Túlio, uma única vez.

O peso do mundo
Contrasta
Com a leveza do corpo.

A pele fétida,
O gosto insalubre nos lábios
Descreve uma sensação...
De erro!


Um grande erro!
Erro por olhar a moral,
Imoral ato que pede cena
E em cena o véu cai!

Revela-se a podridão do espírito.

Mas como foi o ato?
Através de um sonho incômodo,
radiante, parti minha cara,
amparada por uma mesa de bar.

Aqui, embriagado
pelo pecado
de pensar coisas obscenas,
No bico de tinta registro o erro,
de um santo sem altar,
de um herói sem moral.

Esta noite fui ladrão,
fui político desonesto,
fui portador de toda vileza humana,
fui a desgraçada libra cega de mim mesmo.

Chamo-me Túlio!
Um engolir do “jota” cristão,
Sou um miserável pagão,
condenado por uma mente regrada.

Por quanto tempo atuarei
nesse palco sem plateia?
Quanto ainda terei de perder
para que notem meu erro?

Túlio é mesmo um idiota,
Um novo bastardo pedindo emancipação
Mais um dos muitos que não liberto
Túlio é grande, é deserto.

Inspiração fútil que mal será revisitada
E assim, fétido como a pele, será exposto.
Túlio é monstro.
Uma enorme alma feita de “quase nada”.
Túlio é uma pobre piada.
Sem começo, sem meio e
Que aqui declaro: Acabada.



Ari Mascarenhas dez/2013

Serafim...será...o..fim?

Uma breve observação sobre a obra Serafim Ponte Grande de Oswald de Andrade



A prosa fragmentada de Oswald vai além da influência cubista em
sua obra. Em Serafim Ponte Grande (1933), no meu entender, ela reforça a própria desconstrução do indivíduo diante da realidade em cacos. A São Paulo de Serafim não se encaixa em sua melopeia do século XIX. Nada mais existe. Nem a cidade que fora símbolo do desenvolvimento do país no ínicio do século, nem o indivíduo burguês tradicional do segundo império, restam apenas os vestígios desses tempos incrustados na epiderme da classe por maquilagens mal-acabadas e melancólicas. Serafim vive a intensidade de sua juventude em atrito com os valores caretas de uma sociedade extremamente hipócrita e arredia aos seus atos.E quanto aos revolucionários? Serafim vai traí-los. Sentimos isso na pele, recentemente, quando fomos traídos por aqueles que acreditamos (qualquer semelhança com o atual governo não é mera coincidência) No entanto, o tempo, sempre ele, acaba por adequar as "bizarrices" na normalidade, e se sua epopeia se desse nos tempos atuais, o excêntrico Serafim Ponte Grande seria adjetivado como um grande "careta". 
Enfim, definições e valores que se renovam (refazenda) na cíclica história de nossas tragédias. 

O grande "não-livro", como afirmou Haroldo de Campos, é o auge da produção de Oswald. Confecção cara do espírito atropofágico, aglutinação de gêneros e radicalização da proposta ficcional e das estruturas do romance. A justaposição dos estilos tece uma colcha de retalhos aquecida e efervescente, ao tempo em que esfria toda a expectativa de certos leitores, acostumados com as marcas retilíneas das tradicionais narrativas.


Respiros

Insisto em gritar
PALAVRAS!
Palavras, caras.
Insistentes palavras
gritadas.

Esforço em expor
IDEIAS!
Ideias, alheias.
Imprecisas ideias
expostas.

Clamo em propor
PROJETOS!
Projetos, inversos.
Inconclusos projetos
propostos.

Suplico em suspirar
EFEMERIDADES!
Efemeridades, medíocres.
Insatisfatória efemeridade
suspirada...

Suspiros são respingos
de respiros.

(...) ACORDES

O poema move
o tema.
Não trema!

O poema espalha
clara.
Não gema!

O poema bebe
sentimento.
Não esquema.




