gênesis 3: 19 a interpretação cristã da ideia de trabalho. Textualmente quer dizer o seguinte: "Ganharás o pão com o suor da sua testa". Este versículo do Antigo Testamento é a consequência lógica da desobediência de Adão e Eva no Paraíso. Assim, a mulher foi castigada para dar à luz com dor e o homem foi obrigado a ganhar a vida com sofrimento. 

Para muitos o trabalho continuou sendo uma tortura 

A atividade de trabalho ideal é aquela que cumpre duas condições básicas: ser bem remunerada e eminentemente vocacional. 

Embora este ideal se concretize em alguns casos, para grande parte da população o trabalho é entendido como um suplício, ou seja, uma espécie de tortura que é tolerada por não haver outra alternativa. 

Poucos entendem o trabalho como sacrifício, e isso não é positivo, do ponto de vista etimológico.  

Até porque a palavra “sacrifício” é a justaposição de “sacro- ofício”, ou trabalho sagrado. A própria ideia de um trabalho sagrado pode gerar no indivíduo um senso de recompensa que  suplantaria a ideia de remuneração. Quero dizer, fazer o sacrifício pode ser mais recompensador ao sacrificado do que o trabalho ao trabalhador.  

Ainda que novos sentidos sejam atribuídos às palavras no transcorrer dos tempos, entender a razão de sua formação ajuda a resgatar a força semântica de sua criação e, consequentemente, nos permite refletir sobre o uso de tais termos. Se considerarmos apenas a etimologia das palavras, um “sacrifício” é bem mais motivador que um “trabalho”, e reconhecê-lo como tal não é desonra e tampouco motivo de lamentação, mas sim de orgulho por poder servir com sua força produtora à divindade, independente de qual seja ela. 

 


#4 Podcast Contempoemidade

Olá Nação Revolucionária, já está no ar o novo podcast do canal Contempoemidade.
Nesse programa vamos resenhar um antigo conto de Marcel Proust intitulado Violante ou a mundaneidade.
Clique no link  abaixo para acessar o áudio, curta, compartilhe e nos ajude a divulgar esse trabalho.
https://www.spreaker.com/user/11511519/violante-e-o-consumo

Acesse também e confira todos os podcasts do nosso canal:  https://contempoemidade.blogspot.com/p/ouca-o-nosso-podcast.html

50 livros que você precisa ler no ensino médio.

A leitura no ensino médio é essencial para o desenvolvimento do leitor, da crítica e da importância da literatura como forma de expressão do mundo. Além disso, ela nos prepara para os inúmeros desafios que a vida cotidiana, acadêmica, profissional e criativa nos reserva. Nesse sentido, considerando a experiência com os alunos do ensino médio nesses muitos anos de profissão, topei o desafio proposto por alguns ex-alunos e transcrevi abaixo o que, na minha opinião, são os 50 livros indispensáveis para se ler nos três anos de ensino médio.
Evidente que alguns textos ficaram de fora, como em toda lista, mas creio que os títulos abaixo dão conta de um recorte temporal, temático e estético essencial para que se possa compreender a literatura universal. Outro ponto a destacar é que a maioria das obras são em Língua Portuguesa. Não poderia ser diferente, afinal conhecer a base da literatura de nossa língua, independente do país, é o primeiro passo para que alcemos outros horizontes.
Alguns podem achar muito 50 livros, mas façamos uma conta simples. O ensino médio dura 3 anos, 36. Se dividirmos os 50 livros pela quantidade de meses teremos 1,38 por mês. Ou seja, menos de 2 livros por mês. Algo mais que possível. Necessário.  
No transcorrer do ano de 2020, comprometo-me a comentar cada uma das obras expressas nessa lista, como forma de abrir um diálogo sobre os principais temas e ampliarmos assim nossa capacidade de leitura. 
Então, espero que curtem e compartilhem essa lista. Caso discorde de algum título, fique a vontade para comentar no post. Será uma honra saber a sua opinião.


50 livros que devem ser lidos no ensino médio. 