Ari Mascarenhas

A memória e a solidão do esquecimento - Um breve olhar para Cem anos de Solidão

Macondo, indo e vindo, num movimento cíclico que nos leva da origem ao fim sem ao menos notarmos que saímos do lugar. Desde o primeiro Buendía, amparado pelas crenças e determinações racionais de sua esposa (prima) Úrsula, o sucesso e a tragédia são irmãos siameses. Da ascensão da cidade e da família até a crise coletiva da memória, a guerra e a tragédia da chuva, Macondo é mesmo um povoado condenado ao esquecimento e a deterioração de seus bens públicos e material humano. 


A saga dos Buendías, entre seus José e Aurelianos, é, sobretudo, a saga de Macondo. O que se cria e se perde é a força de um povoado, a devastação de uma cultura que sucumbi diante de tantas pragas que abatem o antigo pantanal. Os Buendías são vítimas, assim como todos os outros moradores de Macondo, das tragédias que acometem a quase todas as civilizações humanas, e da qual ninguém pode se salvar.
A primeira catástrofe coletiva da cidade é a presença de um mal que nasce no seio dos Buendía, com a agregada Rebeca, e se espalha muito rapidamente, acometendo crianças e adultos, independente do clero ou da classe social: o mal da insônia. Sem conseguir dormir, com o passar do tempo, o ser humano perde sua habilidade de processar informações arquivadas e assim a memória se torna um disco rígido de pouquíssima capacidade de armazenamento. As pessoas do vilarejo passam a vagar pelas ruas a qualquer hora, criam novos hábitos, não se reconhecem como pessoas comuns e, como que num passe de mágica o mal, que um dia chegara sorrateiramente, vai embora.

Descobre-se, no decorrer da leitura, que toda tragédia só se despede das linhas limítrofes da cidade dos Buendías, para dar espaço à outra, deveras muito pior. Aqui, Aureliano que até então passava o dia modelando seus peixinhos de ouro, na oficina criada por seu pai, aproxima-se do administrador da cidade e se engraça com sua filha. Depois do casamento precoce e da morte de sua jovem esposa, Remédios, alimentado pelos entraves políticos debatidos na mesa de dominó com seu sogro sobre ideais liberais e conservadores, e diante dos massacres provocados pela tropa armada solicitada pelo administrador para conter qualquer insurreição, Aureliano Buendía, o segundo filho de Úrsula e José Arcádio, se transforma no coronel Aureliano, revolucionário e grande herói de Macondo, que com o passar do tempo cairia no esquecimento. 


Depois da guerra veio a banana. Um grande empreendimento capitalista instaurou-se na cidade e com isso inflou a população, derrubou matas para construção de casas populares, instaurou divisas claras entre burgueses e proletários, que culminou na primeira grande greve da cidade e no gigantesco genocídio que seria testemunhado por uma única e cansada visão. A de um Buendía. José Arcádio segundo, nome que homenageara seu tio morto na banheira, seu avô o primeiro dos Arcádios que morreu demente amarrado a uma árvore e seu pai Arcádio, o bastardo, o pior e mais cruel membro da família que se tornou o primeiro e único ditador de Macondo, foi a única testemunha do massacre dos trabalhadores que lotaram o trem de corpos amontoados levados pela penumbra do esquecimento coletivo. A indústria da banana começava a ruir e junto dela, mais uma vez, a cidade.
Os capitalistas só abandonaram Macondo quando essa foi abatida pela tragédia da chuva, que durou “quatro anos, onze meses e dois dias” e assim como a repentina morte dos Buendías que morriam “sem motivos” a chuva deixou de existir e não choveu por mais dez anos. Durante os anos de aguaceiro plantações foram perdidas, o gado foi aniquilado, o moradores que chegaram com o aparato capitalista se foram tão rapidamente quanto haviam se instalado na cidade. Levaram consigo seus comércios, suas famílias e suas memórias. 