  1. Os Lusíadas - Camões
  2. A Odisseia - Homero
  3. Sermões - Pe. Antônio Vieira
  4. Marília de Dirceu - Tomás Antônio Gonzaga
  5. Macbeth - W. Shakespeare
  6. Suspiros poéticos - Gonçalves Magalhães
  7. O Guarani - José de Alencar
  8. Memórias de um Sargento de Milícias - Manuel Antônio Almeida
  9. Memórias Póstumas de Brás Cubas. - Machado de Assis
  10. Memórias de Marta - Júlia Lopes de Almeida
  11. O Ateneu - Raul Pompeia
  12. O Cortiço - Álvares de Azevedo
  13. Bom Crioulo - Adolfo Caminha
  14. A luta - Emília Bandeira de Melo
  15. Tropos e Fantasias - Cruz e Souza
  16. EU - Augusto dos Anjos
  17. Os Sertões - Euclides da Cunha
  18. O triste Fim de Policarpo Quaresma - Lima Barreto
  19. Negrinha - Monteiro Lobato
  20. Macunaíma - Mário de Andrade
  21. Libertinagem - Manuel Bandeira
  22. Memórias Sentimentais de João Miramar - Oswald de Andrade
  23. Incidente em Antares - Érico Veríssimo
  24. Jubiabá - Jorge Amado
  25. Capitães da Areia - Jorge Amado
  26. A hora da estrela - Clarice Lispector
  27. Grande Sertão: Veredas - Guimarães Rosa
  28. Memórias do Cárcere - Graciliano Ramos
  29. Leite derramado - Chico Buarque
  30. Paranoia - Roberto Piva
  31. O cão sem plumas - João Cabral de Melo Neto
  32. Viagens em Minha Terra - Almeida Garrett
  33. A cidade e as Serras - Eça de Queirós
  34. Ualalapi - Ungulani Ba Ka Khosa
  35. O processo - Kafka
  36. Terra Sonâmbula - Mia Couto
  37. Os transparentes - Ondjaki
  38. Predadores - Pepetela
  39. O evangelho segundo Jesus Cristo - José Saramago
  40. Ficções - Jorge Luis Borges
  41. Cem anos de Solidão - Gabriel Garcia Marques
  42. O morro dos ventos uivantes - Emily Bronte
  43. O mestre e Margarida - Mikhail Bulgakov
  44. Os irmãos Karamazov - Fiódor Mikhailovich Dostoiévski
  45. O livro do desassossego -  Bernardo Soares
  46. Drácula - Bram Stoker
  47. As vinte mil léguas submarinas - Júlio Verne 
  48. The Silmarillion - Tolkien
  49. O homem do Castelo Alto - Philip K. Dick
  50. Sentimento do Mundo - Carlos Drummond de Andrade

Ari Mascarenhas





Novas aquisições da Universidade de Coimbra

Amigos, estou muito orgulhoso com a inclusão no acervo da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra das obras abaixo. Trouxe esses livros para Coimbra com o intuito de incluí-los no acervo da universidade para que estejam disponíveis aos estudantes, professores, investigadores e público-geral que frequentam esse espaço.
Os livros farão parte de um acervo ainda em formação sobre a produção de poesias oriundas dos Saraus que espalham cultura nas periferias da grande São Paulo.
Segue a descrição das obras que, a partir do dia 01/11/19, estarão disponíveis para pesquisa e empréstimo no sistema integrado de bibliotecas da Universidade de Coimbra.

- Segundos (2014) - Coletânea de poemas produzidos a partir das escritas automáticas desenvolvidas por um grupo de alunos do ensino médio. Autor: Ari Mascarenhas.
- Mais que poesias ( 2013) - Autor: Chico Urcine.
- Fruto Vermelho (2008) - Autor: Ari Mascarenhas.
- Portal Amigos do Livro (2013) - Autor: Vários
-Contempoemidade - (2012) Autores: André Lacé, Ari Mascarenhas, Ewerron de Souza, Gabriela Saraiva Malheiros, Marcio Callegaro e Violeta Pandolfi
- Minha Serra tem Poesia (2015) Antologia do grupo de poetas Itapoesia.