Aliás, a memória, ou melhor, a ausência dela, que já demonstrara o estrago que poderia gerar na sociedade nos tempos de insônia, agora retorna com uma força estrondosa. A falta de relações sociais, por conta dos avanços da chuva, transformam os poucos moradores que restaram em Macondo em verdadeiros zumbis que sequer lutam pela sobrevivência. Não há mais interesse em reconstruir a cidade, nenhum Buendía toma a frente, até porque, nesse momento, só existe um deles, Aureliano Babilônia, filho de Mauricio Babilônia e Meme, neto de Fernanda e Aureliano Segundo, bisneto de Arcádio o monstro, tataraneto de José Arcádio e Pilar Ternera; e esse último da estirpe, após apaixonar-se perdidamente pela tia, passa seus dias em suas brincadeiras sexuais na casa que já fora o centro dos principais acontecimentos da cidade e que agora padeceria do descaso e da ausência de esperança. Esse "mal súbito" infectou todos os moradores antigos, recebido como herança pela doce Amaranta Úrsula. A união de Babilônia e Amaranta gera o ultimo Aureliano que se encerra e se consome nas ruínas de uma história que ninguém se recorda.
A mais longínqua figura da família é justamente a concubina que leva à perdição alguns dos membros mais célebres dos Buendías, Pilar Ternera. Vive mais de 150 anos e se torna, sem nenhuma pretensão de o ser, o único arquivo vivo de Macondo, levando consigo toda a história de um povoado que ascendeu ao status cidade grande e desapareceu na névoa do esquecimento. Pouco antes de se isolar no casarão o último Aureliano ainda procurou resgatar um pouco da memória de seus antepassados, incluindo a do coronel Buendía, mas ninguém se lembrava dele, apenas que se tratava de uma rua famosa no lugarejo.

A ausência da Memória é sem dúvida a pior tragédia de Macondo. Pior que não ter tido o êxito dos grandes povoamentos é sequer ter existido. Essa ausência mortifica definitivamente a possibilidade de algum aprendizado, de algum resíduo de resistência, vida ou sonho e com ela todo e qualquer empenho, de quem quer que tenha sido pobre ou rico, forte ou fraco, homem ou mulher, criança ou idoso, foi em vão.  A “morte da memória” leva consigo a história de quem a viveu na ilha de sua existência e na solidão de sua insignificância para a humanidade.

A escolha

Toda escolha
pode ser rocha
pode ser bolha.

Toda escolha
colhe.

Quando não coalha,
calha.
Quando não talha,
falha!

Toda escolha
rompe com a velha,
como navalha.

E ao final 
desta breve marca
que minha mão 
entalha

Busco a escolha
que me valha.




Ari Mascarenhas (21/01/2014)

Romance em fragmentos - Memórias Sentimentais de João Miramar ( Nota de Leitura)

As memórias são editadas, quase sempre, com o esforço contínuo do sentimento presente, do sentimento vivo no momento da exposição, e por conta dessa espinha dorsal certas cenas são posicionadas de maneira não linear.
Normalmente os livros de memórias são organizados sem se preocupar em reproduzir, na estética, esta característica, haja vista que o termo memória acaba endossando uma espécie de discurso onipresente do narrador e distante da reprodução real dos fatos.
Nesse sentido o romance de Oswald está muito próximo dos princípios realistas do que a maioria pode imaginar. A fragmentação textual, em diálogo com as vanguardas da época, reporta essa verossimilhança que os textos convencionais não conseguem alcançar.
Se não for sentimental a memória é mecânica, ou distanciada (neste caso em terceira pessoa - o que a deixa ainda mais ficcional); e é aí que o texto de Oswald nos surpreende em sua "clareza" - isso mesmo clareza de exposição. Assim como a fragmentação linguística de Guimarães nos trouxe outro olhar sobre a reprodução da linguagem popular, as imagens de Memórias Sentimentais de João Miramar nos permite olhar para a memória de maneira mais aproximada, e menos apaixonada, de como ela verdadeiramente se expõe na mente humana.

Pense em sua história e perceba que a fragmentação é inevitável. O romance pode ser construído sem o labor editorial que compõe uma linha única de exposição. João Miramar nos oferece os trechos impulsivos de sua memória sentimental tal qual ela as imagens exigem espaços na sua elucubração. O resultado disso, de acordo com a belíssima introdução de Haroldo de Campos, na edição de 1971, “... faz perimir o conceito de romance, de novela ou de conto, diante de uma nova ideia de texto".

Não dava pra ouvir

O político no estúdio
dissertava
autoritário
o seu quieto discurso
mudo
entre os vidros de um aquário.


O político no rádio
descrevia
temerário
o seu certo percurso
torto
entre as fichas de um fichário.

Cada ficha
era a escama
de um peixe
imaginário.
Cada frase
(barbatana)
era um feixe
de membranas,
surdo vocabulário
na garganta atravessado.

O politico se agitava
cada ficha soletrada
era a página
de outra folha já virada;
era a lâmina cortada
de um lacrado dicionário;
era o sono radiofônico
de outros peixes
nas águas de outro aquário.

O que o político explicava
em seus silêncios de nada
não chegava
aos ouvidos de quem ouvindo
não ouvia sua palavra.


Mário Chamie

à Violeta Pandolfi


Relendo a história da humanidade



O romance em questão aborda diversas possibilidades de aproximação entre os textos religiosos, os propósitos nazistas e os contos de Borges. O protagonista, homônimo do grande escritor argentino, decide matar o grande nome da literatura de seu país no século XX, e para isso, rememora os motivos que vão além de um ciúme ou de uma vida ofuscada por ter o mesmo nome que alguém famoso. Aliás, o protagonista é também um escritor. De menor envergadura, é claro. O que motiva vingança é a morte de milhares de judeus durante a segunda guerra, que de acordo com o romance, é motivado por uma interpretação forçosa e descompromissada de um conto borgeano.
Além de bem escrito o texto apresenta argumentos convincentes e se posiciona como uma crítica às famosas “teorias da conspiração”. O autor imputa nas bases das reflexões nazistas (ainda durante as reuniões dos Tulas) um personagem que fora o grande responsável por motivar e acender a fúria dos alemãs contra os judeus. Esse facínora seria Borges. Mas um a “borges” muito próximo de Pierre Menard, um “borges” leitor, que recepciona a obra de seu homônimo e a decodifica a seu bel-prazer, primeiro por dinheiro, depois para ficar perto da mulher que ama, Raquel, depois por sobrevivência... em todas as situações ele, que é a presença do Outro no romance, deixa de revelar sua verdadeira identidade para atender a uma necessidade imediata. Ele, Borges, cujo nome e a trajetória fazem parte de um destino inexplicável sabe que sua grande maldição é ser uma extensão (a prática da teoria do autor famoso) do Outro.
Adorei o romance, porque também sou leitor de Borges, mas creio que aqueles que não conhecem os contos mencionados no livro, ficaram um tanto quanto perdidos em algumas explicações.
Ainda assim, o autor foi muito feliz em sua criação e por ora nos faz acreditar que a leitura mística de Borges em relação à história é uma grande irresponsabilidade do escritor argentino. No entanto, o ultimo capítulo que concentra uma epístola de Borges para Borges revela a máxima do livro. Diante do túmulo, a imagem do corpo presente e da morte que encerra as possibilidades, Borges (o homônimo) entende que tudo é uma simples interpretação e, segundo o escritor, uma grande perda de tempo. Viver o presente, sem buscar significados no passado, requer “coragem”.

Nota de Leitura - Memória de minhas putas tristes



Aquele que se acostumou a ler os “épicos garcianos”, que consagraram o escritor colombiano, sentirá falta de algo neste breve romance. Sobretudo no que se refere à construção das perturbadas personagens de Cem anos de Solidão ou ainda da monomania amorosa de Amor em tempos de Cólera.
O breve relato do idoso narrador em Memória de minhas putas tristes esboça uma vitalidade psíquica que pouco dialoga com o velho José Arcádio Buendia, fundador de Macondo, que fora amarrado em um tronco de árvore e faleceu praticamente esquecido pela família e outros moradores do vilarejo. Aqui, o velho sem nome, que atende pela alcunha de “Sábio”, escreve uma coluna semanal de sucesso em um jornal da cidade e possui a plena ciência de seus atos. Ou seja, esse velho pouco se assemelha aos antigos “heróis” de Marques. À medida que a leitura se desenvolve sentimos falta de uma descrição mais pormenorizada de sua história, de seus descaminhos... O pouco que se revela se instala na narrativa por meio de flashes narrativos sem o mergulho comum em seus textos.