Memórias do Cárcere - Graciliano Ramos ( notas de leitura)

Nessas memórias de Graciliano Ramos podemos observar além de seu distanciamento plausível para a confecção menos apaixonada e mais racional, uma despreocupação com os modelos literários em voga na época. Auge do modernismo brasileiro, Graciliano está mais preocupado com o conteúdo de sua obra e com a sua identificação com os registros propostos do que necessariamente agradar aos interesses de uma estética comprometida com os movimentos artísticos de um período histórico.
Memórias do Cárcere é também, dentro dos preceitos defendidos por Lukács, um romance histórico de natureza documental, que imprime ao protagonista, a obrigação de observar e transformar o seu espaço. O herói, que por um longo período se mostra desconhecer as causas pelas quais fora preso, por diversos momentos, observando outros companheiros de confinamento, analisa sua própria capacidade revolucionária e passa a auto-avaliar suas atitudes que sequer são dignas de um prisioneiro político, no sentido de que, ele jamais tivera, verdadeiramente, uma atitude revolucionária. Estes questionamentos nos encaminham para os valores do narrador que jamais foram externados na prática.

A força da introspecção de Memórias do Cárcere está em criar um universo de conflito para as discussões que o universo exterior não poderia saber. Tanto pelo poder opositor do Estado Novo, do qual era acusado de subversão, e pelos próprios princípios do grupo de comunistas (Primeiras manifestações) o qual era acusado de pertencer. Aqui, nesses espaços de conflito e criação é que se estabelecem as diretrizes para o que viria a ser a mais brilhante obra memorialística que temos registro em nossa língua.
Na introspecção registrada nos manuscritos do cárcere e/ou ainda aquela que fora produzida anos depois, quando de seu preparo para o projeto do livro, o autor nos presentei com uma ficção baseada em registros memorialísticos de forte impacto catártico que não nos permite questionar o teor jornalístico de suas observações. 
Essas marcas ficcionais podem ser observadas na onisciência do narrador quando mergulhado nas preocupações de personagens alheios, como se uma percepção das expressões desses personagens fosse o suficiente para determinar as profundas angústias que estes sentiam, ou que, numa leitura mais atenta, denotam apenas o reflexo de sua própria angústia diante da incerteza de seu destino, que lhe acompanharia em quase todo o seu percurso como prisioneiro. No entanto, o que há de mais evidente nessa estrutura narrativa, que busca alinhar os fatos reais com o uso dos fatos criados, é a própria percepção do narrador com o ato da criação na edição das memórias ora como positiva e ora com repulsa pelo próprio narrador:

O diabo é que, se me decidisse a narrar por miúdo a conversa do capitão, tanchar-me-iam de fantasista. Ou dar-me–iam crédito indivíduos que andassem no mundo da lua, idiotas ou românticos (Ramos, p89).

A observar de atos de seus próximos, aliados ou não, serve de um prato cheio para uma análise de sua postura com “revolucionário” (termo pelo qual poderia ser acusado) e para uma observação mais detalhista acerca da atitude do próprio movimento revolucionário que se propunha como resistência. Ações que a atitude de um militar, que se nenhum motivo aparente decidia por ajudá-lo, e que, para qualquer um seria apenas um alimento da causa em que se injetava a confiança e a própria liberdade, para o narrador era motivo de questionamento sobre o seu fazer revolucionário.

Capitão Lôbo, portanto, fugia ao preceito. De certo modo havia no caso uma espécie de deserção. Impossível explica-la. Se ele condenava s minhas ideias, sem conhecê-las, direito, porque me trazia aquele apoio incoerente? Insolência e brutalidade com certeza me atiçariam ódio, mas seriam compreensíveis, e nada pior que nos encontrarmos  diante de uma situação inexplicável. Admitimos certo número de princípios, julgamo-los firmes, notamos de repente uma falha neles – e as coisas não se passam como havíamos previsto: passam-se  de modo contrário. A exceção nos atrapalha, temos de reformular julgamentos. (RAMOS, p. 87-88)

E fora a busca por essa renovação rápida dos valores que fizeram desse prisioneiro peculiar fugir às atitudes de reflexão comuns a esse tipo de situação: A da adesão  e da repulsa. 
Ou seja, a atitude de um condecorado, um inimigo declarado, que discordava de seus preceitos e ainda assim, contra a força que o emergia e o condicionava, agia. Isso, a atitude de resistência é o que aquela intelectualidade não conseguia compreender e, portanto o grande gatilho para os questionamentos desse cárcere que vivera até então o espírito de resistência que pode ser observada no enxerto abaixo:

A nossa vida não tem muito valor, às vezes se encrenca e desejamos a morte; faltando-nos coragem para o suicídio, exibimos outra forma de coragem; queremos desaparecer; é uma perda individual. Mas ninguém, de senso perfeito, joga fora os  seus bens, pois nisso repousa o organismo social – e o sacrifício constitui prejuízo coletivo. Afinal capitão Lobo devia ser muito mais revolucionário do que eu. Tinha-me alargado em conversas no café, dissera cobras e lagartos do fascismo, escrevera algumas histórias. Apenas. Conservara-me na superfície, nunca fizera à ordem ataque sério, realmente era um diletante (RAMOS, P 88). 

Memórias do Cárcere é mais que um documento de resistência, é sim, um importante registro dos preceitos reflexivos sobre a práxis indispensável no dia-dia de quem almeja uma transformação, independente de sua dimensão. Já que as mazelas e friezas do cárcere ultrapassam as muralhas os alçapões de qualquer instituição, e encarceram os projetos e sonhos revolucionários inertes no peito dos oprimidos e militantes.


Ari Mascarenhas

Programa 3 do Podcast - Um apólogo

O novo episódio do podcast Contempoemidade já está no ar e a obra resenhada é "Um apólogo" de Machado de Assis,


Clique no link abaixo, ouça e compartilhe.

https://www.spreaker.com/user/11511519/episodio-3-um-apologo



Programa #2 do Podcast Contempoemidade já está no ar.

Olá Nação revolucionária!
Já está no ar o segundo programa do nosso canal Contempoemidade.
Ouça agora no spotify, Castbox ou qualquer agregador de podcast.
Um forte abraço!

Ari Mascarenhas

Podcast Piloto

Olá Contempoêmios!

Estamos aqui hoje anunciando nosso primeiro programa em Podcast. 
Isso mesmo, agora você acompanhará, semanalmente, nossas leituras e críticas literárias no seu Podcast.
É só clicar no link  

  Podcast Piloto #1 O homem que amava os cachorros

ou procurar no seu agregador predileto:

Spotify, IheartRadios, GooglePodcasts, Castbox, Deezer ou na Apple. 

Não deixe de ouvir, comentar e compartilhar nossos conteúdos. 

Vamos fazer desse espaço, um lugar para compartilharmos nossas leituras e reflexões. 
Ok!
Nos vemos lá!

Ari Mascarenhas

"Um Deus e seus demônios"


"Um Deus e seus demônios" - Uma breve leitura de O Evangelho Segundo Jesus Cristo de José Saramago. 

Os dejetos humanos são insuflados nas figuras de suas divindades. A perfeição utópica do espírito dos homens não ecoa na configuração daquilo que lhe é supremo, absoluto, onipresente. Esta obra revela, de maneira chocante- por aquebrantar as cápsulas humanas de autoproteção e egocentrismo-  o que existe de pior em um deus comprometido com os valores mundanos de sua própria configuração. Não se poderia esperar uma confecção  mais humana de um Messias sem a aproximação daquele que lhe enviou. Cito, para facilitar a comparação, os inúmeros semideuses mitológicos que serviam aos anseios, desejos e vícios de seus criadores. Esses deuses eram puras  alegorias de sentimentos humanos que flanavam entre a nobreza do amor e a grotesca inveja. Deuses que brincavam com os humanos e, vez ou outra, infiltravam entre estes suas marionetes veladas. Jesus é uma marionete de um ser tirano e assustadoramente autoritário, capaz de destruir toda a humanidade apenas para atender aos desejos mais mesquinhos e doentios que uma mente humana poderia criar. Nesse grande jogo de insinuações, blefes, traições e muitas humilhações existem dois polos insofríveis por se pautarem em mecanismos bem distintos: de um lado a completa ignorância, sempre salvadora e ingênua, e do outro, o mais completo autoritarismo, intransigente, característico de um humor sofrível que se pauta na tragédia alheia.
Mas entre os polos, eis que existe o Meio.  “Eu sou o caminho, a verdade e a Vida” – A vida aqui é o meio, a transição, o processo de mudança, o Grande Milagre que fora criado por capricho e não por necessidade. E aqui está todo o drama de Jesus ( por vezes do próprio Diabo): Ter conhecimento do Jogo e se ver completamente impotente para mudá-lo.  O romance mostra um Messias, com poder de curar, fazer milagres, mas não mudar as regras de um jogo insano.
Em “O evangelho segundo Jesus Cristo”, José Saramago nos fornece instrumentos para refletir sobre uma perspectiva diferente a respeito do sacrifício cristão e de seus algozes. E mais, do meu ponto de vista, nos oferece uma coerente justificativa para a reprodução de uma divindade unificada que, diferentemente daquilo que nos vendem as igrejas cristãs, concatena-se em si as qualidades e os defeitos antes bem distribuídos entre as divindades pagãs e até mesmo pertencentes às sociedades maternas do berço da civilização ocidental. Ao suplicar aos homens para que perdoe Deus, Jesus Cristo se torna o nosso cordeiro, aquele que sacrificamos para continuar a crer e seguir o Deus que melhor nos representa, com as características que nossa civilização, mesmo sem assumir tanto admira: Autoritário, egocêntrico, Violento, impassível e, principalmente, Vingativo.
Um livro que vale a pena cada passagem, cada parágrafo, por sua provocação e, principalmente, pela releitura contextualizada da mais importante de nossa humanidade nos últimos 2000 anos.  