Contudo o traço garciano na descrição espacial continua marcante e sinestesicamente impactante, como sempre.  O sufoco provocado pelo calor, o odor dos cantos e as carnes que exalam suas essências empestam as descrições do ambiente. Continua-se a necessidade de lê-lo com uma garrafa de água por perto.
Outro traço recorrente em suas obras e que surge com força em Memória de minhas putas tristes, é a presença de uma importante figura em suas tramas: A alcoviteira.
Em Cem anos de Solidão, Pilar Temara serve às várias gerações da família do protagonista e ainda exerce uma influente participação no enredo ao ser a única testemunha ocular da ascensão e queda dos Buendías.  No ótimo Amor em tempos de cólera, é a própria Sra. Tránsito Ariza, mãe do protagonista, que executará a importante missão de servir-lhe com mulheres que apaziguarão suas dores oriundas de um amor não correspondido.
Neste ultimo romance de Gabriel Garcia Marques, Rosa Cabarcas é, além da cafetã que costura toda a trama envolvendo o “Sábio” durante sua segunda metade de século, a única amiga e conselheira do herói do romance. Reforça-se aqui essa marca irremediável deste escritor que constrói, em suas alcoviteiras, personagens cuja lucidez e filosofia - embasadas nas experiências de vida - iluminam , acolhem , protegem e salvam os homens que quase sempre são representantes de importantes figuras da sociedade.
E a alcoviteira se faz ainda mais necessária já que o autor insiste em reforçar a virilidades de seus protagonistas, em contraste com imagens físicas por vezes decadentes e a espera da morte.
Enfim, traços importantes saltam da tela tipicamente colombiana que Marques pinta e que seus caráter breve nos deixa uma sensação triste e amarga de que faltou fôlego.
Aquele fôlego narrativo que o próprio autor nos acostumou durante as inesquecíveis viagens que seus romances de outrora nos proporcionou.
Faltou mais Garcia Marques nesta curta obra que nos deixa ainda mais tristes porque sabemos que curto também foi seu tempo de produção, se consideramos o tempo comum dos escritores de sua geração- De La Hojarasca (1955) até Memória de minhas putas tristes (2003) são apenas 48 anos- um produção rica, mas breve em minha opinião. Queira deus que eu esteja errado.  E que não seja esse seu ultimo suspiro literário, pois quem se acostumou com as epopeias dos amores abrasadores perpetuados nas obras anteriores, não se contenta com esse breve coito que a Memórias de putas tristes nos ofereceu.

Ari Mascarenhas – 13/12/13

A práxis em cela* – uma breve leitura de Memórias do Cárcere


Memórias do Cárcere – Relatos da experiência do autor durante a prisão que sofrerá pela ação do governo Vargas ainda contra os reflexos da Intentona Comunista.
Publicada em 1953, essa obra póstuma sofreu diversas sanções, incluindo uma tentativa de censura do próprio PCB, que alegou a necessidade de ocultação de determinados termos e avaliações do autor alagoano.

 Nessas memórias de Graciliano Ramos podemos observar além de seu distanciamento plausível para a confecção menos apaixonada e mais racional, uma despreocupação com os modelos literários em voga na época. Auge do modernismo brasileiro, Graciliano está mais preocupado com o conteúdo de sua obra e com a sua identificação com os registros propostos do que necessariamente agradar aos interesses de uma estética comprometida com os movimentos artísticos de um período histórico.


Memórias do Cárcere é também, dentro dos preceitos defendidos por Lukács, um romance histórico de natureza documental, que imprime ao protagonista, a obrigação de observar e transformar o seu espaço. O herói, que por um longo período mostra desconhecer as causas pelas quais fora preso, por diversos momentos, observando outros companheiros de confinamento, analisa sua própria capacidade revolucionária e passa a autoavaliar suas atitudes que sequer são dignas de um prisioneiro político, no sentido de que, ele jamais tivera, verdadeiramente, uma atitude revolucionária. Estes questionamentos nos encaminham para os valores do narrador que jamais foram externados na prática.