As ruas de minha antiga cidade


As ruas de minha antiga cidade sempre despertaram diversas sensações nos seus moradores mais antigos. Uns entoavam cantos as suas nostálgicas infâncias, outros preferiam contemplar o passado em silêncio e veneração, havia até aqueles que jamais confessaram seus devaneios e, numa redoma solitária, guardavam o tesouro de suas memórias. Eu, que desde criança caminhei por esses ladrilhos, jamais imaginei que faria parte do grupo de pessoas que lamentavam os tempos idos. Não porque meu presente pouco se assemelha àquele lugar seguro; mas, prefiro crer, que seja uma jornada insípida, delicada e sem volta.
Meu passado, incrustrado nas lajotas dessas ruas, ressoam o que de melhor eu deixei na vida. Tais ecos não surgem nos atos, nem mesmo nas relações, mas sim nas experiências que vivi.
Cada rua deserta, cada asfalto rachado testemunhou as noites gatunas que experimentei na adolescência. Cada neon ofuscado, cada poste ensebado pela cola dos lambe-lambes são testemunhas de um "eu" que não se perdeu no presente, apenas se apagou ante as aparências de um homem responsável, cuja finalidade é ilustrar uma sociedade esvaziada de sensações e embalsamada em suas hipócritas leis.

Ari Mascarenhas
Foto: (http://www.rmgouvealeiloes.com.br/catalogo)




Homem que amava os cachorros - bom, sem Réquiem.

O livro descreve, em detalhes, três perspectivas interessantes sobre a barbárie stalinista e a adesão dos "comunistas" ingênuos que defenderam o czar vermelho até o fim. A perspectiva de Trotsky, da resistência e da luta pelo ideal socialista-marxista não contaminado pela ambição do ditador do Kremlin; a perspectiva de Ramon Mercader, alienado pela ambição de se tornar um grande herói do regime soviético, contrariando sua própria natureza comunista que o enraivecia com o abandono da URSS para com sua famigerada Espanha; e, por fim, a de Ivan, narrador cubano, que faz uma leitura crítica dos desmandos de Stálin e da aproximação, no modus operandis, do ditador soviético com o nazismo alemão. Um livro que vale muito a pena pelo olhar histórico, pela narrativa muito bem construída; mas, principalmente, pelo senso crítico que o romance instiga em seus leitores a cada capítulo. Uma história onde a verdade é clara: A
revolução da classe operária chega ao fim com a morte de Lênin, na URSS.
No geral a obra atende ao propósito de revisitar a história, de forma romanciada, sob diversos olhares; no entanto, o último capítulo, intitulado Réquiem, pareceu-me bastante desnecessário, já que ele desconstrói a importância histórica dos fatos decorridos e supõe que a não existência da prática socialista poderia ter evitado os transtornos oriundos dos desvios. Nesse sentido, Daniel (o personagem) não reconhece a vitalidade da revisitação histórica de aprendizado, e valoriza uma fictícia crença de que o mundo, talvez, seria melhor sem o que ele chama de tragédia dialética. Como se fosse simples, confortável e mais humano a barbárie capitalista, não abordada no livro, por questões óbvias, mas esquecida na penumbra de um olhar parcial que discursa na missa de sepultamento do socialismo. Sem ele, essa conclusão ficaria a cargo do leitor que, a meu ver, teria mais liberdade para escolher. Assim, o capítulo Réquiem é extremamente panfletário e, por sua natureza, desnecessário a uma obra tão interessante quanto provocadora.