A força da introspecção de Memórias do Cárcere está em criar um universo de conflito para as discussões que o universo exterior não poderia saber. Tanto pelo poder opositor do Estado Novo, do qual era acusado de subversão, quanto pelos próprios princípios do partido comunista (primeiras manifestações) que também lhe acusaram de pertencer. Aqui, nesses espaços de conflito e criação é que se estabelecem as diretrizes para o que viria a ser a mais brilhante obra memorialística que temos registro em nossa língua.
Na introspecção registrada nos manuscritos do cárcere e/ou ainda aquela que fora produzida anos depois, quando de seu preparo para o projeto do livro, o autor nos presenteia com uma ficção baseada em registros memorialísticos de forte impacto catártico que não nos permite questionar o teor jornalístico de suas observações.


Essas marcas ficcionais podem ser percebidas na onisciência do narrador quando mergulhado nas preocupações de personagens alheios. Como se uma percepção das expressões desses personagens fosse o suficiente para determinar as profundas angústias que estes sentiam, ou que, numa leitura mais atenta, denotam apenas o reflexo de sua própria angústia diante da incerteza de seu destino, que lhe acompanharia em quase todo o seu percurso como prisioneiro. No entanto, o que há de mais evidente nessa estrutura narrativa, que busca alinhar os fatos reais com o uso dos fatos criados, é a própria percepção do narrador com o ato da criação na edição das memórias ora como positiva e ora como repulsiva pelo próprio:

O diabo é que, se me decidisse a narrar por miúdo a conversa do capitão, tanchar-me-iam de fantasista. Ou dar-me–iam crédito indivíduos que andassem no mundo da lua, idiotas ou românticos (RAMOS, p89).


A observação de atos de seus próximos, aliados ou não, serve de um prato cheio para uma análise de sua postura com “revolucionário” (termo pelo qual poderia ser acusado) e para uma análise mais detalhista acerca da atitude do próprio movimento revolucionário que se propunha como resistência. Ações que a atitude de um militar, que sem nenhum motivo aparente decidia por ajudá-lo, e que, para qualquer um seria apenas um alimento da causa em que se injetava a confiança e a própria liberdade, para o narrador era motivo de questionamento sobre a sua práxis.

Capitão Lôbo, portanto, fugia ao preceito. De certo modo havia no caso uma espécie de deserção. Impossível explicá-la. Se ele condenava s minhas ideias, sem conhecê-las, direito, porque me trazia aquele apoio incoerente? Insolência e brutalidade com certeza me atiçariam ódio, mas seriam compreensíveis, e nada pior que nos encontrarmos diante de uma situação inexplicável. Admitimos certo número de princípios, julgamo-los firmes, notamos de repente uma falha neles – e as coisas não se passam como havíamos previsto: passa-se de modo contrário. A exceção nos atrapalha, temos de reformular julgamentos. (RAMOS, p. 87-88)

E fora a busca por essa renovação rápida dos valores que fizeram esse prisioneiro peculiar, fugir às atitudes de reflexão comuns a esse tipo de situação: A da adesão  e da repulsa.

Ou seja, a atitude de um condecorado, um inimigo declarado, que discordava de seus preceitos e ainda assim, contra a força que o emergia e o condicionava, agia. Isso posto, a atitude de resistência é o que aquela intelectualidade não conseguia compreender e, portanto o grande gatilho para os questionamentos desse cárcere que vivera até então o espírito de uma subversão que pode ser observada no enxerto abaixo:

A nossa vida não tem muito valor, às vezes se encrenca e desejamos a morte; faltando-nos coragem para o suicídio, exibimos outra forma de coragem; queremos desaparecer; é uma perda individual. Mas ninguém, de senso perfeito, joga fora os seus bens, pois nisso repousa o organismo social – e o sacrifício constitui prejuízo coletivo. Afinal capitão Lobo devia ser muito mais revolucionário do que eu. Tinha-me alargado em conversas no café, dissera cobras e lagartos do fascismo, escrevera algumas histórias. Apenas. Conservara-me na superfície, nunca fizera à ordem ataque sério, realmente era um diletante (RAMOS, P 88).




Memórias do Cárcere é mais que um documento de resistência, é sim, um importante registro dos preceitos reflexionantes sobre a práxis indispensável no dia-dia de quem almeja uma transformação, independente de sua dimensão. Já que as mazelas e friezas do cárcere ultrapassam as muralhas os alçapões de qualquer instituição, e encarceram os projetos e sonhos revolucionários inertes no peito dos oprimidos e militantes.